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sábado, 1 de julho de 2017

Florença - ainda o caderninho

Deixei passar demasiado tempo entre textos, e os dias em Florença começam a aglutinar-se numa impressão geral e em recordações globais, em que já se me torna difícil distinguir o que fiz em cada dia. A agravar a questão, há o caderno abandonado. Estou nos últimos registos: deixei de fazê-los a meio do terceiro dia, o "dia dos museus".

Em breve, terei de assumir uma aproximação diferente: em vez de continuar dia a dia, ou em parcelas de dias, para não estender o texto, vou destacar momento, lugares... em quantas publicações irá resultar, não sei. Pode ser uma apenas, podem ser muitas. 

Por ora, há caderno. Avancemos.

Pitti

O Palazzo Pitti, do lado de lá da Ponte Vecchia, é um monstro. Um largo enorme, em declive, e o palácio em cima, por trás dele os jardins. Compramos bilhetes, passamos pela segurança, entramos. Subimos vários lances de escadas e ocorre-me que, outrora, homens e mulheres deviam ter coxas de pedra. Por fim começamos a visita e o Pedro depressa se irrita, porque, onde esperava ver quartos, salas, a cozinha, os banhos, e descobrir como viviam os Médici, vemos afinal retratos e mais retratos antigos de figuras relevantes, em salas lindas de tectos pintados, paredes forradas e cortinados pesados e veludo. Há corredores cheios de caras novas e velhas, quase todas feias, uma ou outra mais composta. Descubro uma mulher lindíssima, um homem bonito da cada d'Este, outro feíssimo, um Médici. Reconheço alguns nomes, muitos não, mas sempre gostei de retratos e esta transformação em museu de figuras e expressões em nada me incomoda.  Depois, por fim, meia dúzia de salas opulentas onde terão habitado os donos do palácio, passando pela do trono e terminando nos aposentos da rainha. Temos de espreitá-los, porque um cordão impede a entrada. Proliferam veludos e brocados, dourado e cristal, brilho e excesso. O palácio testemunha o poder e riqueza dos Médici e não seixa dúvidas sobre quem eram, a par da Igreja, tão predominante, os donos desta cidade maravilhosa.  
Imagino homens e mulheres percorrendo estas salas, sentados nas banquetas, sussurrando conspirações, e ocorre-me, a despropósito, o imenso trabalho de acender (e substituir) todas as velas nos lustres e castiçais de complexo desenho e o perigo de incêndio que tudo aquilo terá constituído. Passamos pela Sala Branca, decerto uma sala de baile, mas não temos acesso à prometida exposição de trajes (que não encontramos e concluímos estar fechada). O Pedro está tão aborrecido com o Palazzo, e eu tão cansada, que depressa concordamos que não vale a pena pagar o bilhete para visitar os jardins. Deambulamos pelo "outro lado" de Florença, de mapa na mão, à procura de mais qualquer coisa para ver. O tempo que paramos para beber alguma coisa numa esplanada mal chega para que as pernas me deixem de tremer de cansaço, mas continuamos sob o sol escandante e acabamos por atravessar a ponte para o "nosso lado" pela ponte Americo Vespucci. Cada um de nós vai um pouco insatisfeito, por razões diferentes. Eu, porque gostei de Pizzi, mas não do que veio depois, não quero andar por toda a parte até que a exaustão me impeça gozar a cidade. Talvez seja má turista, mas quero parar mais vezes, parar mais tempo, não sinto necessidade de procurar cada quadradinho laranja no mapa, para ver se é monumento. O Pedro pela razão oposta: detestou Pizzi e não encontrou mais nada aberto, mais nada para visitar daquele lado da cidade. Temo que isto se torne complicado para mim. Outra vez.


