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terça-feira, 27 de julho de 2021

Largar o stress

 Começo hoje as férias, finalmente.

Ontem, depois de ter terminado o que era preciso fazer, almocei e deitei-me um pouco no sofá. Tinha intenção de relaxar com uma das séries da Netflix que tenho em atraso, talvez The Queen's Gambit. E vi? Nah! Dormi toda a tarde. Depois deitei-me cedo, achando que, porque dormira horas seguidas, profundamente, leria pela noite fora. Nope. Num instante apaguei e dormi toda a noite como uma pedra.

Este foi um ano difícil, em parte devido à pandemia. Tudo o que seria complicado, tornou-se mais pesado, instável, exigente.

A nível profissinal, muito stress. O ensino à distância, para mim, professora, para os meus filhos universitários, foi uma dor de cabeça: muitíssimo trabalhoso, até para mim que trabalho sempre muito e não me acanho demasiado com os teclados, e até certo ponto frustrante, ainda que não me queixe das aulas em si: os miúdos não estiveram mal. Tudo mais é que foi a loucura.

A nível pessoal, tive de habituar-me a ter um dos filhos fora do ninho, a estudar noutro lado, o que foi menos duro do que julgava. Mudei de hábitos, deixei de escrever e trabalhar no café, o que, acreditem, foi uma grande mudança. Tenho escrito pouco, também, o que não ajuda, e nem sempre conigo ler como gostaria, por falta de tempo ou vontade. Não é bom. Pela positiva, fiz muitos planos: candidatei-me a doutoramento (e fui aceite). É uma coisa boas, mas que também trouxeram a sua dose de stress: valerá a pena matricular-me? Terei horário para isso, com pelo menos 7 turmas? Serei capaz de terminar desta vez? E, quando me fazia à ideia de que sim, tudo iria bem, uma frustração grande, porque é possível que o doutoramento tenha de ser novamente adiado, por questões de incompatibilidade de horário.

Também está previsto e novo livro lá para setembro ou outubro, e, mais uma vez, bom e enervante: sairá mesmo? Correrá bem desta vez? É um livro diferente... como o receberão os leitores? E a família?

A terminar, uma mudança importante, excelente e assustadora: era QZP há 20 anos e efetivei na escola onde estudei, portanto sairei do agrupamento onde tenho lecionado nos últimos 12 ou mais anos, para me acostumar a outro.

Outras coisas sucederam, boas e más: no conjunto, foi muito. Desconfio que o meu corpo esteve a largar o stress.. pelo menos, a parte dele que se relaciona com a escola. Estava exausta e não sabia. Ainda estou, acho.

Parece haver uma luz ao fundo do túnel para o doutoramento. Talvez o livro saia mesmo e talvez os leitores gostem dele. E pergunto-me se, neste Verão, serei por fim capaz de escrever. Preciso tanto!

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

a festa - poema

Ele ajeitou a gravata
ela tinha os sapatos difíceis de usar
sairam juntos de casa
mesmo assim ele muito mais alto
ele notou que o vestido dela
lhe ficava bem
não disse nada
ela achou que ele cheirava
a mar 
e sorriu-lhe muito tímida
no caminho ela sacudiu o cabelo
pelo menos quatro vezes
ele pôs os olhos na estrada
apertado na gravata
e no silêncio da rádio entre eles
o dia inteiro a noiva sorriu
e o noivo sorriu
o dia inteiro ele um estranho
ela lembrou-se dele
quando ele a amava
sentiu-se dorida
nos pés e no centro da farsa
mas sorriram ambos
beberam champanhe
comeram bolo
não dançaram juntos
como antes do amor se esconder 
atrás das festas
do silêncio da rádio
do vazio da casa sem filhos
no regresso 
era noite cerrada
ela achou que estava velha
ele que era sempre 
noite
e os dois fechados nela
em casa ele tirou a gravata 
ela os sapatos
nenhum a mortalha 
de saudades
adormeceram assim
um de cada lado
cansados ambos da festa
e da impossível
e muda cordilheira 
de silêncios




quinta-feira, 3 de agosto de 2017

dias tortos

há dias longos
de cordas partidas
uma tecla branca fora do lugar
uma pedra vulgaríssima
no estômago
a casa cá dentro
virada muito do avesso
dias de café forte
para devolver
as coisas tortas aos seus lugares
não sou de empurrar
montanhas
mas talvez tome mais um
e tente

