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quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

O monstro deseja-lhe BOAS FESTAS!

 Neste que foi um ano tão estranho, com todo o ar do início de uma terrível distopia, mas ao qual estamos - e vamos - sobreviver, é fundamental celebrar.

Pouco importa se somos cristãos ou, como eu, ateus, se celebramos em família ou nos resguardamos e os resguardamos a eles, vamos enfeitar e cozinhar e comer e beber e amar, e guardar connosco um pouco da força e da alegria desta quadra para as batalhas que ainda nos esperam.

Um FELIZ NATAL!



segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

AS RENAS TÊM FRIO - onde a escritora se atreve a ler a história que escreveu para os filhos

Quando os meus filhos eram pequenos, costumava escrever-lhes histórias, sobretudo no Natal. Esta é uma delas, aqui está, para que os graúdos a partilhem com os miúdos, se gostarem dela.


Inês Soares (www.instagram.com/an.other.ines)



sábado, 24 de dezembro de 2016

Esta noite não!

Este foi para os meus filhos, quando eram pequeninos, com direito a um livrinho, com desenhos (que não este) mais giros que o conto. 

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Todos os meninos sabem que, na véspera de Natal, sem falhar, desde que há Natal no mundo, São Nicolau põe todos os brinquedos no seu trenó, junta as renas à sua frente e, juntos, correm os céus para entregar brinquedos nas chaminés - e janelas! - das casas que celebram esta data. São muitas renas e muito especiais, porque são rápidas como o vento e tão espertas que até sabem falar.
Certo Natal muito frio, estavam as renas reunidas-se no seu redil no Pólo Norte, a conversar sobre a noite seguinte, quando uma rena muito grande e sempre mal disposta resmungou:
- Pois eu não sei porque é que temos que andar por aí numa noite tão fria. Os outros animais ficam nas suas tocas!
Continuou a protestar, a protestar, contagiando cada rena com a sua irritação. Umas diziam uma coisa, outras diziam outra e às tantas diziam todas o mesmo, mas não se entendiam Fizeram tanto barulho que as luzes na casa de Nicolau se acenderam e ele saiu, de camisa de dormir e grandes pantufas encarnadas. A barba branca e as bochechas brilhavam ao luar.
- Mas o que é que se passa aqui? Preciso de dormir, amanhã é a grande noite!
- Tio Nicolau, - disse uma rena de hastes tão grandes que chegavam aos ramos mais baixos do abeto - nós este ano não queremos andar por aí na véspera de Natal. Não vamos contigo entregar os brinquedos. Temos frio!
O Pai Natal ficou muito admirado e muito aflito.
- Mas, queridas renas, vocês dormem sempre na rua! E...
Um coro de protestos interrompeu-o. Que não era o mesmo, que lá em cima nos céus estava mais frio, que estavam fartas.
- Mas então como é que eu levo os presentes aos meninos? Eles vão ficar tristes este Natal?
As renas pensaram e pensaram.
- Vai de carro. – sugeriu uma lá do fundo – Os carros são rápidos e não têm frio como nós!
- Os carros não voam, renas! Como é que eu vou  atravessar os oceanos para levar os brinquedos até ao fim do mundo?
Uma respondeu, numa vozinha atrevida:
- Então vai de avião. Os aviões voam.
O Pai Natal abriu muito os olhos. As renas estavam a gozar com ele? Que ideia tão estranha! O Pai Natal, de avião? Nunca se tinha visto tal coisa. A perder a paciência, lembrou:
- Os aviões passam lá muito em cima! Com um avião, eu não consigo chegar às chaminés e muito menos às janelas. Como é que eu entregava os brinquedos? Se os atirar, partem-se, e ainda posso enganar-me na casa... E se a Marianinha fica com o carro vermelho e o Luís com a boneca dela?
As renas ficaram muito aborrecidas. Já não tinham mais nenhuma ideia, mas eram muito teimosas, e por isso baterão o pé... ou o casco, que é o que as renas têm no fim das pernas!
- Pois, nós não sabemos como vais fazer, tio Nicolau, mas queremos ficar em casa. Temos muito frio e queremos ficar por aqui.
Nicolau ficou a olhar para elas, muito triste e zangado e sem saber o que fazer. Era um problema, aquilo. Uma das renas, que já era um bocado velhota e estava com ele há muitos anos, furou pelo meio das outras até à cerca e sorriu para ele, daquela maneira especial que as renas falantes têm de sorrir.
