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domingo, 3 de janeiro de 2021

A Poesia das Mulheres

 Passei uma vida inteira sem conhecer a poesia de Maya Angelou. Diria que é imperdoável, se não estivesse demasiado satisfeita por tê-la descoberto. Mais vale tarde do que nunca, não é verdade?

E para todas as mulheres, no início de mais um ano em que vamos mesmo ter de ser fenomenais, fica o poema PHENOMENAL WOMAN.

Pretty women wonder where my secret lies.
I'm not cute or built to suit a fashion model's size
But when I start to tell them,
They think I'm telling lies.
I say,
It's in the reach of my arms
The span of my hips,
The stride of my step,
The curl of my lips.
I'm a woman
Phenomenally.
Phenomenal woman,
That's me.

I walk into a room
Just as cool as you please,
And to a man,
The fellows stand or
Fall down on their knees.
Then they swarm around me,
A hive of honey bees.
I say,
It's the fire in my eyes,
And the flash of my teeth,
The swing in my waist,
And the joy in my feet.
I'm a woman
Phenomenally.
Phenomenal woman,
That's me.

Men themselves have wondered
What they see in me.
They try so much
But they can't touch
My inner mystery.
When I try to show them
They say they still can't see.
I say,
It's in the arch of my back,
The sun of my smile,
The ride of my breasts,
The grace of my style.
I'm a woman

Phenomenally.
Phenomenal woman,
That's me.

Now you understand

Just why my head's not bowed.
I don't shout or jump about
Or have to talk real loud.
When you see me passing
It ought to make you proud.
I say,
It's in the click of my heels,
The bend of my hair,
the palm of my hand,
The need of my care,
'Cause I'm a woman
Phenomenally.
Phenomenal woman,


That's me.

Maya Angelou, “Phenomenal Woman” from And Still I Rise. Copyright © 1978 by Maya Angelou.

(em https://allpoetry.com/Phenomenal-Woman) 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Os últimos do ano

Este não é um ano para guarder souvenirs, embora tenha sido uma viagem e tanto.

Dou por mim, porém, neste último dia de um ano atípico, com vontade de guardar uma última coisa de tudo: a última ida ao café, a última refeição, o último texto que escrevo, o ultimo livro completo que li, a última página do livro novo, a última…, o ultimo… Como se à passagem da meia noite fossemos tombar no proverbial fim do mundo, para o inverso desta terra que, para efeitos metafóricos, faz de conta que é plana, e quisesse levar comigo recordações.

Não é uma reação lógica. A expectativa é de que o próximo ano seja melhor do que este. Dificilmente podia ser pior, não é? (mentira, mas vá, vamos fazer de conta). Ainda assim, este ano foi muito menos mau para mim, na prática, do que para muitos: não perdi ninguém, não perdi o emprego, não fiquei louca no isolamento, porque sou introvertida, fisicamente preguiçosa e digitalmente capaz - pelo menos o suficiente para trabalhar sem perder a cabeça, fazendo fichas e trabalhos de raiz, usando meets para aulas, hangouts para dúvidas, a classroom para tudo. Estabeleci uma rotina para os dias "fechados": levantar cedo, arranjar-me como para sair, ser carochinha de vassoura na mão uns minutos, tomar o pequeno-almoço a ler (se possível ao sol, na minha minúscula varanda, que era desprezada e agora é o meu mini-jardim), dançar uns minutos a ouvir música animada, e depois começar um infindável dia de aulas, preparação de trabalhos, correção de trabalhos. Cheguei a ter nela um certo prazer, sair não me fez falta. Pergunto-me mesmo se poderia viver assim indefinidamente...

Cantei os parabéns por zoom, tive encontros literários e lanches dessa forma. Falei com os meus pais, em isolamento no campo, por telefone, várias vezes por semana. Habituei-me a limpar as compras do supermercado (já me deixei disso), e a encomendar roupa e livros online. Desabituei-me de ir trabalhar para o café e poupei dinheiro com isso. Tive medo, como todos, mas menos do que muitos. Comovi-me com ações de reconhecimento público do pessoal médico, tive noção da sua inutilidade, e com canções e gestos bonitos. Comovi-me sobretudo com a solidariedade e o esforço de união, mas não, não acreditei que no fim seriamos melhores. Pelo contrário. Que ficará tudo bem? Sim, há-de ficar. Tudo é cíclico, tudo tem um fim, o bom e o mau. 