terça-feira, 1 de agosto de 2017

nem me distingo pelo sexo

eu sou este homem que aqui vês
nem sequer sou um homem
bem me vês eu sei
mas este é o homem que eu sou
nem me ergo em maiúscula
nem me faço pequeno
nem me distingo pelo sexo
sou ideia, barro e sangue
sou esculpido em pedra porosa
se não sou rochedo sou areia
dá-me o vento e espalho-me
também sou semente
e sou como se diz, o verbo
sou boca com nada para dizer
e tantas palavras ou, ao contrário
boca com tanto para dizer
e palavra nenhuma me chega
mas sou sempre esse homem
que mete as mãos dentro do peito
para massajar o coração
antes de depois do sobressalto
a toda a hora, portanto
e sou o homem pousado no beiral
à espera das asas, ou do fim
do medo de voar sem elas e acabar
nisto sou apenas homem
não me distingo pelo sexo
nem me ergo em maiúscula




domingo, 23 de julho de 2017

outra violência

não é o sacudir dos alicerces
o ruir do edifício
não é a arma na mão do homem
não é o choro na voz
da mãe
nem sequer o sangue
nos escombros
é o olhar do menino
assombrado
seco
a pergunta esquecida
na boca aberta
são as pernas cobertas de pó
tão curtas
a boneca  quebrada no colo
de quem será
para sempre o medo do som
o medo da noite
do dia
do troar do comboio
eterna a perda
essa é a violência que eu temo




sábado, 22 de julho de 2017

Aventurar-me - os desafios

De vez em quando sou acometida de uma certa inquietude, e de vez em quando sou forçada a ela.

A minha vida tem um lado familiar muito estável e um lado profissional que, a espaços mais ou menos regulares, ameaça revolução. Sou professora há mais de 20 anos, quase 22, mas não pertenço ao Quadro de um escola: sou Quadro de Zona, o que sognifica que, a cada concurso, sou colocada perante a eventualidade de mudar de escola, sem o desejar. Claro que, com todos estes anos de profissão, estou já bem colocada para fazer as minhas escolhas, mas entre a probabilidade e a certeza vai uma distância que é monstruosa, para quem espera.  Tenho sonhos esquisitos na véspera da "rande revelação", bate-me o coração que é um disparate enquanto consulto a lista maldita, dividida entre a esperança de continuar na minha querida escola e o medo da interferância de algum espírito maligno  ter forçado toda a gente que está à minha frente a fazer as mesmas escolhas do que eu, e me ter atirado para alguma escola que não escolhi, mas já estou acostumada a isto e aprendi, há muitos anos, a não me afligir por antecipação.

Há, porém, outros desafios, que estão relacionados com a minha segunda ocupação, a escrita - não posso chamar-lhe profissão, quando não vivo nem viverei dela - que é muitas vezes a primeira no coração, perdoem-me todos os alunos de quem gosto tanto. É uma missão pejada de dificuldades e impedimentos, que são causados muitas vezes pelo meu ganha-pão, de dúvidas terríveis quanto à pertinência do que faço, de cansaços e desapontamentos, quando se constata que o nosso trabalho teve uma recepção boa, mas limitada (e sim, estou a falar deste último, de que eu e os leitores parecem gostar, mas teve muito pouca saída), mas é, ao mesmo tempo, uma compulsão, que se alimenta de si própria e das pequenas recempensas, de uma opinião agradável ou de um pequeno reconhecimento. 

Esta ocupação coloca desafios sérios e muito estimulantes à minha personalidade um tanto instrospectiva e às minhas naturais inseguranças: é preciso, de quando em quando, sair da minha casca para comunicar com os leitores, que, decidi, não hão-de adivinhar a minha timidez. É um exercício cansativo, que me surpreende sempre com uma certa vontade de fugir a meio da coisa. Depois passa e reconheço, no fim, o bem que me faz. É preciso atirar-me de cabeça, ocasionalmente, a tipologias de texto que nunca antes contemplara redigir, como o conto ou, recentemente, a crónica,  nada fácil para quem é escritora de romance, de dissertação, de artigo científico (embora há muito que não o faça, com grande pena minha) e do ocasional poema desafinado. Mas faz-me bem. Faz-me bem. 

E depois, há aquele empurrão que vem precisamente quando nos sentimos estagnados.  Afigura-se uma mudança no horizonte, que é também uma permanência: como mudar de casa, para acompanhar a família. Veremos o que muda, o que se mantém, para além da gente maravilhosa. Vamos ver também se posso acompanhá-la com uma pequena variação noutros aspectos, mas disso vos darei testemunho em breve. Para já, talvez esta seja a mudança de que necessito num momento de particular indecisão quanto à escrita... Vamos ver se este empurrão me põe por fim na trilha certa!