Música no Palazzo

Reconcilio-me com esta viagem logo depois de um duche e algum descanso, quando paramos num cantinho bonito, para vinho branco, queijo e prosciutto, e ali ficamos algum tempo. Isto sim! Tentamos depois encontrar um restaurante que me encantara na véspera, mas às tantas já não sabemos onde estamos e acabamos, meio irritados, por comer onde calha. A minha pasta é quase igual à que comi, mas bastante picante. Tenho tanta sede que o vinho não me satisfaz, nada me sabe ao que devia e o mundo só se endireita quando, depois do jantar, bebo finalmente uma garrafa inteira de água.

Estamos muito perto do meu querido Palazzo Vecchio e, ao caminharmos nessa direção, apercebemo-nos da música. Há música em muitas ruas desta cidade, músicos que tocam violino, violão, viola, outras coisas nos passeios e praças. Ontem, duas jovens de longos vestidos tocavam violino numa praceta, mas isto é diferente: há um concerto em frente ao Palazzo, coisa de orquestra inteira (pequena, claro), com muita gente de pé a assistir. Ficamos também a ver o que é. O entusiasmo estoira na assistência quando, terminada a peça que tocavam à nossa chegada, o maestro explica, em italiano e depois inglês, que vão tocar... Star Wars! E tocam, e é maravilhoso!  Troco um olhar de prazer e um sorriso com uma desconhecida, que nem sei se é turista ou habitante local, e penso em como a música pode ser unificadora. Gostava de ser capaz de reter este prazer e toma-me a ideia, despropositada no momento, de que a música é como a poesia, um êxtase momentâneo, que depressa esmorece, mas que permanecem ambas, uma na partitura, outra na página, para que o gozo possa repetir-se, sempre diferente. Todos reconhecem o tema do filme, transformado numa peça belíssima pela composição de John Meyer e pela orquestra e, no fim, o aplauso é estrondoso. A praça quase encheu. Hesitamos em ficar ou ir e eu, com voltade de ficar, atiro "E se a seguir tocassem James Bond?." Estou a brincar, claro. Cada 007 tem o seu tema, porque haviam de ir buscá-los? Quais? O maestro agradece e declara que, dentro do tema "música para cinema", se seguirão três temas de... James Bond! Depois de Bond, tocam O Bom, O Mau e O Vilão e nós ficamos, até se esgotarem todos os temas que a orquestra trazia planeada e o maestro, espantado com o entusiasmo do público, improvisar com a orquesta: tocam uma marcha americana antiga, que faz lembrar vagamento o hino. Só depois disso saímos dali.

Vou cansadíssima, mas com o peito cheio. É isto, afinal, que me dá gosto.


       

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Florença segunda, a manhã

Durmo bem, tomo um pequeno almoço simpático no hotel e preparo-me para o calor, vestido de alças e chapéu, antes de sairmos para começar um dia que prevejo esgotante e fantástico. 

Santa Maria del Fiori

Vamos diretos a Santa Maria del Fiori, devagar, gozando a cidade. São dez da manhã e a praça do Duomo já se enche de turistas. Junto à Catedral, forma-se uma enorme fila, que a contorna e desaparece numa curva. Anuncia-se mais de uma hora de espera. A aquisição de bilhete é um pouco confusa, feita no número 7 dessa rua. Pagamos, se não me engano, 15 euros, que nos dão direito à entrada em vários espaços.

O Battistero 

Por ter muito menos gente, visitamos primeiro o Battistero di San Giovanni, estrutura circular com uma alta cúpula, que parece, ainda assim, uma anã junto do Duomo. O espaço é despido de artefactos, com excepção de uma grande estrutura circular ao centro, como uma mesa, mesmo debaixo da clarabóia. Tem-se a noção exacta do que pretendia a construção sacra: é preciso olhar para cima e, ao fazê-lo, o espanto, no melhor sentido da palavra, é inevitável. Painéis dourados com cenas bíblicas trepam a cúpula, e é-nos possível "ler" alguns, identificando as histórias que se contam da esquerda para a direita, horizontalmente. Sob as primeiras imagens, arcos e nichos profusamente trabalhados acolhem uma multiplicidade de janelas. A luz é coada, pensada decerto para acentuar a impressão de paz e imensidão. É fácil imaginar o espaço preenchido silenciosamente por nobres em vestidos e capas, nos baptismos dos seus pequenos princípes e princesas, ou ficcionar conspirações sussurradas na penumbra...