- Eu estou velha e com pouca força, Nicolau, mas não quero que os meninos do mundo fiquem sem Natal. Vou contigo. Nós os dois vamos conseguir levar os presentes aos mais pequeninos.
Nicolau, tão preocupado que nem notara que começava a formar-se gelo na sua barba e sobre os seus cabelos brancos, respondeu:
- Obrigada, minha querida, mas sabes... só nós... não vamos conseguir entregar todos os presentes. É impossível. Há tantos meninos no mundo, e só os dois, com o trenó tão pesado, vamos muito devagar de certeza.
Olhou para as renas, que baixaram a cabeça, um pouco envergonhadas mas cheias de teimosia, e voltou-lhes as costas. Já não dormiu mais nessa noite, mas não conseguiu descobrir nenhuma solução. 
A noite seguinte estava uma bela noite, com uma lua muito gorda e brilhante reflectida na neve muito branquinha. Mas para o Pai Natal, a noite não estava nada bonita. Ficou muito tempo a olhar para a montanha de presentes no trenó. Sacudiu a cabeça, desanimado, ajeitou o gorro e atrelou a sua única rena fiel. Estalou a língua e sairam os dois, a rena bufando e suando para arrastar todo aquele peso. Iam levar aos meninos tantos brinquedos quantos pudessem. Enquanto se afastava pelo céu escuro, Nicolau pensava que aquela ia ser a noite de Natal mais triste de sempre.
Da janela, as renas viram-nos afastar muito devagar, a muito custo, e ficar cada vez mais pequeninos, mais pequeninos, até desaparecerem no horizonte. Tinham entrado em casa de Nicolau, como faziam sempre depois de entregar os presentes, para se sentarem à frente da lareira bem acesa e quentinha, mas o calor não lhes chegava ao coração, que lhes pesava como uma grande pedra de gelo. Já não tinham muita certeza de terem razão. Levar os presentes aos meninos era um trabalho muito importante. E, afinal, lá em cima no céu estava sempre frio... era assim mesmo, desde sempre, e elas nunca se tinham importado. Gostavam de voar nos outros dias e tinham orgulho do seu trabalho. De onde lhes viera a ideia de ficar para trás?
- O que é aquilo ali? – perguntou uma rena mais pequenina e curiosa, ainda à janela.
Sairam lá para fora e viram, debaixo do grande abeto decorado lá fora, muitos pequenos presentes. “RENA”, era o que estava escrito em cada um. Muito admiradas, porque sabiam que não se tinham portado bem, rasgaram o papel com a boca e descobriram... belos cachecóis quentinhos, gorros de lã especiais para renas e lindas pantufas, quatro para cada, para aquecer as suas patas preguiçosas.
- Ai,ai,ai,ai, ai... – queixou-se uma rena e, num instante, todas se queixavam.
Estavam muito, mas mesmo muito envergonhadas. Tinham sido tão teimosas e o Pai Natal, mesmo assim, não se esquecera delas e daquilo que elas mais desejavam: estar quentinhas nesse Natal. A rena grande e resmungona ficou calada e as outras conversaram durante um bocadinho.
- Vamos?
- Vamos!
Puseram nas patas as pantufas, nas cabeças teimosas os gorros, enrolaram os cachecóis nos pescoços e saíram atrás de Nicolau, pelo caminho que sabiam de cor. Encontraram-no logo a seguir. Tinha andado pouco, com aquele trenó tão carregado e só uma rena, ainda por cima a mais velha e cansada de todas as renas, e estava parado mais adiante para deixá-la descansar. Nem um presente fora entregue ainda e Nicolau suspirava de desânimo. Pousaram ao seu lado.
- Desculpa-nos, Nicolau, desculpa-nos. Nós fomos casmurras, mas estamos arrependidas e queremos ajudar-te a levar os presentes. Podemos? Vamos a tempo?
Ele soltou uma gargalhada, as grandes bochechas brilhando de felicidade.
- Estou um pouco desapontado convosco, minhas amigas, mas nesse momento isso não importa: o que importa era o Natal dos meninos! Vamos embora! Depressa!

As renas alinharam-se na sua posição habitual, com a velha rena entre elas, sorrindo o seu sorriso de rena, Nicolau atrelou-as, a rena de nariz brilhante à frente, a apontar o caminho, com a cabeça bem erguida, e partiram e direcção às estrelas, para que todos os meninos tivessem Natal.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Feliz Natal!

Um lindíssimo conto de fadas Nova Iorquino, com perfume irlandês.

E o Monstro deseja um Bom Natal para todos vós!



quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O primúltimo Natal, faz-de-conta-que-é-uma-recordação

Um pequeno texto, que não chega a ser um conto.