segunda-feira, 17 de julho de 2017

sim, um barco

Havia um barco
ponto ao longe no azul
brilhante
mas tu insistias que era
um barco
e eu
porque os olhos nunca
mo mostram
dizia sim, um barco
que lindo barco
Tu sonhavas-te nele
tu que não sabes velejar
eras quase
capitão
de casca de noz
eu estendida no convés
e depois o amor ao sol
O mar
devolvia-te o desejo
num refulgir
de prata
e o sol bronzeava-te
a pele
e eu também sonhava
um barco
Sim, um barco
no centro do oceano tão quieto
eu e um barco
eu, que tão pouco
sei velejar
capitã de veleiro
nem tu com a tua pele
de sol e mar
nem a tua voz
nem o teu desejo
nem nada
eu e o medo
um livro um cão
no silêncio
do grito das gaivotas
o resto só linha de horizonte
muito tempo
o tempo todo talvez
e tu dizes,
um barco é que era bom
e eu suspiro.
Sim, um barco










terça-feira, 11 de julho de 2017

caminheira de mim

dizes-me que limpe o pó
dos dedos dos pés
me recoste na almofada
de calor e linho
e deixe sarar as feridas
de muito caminho
eu tenho medo
porque a vontade é muita
porque o corpo doi
e já andei tanto, tanto
sem sair do sítio
mas sem o chão nos pés
não descubro
a linha imaginária da vontade
e no horizonte manso
eu serei aquietada
e sim, contente
e sim, coisa nenhuma de mim
não me chames
do meio do abandono
que eu não quero ser contente
quero  os espinhos
nas palavras
desta estrada de poeira
e nuvem branca












quinta-feira, 6 de julho de 2017

O prazer de escrever por escrever


Tenho umas quantas razões para não estar em idílio perfeito com a escrita. Corrigo: com a publicação. É preciso distinguir uma coisa da outra com muita clareza: a escrita não me entristece, é uma catarse, um prazer, uma necessidade, a publicação é sempre uma incógnita, porque depende de muitos factores, da minha vontade, das decisões da editora, do mercado, das vendas, etc, etc, e traz-me tantos prazeres como dissabores. 

Os últimos livros que escrevi e publiquei, sobretudo O Ano da Dançarina, foram trabalhosos do primeiro ao último dia, um labor intenso de pesquisa, escrita, conjugação entre facto e ficção, edição, revisão, correção... Neste momento, tendo em conta os resultados mais recentes (os números, não as opiniões, que parece que não batem certo, opiniões excelentes e números que... enfim), tenho mais perguntas do que respostas. Estou consciente de que esta honestidade pode não me favorecer, mas há momentos em que é, ao menos, libertadora. Não vou fingir uma indiferença que não tenho nem entendo, porque, como tenho dito muitas vezes, quem escreve pode fazê-lo só para si, mas quem publica não. Quem publica, quer ser lido (muito lido, muito, muito lido) e ter quem goste e, porque não, quem deteste o seu trabalho. Logo, tanto as opiniões como o número de leitores que adquirem e/ou leem o livro importa. Representam o sucesso do romance e do autor e muitas vezes o seu futuro. 

Dito isto, o romance que estou a escrever neste momento sabe-me ao paraíso. Há muitas razões:

Primeira, não requer nenhuma pesquisa. Os meus livros publicados são todos de época, históricos, se quiserem. Sou exigente comigo própria na conjugação da História com a história, para que tudo seja fluido e nada chatinho, para que nunca seja uma lição, mas ainda assim se descubra a época, para que o retrato seja fiel, cheio de detalhes engraçados, sem ser doutrinário, e isso dá uma trabalheira inimaginável. Muito mais difícil, acreditem, do que espetar com os factos nas páginas, em parágrafos e parágrafos que parecem tirados ds compêndios de História, o que é uma tentação a que nuca cedo. Este romance, porém, não é de época e, se preciso que um ou outro facto bata certo com o que digo, é coisa mínima, mais do lugar do que do tempo. Coisa fácil, portanto, facílima. e de grande liberdade. Tanta, tanta, que até sou capaz de escrever a qualquer hora do dia, eu que há anos só sou capaz de fazê-lo de manhã, com a cabeça fresca! 

Segunda, porque escrevo o que me apetece. Tenho uma ideia geral do que será esta história, de quem são as personagens e o que fizeram ou farão, mas ela flui como bem quer, sem uma linha cronológica, sem nenhuma obrigação. Não tenho um esquema ou plano - ao contrário do anterior, que exigiu uma tabela detalhada - o que quer dizer que a qualquer momento posso ser surpreendida por qualquer das personagens. Talvez a coisa terrível tenha sido feita, não pela personagem a quem agora a atribuo, mas por outra. Talvez a minha protagonista fique em Portugal, talvez não. Sei lá. Nem tenho ainda um fim definido, nem estou certa do que sucederá no próximo capítulo. Nem sei se a terminarei, mas uma coisa sei: será curto, menos de 200 páginas. Se calhar. menos de 150. Nisso, estou determinada. 

