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domingo, 9 de maio de 2021

A Livraria dos Finais Felizes, Jenny Colgan


Tenho repetido algumas vezes que, para mim, há muitas maneiras de apreciar um livro, de abordar uma opinião, de (no GR, por exemplo) atribuir as malditas estrelinhas. Por exemplo, podemos reconhecer um belíssimo exercício de escrita, como me aconteceu em As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino. Ou abraçar um desafio de simbologias e interpretações, como nos dois volumes da Alice, de Lewis Carrol. Podemos reconhecer a excelência do conteúdo, mesmo que nos deixe frios. Pode ser a história que nos apaixona, ou as personagens, ou pode o livro reunir tantas destas coisas que nem sabemos por onde começar. Tantas formas! Uma delas é, como me sucede por vezes, deixarmo-nos reger apenas pela emoção, seja pelo prazer ou pela dor: este livro, por exemplo, valeu a pena pelo puro gozo que me deu lê-lo.

Segundo a sinopse "Nina Redmond é literalmente uma casamenteira. Encontrar o livro perfeito para cada leitor é a sua paixão... e também o seu trabalho. Ou pelo menos era, até a biblioteca pública onde trabalhava fechar as portas.Determinada a encontrar um novo rumo, Nina muda-se para uma pacata vila na Escócia, onde compra uma carrinha e a transforma numa livraria itinerante, viajando pelas Terras Altas e transformando as vidas daqueles com quem se cruza com o poder da literatura.É então que descobre um mundo de aventura, magia e romance num lugar que aos poucos se vai tornando no seu lar… um lugar onde ela poderá escrever o seu final feliz para sempre."

E foi isto mesmo e nada mais, uma história leve, um romance de auto-afirmação (que inveja me deu a reviravolta que a a personagem principal deu à sua vida, embora, convenhamos, ter 29 e 49 anos não seja bem o mesmo!), de amor pelos livros, primeiro, de amor à vida, em segundo lugar, e de amor-amor, depois. Também é uma história "escocesa", e quanto mais leio e vejo sobre a Escócia, maior a minha vontade de conhecer. Está repleto de referências literárias de géneros variados, algumas das quais reconheci da minha infância e juventude, com os títulos originais e notas de rodapé a indicar os dados da publicação portuguesa, quando existe (também refere a inexistência, quando é o caso).

Não será um clássico, e não tem de sê-lo, não há nada nele de eterno, a não ser o amor pelos livros, e é provável que um dia não me lembre dele, como decerto vou esquecer... aliás, já esqueci o nome das personagens, embora não as personagens em si. Li-o num instante, deliciada, com um gozo enorme, talvez por ter vindo num momento de exaustão, em que precisava mesmo de uma leitura assim. 

sábado, 1 de maio de 2021

Uma Educação, de Tara Westover

Há algum tempo que não publico uma opinião sobre um livro, mas como as tenho escrito quase sempre no GR, vou recomeçar a publicá-las aqui. 

Este foi um livro de leitura conjunta para o Livros às Quatro, que hesitei muuto em ler, porque a eduação é a minha profissão, ocupa-me a maior parte dos dias e algumas noites, estou cansada dela e unca quero ler nem ver nada relacionado, quando estou em descanso. 

Asseguraram-me que não era "esse tipo" de educação, e, também porque não quis deixar de poder comentar o livro no nosso encontro, acabei por lê-lo. Ainda bem, porque  de facto é "outra"educação e foi uma leitura compulsiva, enervante, que me revoltou na mesma medida em que me encantou.


O extremismo religioso deixa-me em estado de rebelião, sobretudo quando mexe com a existência e a saúde física e mental de crianças, e quando envolve violência, prepotência masculina, cegueira face à realidade (não é sempre assim, pergunto-me) e todas as outras coisas que se vão revelando neste livro e que não são fantasia, mas facto. Não ignoro aqui que há uma forte componente de doença mental da parte do opressor, identificado pela narradora como bipolar, que é ignorada (ofuscada, obliterada?), mas também combustível para o excesso; esse facto, porém, não reduz a minha revolta. Nem ignoro que este não é caso único, o que, ao invés de me apaziguar, me perturba mais.

Impressionou-me o retrato da doença mental e da violência... pareceu-me que tudo era violento, as convicções, o trabalho, o amor, as relações, o lugar, a manipulação mental, a recusa da ciência e da medicina, da educação, a paranoia e a dificuldade que a autora teve em libertar-se, mesmo depois de se consciencializar da realidade. É, aliás, espantoso que tenha conseguido (a que custo, e com que dificuldade!) escapar às garras emocionais e mentais dessa dependência religiosa. Suponho que seja muito mais difícil quando se desconhecem outras realidades e a loucura extremista parte daqueles em quem mais a criança confia - o pai e a mãe. O retrato que faz é, ao mesmo tempo, desassombrado, franco, e cheio dos fantasmas da ilusão, da perda, da falta de confiança com que a autora terá de lidar sempre, apesar de um percurso inacreditável (que resiliência!), a provar que somos capazes de tudo, bom e mau.