Trago as recordações agarradas à barriga. As grandes ocasiões e os momentos especiais fazem-se, parece, quase todas no prazer imediato da mesa, nenhum há que não mereça um jantarinho, a dois ou a muitos.   

Trago pois na barriga a recordação do meu primeiro Natal na mesa dos grandes, o último em que estivemos todos juntos. Tinha passado o metro e setenta e a barreira dos treze anos no Verão de 98 e vi-me, pois, promovido de um momento para o outro à digna condição de adolescente – descobri depressa e sem celebração que não havia nada de digno nela. A barriga não me ficou grata na altura, que o apreço pelos sabores do Natal adulto só se aprende em adulto. O rapaz que eu era sentou-se entre a tia-avó e o primo Alfredo, e irradiou um orgulho intenso, até ao momento exacto em que a travessa de bacalhau fumegante foi colocada mesmo à minha frente. Lancei um olhar de desespero à minha mãe, que mo devolveu sem piedade e eu engoli em seco… é estranha a nitidez com que recordo o olhar da minha mãe e do meu gesto, um quase nada. Quase quebrei, nesse momento, mas a avó também me tinha debaixo de olho e endireitei as costas. Comeria bacalhau como um adulto, enquanto as crianças comiam uma bela bolonhesa. 

A avó estava preocupada comigo... com o meu comportamento. Todos os Natais se preocupava com tudo, na verdade, com a comida, com o avô e com os netos, antes desse e muito, muito mais, depois desse, com a decoração, com o penteado, que, dizia ela, tinha abatido com o vapor das panelas. Eu fitava, desconfiado, o ninho alto que era o seu cabelo, tentando adivinhar que alturas teria atingido antes de abater. O avô comia e bebia toda a noite às escondidas da avó, como um miúdo, enquanto ela protestava “olha o estômago”, “olha o coração!”, mas fingia que não via mais um sonho desaparecer. A tia, ao contrário, queixava-se da linha, refilando com os quilos a mais na balança, e eu pensava que, na verdade, ninguém a forçava a comer… e que bem comia!  A mãe, as duas mães ali presentes, mantinham um olho nas crianças, a minha irmã e os meus primos e primas, que, de jantar terminado, rondavam os presentes na árvore. Nesse ano, já não estava com eles, mas invejava-os, enquanto suspendia a respiração e metia garfadas de bacalhau na boca.

A minha melhor recordação desse Natal é da tia-avó, que  cheirava a pó de talco e naftalina, odor que só mais tarde vim a identificar, e não se lembrava da minha existência. Começou por fitar-me com desconfiança, quando me sentei ao seu lado, e perguntou “Mas quem é este homem?” Chegou a levantar as mãos encarquilhadas na minha direção e eu desejei intensamente que me empurrasse da cadeira abaixo, o que teria sido hilariante, ou fizesse uma das suas famosas birras, que envolviam sempre muitas lágrimas de crocodilo, que secavam assim que lhe punham à frente um chocolate ou um cálice de Porto, e muitas lamentações “Aiii, já ninguém me quer”, “Aiii, ninguém me respeita”, ela, que vivia com a filha viúva e, segundo dizia a minha mãe, lhe infernizava o dia e a noite. A tia-avó desapontou-me: sorriu-me com uma dentadura de dentes demasiado grandes e demasiado brancos e deu-me uma palmadinha no braço.  

Foi ela quem me distraiu do tédio desse jantar. Primeiro, porque comia com um bater de castanholas da dentadura que colocava na cara da avó uma expressão de impagável consternação. O tio Alfredo, o mais jovem dos adultos, trocava comigo olhares de júbilo e, de quando em quando, batia ruidosamente os dentes na minha direção. Depois, porque a tia tinha os olhos baços e tremiam-lhe as mãos, mas não lhe falhava nem garfio, nem faca: comeu e bebeu mais do que, julgava eu, pudessem comer e beber as pessoas velhas, tão depressa que me perguntei se teria uma dentadura a turbo. Por fim, de prato já vazio, enquanto os adultos ainda terminavam, começou a cabecear e a inclinar-se na minha direção. A avó fez-me sinais desesperados para endireitá-la discretamente, mas eu fiz de cionta que não via. Queria que caísse em cima de mim, para ver o que acontecia. Quem a safou foi o tio Alfredo, que saltou do lugar e a apanhou por um triz… Ela  acordou com um sobressalto e desatou a bater nas mãos do tio, aos berros “Mas quem é este homem?” Depois disso, com pena minha, acabou o divertimento. Levaram-na para o quarto da avó, para descansar, e deixaram-na dormir enquanto nos empanturravamos de açucar e abriamos os presentes.