Terceira, porque não faço ideia do que lhe farei quando... se o terminar, porque não sinto essa obrigação. Não sei se tentarei a minha actual editora, que me tem como escritora de históricos, se o colocarei num envelope para um prémio qualquer (pelo desafio, que me importa, sei bem como é isto dos prémios), se o deixarei bem quietinho no seu ficheiro, bem escondidinho, se o imprimirei apenas para os amigos, que ão uns queridos e querem sempre ler o que vou fazendo. As dúvidas costumam ser: será que a editora o quer? Será que, se não  quiser, encontrarei outra interessada? Desta vez, pouco me importa. Uma parte da indiferença poderá advir de um certo desapontamento, mas a maior parte de ser um livro diferente dos anteriores e não ter expectativas para ele, por não ser provável à partida, que a editora o queira. Deva ficar com pena? Pois. Sei lá.  Entretanto, dei-lhe o título provisório (ou não) de Limões na Madrugada, por causa de um poema que escrevi há tempos e está por aqui no blogue, poema medíocre mas que deixou semente.  

São motivos mais do que suficientes para que escrever este romance, seja um prazer, no sentido em que a liberdade absoluta é um prazer. 

segunda-feira, 3 de julho de 2017

a casa que se vê

mostra-se ao mundo uma casa
de flores na sacada
janelas abertas com cortinas
flutuando ao vento como velas
creio até que se sente
um perfume doce de casa limpa
a ninguém se exibem
as gavetas onde as meias se misturam
o pó debaixo dos livros
os armários de tralhas velhas
os fantasmas no soalho
as paredes de onde já não é possível
lavar o mofo das memórias
linda a casa caiada de fresco
janelas pintadas de azul
um banquinho à porta
para as visitas
e o fumo na chaminé
enrolado em doces volutas
fumo da queima de tantos sonhos
isso não se mostra
isso não




domingo, 2 de julho de 2017

a aridez que sobra

aqui o verde, o azul, o perfume
de flores, os frutos nas árvores,
ao fundo a coluna de fumo 
antecede as labaredas quem sabe
pode ser o fim do sol
que incendeia o céu a oeste
ou o princípio do inferno
aqui há uma bolha de água
e relva fresca, há um baloiço,
há gatos, cantam pássaros,
corre o rio tranquilo no vale,
nada se inquieta, nada é feroz,
nem o tempo, que respira devagar
vejo tudo isto, tudo isto sei,
mas nas plantas dos pés, 
atrás dos olhos, dentro do crânio
as brasas tardam tanto a morrer 
a pele acomoda-se ao sol,
brilham cabelo e sorriso de verão
dentro só a aridez que sobra 
da bruta queimada da ilusão
o pé na relva pede nova força,
o sangue dentro é só cinza e sal







sábado, 1 de julho de 2017

Florença - ainda o caderninho

Deixei passar demasiado tempo entre textos, e os dias em Florença começam a aglutinar-se numa impressão geral e em recordações globais, em que já se me torna difícil distinguir o que fiz em cada dia. A agravar a questão, há o caderno abandonado. Estou nos últimos registos: deixei de fazê-los a meio do terceiro dia, o "dia dos museus".

Em breve, terei de assumir uma aproximação diferente: em vez de continuar dia a dia, ou em parcelas de dias, para não estender o texto, vou destacar momento, lugares... em quantas publicações irá resultar, não sei. Pode ser uma apenas, podem ser muitas. 

Por ora, há caderno. Avancemos.

Pitti

O Palazzo Pitti, do lado de lá da Ponte Vecchia, é um monstro. Um largo enorme, em declive, e o palácio em cima, por trás dele os jardins. Compramos bilhetes, passamos pela segurança, entramos. Subimos vários lances de escadas e ocorre-me que, outrora, homens e mulheres deviam ter coxas de pedra. Por fim começamos a visita e o Pedro depressa se irrita, porque, onde esperava ver quartos, salas, a cozinha, os banhos, e descobrir como viviam os Médici, vemos afinal retratos e mais retratos antigos de figuras relevantes, em salas lindas de tectos pintados, paredes forradas e cortinados pesados e veludo. Há corredores cheios de caras novas e velhas, quase todas feias, uma ou outra mais composta. Descubro uma mulher lindíssima, um homem bonito da cada d'Este, outro feíssimo, um Médici. Reconheço alguns nomes, muitos não, mas sempre gostei de retratos e esta transformação em museu de figuras e expressões em nada me incomoda.  Depois, por fim, meia dúzia de salas opulentas onde terão habitado os donos do palácio, passando pela do trono e terminando nos aposentos da rainha. Temos de espreitá-los, porque um cordão impede a entrada. Proliferam veludos e brocados, dourado e cristal, brilho e excesso. O palácio testemunha o poder e riqueza dos Médici e não seixa dúvidas sobre quem eram, a par da Igreja, tão predominante, os donos desta cidade maravilhosa.  
Imagino homens e mulheres percorrendo estas salas, sentados nas banquetas, sussurrando conspirações, e ocorre-me, a despropósito, o imenso trabalho de acender (e substituir) todas as velas nos lustres e castiçais de complexo desenho e o perigo de incêndio que tudo aquilo terá constituído. Passamos pela Sala Branca, decerto uma sala de baile, mas não temos acesso à prometida exposição de trajes (que não encontramos e concluímos estar fechada). O Pedro está tão aborrecido com o Palazzo, e eu tão cansada, que depressa concordamos que não vale a pena pagar o bilhete para visitar os jardins. Deambulamos pelo "outro lado" de Florença, de mapa na mão, à procura de mais qualquer coisa para ver. O tempo que paramos para beber alguma coisa numa esplanada mal chega para que as pernas me deixem de tremer de cansaço, mas continuamos sob o sol escandante e acabamos por atravessar a ponte para o "nosso lado" pela ponte Americo Vespucci. Cada um de nós vai um pouco insatisfeito, por razões diferentes. Eu, porque gostei de Pizzi, mas não do que veio depois, não quero andar por toda a parte até que a exaustão me impeça gozar a cidade. Talvez seja má turista, mas quero parar mais vezes, parar mais tempo, não sinto necessidade de procurar cada quadradinho laranja no mapa, para ver se é monumento. O Pedro pela razão oposta: detestou Pizzi e não encontrou mais nada aberto, mais nada para visitar daquele lado da cidade. Temo que isto se torne complicado para mim. Outra vez.