Duomo 

Quando nos dispomos a entrar no Duomo, descobrimos que a enorme fila é para todos, porque, para o edifício principal, a entrada é gratuita. Uma americana simpática guarda-nos lugar enquanto vamos confirmá-lo com um segurança muito antipático, porque foi ela quem o sugeriu, e, quando voltamos ao nosso lugar lá muito atrás, acabamos por conversar um pouco. Acho divertido como começa por falar devagar, marcando muito bem as palavras, não vamos nós ser incapazes de entendê-la, mas acelera o discurso, assim que vê que o nosso domínio do inglês é excelente. A fila anda, afinal, muito mais depressa do que esperavamos e estamos dentro do edifício relativamente depressa. Aprendi em Barcelona que o melhor é trazer sempre um grande lenço na mala, para cobrir os ombros à entrada das Catedrais. Em S.Lorenzo esqueci-me e emprestaram-me uma espécie de pano à entrada (uma gentileza para com os turistas), mas desta vez trago um comigo e, a custo porque o calor aperta, lá cubro os ombros.  

Depois da promessa do seu exterior opulento, o Duomo desaponta um pouco. Claro que exibe a sobredimensão costumeira nas catedrais, e a sua riqueza, os tectos altíssimos, as colunas, os arcos e as ogivas, as capelinhas trabalhadas, algumas obras maravilhosas, mas, depois de me ter emocionado com maravilhas do lado de lá de portas insignificantes em Roma, parece-me pouco. Ocorre-me que talvez a diferença esteja aí, Roma foi o meu primeiro amor italiano, e por isso talvez Florença fique áquem. É cedo, claro, para afirmações destas: o Duomo poderá não ter sido pensado para estarrecer por dentro, mas apenas por fora, é provável que outros espaços me seduzam mais. Sei que o Pedro partilha do mesmo sentimento de ligeira desilusão, mas admiramo-lo, ainda assim, e descemos às catacumbas para ver os vestígios da construção em épocas anteriores, recuando ao romanos. 

Saímos por fim do lado oposto, onde se forma uma longa fila para trepar a torre lateral. Para esta é preciso bilhete, que temos, mas hesitamos e decidimos tomar um café, enquanto observamos o avançar da linha. Sentamo-nos, sem notar, no que deve ser o café mais caro de Florença, o Café d'el Opera (creio que li isso nalgum lugar) e saímos dali 8 euros mais pobres. Eu já o esperava, mas o Pedro fica chocado, nem os bolinhos secos, nem o mini-copo de água justificam 4 euros por um expresso. Entretanto, desistimos de subir, a fila não avança nada enquanto esperamos. Imaginamos o tempo que todas aquelas pessoas, à espera à torra de um sol abrasador, levarão a subir e descer. Optamos, pois, por visitar o Museu d'el Opera, onde vemos uma reprodução da fachada gótica do Duomo, anterior à actual, e as três portas assombrosas do Battistero, para além de uma profusão de arte sacra e de arte antiga. Começo a sentir que talvez o bilhete tenha sido bem comprado. Para subir à cúpula é preciso marcação, e nós só temos vez daí a dois dias, às 11.30 da manhã. Marcamos. Vão ser 463 degraus. 463 degraus. Serei capaz?