Quanto à escrita, à estrutura do livro, nada a apontar: limpa, clara, honesta, emotiva sem lamechice, inteiramente adequada ao testemunho que a autora pretende passar. Uma educão, sem dúvida, e que educação!

O próximo livro de leitura conjunta A Porta, de Magda Szabó, que já comecei.

sexta-feira, 19 de março de 2021

Para além de escritora, ou antes disso, sou professora. E esta semana está a ser difícil para muitos professores.

Há muitos anos que não tremo de medo quando submeto a candidatura obrigatória para o concurso interno, mas assumo que me dá sempre um friozinho no estômago, um amargo de boca. E se, desta vez, corre mal? E eis que me assaltam as dúvidas, e com elas, as amarguras.

Porque é que uma profissional de carreira com (quase quase) 50 anos, 25 de ensino (uns 20 em QZP), que, goste ou não, dá o seu melhor e que está há mais de 10 anos na mesma escola (sempre em QZP e sempre a concorrer), concorre na segunda prioridade? E aqui talvez haja quem me diga: porque eu concorri para o país todo e tenho direito a aproximar-me à tua frente! E eu respondo: e isso faz de mim menos professora do que tu? Não estou também na carreira? Não sou mais velha, com mais anos nisto? Não decidiste que podias afastar-te? E não faço, pelos vistos, falta na escola onde estou? Porque não se vinculam os professores que estão há mais de 10 anos na mesma escola a essa escola? Não é tempo suficiente? Faria sentido também em termos da estabilidade do corpo decente. É difícil saber que há lugar para mim na "minha" escola... mas não há.
A verdade é que cada um faz as suas escolhas e eu fiz esta, a de não me desenraizar e suportar de X em X tempo estas incertezas, mas estou cansada. Suponho que quem se desenraizou (por sua escolha) vê à sua maneira.

Portanto, ando e andarei nesta ciranda, sendo bastante certo que:
- não fico em quadro de escola, porque não há vagas num raio razoável em redor do meu lugar de habitação, na verdade não há vagas quase nenhumas em lado nenhum (dá mais jeito ter QZPs e contratados a preencher buracos aqui e ali);
- vou voltar a concorrer enquanto QZP e a ficar na mesma escola, porque é quase certo que vai ter lugares para nós e o primeiro talvez seja meu outra vez, "vantagens" da idade/tempo de serviço;
- daqui a 3 anos (não tinham determinado 4?) volto a fazer o mesmo circuito, com os mesmos resultados, e assim andarei até me reformar, me decidir a concorrer ao país todo e ilhas e, com mais de 50 anos, voltar a andar com a casa às costas, ou acabarem com os QZPs e nos colocarem... pois, não sei. Nos obrigarem a concorrer ao país todo e sermos todos forçados a voltar a andar com a casa às costas.

Talvez seja no próximo concurso, ou no outro a seguir, que decido que o mundo é a minha casa. Vou para a Madeira, ou para os Açores, se houver lugar para mim lá. Para o Alentejo profundo, ou para onde calhar ou para lado nenhum, porque não há lugar. Terei, no mínimo, 53 anos. Ou 56. Estarei a mais de uma década da reforma. Talvez continue a dar o melhor de mim, mas a não me sentir valorizada.

E é nestes dias que me pergunto: o que fiz eu com a minha vida?

E pronto, desabafo feito. Volto ao trabalho, que me esperam (muitas) composições para corrigir.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Canção de dentro



Trago o cansaço no bolso, 

à cintura o tempo que passa

debaixo do pé uma ideia

que me levanta e carrega

e um peso num joelho

que me deixa presa ao chão

mais que tudo, é por dentro

nas covas do coração

que tenho coisas imensas

rios que trovejam e minas

de ouro umas, outras carvão

é por dentro que me passa

a vida por trás dos olhos

preenche a cabeça inteira

da massa leveda dos sonhos

mais que tudo é por dentro

nas curvas do coração

que tenho coisas tremendas

tenho um medo que não cessa

tenho dele esta canção

tenho deuses e monstrengos

e uma ponte para amanhã

uma nave de futuro 

que já partiu, temporã


é por dentro que me passa

a vida por trás dos olhos

preenche os meus dias todos

da massa escura dos sonhos


Lucian Freud, Lying by the Rags, 1990



quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Ler para escrever. Ler também para outras coisas - muitas, todas.


