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sábado, 24 de dezembro de 2016

Esta noite não!

Este foi para os meus filhos, quando eram pequeninos, com direito a um livrinho, com desenhos (que não este) mais giros que o conto. 

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Todos os meninos sabem que, na véspera de Natal, sem falhar, desde que há Natal no mundo, São Nicolau põe todos os brinquedos no seu trenó, junta as renas à sua frente e, juntos, correm os céus para entregar brinquedos nas chaminés - e janelas! - das casas que celebram esta data. São muitas renas e muito especiais, porque são rápidas como o vento e tão espertas que até sabem falar.
Certo Natal muito frio, estavam as renas reunidas-se no seu redil no Pólo Norte, a conversar sobre a noite seguinte, quando uma rena muito grande e sempre mal disposta resmungou:
- Pois eu não sei porque é que temos que andar por aí numa noite tão fria. Os outros animais ficam nas suas tocas!
Continuou a protestar, a protestar, contagiando cada rena com a sua irritação. Umas diziam uma coisa, outras diziam outra e às tantas diziam todas o mesmo, mas não se entendiam Fizeram tanto barulho que as luzes na casa de Nicolau se acenderam e ele saiu, de camisa de dormir e grandes pantufas encarnadas. A barba branca e as bochechas brilhavam ao luar.
- Mas o que é que se passa aqui? Preciso de dormir, amanhã é a grande noite!
- Tio Nicolau, - disse uma rena de hastes tão grandes que chegavam aos ramos mais baixos do abeto - nós este ano não queremos andar por aí na véspera de Natal. Não vamos contigo entregar os brinquedos. Temos frio!
O Pai Natal ficou muito admirado e muito aflito.
- Mas, queridas renas, vocês dormem sempre na rua! E...
Um coro de protestos interrompeu-o. Que não era o mesmo, que lá em cima nos céus estava mais frio, que estavam fartas.
- Mas então como é que eu levo os presentes aos meninos? Eles vão ficar tristes este Natal?
As renas pensaram e pensaram.
- Vai de carro. – sugeriu uma lá do fundo – Os carros são rápidos e não têm frio como nós!
- Os carros não voam, renas! Como é que eu vou  atravessar os oceanos para levar os brinquedos até ao fim do mundo?
Uma respondeu, numa vozinha atrevida:
- Então vai de avião. Os aviões voam.
O Pai Natal abriu muito os olhos. As renas estavam a gozar com ele? Que ideia tão estranha! O Pai Natal, de avião? Nunca se tinha visto tal coisa. A perder a paciência, lembrou:
- Os aviões passam lá muito em cima! Com um avião, eu não consigo chegar às chaminés e muito menos às janelas. Como é que eu entregava os brinquedos? Se os atirar, partem-se, e ainda posso enganar-me na casa... E se a Marianinha fica com o carro vermelho e o Luís com a boneca dela?
As renas ficaram muito aborrecidas. Já não tinham mais nenhuma ideia, mas eram muito teimosas, e por isso baterão o pé... ou o casco, que é o que as renas têm no fim das pernas!
- Pois, nós não sabemos como vais fazer, tio Nicolau, mas queremos ficar em casa. Temos muito frio e queremos ficar por aqui.
Nicolau ficou a olhar para elas, muito triste e zangado e sem saber o que fazer. Era um problema, aquilo. Uma das renas, que já era um bocado velhota e estava com ele há muitos anos, furou pelo meio das outras até à cerca e sorriu para ele, daquela maneira especial que as renas falantes têm de sorrir.
- Eu estou velha e com pouca força, Nicolau, mas não quero que os meninos do mundo fiquem sem Natal. Vou contigo. Nós os dois vamos conseguir levar os presentes aos mais pequeninos.
Nicolau, tão preocupado que nem notara que começava a formar-se gelo na sua barba e sobre os seus cabelos brancos, respondeu:
- Obrigada, minha querida, mas sabes... só nós... não vamos conseguir entregar todos os presentes. É impossível. Há tantos meninos no mundo, e só os dois, com o trenó tão pesado, vamos muito devagar de certeza.
Olhou para as renas, que baixaram a cabeça, um pouco envergonhadas mas cheias de teimosia, e voltou-lhes as costas. Já não dormiu mais nessa noite, mas não conseguiu descobrir nenhuma solução. 
A noite seguinte estava uma bela noite, com uma lua muito gorda e brilhante reflectida na neve muito branquinha. Mas para o Pai Natal, a noite não estava nada bonita. Ficou muito tempo a olhar para a montanha de presentes no trenó. Sacudiu a cabeça, desanimado, ajeitou o gorro e atrelou a sua única rena fiel. Estalou a língua e sairam os dois, a rena bufando e suando para arrastar todo aquele peso. Iam levar aos meninos tantos brinquedos quantos pudessem. Enquanto se afastava pelo céu escuro, Nicolau pensava que aquela ia ser a noite de Natal mais triste de sempre.
Da janela, as renas viram-nos afastar muito devagar, a muito custo, e ficar cada vez mais pequeninos, mais pequeninos, até desaparecerem no horizonte. Tinham entrado em casa de Nicolau, como faziam sempre depois de entregar os presentes, para se sentarem à frente da lareira bem acesa e quentinha, mas o calor não lhes chegava ao coração, que lhes pesava como uma grande pedra de gelo. Já não tinham muita certeza de terem razão. Levar os presentes aos meninos era um trabalho muito importante. E, afinal, lá em cima no céu estava sempre frio... era assim mesmo, desde sempre, e elas nunca se tinham importado. Gostavam de voar nos outros dias e tinham orgulho do seu trabalho. De onde lhes viera a ideia de ficar para trás?
- O que é aquilo ali? – perguntou uma rena mais pequenina e curiosa, ainda à janela.
Sairam lá para fora e viram, debaixo do grande abeto decorado lá fora, muitos pequenos presentes. “RENA”, era o que estava escrito em cada um. Muito admiradas, porque sabiam que não se tinham portado bem, rasgaram o papel com a boca e descobriram... belos cachecóis quentinhos, gorros de lã especiais para renas e lindas pantufas, quatro para cada, para aquecer as suas patas preguiçosas.
- Ai,ai,ai,ai, ai... – queixou-se uma rena e, num instante, todas se queixavam.
Estavam muito, mas mesmo muito envergonhadas. Tinham sido tão teimosas e o Pai Natal, mesmo assim, não se esquecera delas e daquilo que elas mais desejavam: estar quentinhas nesse Natal. A rena grande e resmungona ficou calada e as outras conversaram durante um bocadinho.
- Vamos?
- Vamos!
Puseram nas patas as pantufas, nas cabeças teimosas os gorros, enrolaram os cachecóis nos pescoços e saíram atrás de Nicolau, pelo caminho que sabiam de cor. Encontraram-no logo a seguir. Tinha andado pouco, com aquele trenó tão carregado e só uma rena, ainda por cima a mais velha e cansada de todas as renas, e estava parado mais adiante para deixá-la descansar. Nem um presente fora entregue ainda e Nicolau suspirava de desânimo. Pousaram ao seu lado.
- Desculpa-nos, Nicolau, desculpa-nos. Nós fomos casmurras, mas estamos arrependidas e queremos ajudar-te a levar os presentes. Podemos? Vamos a tempo?
Ele soltou uma gargalhada, as grandes bochechas brilhando de felicidade.
- Estou um pouco desapontado convosco, minhas amigas, mas nesse momento isso não importa: o que importa era o Natal dos meninos! Vamos embora! Depressa!