Palazzo Vecchio

Continuamos por ruas e vielas estreitas até ao Palazzo Vecchio. Parece-me que é disto que mais vou gostar nesta cidade, de simplesmente estar e, apenas por isso ou por estar calor, tenho uma vontade constante de sentar-me nas esplanadas. São muitas, embora a maioria um pouco cara e ao sol. Notamos que, apesar de não ser ainda hora de almoço sequer, muitos turistas bebem um cocktail cor de laranja. É decerto coisa a experimentar. O percurso é rápido, mesmo fazendo-o devagar, e a praça do Palazzo um espanto. O edifício de pedra avermelhada à minha esquerda é extraordinário, de fachada direita, rectangular, encimada por uma ameia e interrompida por janelas a espaços regulares. Ao cenro,  a alta torre do relógio. Duas estátuas que, desconfio, serão imitações de Michelangelo (mas não confirmei, posso estar inteiramente errada), guardam a enorme porta de entrada. Perco-me um pouco no enleio de observar o Palácio, que me fascina
muito mais do que o Duomo. Não me apetece mover-me dali, mas está muito sol e, à minha frente, do outro lado da praça, várias estátuas e a sombra das arcadas que as abrigam chamam-me. Gosto pelo menos tanto de escultura como de pintura, por vezes mais, e não posso deixar de admirar as proporções perfeitas destas. Procuro angulos para as (péssimas) fotografias que vou tirando, enquanto aproveito a sombra o melhor que posso. O calor é quase insuportável. 


O Arno - Ponte Vecchia


Seguimos uma espécie de avenida junto a um edifício cinzento e longo, em direção ao rio. Há uma fila enorme: são as Galerias Uffizi, que, segundo li, são dos museus mais visitados do mundo. Deixamo-las para o dia seguinte e vamos debruçar-nos no muro, procurando um espacinho entre os muitos e muitos turistas como nós, para admirar o Arno, o rio estreito - se comparado com o Tejo, que em Lisboa é quase mar - e muito verde. Para a esquerda, pontes de arcadas com ar antigo. à direita, a estranhíssima Ponte Vecchia. Quem se terá lembrado de construir edifícios sobre ela, ou, nas margens, de estendê-los sobre o rio, sustentados por vigas oblíquas? Tudo me dá a impressão de fragilidade, precaridade, mas suspende-se assim há séculos e é decerto de uma firmeza inabalável.  Atravessar a ponte é uma experiência curiosa. Não se tem a impressão de passar o rio, porque somos distraídos pelos muitos turistas, mas mais ainda pela profusão de ouro nas montras: todas as lojas são ourivesarias, e a maioria exibe, sem gosto nenhum, todo o ouro que a montra comporta. Há flores nas sacadas dos edifícios, por cima, o que me leva a pensar que vive ali gente. Como será viver sobre uma ponte?

Do lado de lá, ainda muita gente, centenas e centenas de turistas, de ténis, chinelas, sandálias, canções, vestidos curtos e compridos, mais e menos elegantes, mas também muitos habitantes locais. A confusão no trânsito é a mesma, as pessoas caminham e atravessam onde e quando calha, mas parece-me ver mais automóveis, menos bicicletas, nenhuma carruagem. Tenho a impressão de ter recuado ainda um pouco mais no tempo, mas pode ser ilusão ver as ruas mais estreitas e os edifícios mais antigos. Seja como for, agrada-me muito. Mais adiante, encontraremos o Palazzo Pitti, mas antes disso, paramos numa pequena pizzeria de chão vermelho e branco e mesas de madeira, aberta para a rua, onde se come pizza às fatias. Eu insisto nos legumes, o Pedro nos fiambres, eu gosto muito, o Pedro nem tanto: a massa é pouco fina e a pizza tem demasiado tomate para o seu gosto. Descansamos um pouco. À tarde, espera-nos o enorme Pitti.  

domingo, 18 de junho de 2017

Florença - o primeiro olhar

(a partir do que fui escrevendo no meu miserável "caderno florentino", com alguma revisão)

Viagem

Partida às 8.45, do Aeroporto de Lisboa. O embarque é rápido e o avião parte com escassos 15 minutos de atraso. Não gosto particularmente de voar, sinto-me presa dentro de um tubo de metal, por isso, enquanto os motores ganham força, vem-me à cabeça o verso de Alanis Morissette, "Mr.Play it Safe was afraid to fly / He packed his suitcase and kissed his kids good-bye / He waited his whole damn life to take that flight / And as the plane crashed down he thought / "Well, isn't this nice." Sinto-me parva e afasto com esforço deliberado as palavras. Não tenho verdadeiro medo, mas não voo o suficiente para evitar o friozinho no estômago. Ou a excitação. Florença é o cumprimento de um sonho antigo. Eu tiro o kindle, no tablet o Pedro põe um filme de acção. à chegada, ainda teremos mais um autocarro e um comboio para apanhar, mas que importa? Estamos a caminho.