O filho fez os dezoito anos confinado. Festejamos como pudemos, e ele voltou a festejar assim que pode, com os outros amigos na mesma situação. Acabou o 12º ano, candidatou-se à Faculdade para fora de Lisboa. Soube quando e onde teria o seu dia de Defesa Nacional. A filha perdeu a sua primeira viagem de turismo com o namorado, a Viena, planeada há muito, já marcada e paga. Perdeu o Erasmus em Barcelona. Perdeu cadeiras práticas que não podia fazer online. Perdeu o ânimo, recuperou-o, perdeu-o, recuperou-o. Eu trabalhei mais do que nunca. Li mais do que o habitual. Esperei em vão que a editora me respondesse. Iniciei meia dúzia de histórias, não avancei nenhuma. Bebi mais vinho, fiz muito mazagran. Fiz bolos, mas (quase) não tirei fotos para pôr no Insta. Não fiz pão, lamento. 

Não viajamos no Verão, a não ser para o campo, meia dúzia de dias, e só levamos uma amiga do filho e o namorado da filha. E o cão, claro. Foi tranquilo. Noutros anos levamos cinco, seis amigos deles e também foi giro. Fiz anos, estou mesmo na ponta final dos 40s. Em miúda, achava que não chegaria aqui, vá-se lá saber porquê. E não estou preparada para poderar este meio século, o que fiz, o que deixei a meio, o que nunca cheguei a fazer. 

No regresso à vida normal (como detesto a expressão "novo normal"!), reencontrei amigas e colegas, fui testada, recomecei as aulas, com máscara. Felizmente já conhecia quase todos os alunos, portanto sei o que está atrás da mascara. Achei-os “moles” este período, se calhar eu mesma estou sem vontade. Numa conversa franca com os mais velhos, do secundário, disse-me uma aluna que a escola ainda é o que têm de mais normal. Fiquei estarrecida. Preocupada. Comovida.  Não me dá alento suficiente, não recupera a confiança que já tive na minha utilidade (ou qualidade) enquanto professora, mas dá-me um objectivo: ser a normalidade deles, mesmo que não a minha. 

No fim do Verão, deixamos o filho na a sua vida nova em Leiria. Medos redobrados, claro, coração de mãe é assim. O filho come muitas vezes massa, mas adaptou-se muito bem. Gosta do curso e isso, ao menos, é bom. A filha candidatou-se a novo Erasmus, desta vez em Roma. Animou-se e, neste Natal, vendeu bastantes ilustrações e prints de ilustrações. Eu habituei-me à máscara, já não me doi sempre a cabeça ao fim do dia, e conformei-me com a moleza dos miúdos. Trabalhei muito, para mim não há moleza, mesmo quando não há vontade. Deixei de ler tanto, tenho dificuldade em concentrar-me. Continuei a escrever pouco, mas comecei a rever um texto antigo, por prazer. A editora pediu-me por fim uma reunião e falamos por zoom. Poderá haver livro para o ano? Veremos.

Neste Natal, comprei muitos presentes online. Preparei, pela primeira vez em muito tempo, a celebração em minha casa: a minha filha insistiu em muitas sobremesas, ou seja, passamos um dia e meio na cozinha e foi a melhor parte, mesmo para mim, que não sou boa doceira e fico verdadeiramente irritada com o trabalho doméstico. A véspera foi com os sogros, em sua casa, o dia devia ser com os pais, mas avisaram uns dias antes e não vieram. Não levo a mal, primeiro a segurança. Temo pelos meus sogros … mas como se recusa um Natal? Recebi cinco livros, dois dos quais ofereci a mim mesma. Ou seja, a pilha cresceu, é maravilhosa e há-de continuar a crescer. Faltam as estantes.  Fiz binge watching de uma famosa série de época da Netflix (nova e nada fiél à História) no dia de Natal e diverti-me monumentalmente com ela. Voltei a bater (rever) texto no café.