As renas alinharam-se na sua posição habitual, com a velha rena entre elas, sorrindo o seu sorriso de rena, Nicolau atrelou-as, a rena de nariz brilhante à frente, a apontar o caminho, com a cabeça bem erguida, e partiram e direcção às estrelas, para que todos os meninos tivessem Natal.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O primúltimo Natal, faz-de-conta-que-é-uma-recordação

Um pequeno texto, que não chega a ser um conto.

Trago as recordações agarradas à barriga. As grandes ocasiões e os momentos especiais fazem-se, parece, quase todas no prazer imediato da mesa, nenhum há que não mereça um jantarinho, a dois ou a muitos.   

Trago pois na barriga a recordação do meu primeiro Natal na mesa dos grandes, o último em que estivemos todos juntos. Tinha passado o metro e setenta e a barreira dos treze anos no Verão de 98 e vi-me, pois, promovido de um momento para o outro à digna condição de adolescente – descobri depressa e sem celebração que não havia nada de digno nela. A barriga não me ficou grata na altura, que o apreço pelos sabores do Natal adulto só se aprende em adulto. O rapaz que eu era sentou-se entre a tia-avó e o primo Alfredo, e irradiou um orgulho intenso, até ao momento exacto em que a travessa de bacalhau fumegante foi colocada mesmo à minha frente. Lancei um olhar de desespero à minha mãe, que mo devolveu sem piedade e eu engoli em seco… é estranha a nitidez com que recordo o olhar da minha mãe e do meu gesto, um quase nada. Quase quebrei, nesse momento, mas a avó também me tinha debaixo de olho e endireitei as costas. Comeria bacalhau como um adulto, enquanto as crianças comiam uma bela bolonhesa. 