Chegada

Chegamos por volta das três da tarde. Faz calor e a rua é movimentada, mas escolhemos bem: é muito perto da estação e do Mercado e, se for verdade o que vimos nos mapas da cidade, perto de tudo o resto. Quase não damos pela entrada, apesar de ser um grande portão, e, lá dentro, temos de tomar o elevador para o 5º andar. Nunca me teria ocorrido que um hotel podia ocupar apenas os pisos superiores de um edifício. Algures no mesmo prédio há um albergue de uma estrela, pelo que temo um pouco que as imagens online nos tenham iludido (já aconteceu), mas o Hotel Cantoria tem uma entrada muito branca e azul, e tudo é simples, novo e limpíssimo. O italiano que nos atende é muito simpático - e bonito, com uns belos olhos azuis! 


Mercado Central

Troco de roupa para algo mais adequado ao calor que faz lá fora. É bastante tarde e o horário do voo assegurou apenas uma sandes, pelo que temos fome. O Mercato Centrale é ali mesmo ao lado, um edifício grande a meio de uma rua com bancas sucessivas de malas, sacos, casacos de cabedal. Pergunto-me quais pertencerão às lojas escondidas mesmo por trás. Cheira intensamente a pele, o que em nada me incomoda. O mercado tem um espírito muito semelhante ao da Ribeira, junto ao Cais do Sodré, mas com as vendas no rés do chão e as mesas e bancas no primeiro andar. Escolhemos qualquer coisa logo na terceira banca, uma espécie de canudos de fritos, que insisto para serem, ao menso, uma mistura entre carnes e legumes. Não está muito cheio e sentamos sem problema. Enquanto como os legumes sem grande sabor e bebo a óptima cerveja, observo o tecto muito alto, do qual estão suspensos enormes candeeiros de vime de, pelo menos, três formatos dferentes. As mesas são em madeira, de alturas diferentes. 

Quase ao nosso lado, uma rapariga fala incessantemente sobre si própria, em inglês, com um rapaz que só consegue (ou quer) debitar uma palavra aqui e ali. Imagino uma conquista insipiente, um amor de férias, e lembro-me de como eram incertos, enervantes e excitantes os rituais da conquista. Tenho e não tenho saudades dessa sensação de ser tudo uma enorme pergunta. Ao fim de um bocado, já me pergunto se o rapaz estará tão aborrecido como eu, ou grato por não lhe ser exigido grande discurso. Talvez ela esteja cheia de sorte e ele seja tímido.  

Basílica de S.Lorenzo


Seguindo a rua por entre as bancas, desembocamos na praça de S.Lorenzo, onde a Basílica de tijolo castanho impera, enorme, com a sua cúpula de telha vermelha. Os edifícios de três ou quatros andares em redor da praça são amarelos ou ocre, com sacadas regulares e lojinhas no rés-do-chão.   Não consigo ainda "respirar" a cidade, como espero conseguir antes de a deixar, e, apesar de já lhe adivinhar a beleza, ainda não me seduziu. 