As recordações desse jantar ridículo revestiram-se depressa de ternura e melancolia. Entre esse meu primeiro Natal adulto e o meu segundo Natal adulto, a expressão perdeu significado. A tia-avó morreu do coração. O tio Alfredo, que é médico, arranjou trabalho na Austrália  e não pode vir. A tia casou-se com o tal fotógrafo, e as vésperas passaram a ser um ano em cada família. Nesse ano, o primeiro, calhou na dele. Os meus pais divorciaram-se, e eu e a minha irmã passamos a dividir-nos entre a véspera com a mãe e o dia com o pai. Os presentes a dobrar e as viagens à Austrália, concluímos, não compensavam os lugares vazios à mesa. No ano seguinte, eramos muito menos à hora da ceia e sentamo-nos todos, adultos e crianças, numa nostalgia vestida de sorrisos, que demorou anos a esbater-se. Antes da ceia, falamos com o tio por skipe. Estava de mangas curtas e pronto para passar o Natal na praia. Depois, a avó chamou-nos a todos. As crianças passaram a sentar-se com os adultos. Ao meu lado, em vez da tia velha e das suas castanholas, estava a chata da minha irmã mais nova.  Do outro lado dela, em vez do tio Alfredo, estava a minha prima Luísa, que acabara de fazer os treze anos, mas nunca conheceria o gosto particular de ser promovida à mesa dos adultos.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O Regressado - conto de Natal no Crónicas...

A blogueira Vera Carregueira pediu a alguns autores um presente de Natal especial: um conto para o seu blogue . Este é o meu.


O Regressado

Abriu a porta e saiu para a noite fria, abandonando atrás de si o calor da taberna e os sons familiares dos homens, risos e ruídos, pequenas discussões sem propósito nem consequência, o abandonar das tensões e dos medos nessa bolha de ilusória protecção, antes do regresso nocturno à família ou à casa vazia. O odor da neve substituiu o perfume azedo do vinho e ele respirou fundo. Arrependeu-se assim que o ar gelado queimou o seu caminho até aos pulmões, lhe afastou a indiferença do álcool como quem afasta de repente uma cortina e lhe revelou a exaustão absoluta e impiedosa que há muito lhe contraía os músculos. Espalmou a mão sobre a porta escura, agora fechada, para sentir a rugosidade antiga da madeira. Tinha vontade de ficar ali, onde não importava.
- Mas é preciso regressar.

(...) 

podem ler o restante, porque ainda falta um pouco, no blogue Crónicas de uma Leitora. Enjoy!


Os restantes contos são, por ordem de publicação:

domingo, 14 de dezembro de 2014

Para quem tem a caixa de correio atolada,

e já nem sequer tem crianças em casa... ou tem crianças em casa que assinalam TODOS os brinquedos do catálogo e nos torturam a pedi-los "Vá lá, vá lá, vá lá, váááá lááááá, é o Pai Natal!"


Claro que a seguir a criança com a birra sou eu, "Quero este! E este! Ai este!", e a maldita pilha TBR a crescer, crescer... Mas já sabem como é, antes tê-los e não os poder ler, que querer lê-los e não os ter!

domingo, 30 de novembro de 2014

Operação Livros no Sapatinho - para receber?


... uma montanha de livros tão grande que de certeza não tivesse dias na minha vida para lê-los todos, nem que vivesse 190 anos!

... tempo. Para poder escrever, escrever, escrever!

E vocês, o que gostavam de receber?

domingo, 16 de novembro de 2014

Dez razões para oferecer livros no natal

Há muitas mais, mas estas dez já chegavam.


Juntem-se (AQUI) à Operação Livros no Sapatinho, e incentivem a leitura neste Natal!

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Operação Livros no Sapatinho - IMAGINAUTA

Como é que o monster, que gosta tanto de livros, podia não se juntar a uma iniciativa que tem como objectivo inventivar a leitura e o livro como presente de Natal?
Para já, "roubo" o que está na página do Imaginauta, AQUI. Mais tarde, espero ir divulgando o cartaz e outros elementos do kit proposto.
"Este Natal, a Imaginauta estreia a Operação Livros no Sapatinho (OLS) e conta com todos vocês para levar a missão a bom porto.
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O que é a OLS?
A Operação Livros no Sapatinho é um conjunto de acções simultâneas de todos os voluntários que se juntem a nós que pretende promover a leitura e, mais especificamente, o livro como a oferta perfeita para presentes de Natal.
Em que se inspirou a OLS?
Todos os anos na Islândia acontece a chamada Jolabokaflod, que se traduz como “a inundação natalícia de livros”. De Novembro a Dezembro toda a gente procura recomendações de livros, fala-se de livros no cabeleireiro, recebe-se catálogos de livros no correio e isto tudo porquê? Porque quando chega a noite de 24 para 25 de Dezembro, o presente que estes insulares mais gostam de dar e receber são livros. E nós pensámos: e se isto acontecesse em Portugal?
Como posso participar?