E a seguir? Fujo a balanços, este não chega a sê-lo. Há coisas que decidi não olhar nos olhos, tenho-o feito todos os anos, para não ver os bichos cá de dentro, os macaquinhos do sotão, cujas vozes sussurrantes calo todos os dias. Mas veio a vacina e o novo ano abre numa nota de esperança. Lá para o Verão hão-de sentir-se os efeitos, ou seja, talvez o próximo ano (nem que seja o letivo) seja mais normal, seja isso o que for. Creio que só então poderemos entender os verdadeiros efeitos de 2020 nas nossas vidas. Não os económicos, na saúde, na escola e aprendizagem, na organização social e do trabalho, que são mais imediatos e visíveis. Falo dos outros, mais fundos: da nossa disposição para o mundo, para nós próprios, para o que nas nossas vidas ficou suspenso. Mudamos, ou não?

Entretanto, estamos fartos de 2020. Vamos pôr uma bela mesa, no sossego das nossas casas. Quando for por fim meia noite, levantemos um copo bem alto: QUE VENHA 2021! 



quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

O monstro deseja-lhe BOAS FESTAS!

 Neste que foi um ano tão estranho, com todo o ar do início de uma terrível distopia, mas ao qual estamos - e vamos - sobreviver, é fundamental celebrar.

Pouco importa se somos cristãos ou, como eu, ateus, se celebramos em família ou nos resguardamos e os resguardamos a eles, vamos enfeitar e cozinhar e comer e beber e amar, e guardar connosco um pouco da força e da alegria desta quadra para as batalhas que ainda nos esperam.

Um FELIZ NATAL!



quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

A leitora balança, para ver se cai ou não

Diz-me o goodreads que só li 18 livros este ano: é mentira. Só li 18 cuja leitura me apetecesse registar, li muitos mais "de conforto", uns deliciosos, outros meh, um ou outro não terminei. 

Já aqui tive oportunidade de escrever que aprecio um livro por muitas razões, emotivas, estéticas, etc. Esses critérios fizeram-me atribuir 5 estrelas a 4 livros este ano: O Pecado de Porto Negro, cuja classificação alterei ao escrever esta publicação, porque quanto mais o tempo passa, mais gosto dele, A Catedral do Mar, excelente e densíssimo histórico, Illuminae, uma delícia de experiência YA de SFC, e Filho da Mãe, uma pérola de Hugo Gonçalves. Recomendo todos, como é evidente. 

(Não podiam ser mais diferentes uns dos outros, o que me prova que o meu gosto é, de facto, muito eclético... ou all over the place, se preferirem!)

Gostei menos de outros 3 livros, As Duas Vidas de Sofia Stern, O Silêncio das Águas (que muitos e muitos apreciaram), e A Modista. Houve um livro que não classifiquei, mas não me recordo porquê, possivelmente esqueci-me: foi Mistério na Cornualha, de Liz Fenwick, que acabei por não incluir na imagem. 

Pelo meio, os outros 10, uns mais próximos das 5 estrelas (como Sob um Céu Escarlate) outros das 3 (como Sete Minutos Depois da Meia-Noite, que foi elevado pela arte). 


Opiniões em https://www.goodreads.com/author/show/5816236.Carla_M_Soares

Devia ter lido mais? Claro. Li pouco e nem sempre com vontade, e nem posso culpar a pandemia: o período de total confinamento, apesar de muito trabalho, foi o mais profícuo em leituras, e sou naturalmente introvertida, o que significa que as contenções não me causaram a desesperança que muitos sentiram. Se houve outras razões para ela? Seria tema para uma publicação que provavelmente não vou fazer.

Tenho uma pilha crescente, que espera vez e espera mais vontade. Vamos ver se 2021 traz alguma destas coisas, e se traz algum novo livro meu! 

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

A escritora diz que não tem tempo

Não sei se isto acontece a toda a gente, mas é sempre quando não posso - por excesso de trabalho, em geral, com os consequentes cansaço e falta de tempo - que me vejo mais produtiva . 