Tiramos uma maldita selfie antes de entrar na Basílica e compramos os bilhetes, 6 euros cada. Não investigei sobre isso, mas desconfio que em todos os monumentos nos será cobrada uma entrada respeitável, afinal manter toda esta magnificência anciã terá o seu preço. Os claustros são agradáveis, com uma laranjeira no centro do espaço ajardinado e aquela quietude que se insinua sempre em mim e me traz uma vontade enorme de me deixar ficar tempos infindos sentada nos muretes de pedra. Não ficamos, porém, há uma basílica enorme a ver. Tectos trabalhados, uma abóboda pintada com cores vivas sobre o altar, pilares à esquerda e à direita, quadros de Conti, Lipi e outros mestres importantes. Bonita, mas não me deixou de boca aberta, talvez por ter enchido o peito com estas igrejas em Roma. Visitamos o museu, onde estão expostos os cálices, ostentórios e custódias cujo valor não consigo imaginar, e muitíssimos relicários. Num, posso ver os ossos inteiros, da perna ou do braço dos homens santos, noutros são pequenas lascas, fios de cabelos e outros testemunhos que me arrepiam. Perturba-me sempre o culto dos mortos levado a este extremo, a fé transformada em luxuosa morbidez.

Nas catacumbas, espreitamos a tumba de Donatello, parcialmente responsável pelo desenho da Basílica, e percorremos uma fascinante exposição de arte contemporânea, com interpretações de temática religiosa - nuns mais, noutros menos, nuns mais irreverente, noutros nem por isso. Calculando que a minha filha estudante de arte gostaria de vê-la, peço ao Pedro que tire fotos e lhas envie. Eu só quero encher os olhos. 

O primeiro Duomo

As ruas até ao Duomo são movimentadas e o trânsito, se lhe posso chamar isso, é confuso. As pessoas, muitas, andam pelo meio da rua como nos passeios, os automóveis são quase todos táxis eléctricos, muito silenciosos, e há bicicletas e carruagens. De quando em quando ouve-se uma apitadela, para que algum transeunte se afaste do caminho de um táxi ou de uma bibicleta, mas o espírito é descontraído e não vejo um único sinal de irritação. Há lojas modernas, mas a sensação é de antiguidade. 

Duomo (Santa Maria del Fiori)
Fico esmagada pelo Duomo. Não há outra forma de dizê-lo. O Pedro não contém o espanto, exclama e tira fotos, mas eu não sou capaz de tanto. Sentamos-nos numa esplanada às sombra, a praça não oferece muita, e pedimos cerveja, e eu só quero contemplar o edifício, bem caladinha, trazendo cá para dentro esse absurdo gigantesco, verde e branco, encimado por duas cúpulas de telha vermelha, mãe e filha. Ao lado, o Batitstério é um reflexo minimal, das paredes do edifício principal. Os meus olhos não são capaz de abarcar tudo. Há holofotes nos edifícios que cercam a praça, dando a ideia de que à noite, o monumento deve revestir-se de nova magnificência. Planeamos a visita para a manhã seguinte, primeiro destino. O Pedro começa a aborrecer-se com demora a trazer as cervejas. Eu não. Estou cansada, a praça é lindíssima e começa a soprar uma brisa agradável. 

De regresso ao hotel para um duche, ainda damos mais uma volta grande, com passagem
Santa Maria Novella (praça)
na praça da República, com o seu Arco do Triunfo (tantas cidades o têm!) e por Santa Maria Novella (a catedral fica para mais tarde), e o "espírito" da cidade começa por fim a mostrar-se, se calhar diferente para cada um dos que a visitarem. É disto que eu gosto, de deambular sem pressas, sentar-me nas esplanadas ou onde seja, a olhar para as fachadas, para as pessoas, para o movimento, imaginar o tempo e a vida a rolar sobre as construções. Oxalá desta vez não haja correrias para "ver tudo", "ver tudo", "ver tudo".