Depois de anos na escrita, ainda não sei quando é que se passa de "pessoa que escreve umas coisas" a escritor. Quando é que se atravessa essa linha: quando se completa um original? Quando uma editora aposta no original? Quando surge a primeira opinião sobre um trabalho publicado? Quando se ganha um conjunto de leitores? Quando o nome é reconhecido? E se não publica durante algum tempo, um escritor deixa de o ser? E quando não publica mais nada? 

Fiz essa pergunta numa story do instagram. Este foi o resultado (sim eu sei, ainda não tenho 3 milhões de seguidores, eh!). Não houve, claro, grande consenso. Eu também não sei responder a nada disto. Talvez não seja mesmo possível encontrar uma resposta consensual... e creio que não importa, de qualquer forma. Cada um com o seu ponto de vista, não é verdade? Para um escritor, o que importa é ser lido.

E, antes disso, o que importa é LER. LER, LER, LER. 

Sou leitora desde que me lembro de saber juntar palavras. Não, desde antes disso, com imagens, com as histórias que me liam, com as que de certeza inventava. Há momentos de menos inspiração, momentos em que mal leio e muitos momentos em que não sou capaz de escrever. Mas uma coisa não existe sem a outra - ser escritor sem ser leitor? Não compreendo. Já ouvi por aí afirmações de escritores (não vou questionar se o são ou não, ainda agora concluí que não sei definir o que isso seja) ou aspirantes a escritores que "nunca leram um livro" ou "leem pouco". Como? Como?? Ser um bom leitor está na base de ser um bom escritor. Isso não significa obrigatoriamente ler apenas bons livros. É preciso ler bons livros, claro. Mas ler livros excelentes, bons, medíocres e maus ensina-nos muito sobre como se escreve. Mostra-nos o caminho que queremos seguir e quem somos enquanto escritores. Define uma base essencial de referências, de estruturas, de tópicos fundamentais que fazem a literatura. Salvam-nos de armadilhas e clichés, se estivermos atentos, ou permitem-nos usá-los "tongue in cheek". Não temos de escrever como os autores que mais admiramos (é evidente), mas eles estruturam o nosso modo de olhar para a literatura - para a escrita. 

E que mais nos oferece a leitura, enquanto escritores, mas também enquanto leitores? Como seres humanos? Muito. Oferece-nos mundo, interior e exterior. Ler aprofunda a inteligência, a criatividade, melhora a concentração, o humor. Dá-nos paisagens novas, quantas delas imaginárias, e dá-nos gente, mesmo quando o tempo, o espaço e a gente nos falha. Ajuda-nos a compreender modos diferentes de estar, de pensar, de querer: faz-nos seres humanos melhores, mais empáticos. Abre a porta a um melhor entendimento de nós mesmos. Alarga o vocabulário e a elasticidade da estrutura frásica, e com isso melhora a capacidade de descodificar qualquer tipo de mensagem, direta ou subentendida, e de comunicar, de forma direta ou entrelinhas. Saber ler evita muitos enganos, permite-nos fazer escolhas em consciência, sem sermos enganados por discursos fáceis e teorias atraentes.

E faz companhia. Consola. Distrai. Ensina. Exige. Oferece. Precisamos de tudo isto, neste momento. Sempre.

Por tudo isso, é importante incentivar a leitura nos jovens, apesar da resistência, e ajudá-los a encontrar a "sua" leitura (porque sim, acredito que todos gostamos de ler, se encontrarmos o livro certo, no momento certo), e alimentá-la sempre, mesmo que pareça ter pouca fome. E por isso é que o livro é bem essencial. É necessário que o amor da leitura nasça de bons livros? Não. É necessário que nasça. O resto é um caminho.


Nota: estou a ler Fahrenheigt 451, um pouco assustada com o seu caminho de estupidificação geral (ser ignorante é ser feliz?), que conduz à eliminação e diabolização do livro. Tantas semelhanças! Parece-me que estamos nessa senda. Será irremediável?