Ah, se eu pudesse, se tivesse tempo, se não estivesse cansada, etc, etc, as coisas que eu reveria, as que escreveria! É o que digo a mim mesma numa perfeita simulação de desalento. Ocorrem-me linhas desgarradas para poemas que nunca chegarão a ser anotadas (e ainda bem, a última de que me lembrei tinha a palavra da moda começada por p, acabada em a e com ut no meio), e muito menos terminados os poemas. Fico cheia de energia para revisões de dois ou três originais ao mesmo tempo, velhinhos e cheios de pó digital. Chego a lembrar-me que bom, bom, era traduzi-los, porque por cá é pouco provavel que venham a ser publicados. 

Tenho até o ensejo, nos últimos tempos incumprido, de começar um livro novo. Se me surgem ideias para esse livro, pelo meio de textos para corrigir em Inglês e de speakings para ver na classroom? Pois, na verdade, verdadinha, não. Umas sombras delas, peixes a deslizar pelas mãos, uma personagem aqui, uma situação ali, e muita, muita vontade de ver se alguma coisa pega. 

E depois, quando finalmente tenho algum tempo? Eh. Faço outras coisas, como ver filmes que não interessam a ninguém, ler livros, uns melhores, outros piores, fazer de conta que tenho leitores no blogue e escrever aqui. De vez em quando, até faço bolos. 

E escrita, que é boa? Bom... tenho revisto um certo texto dividido em três, na vaga expectativa (medrosa, confesso) de que seja desta que chega aos leitores, mas anda mais devagar do que o habitual. O tempo é de facto escasso, mas, quando há, a concentração difícil e, sem um prazo que me ponha na linha, vou andando um ou dois parágrafos de cada vez. 

domingo, 13 de dezembro de 2020

Limões na Madrugada, a primeira página: vejam como a escritora se vai habituando ao vídeo!

Isto de ir fazendo videos (a maioria falhados e apagados) tem uma coisa boa, uma pessoa habitua-se a ignorar os detalhes, uma ruga, um papinho, uma hesitação na fala ou leitura e a avançar com a cara e a coragem. E habituamo-nos a pensar "Quantos vão vê-lo, de qualquer modo?", sem nos preocuparmos realmente com a resposta.

Vós, meus queridos que vão seguindo o monster, espero que ignorem essas falhinhas, se sintam mais próximas do monstro que há em mim e, se ainda não leram, um nadinha mais curiosos com os livros! 




sábado, 12 de dezembro de 2020

Em dia de chuva, um excerto sobre... chuva. E o Mão.

O sol acabava de pôr-se, uma bola de fogo sobre um horizonte despido de nuvens. A Nordeste, os primeiros dias do Outono eram amenos, o vento feroz do Inverno tardaria ainda a chegar. A chuva era outra história. Se tivessem sorte, raras bátegas tombariam do céu sobre o Mão, o céu desmanchando-se em trovões e relâmpagos, em tempestades sucessivas, temíveis mas muito desejadas em Ich-ar. Eram tão raras que Eivi só vira, em todos os anos da sua vida, três vezes os rios de lama nascidos desses dilúvios, só três vezes vira  transbordar o fosso e, de uma delas, vira tombar casa sob a corrente. Dessas vezes, o Prata engrossara e subira, submergindo as árvores das margens, tinham-se enchido os canais subterrâneos que alimentavam os poços e furos, o solo enriquecera e o Mão transformara-se num campo de pequenas flores amarelas, azuis e roxas. Os anos seguintes eram sempre de abundância.

Observou depois as casas, em cujas janelas se acendiam aos poucos tremeluzentes lampiões. Ali talvez essas chuvadas não fossem bem vindas. Talvez nesses dias o mar trepasse o areal, invadindo o casario, e desabasse sobre o pontão, desfazendo-o em pedaços que depois arrastaria para o fundo. Talvez, na sua fúria, engolisse barcos e gentes.

Ou será o Prata a comer as margens e tudo o que nelas se cria?


em Passo Solto, A Grande Mão (em revisão)


Na foto, o sequíssimo Atacama num raro florir.
Podia ser o Mão imaginário do texto. 
(imagem em https://www.pinterest.pt/pin/113786328063149621/)