(nota: já em casa, fiz uma pesquisa curta e descobri que o Duomo, ou seja, a Catedral de Santa Maria del Fiori, começou a ser construido em 1296, e só terminou em 1436, e reune característica da Arquitetura gótica, do Renascimento, Neogótico e  Gótica Italiana, bem como o trabalho de arquitetos como Filippo Brunelleschi (o principal, segundo creio), Giotto di Bondone, Arnolfo di Cambio e Francesco Talenti)


O fim do dia

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foto retirada da net
O Pedro traz a recomendação, a Trattoria dall Oste, para o primeiro jantar e a ideia de que será difícil de encontrar. Não é, e ainda bem, porque o meu corpo começa a ressentir-se do começo às 6 da manhã, depois de vários dias de trabalho intenso, da viagem e deste primeiro passeio. Parece que em Florença o melhor para comer são as bistecas... enormes bifes, altos, mal passados! Recuso-os terminantemente e opto por um pici (esparguete mais grosso) muito simples, com tomate e manjericão, que está delicioso. O Pedro delira com o bife  e até eu, provando um pedacinho da ponta, mais bem-passado, tenho de concordar que é bom. Bebemos Chianti, e claro que me lembro de Hannibal, n'O Silêncio dos Inocentes. Claro. Parvoíces. O serviço é simpático, como todos até aqui. Noto que estamos sentados, numa mesa redonda, dentro de uma pipa cortada ao meio e que atrás de nós há placas com nomes, e, a uma pergunta do Pedro, a empregada explica que são todos vinhos da região ou da Sicilia. Ficamos curiosos com uma sobremesa, um biscoito que se vai molhando num licor antes de cada dentada, que arranca umas caretas terríveis de nojo a um oriental - há muitos turistas chineses, japoneses ou coreanos, não saberia distinguir - mas não a pedimos. 

Em vez disso, terminamos a noite com mais um passeio, um gelado dividido e um café com água frizzante (com gás) numa esplanada. Fico muito contente por, por fim, poder deitar-me para uma boa noite de sono.  

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Dias de Florença - caderno abandonado

Conhecer Florença era um dos meus sonhos e, por saber que teria dias de muita caminhada e poucos tempos mortos, segui sem computador, mas com um caderno  na bolsa e a determinação de, sempre que me sentasse para um café ou uma cerveja, assentar alguma coisa do que visse, sentisse e pensasse, assim ao jeito de caderno do viajante. Escolhi um fininho de capa bonita e até lhe dei o nome pretencioso de "caderno florentino". Neste tipo de passeio, em que em poucos (pouquíssimos) dias se aglomeram muitos lugares, se vê muitas coisa e muita do mesmo tipo ou épica, tudo acaba por tornar-se difuso e, no fim, já me pergunto por onde é que andei em que dia, e onde é que eu vi aquela estátua fantástica do rapto das sabinas?

O caderno era para esse registo e para satisfazer a escritora - e porque é que, depois de três livros publicados, continuo a hesitar perante a palavra? - a quem a ideia de cinco dias sem escrever absolutamente nada, se calhar nem o meu nome, dava a impressão de uma longa travessia do deserto.  Levei um caderno a fazer de odre de água.  

Descobri depressa que seria mais difícil do que calculara, não porque me faltasse a vontade de escrever, mas porque, sendo dois na viagem, impunha-se conversar nas pausas entre caminhadas, sobre o visto e feito, o "a ver" e "a fazer" em seguida, em vez de me embrenhar nas palavras e deixar o parceiro apenas com a companhia dos seus pensamentos. Acrescentou-se o facto de parar menos do que necessitaria para fazer bons apontamentos (ou desejaria, para um passeio a meu gosto) e de andar muito e ver muitas coisas entre descansos. 

Quando aos dois "mas..." se juntou o cansaço, potenciado pelo calor, o caderno ficou abandonado no saco. Ou seja, tenho anotações da primeira tarde e dos dois primeiros dias - embora cada vez menos frequentes - e nadinha do terceiro dia e última manhã, o que significa que não tenho detalhes dos lugares por onde andei nessa altura, menos ainda do que os lugares me suscitaram. Uma ideia ou outra talvez regresse, coada pelo tempo e algum descanso, se não me der a preguiça ou não for atropelada pela vontade de escrever outras coisas ou pelo trabalho. Entretanto, vou ler o que está feito e, disso, ver o pouco que valerá a pena refazer para o meu monster.

Nota inicial: Florença é uma obra de arte antiga.