Imagens: Norman Rockwell

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

a festa - poema

Ele ajeitou a gravata
ela tinha os sapatos difíceis de usar
sairam juntos de casa
mesmo assim ele muito mais alto
ele notou que o vestido dela
lhe ficava bem
não disse nada
ela achou que ele cheirava
a mar 
e sorriu-lhe muito tímida
no caminho ela sacudiu o cabelo
pelo menos quatro vezes
ele pôs os olhos na estrada
apertado na gravata
e no silêncio da rádio entre eles
o dia inteiro a noiva sorriu
e o noivo sorriu
o dia inteiro ele um estranho
ela lembrou-se dele
quando ele a amava
sentiu-se dorida
nos pés e no centro da farsa
mas sorriram ambos
beberam champanhe
comeram bolo
não dançaram juntos
como antes do amor se esconder 
atrás das festas
do silêncio da rádio
do vazio da casa sem filhos
no regresso 
era noite cerrada
ela achou que estava velha
ele que era sempre 
noite
e os dois fechados nela
em casa ele tirou a gravata 
ela os sapatos
nenhum a mortalha 
de saudades
adormeceram assim
um de cada lado
cansados ambos da festa
e da impossível
e muda cordilheira 
de silêncios




quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

A Oeste Nada de Novo - Erich Maria Remarque. Que faço eu com esta leitura?

Terminei ontem a leitura de A Oeste Nada de Novo. Há algum tempo que estava para terminá-lo. Tinha lido várias passagens quando fiz a minha pesquisa para O Ano da Dançarina (passagens terríveis) e ganhei agora coragem para lê-lo de uma ponta à outra. 

Esta é a opinião que deixei no GR. Aqui fica também, porque TEM DE SER. Leiam-no, se faz favor. Leiam-no. 

"Hesitei bastante entre escrever uma opinião a quente, com os sentimentos à flor da pele, ou deixar as ideias organizarem-se, para redigir um texto mais organizado e fundamentado. O livro merece ambas as opções, mas acabou por vencer a primeira.

Na capa, uma curta frase defende que há obras que deviam ser lidas por todas as gerações - sugerindo, presumo, que esta é uma delas. Talvez seja verdade. O certo é que, em mim, provocou um efeito devastador. Escrevo com uma sensação dorida de vazio, e alguma vergonha de senti-lo... afinal, que vivi eu que se comparasse? Não me recordo do exodo que me trouxe de África, era pequena, e de qualquer forma a violência foi outra, e vivo esta pandemia no conforto da minha casa, assistida pelo acesso ao Mundo através dos ecrãs, com alimento, livros, e gente.

Impressionou-me a absoluta ausência de silêncio, Paul refere que o som da batalha os acompanha em todos os momentos, mais próximo ou mais distante, e parece-me que, do sossego do meu sofá, posso ouvi-lo também. Impressionaram-me as condições de vida, a má alimentação, higiene e vestuário, os piolhos, a rataria, a lama, o sangue. Impressionou-me a morte dos cavalos. Impressionou-me a capacidade de improvisar e sobreviver. Impressionou-me ter-me esquecido que estes são soldados alemães... não, são meninos lançados para a morte, e nisso a nacionalidade não importa. Nem, de certa forma, a eles próprios. Estes rapazes lutam com a consciência da (quase) inevitabilidade da morte, de uma forma muito distante da percepção abstrata e distante no tempo que temos dela e, no momento em que está sobre eles e em seu redor, não lutam por uma nação, mas por si próprios e pelos que estão ali, ao seu lado, contra os que atacam do lado de lá. Quem são? Pouco importa.

Há violência de ir às lágrimas, e o autor não nos poupa. Nem deveria. É um livro de guerra e a guerra é mais do que um palco. Assistimos à destruição física de uma geração - deparamo-nos com a descrição vivíssima e crudelíssima de ferimentos de todos os tipos e, como diz Paul, o narrador, em todas as partes do corpo, e de mortes atrozes. Pareceu-me algumas vezes insuportável, não apenas a morte, mas a vida: a forma como estes rapazinhos, mais ou menos da idade dos meus filhos, sobrevivem, transitando entre uma animalidade indiferente, em que, no momento da batalha, o medo é uma coisa física que lhes assegura o instintio de sobrevivência, e momentos de leviandade, sempre que estão um pouco mais afastados da Frente. É assim que Paul o descreve. É assim que o vemos. Sobretudo, pareceu-me insuportável compreender como esta geração de rapazes atirados dos bancos da escola para a guerra, que toma forma em Paul, se vai esvaziando de ligações com os seus lugares, memórias e gentes, de perpectivas e desejos para o futuro e, quase no fim do conflito, se percebe presa entre outras duas: a que tem algo para que voltar, uma família, um trabalho, e a que, segundo diz "é agora como nós costumavamos ser, e essa geração ser-nos-à completamente estranha e atirar-nos-à para o lado". Não será sempre assim nas guerras, feitas às custas das vidas dos jovens?

A Oeste Nada de Novo é uma narrativa ficcional. Mas o que nela se encerra não é, pois não?"