A Imaginauta preparou um kit com um Manual de Combate, selos, banners, sugestões de actividades e um cartaz com 10 razões para oferecer livros (existem mais, estamos à espera que nos digam quais), tudo reunido em torno de um design muito simples, para fácil identificação de pertenção à Operação e que convida os participantes a fazerem os seus próprios materiais se o desejarem.
Quem pode participar?
Toda a gente que ame livros: leitores, escritores, editores, livreiros…Durante o período da OLS, a Imaginauta irá fazer a cobertura nas redes sociais das acções, sejam elas dentro ou fora do espaço virtual.
Caso haja alguma dúvida, questão ou sugestão, façam-na. A Imaginauta está sempre disponível para enriquecer o kit."

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Um presente de Natal - pode é ser envenenado

Publiquei este excerto d'A Chama ao Vento pela primeira vez no ano passado. Este ano, tão perto da publicação digital (fingers-crossed) deste livro, e logo nesta quadra, achei a propósito republicá-lo. 

É longo, mas... quem já o leu, talvez goste de revê-lo. 
Quem não leu, enjoy!



Era o seu primeiro Natal ali. Tardou a aperceber-se de que se aproximava, tão perdido estava ainda na confusão da ausência, da nova vida e da nova escola. Era tudo tão diferente, não entendia nada. Aprendera coisas novas, como estar só e como existir secretamente, sem chamar a atenção dos professores ou dos outros rapazes, numa escola tão grande, que ainda o fazia tremer todas as manhãs. Como enterrar fundo as perguntas que o sufocavam, esmagá-las com punho do medo. Aprendera a reconhecer o momento em que a garganta se fechava e a questão disparava na sua cabeça, de surpresa, e a travá-la. Queria saber onde estava a mãe, mas não era capaz de perguntar. E ninguém lhe dizia. Os dias corriam, há muito despidos da sua modorra de verão, e ninguém lhe dizia nada.
Quando finalmente reparou nas montras das lojas, enfeitadas de cores garridas e luzes, e começou a ouvir os amigos da escola a falar sobre prendas, as pistas de carros eléctricas e as bonecas que faziam xixi, Francisco sentiu um lampejo de esperança. Era Natal! Era Natal e a mãe ia voltar, para o passarem todos juntos. Nunca tinham estado separados nessa altura. Havia de vir e talvez até o levasse para casa, para cear com a Nathalie e o pai.
Não. O pai não. Tinha uma voz na cabeça que lhe dizia que o pai não poderia vir, que tinha alguma coisa de importante para fazer nesse ano. Imaginou-o nalgum lugar desconhecido, a descobrir coisas secretas e maravilhosas, por exemplo uma maneira de viverem na Lua ou de chegar depressinha a Marte, para lá viverem quando a Terra estivesse cheia. Por isso é que os homens tinham vindo, porque ele era preciso para salvar as pessoas. Mas a mãe já devia ter acabado o que tinha que fazer, já passara tanto tempo, e viria. Ficou à espera de que, a qualquer momento, a avó anunciasse que a ela tinha telefonado, ou mandado uma carta, a dizer quando chegaria, com os braços carregados de presentes.
Não quero presentes. Nem carros, nem livros, nada, desde que a mãe venha buscar-me, pensou. Gostava da avó, que era boa, mas sentia-se mal naquela casa triste, silenciosa e fria. Fazia frio na casa dos avós, frio por dentro. Queria os braços quentes da mãe. Ela tinha que vir. É melhor escrever ao Pai Natal. E rezar ao menino Jesus.
Escreveu a carta, muito atento por causa dos erros. Surrupiou um envelope da escrivaninha da avó e redigiu com cuidado o endereço, “Pai Natal, Polo Norte”. Sentiu uma vaga de incerteza ao olhar para o envelope. Chegaria? E se não chegasse, o que podia acrescentar? Levou-a aos correios e perguntou à senhora que o atendeu. Ela sorriu-lhe.
- Então, pois claro que chega! Os Correios chegam a toda a parte. E toda a gente no Polo Norte sabe onde fica a casa do Pai Natal. – respondeu animadamente, com uma piscadela de olho – Então o que pediste, uma bicicleta?
Ele ia sacudir a cabeça primeiro, de olhos arregalados, mas parou. Como se dizia a uma senhora que se tinha pedido a mãe? Envergonhado, assentiu.
- Então, fica descansado que a carta vai chegar num instante. Mas põe o teu remetente para ele não se enganar.