Música no Palazzo

Reconcilio-me com esta viagem logo depois de um duche e algum descanso, quando paramos num cantinho bonito, para vinho branco, queijo e prosciutto, e ali ficamos algum tempo. Isto sim! Tentamos depois encontrar um restaurante que me encantara na véspera, mas às tantas já não sabemos onde estamos e acabamos, meio irritados, por comer onde calha. A minha pasta é quase igual à que comi, mas bastante picante. Tenho tanta sede que o vinho não me satisfaz, nada me sabe ao que devia e o mundo só se endireita quando, depois do jantar, bebo finalmente uma garrafa inteira de água.

Estamos muito perto do meu querido Palazzo Vecchio e, ao caminharmos nessa direção, apercebemo-nos da música. Há música em muitas ruas desta cidade, músicos que tocam violino, violão, viola, outras coisas nos passeios e praças. Ontem, duas jovens de longos vestidos tocavam violino numa praceta, mas isto é diferente: há um concerto em frente ao Palazzo, coisa de orquestra inteira (pequena, claro), com muita gente de pé a assistir. Ficamos também a ver o que é. O entusiasmo estoira na assistência quando, terminada a peça que tocavam à nossa chegada, o maestro explica, em italiano e depois inglês, que vão tocar... Star Wars! E tocam, e é maravilhoso!  Troco um olhar de prazer e um sorriso com uma desconhecida, que nem sei se é turista ou habitante local, e penso em como a música pode ser unificadora. Gostava de ser capaz de reter este prazer e toma-me a ideia, despropositada no momento, de que a música é como a poesia, um êxtase momentâneo, que depressa esmorece, mas que permanecem ambas, uma na partitura, outra na página, para que o gozo possa repetir-se, sempre diferente. Todos reconhecem o tema do filme, transformado numa peça belíssima pela composição de John Meyer e pela orquestra e, no fim, o aplauso é estrondoso. A praça quase encheu. Hesitamos em ficar ou ir e eu, com voltade de ficar, atiro "E se a seguir tocassem James Bond?." Estou a brincar, claro. Cada 007 tem o seu tema, porque haviam de ir buscá-los? Quais? O maestro agradece e declara que, dentro do tema "música para cinema", se seguirão três temas de... James Bond! Depois de Bond, tocam O Bom, O Mau e O Vilão e nós ficamos, até se esgotarem todos os temas que a orquestra trazia planeada e o maestro, espantado com o entusiasmo do público, improvisar com a orquesta: tocam uma marcha americana antiga, que faz lembrar vagamento o hino. Só depois disso saímos dali.

Vou cansadíssima, mas com o peito cheio. É isto, afinal, que me dá gosto.


       

quarta-feira, 28 de junho de 2017

a tristeza nos pés

é nos pés que carregas a tristeza
caminhas pouco portanto
e devagar
nem estás certo de querer chegar
onde de onde vais
o desatento
só vê o o rosto
e parece que trazes
a determinação dos dias fortes
nas mãos promessas
mas vens descalço e eu vejo
o sangue
como te rasga a máscara
imediata
para o mundo
com a marca de ti mesmo
na lentidão desapontada do andar

terça-feira, 27 de junho de 2017

a tarefa por contar

tremenda tarefa
a de agarrar a bainha dos dias
com os dentes
ainda a manhã é insuspeita
e todos os dias se partem
os molares
disso não há relato
não há crónica
nem artigo
cansam-se os braços
feitos ao mar todos os dias
as pernas de andar
presa até aos joelhos na areia
ardem os olhos de negar
que há horizontes
melhores do que essa linha
ninguém conta
nem uma página diz
que mais doi a tremenda tarefa
de fazer nascer verdade
do espumaço da maré na madrugada
que conformar o corpo
ao destino em terra





segunda-feira, 26 de junho de 2017

fast burners ou long runners?