Fez como a senhora disse, escrevendo com desvelo o seu nome e a morada dos avós, que ainda agora aprendera, para que o Pai Natal não se enganasse. Não queria que mandasse a mãe para uma casa onde já houvesse uma e ninguém precisasse dela, quando a ele lhe fazia tanta falta, que até tinha um buraco no peito. Terminada a tarefa, lambeu com cuidado a banda de cola no envelope, deliciado com o sabor amargo a vitória antecipada, e entregou-a orgulhosamente à senhora simpática.
Voltou para casa com o coração a rebentar de alegria e comeu animadamente o seu pão com marmelada do lanche, com tanta satisfação como se a mãe já estivesse ao seu lado. O Pai Natal havia de fazer-lhe a vontade, afinal, não tinha pedido mais nada, não havia mais nada que quisesse. Para assegurar-se de que era ouvido, nessa noite ajoelhou junto à cama, como a avó o obrigava a fazer todas as noites e, em vez de aldrabar as preces para poder ir dormir, demorou-se, rezou o melhor que sabia e acrescentou à pressa “Por favor, traz-me a mamã no Natal”. Não repetiu, o menino Jesus podia não gostar de rapazinhos pedinchões. Sonhou a noite toda com a chegada da mãe, os braços abertos para o abraçar com muita força. Cumprimentava os avós, que por uma vez haviam de sorrir, e comiam o bacalhau todos juntos. Abriam os presentes e, quando a festa terminasse, iam para casa, para Francisco poder dormir outra vez na sua cama.
A sua esperança principiou a desfazer-se quando a escola fechou para o Natal. Ainda não tinha chegado nenhuma notícia e já só faltavam dez dias. Nos primeiros dois ou três, esteve atento ao telefone, espreitando discretamente o correio, ainda fechado, em cima do tampo de mármore da mesinha de entrada. Mas as horas, os dias esgotavam-se e nada acontecia. Não sabendo nomear, em palavras de criança, esses sentimentos que lhe dividiam o peito, sentia fundo o medo, a esperança, o desespero, e engolia as lágrimas, agarrando-se à ideia de que ainda faltava muito tempo, nove dias, oito, sete... 
Cinco dias e doíam-lhe a garganta e o coração, como no início, tão apertados que mal conseguia respirar. Sentia as lágrimas, mas não chorou, o céu fazia‑o por ele. Por esses dias chovia interminavelmente, e a chuva lá fora soava exatamente como o rio tumultuoso que lhe corria por dentro, sem que ele soubesse dar-lhe um nome. Mas era por ele que caía, a chuva. Talvez o menino Jesus, incapaz de atender o seu pedido, chorasse de frustração. 
Distraiu-se com outras coisas, mas não era animadoras. Porque é que a avó ainda não tinha ido comprar o bacalhau, como a mãe fazia todos os anos? Porque não montara uma árvore de plástico carregada de enfeites, bolas e fitas farfalhudas e de bonecos de chocolate? A três dias do Natal não havia árvore na casa dos avós. Chico quase se ofereceu para a arranjar ele próprio, até ia com a avó à loja comprar o bacalhau, se ela quisesse, porque nesse Natal não desejava outra coisa que não fosse esse peixe que nem parecia peixe, com as couves que sabiam a meias sujas...  e se a mãe viesse, comeria dez quilos de bacalhau e couves com um sorriso na cara. Podia ajudar a avó a fazer rabanadas, gostava de rabanadas, e filhós. Espreitou na despensa e em todos os armários, pensando que talvez a avó tivesse ido às compras há muitos dias, enquanto ele estava na escola. Não havia nenhum bacalhau nem uma couve gigante num alguidar no chão. Mas havia um Presépio de porcelana em cima do aparador, o menino com a Maria e o José, uma vaca e um burro, todos muito feios mas terrivelmente benvindos. A avó sabia que era Natal. Mas então, porque não acontecia nada?
Quando a televisão dos avós começou a mostrar imagens dos presépios no país, cheios de figurinhas, muito mais bonitos, a preto e branco, do que os do aparador da avó, Chico não aguentou mais. Foi ter com ela, que terminava o jantar na cozinha, e sentou-se num banco, muito quieto. A avó lançou-lhe um olhar rápido, e foi espreitar para dentro de uma panela. Francisco levou algum tempo até ter coragem para falar, e a avó também não o encorajou.
- Avó? – acabou por chamar, timidamente.
- Se tens fome, estou mesmo a acabar. Vai lavar as mãos.
- Sim, avó, vou já. – hesitou – Vó?
A avó franziu-lhe o sobrolho, mas não havia energia na sua reprimenda.
- Vó, o que é que vamos cear no Natal? Não é bacalhau? – a pergunta que tinha a engasgá-lo era outra, mas não tinha palavras para ela.- O avô não gosta?
A avó levou uns segundos até lhe responder.
- O avô gosta de bacalhau.
- Que pena – suspirou ele – pensei que se calhar ceávamos outra coisa.
- Ceamos o habitual, Francisco. Não fazemos festa.