Todos nós, leitores, temos uma noção mais ou menos clara de que há livros de consumo rápido, de fácil digestão e olvidáveis, outros que ficam connosco muito tempo e outros ainda que, com a sua capacidade de permanecer e representar, pertencem ao espólio literário de um país - ou da humanidade. Que se tornam clássicos. 

Não vou fazer juízos de valor, nem tentar estabelecer aqui os padrões de uma coisa e de outra. Sendo os clássicos uma categoria aparte, porque são-no independentemente do agrado ou desagrado com que possam ser lidos, a verdade é que um livro pode ser olvidável para um leitor e memorável para outro. Nada disso é relevante para mim, que leio com gosto quase tudo o que me vem parar às mãos, até rótulos de champô, se se der a necessidade.  

Esta publicação é sobre uma outra ideia que me deixou a magicar. 

Há pouco tempo, fui colocada perante um conceito que não me tinha ocorrido, e que está menos relacionado com a nossa posição enquanto leitores, do que com a forma como um livro vai penetrando e encontrando o seu lugar junto do público. Como vende, portanto. Um autor que muito admiro, a propósito de mais uma edição do seu livro, comentou que não esperava o impacto imediato desse livro: esperava que tivesse melhor desempenho ao longo do tempo, do que de início, ou seja, que fosse um long runner. Não sei se usou esta expressão, mas é a que me ocorre quando penso nisso. 

É muito interessante, e pôs-me a pensar sobre os livros em geral. Ocorreram-me outras expressões. Há livros que são fast runners. Tomam a dianteira de repente e vendem muito num instante, uma, duas, muitas edições. Alguns destes gastam-se depressa, independentemente da qualidade. Não são maratonistas. No caso deste autor, felizmente, o livro tem-se mostrado ao mesmo tempo as duas coisas: ao fim de imenso tempo, continua a vender bem, num mercado bastante miserável como é o nosso. 

Há outros, porém, que nem uma coisa, nem outra. São fast burners, ardem um pouco, mas a chama apaga-se depressa, sem ter causado grande impacto. É o que sucede, creio, à maior parte dos livros que vão sendo publicados por cá, a não ser que recebam o oxigénio de um prémio, da exposição pública de quem o escreveu (de preferência anterior à publicação) ou de uma ligação ao pequeno e fechado universo literário nacional, ou de algum outro acontecimento extraordinário. Ou da sorte, claro. Não questiono a qualidade, que devia ser essencial para o sucesso de um livro (nem sempre é, infelizmente), apenas o facto de por vezes isso não ser suficiente. Os livros traduzidos parecem chegar de fora com duas botijas de oxigénio: a primeira, o já terem habitualmente algum reconhecimento antes de cá chegarem; a segunda, a confiança e curiosidade dos leitores portugueses - maior com o que vem de fora do que com o que se faz cá dentro. 

Não me importa agora o que, para além da qualidade ou falta dela, faz com que um livro seja um corredor rápido, outro um corredor de fundo e um outro mal ter pernas para andar. Achei piada à ideia, mais ainda aos nomes "em estrangeiro" que me ocorreram. Que me perdoe quem achar tudo isto um disparate.  Há dias assim. 




sábado, 24 de junho de 2017

dantes é que era bom

era dantes
tu tinhas seis palmos e eu sardas
e bolsos no vestido
de remendos
corríamos as duas nas manhãs de verão
que eram todas as manhãs
menos a de Natal
e havia sempre bolo de mármore
matrucos e bonecas de pano
no empedrado da rua
e livros novos
da biblioteca itinerante

nada é mentira, sabes,
nos retângulos de memória
de cartão
dantes é que era bom
se prometeres
que é assim que foste menina
para sempre
sem terrores nocturnos
nem frio de inverno
e se jurares que nunca vimos
o longo futuro
debruçar-se sobre nós
como papão










quinta-feira, 22 de junho de 2017

quando vais

fazes parte da manhã
com convicção
largas o sonho
nos lençois
pousas os pés no chão
um de cada vez
desdobras o corpo
antes da luz
cresces de dentro para fora
eu fico a ver-te
nascer assim para o dia
tão certo dele e de ti
e tenho medo
dos passos que darás
na escuridão








quarta-feira, 21 de junho de 2017

Florença segunda, a manhã

Durmo bem, tomo um pequeno almoço simpático no hotel e preparo-me para o calor, vestido de alças e chapéu, antes de sairmos para começar um dia que prevejo esgotante e fantástico. 

Santa Maria del Fiori

Vamos diretos a Santa Maria del Fiori, devagar, gozando a cidade. São dez da manhã e a praça do Duomo já se enche de turistas. Junto à Catedral, forma-se uma enorme fila, que a contorna e desaparece numa curva. Anuncia-se mais de uma hora de espera. A aquisição de bilhete é um pouco confusa, feita no número 7 dessa rua. Pagamos, se não me engano, 15 euros, que nos dão direito à entrada em vários espaços.

O Battistero 

Por ter muito menos gente, visitamos primeiro o Battistero di San Giovanni, estrutura circular com uma alta cúpula, que parece, ainda assim, uma anã junto do Duomo. O espaço é despido de artefactos, com excepção de uma grande estrutura circular ao centro, como uma mesa, mesmo debaixo da clarabóia. Tem-se a noção exacta do que pretendia a construção sacra: é preciso olhar para cima e, ao fazê-lo, o espanto, no melhor sentido da palavra, é inevitável. Painéis dourados com cenas bíblicas trepam a cúpula, e é-nos possível "ler" alguns, identificando as histórias que se contam da esquerda para a direita, horizontalmente. Sob as primeiras imagens, arcos e nichos profusamente trabalhados acolhem uma multiplicidade de janelas. A luz é coada, pensada decerto para acentuar a impressão de paz e imensidão. É fácil imaginar o espaço preenchido silenciosamente por nobres em vestidos e capas, nos baptismos dos seus pequenos princípes e princesas, ou ficcionar conspirações sussurradas na penumbra...

Duomo 

Quando nos dispomos a entrar no Duomo, descobrimos que a enorme fila é para todos, porque, para o edifício principal, a entrada é gratuita. Uma americana simpática guarda-nos lugar enquanto vamos confirmá-lo com um segurança muito antipático, porque foi ela quem o sugeriu, e, quando voltamos ao nosso lugar lá muito atrás, acabamos por conversar um pouco. Acho divertido como começa por falar devagar, marcando muito bem as palavras, não vamos nós ser incapazes de entendê-la, mas acelera o discurso, assim que vê que o nosso domínio do inglês é excelente. A fila anda, afinal, muito mais depressa do que esperavamos e estamos dentro do edifício relativamente depressa. Aprendi em Barcelona que o melhor é trazer sempre um grande lenço na mala, para cobrir os ombros à entrada das Catedrais. Em S.Lorenzo esqueci-me e emprestaram-me uma espécie de pano à entrada (uma gentileza para com os turistas), mas desta vez trago um comigo e, a custo porque o calor aperta, lá cubro os ombros.  

Depois da promessa do seu exterior opulento, o Duomo desaponta um pouco. Claro que exibe a sobredimensão costumeira nas catedrais, e a sua riqueza, os tectos altíssimos, as colunas, os arcos e as ogivas, as capelinhas trabalhadas, algumas obras maravilhosas, mas, depois de me ter emocionado com maravilhas do lado de lá de portas insignificantes em Roma, parece-me pouco. Ocorre-me que talvez a diferença esteja aí, Roma foi o meu primeiro amor italiano, e por isso talvez Florença fique áquem. É cedo, claro, para afirmações destas: o Duomo poderá não ter sido pensado para estarrecer por dentro, mas apenas por fora, é provável que outros espaços me seduzam mais. Sei que o Pedro partilha do mesmo sentimento de ligeira desilusão, mas admiramo-lo, ainda assim, e descemos às catacumbas para ver os vestígios da construção em épocas anteriores, recuando ao romanos. 

Saímos por fim do lado oposto, onde se forma uma longa fila para trepar a torre lateral. Para esta é preciso bilhete, que temos, mas hesitamos e decidimos tomar um café, enquanto observamos o avançar da linha. Sentamo-nos, sem notar, no que deve ser o café mais caro de Florença, o Café d'el Opera (creio que li isso nalgum lugar) e saímos dali 8 euros mais pobres. Eu já o esperava, mas o Pedro fica chocado, nem os bolinhos secos, nem o mini-copo de água justificam 4 euros por um expresso. Entretanto, desistimos de subir, a fila não avança nada enquanto esperamos. Imaginamos o tempo que todas aquelas pessoas, à espera à torra de um sol abrasador, levarão a subir e descer. Optamos, pois, por visitar o Museu d'el Opera, onde vemos uma reprodução da fachada gótica do Duomo, anterior à actual, e as três portas assombrosas do Battistero, para além de uma profusão de arte sacra e de arte antiga. Começo a sentir que talvez o bilhete tenha sido bem comprado. Para subir à cúpula é preciso marcação, e nós só temos vez daí a dois dias, às 11.30 da manhã. Marcamos. Vão ser 463 degraus. 463 degraus. Serei capaz?