Foi a vez de Francisco franzir as sobrancelhas. O coração batia-lhe no peito.
- Ó avó, mas... e as rabanadas?
- Não há rabanadas.
- Nem filhós?
- Não.
- Nem...
- Não, Francisco, não há rabanadas, filhós, sonhos ou qualquer outra sobremesa. Cá em casa, vai-se à missa do Galo e pronto.
Francisco não conseguia conceber um Natal que não era Natal, mas era isso que a avó lhe dizia, que ali em casa era como se não houvesse Natal. E, se ele não existia, como é que a mãe podia vir celebrá-lo com eles?
- Mas é Natal, avó. No Natal há sempre uma ceia, e presentes, e...
- Queres um presente, é isso? – a avó aproximou-se dele e arranjou-lhe a gola alta da camisola – Diz lá o que queres, pode ser que se arranje.
- Não, vó, não é preciso! Já pedi ao Pai Natal, mandei-lhe uma carta e tudo! – um grande suspiro rolou-lhe pelo peito, incontrolável, e confessou – Eu não quero um presente, vozinha... só queria que a mãe viesse.
A avó abandonou a gola e, por um instante, pareceu a Francisco que os seus ombros tinham descaído um pouco mais. Depois endireitou-se, e a sua expressão era tão séria que Chico estremeceu. Engoliu em seco, sem se aperceber, ou talvez engolisse as lágrimas, que não queria chorar mas teimavam em querer sair. A avó puxou uma cadeira e sentou-se à sua frente.
- Francisco, a mãe não pode vir. Ela...– respirou fundo – A mãe foi trabalhar para o estrangeiro, para a terra dela. A Alemanha é muito longe e a viagem é muito cara. A mãe não vem, Francisco.
- Mas é Natal, - protestou ele, com as lágrimas quase a cair – e eu pedi ao menino...
- O menino Jesus não pode ajudar-te, Francisco, nem o Pai Natal, nem ninguém. Não chores, Francisco, que chorar não vai trazer-te a tua mãe. – limpou-lhe as primeiras lágrimas – As lágrimas, por muitas ou sentidas que sejam, não nos devolvem os que nos deixaram.
Francisco não percebeu inteiramente as suas palavras, mas percebeu o essencial: a mãe não ia voltar, nem neste Natal, se calhar nem no próximo... Estava na terra dela, que Chico sabia que era muito, muito longe. Tinha-o deixado ali e não vinha buscá-lo. Quase disparou “Avó, ela nunca mais volta?”, mas o rosto da avó estava fechado, tão triste, como se soubesse que lhe doía o buraco no peito e lhe apetecia chorar para sempre. Levantou-se do seu banco e secou as lágrimas com as mãos.
- Não faz mal, avó. – desviou o olhar dos olhos cansados da avó – Vou lavar as mãos para o jantar.
Não voltou a falar da mãe, nem da ceia, nem de nada. Nem voltou a rezar, nunca mais, afinal nem no Natal o menino Jesus o ouvira. Quando a véspera de Natal chegou, cearam carne assada com batatas, no mesmo silêncio que preenchia quase todos os minutos naquela casa, e foi autorizado a ver na televisão os programas de Natal. Viu‑os, sentado no sofá ao lado da avó, mas não estava lá. Estava perdido na escuridão, ardia‑lhe a garganta com o esforço para secar lá dentro o rio que o ameaçava. A avó dizia que as lágrimas não serviam para nada e ele estava decidido, numa determinação sem palavras, a nunca mais chorar.. Quando chegou a hora, vestiu o casaco e pôs o cachecol e o gorro, e sairam os três de carro para a missa do Galo. Não ouviu o que disse o padre, mal ouviu as canções que, no ano anterior, o tinham deixado tão feliz, que saltitara todo o caminho para casa. Sentou-se e levantou-se com as outras pessoas, e saiu para o ar gelado da noite, caminhando devagar à frente dos avós.
O regresso a casa, na quietude da noite, com o carro a roncar, devia tê-lo deixado com sono, mas Francisco não conseguia dormir. Encolheu-se, aconchegando inutilmente o casaco, contra o frio horrível por dentro. Queria encontrar uma maneira de sentir-se mais quente, mas a noite era vazia e escura e ele não sabia como fazer. Só sabia que estava sozinho. Em casa, tirou e pendurou silenciosamente o casaco no cabide e deixou os sapatos junto à porta de entrada, como era a regra do avô para rapazes descuidados, que podiam trazer lama nas solas, mesmo no verão quando não havia lama em lado nenhum. Disse boa noite, deu um beijo à avó porque, apesar de tudo, ela era boa para ele, e foi para o quarto.
Em cima da mesa de cabeceira, estava um pratinho com uma rabanada dourada e cheirosa, e uma caixinha embrulhada em papel colorido, com um laço azul em cima. Abriu a caixa sem entusiasmo. Lá dentro, brilhava um carrinho de plástico vermelho. Tirou-o e pousou-o na prateleira, ao pé dos livros da escola.