Palazzo Vecchio

Continuamos por ruas e vielas estreitas até ao Palazzo Vecchio. Parece-me que é disto que mais vou gostar nesta cidade, de simplesmente estar e, apenas por isso ou por estar calor, tenho uma vontade constante de sentar-me nas esplanadas. São muitas, embora a maioria um pouco cara e ao sol. Notamos que, apesar de não ser ainda hora de almoço sequer, muitos turistas bebem um cocktail cor de laranja. É decerto coisa a experimentar. O percurso é rápido, mesmo fazendo-o devagar, e a praça do Palazzo um espanto. O edifício de pedra avermelhada à minha esquerda é extraordinário, de fachada direita, rectangular, encimada por uma ameia e interrompida por janelas a espaços regulares. Ao cenro,  a alta torre do relógio. Duas estátuas que, desconfio, serão imitações de Michelangelo (mas não confirmei, posso estar inteiramente errada), guardam a enorme porta de entrada. Perco-me um pouco no enleio de observar o Palácio, que me fascina
muito mais do que o Duomo. Não me apetece mover-me dali, mas está muito sol e, à minha frente, do outro lado da praça, várias estátuas e a sombra das arcadas que as abrigam chamam-me. Gosto pelo menos tanto de escultura como de pintura, por vezes mais, e não posso deixar de admirar as proporções perfeitas destas. Procuro angulos para as (péssimas) fotografias que vou tirando, enquanto aproveito a sombra o melhor que posso. O calor é quase insuportável. 


O Arno - Ponte Vecchia


Seguimos uma espécie de avenida junto a um edifício cinzento e longo, em direção ao rio. Há uma fila enorme: são as Galerias Uffizi, que, segundo li, são dos museus mais visitados do mundo. Deixamo-las para o dia seguinte e vamos debruçar-nos no muro, procurando um espacinho entre os muitos e muitos turistas como nós, para admirar o Arno, o rio estreito - se comparado com o Tejo, que em Lisboa é quase mar - e muito verde. Para a esquerda, pontes de arcadas com ar antigo. à direita, a estranhíssima Ponte Vecchia. Quem se terá lembrado de construir edifícios sobre ela, ou, nas margens, de estendê-los sobre o rio, sustentados por vigas oblíquas? Tudo me dá a impressão de fragilidade, precaridade, mas suspende-se assim há séculos e é decerto de uma firmeza inabalável.  Atravessar a ponte é uma experiência curiosa. Não se tem a impressão de passar o rio, porque somos distraídos pelos muitos turistas, mas mais ainda pela profusão de ouro nas montras: todas as lojas são ourivesarias, e a maioria exibe, sem gosto nenhum, todo o ouro que a montra comporta. Há flores nas sacadas dos edifícios, por cima, o que me leva a pensar que vive ali gente. Como será viver sobre uma ponte?

Do lado de lá, ainda muita gente, centenas e centenas de turistas, de ténis, chinelas, sandálias, canções, vestidos curtos e compridos, mais e menos elegantes, mas também muitos habitantes locais. A confusão no trânsito é a mesma, as pessoas caminham e atravessam onde e quando calha, mas parece-me ver mais automóveis, menos bicicletas, nenhuma carruagem. Tenho a impressão de ter recuado ainda um pouco mais no tempo, mas pode ser ilusão ver as ruas mais estreitas e os edifícios mais antigos. Seja como for, agrada-me muito. Mais adiante, encontraremos o Palazzo Pitti, mas antes disso, paramos numa pequena pizzeria de chão vermelho e branco e mesas de madeira, aberta para a rua, onde se come pizza às fatias. Eu insisto nos legumes, o Pedro nos fiambres, eu gosto muito, o Pedro nem tanto: a massa é pouco fina e a pizza tem demasiado tomate para o seu gosto. Descansamos um pouco. À tarde, espera-nos o enorme Pitti.  

segunda-feira, 19 de junho de 2017

roubar esta gente à morte


fantasmas negros nas sombras
vultos de fumo e chama
lançam ao céu os braços inúteis e ardem
o ar esgotado na fuligem
adeus Deus adeus
feito todo de solidão
do rugido bruto do medo
Deus Deus adeus
quem vem de asa aberta
trazer chuva
roubar esta gente à morte
à morte esta floresta



quinta-feira, 15 de junho de 2017

se isto é amor ou coisa mais grave

Não sei nada sobre amar a palavra
nada sobre literatura
sobre prosa ou poesia ou retórica
não sei se respiro ar ou letras
nem sei se importa
o que sei é muito mais simples
que elas estão
só estão
são o motivo primeiro
todo o tema
a figura no espelho
o contorno do mundo
as instruções na caixa da vida
a dimensão inteira do peito
filigrana esculpida
a bruto escopro
venha alguém melhor
mais sábio que eu
que explique
se isto é amor ou coisa mais grave