A rabanada, não a comeu. Estava enjoado. Ia continuar enjoado muito tempo.  

domingo, 22 de dezembro de 2013

Feliz Natal

Dos ramos pende encanto, entre luzes como estrelas caídas. De fora, as minhas estrelas contemplam com magia nos olhos o milagre de plástico repetido ano a ano.

Mãos de dedos sempre mais longos vão depositando a tradição entre as agulhas, com um entusiasmo que a idade difícil não roubou. Cresceram, chegam ambos ao cimo, e um deposita apressadamente uma estrela no topo. Endireito-a. Estala a madeira e cheira a fumo, enquanto se vai enchendo de vermelho e dourado a árvore, e o peito das canções de todas as décadas, que um sabe cantar e o outro destroi alegremente. Redistribuo uma bola aqui, ali uma pequena fada de pano, um sino, para oferecer equilíbrio ao nosso trabalho. Ajeito a grinalda de bolinhas vermelhas, que teima em escorregar. Discutem, ela e ele, quem tem direito a colocar a última bola dourada. Não ganha ninguém, ordeno que um vá buscar o Presépio feito em massa e pano, com corpo escondido de arame e cartão de rolos de papel. Ordenam-no um pouco à toa, no meio de uma briga inevitável com gargalhadas pelo meio, no seu lugar de sempre, o Menino ao centro, os outros em volta, Maria e José e os Reis. Nada mais, nem uma ovelha, nem uma estrela a chamar pastores. Retoco-o também, para que Belchior não tombe sobre José. É belo na sua rusticidade inútil. Somos quase ateus, mas este é um tempo de família.  

No fim, contemplamos embevecidos o trabalho. Podia ser o do ano passado, esquecido ao longo dos meses. A repetição conforta-nos.

"É tradicional" diz ela. "Gosto mais assim."

Ele continua a destruir a canção. Reconheço uma versão desafinada do Santa Claus is comming to town. Junto-me a ele no refrão, não sabemos mais. Nem sabemos cantar, mas não importa. Eles estão felizes. Eu também. 



FELIZ NATAL!


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

o meu presente do Pai Natal Secreto

A iniciativa Pai Natal secreto também já me trouxe o meu presente (e eu já enviei o de... alguém). 

É de um autor português que queria experimentar, mas do qual ainda não li nada, por isso.. Obrigada, Silvana Martins!



Um romance passado no norte, nostálgico e amargo sobre os encontros e desencontros de um homem, a sua vida, a família, a guerra. Retrato de uma época.

«O autor demonstra uma maturidade invulgar na apreciação de uma época, de uma geração e uma mentalidade não directamente vividas por ele próprio mas que, com a devida distância, consegue descrever de forma exemplar [...] A escrita de Daqui a Nada é vigorosa sem ser agressiva, sensível sem ser lamechas, inteligente sem ser prepotente. Este livro é essencialmente um ajuste de contas com a História.» Helena Vasconcelos, in Público «O uso de técnicas variadas, a linguagem viva e coloquial, por vezes lírica, sempre que o espelho deforma ou transfigura a imagem, o cruzamento de reflexos entre o passado e o presente, o interesse que o leitor sente pelo desenvolvimento da história [...] O livro lê-se num fôlego, é pequeno, intenso e muito bem construído.» Maria Estela Guedes, in Diário de Notícias