A avó estava preocupada comigo... com o meu comportamento. Todos os Natais se preocupava com tudo, na verdade, com a comida, com o avô e com os netos, antes desse e muito, muito mais, depois desse, com a decoração, com o penteado, que, dizia ela, tinha abatido com o vapor das panelas. Eu fitava, desconfiado, o ninho alto que era o seu cabelo, tentando adivinhar que alturas teria atingido antes de abater. O avô comia e bebia toda a noite às escondidas da avó, como um miúdo, enquanto ela protestava “olha o estômago”, “olha o coração!”, mas fingia que não via mais um sonho desaparecer. A tia, ao contrário, queixava-se da linha, refilando com os quilos a mais na balança, e eu pensava que, na verdade, ninguém a forçava a comer… e que bem comia!  A mãe, as duas mães ali presentes, mantinham um olho nas crianças, a minha irmã e os meus primos e primas, que, de jantar terminado, rondavam os presentes na árvore. Nesse ano, já não estava com eles, mas invejava-os, enquanto suspendia a respiração e metia garfadas de bacalhau na boca.

A minha melhor recordação desse Natal é da tia-avó, que  cheirava a pó de talco e naftalina, odor que só mais tarde vim a identificar, e não se lembrava da minha existência. Começou por fitar-me com desconfiança, quando me sentei ao seu lado, e perguntou “Mas quem é este homem?” Chegou a levantar as mãos encarquilhadas na minha direção e eu desejei intensamente que me empurrasse da cadeira abaixo, o que teria sido hilariante, ou fizesse uma das suas famosas birras, que envolviam sempre muitas lágrimas de crocodilo, que secavam assim que lhe punham à frente um chocolate ou um cálice de Porto, e muitas lamentações “Aiii, já ninguém me quer”, “Aiii, ninguém me respeita”, ela, que vivia com a filha viúva e, segundo dizia a minha mãe, lhe infernizava o dia e a noite. A tia-avó desapontou-me: sorriu-me com uma dentadura de dentes demasiado grandes e demasiado brancos e deu-me uma palmadinha no braço.  

Foi ela quem me distraiu do tédio desse jantar. Primeiro, porque comia com um bater de castanholas da dentadura que colocava na cara da avó uma expressão de impagável consternação. O tio Alfredo, o mais jovem dos adultos, trocava comigo olhares de júbilo e, de quando em quando, batia ruidosamente os dentes na minha direção. Depois, porque a tia tinha os olhos baços e tremiam-lhe as mãos, mas não lhe falhava nem garfio, nem faca: comeu e bebeu mais do que, julgava eu, pudessem comer e beber as pessoas velhas, tão depressa que me perguntei se teria uma dentadura a turbo. Por fim, de prato já vazio, enquanto os adultos ainda terminavam, começou a cabecear e a inclinar-se na minha direção. A avó fez-me sinais desesperados para endireitá-la discretamente, mas eu fiz de cionta que não via. Queria que caísse em cima de mim, para ver o que acontecia. Quem a safou foi o tio Alfredo, que saltou do lugar e a apanhou por um triz… Ela  acordou com um sobressalto e desatou a bater nas mãos do tio, aos berros “Mas quem é este homem?” Depois disso, com pena minha, acabou o divertimento. Levaram-na para o quarto da avó, para descansar, e deixaram-na dormir enquanto nos empanturravamos de açucar e abriamos os presentes.


As recordações desse jantar ridículo revestiram-se depressa de ternura e melancolia. Entre esse meu primeiro Natal adulto e o meu segundo Natal adulto, a expressão perdeu significado. A tia-avó morreu do coração. O tio Alfredo, que é médico, arranjou trabalho na Austrália  e não pode vir. A tia casou-se com o tal fotógrafo, e as vésperas passaram a ser um ano em cada família. Nesse ano, o primeiro, calhou na dele. Os meus pais divorciaram-se, e eu e a minha irmã passamos a dividir-nos entre a véspera com a mãe e o dia com o pai. Os presentes a dobrar e as viagens à Austrália, concluímos, não compensavam os lugares vazios à mesa. No ano seguinte, eramos muito menos à hora da ceia e sentamo-nos todos, adultos e crianças, numa nostalgia vestida de sorrisos, que demorou anos a esbater-se. Antes da ceia, falamos com o tio por skipe. Estava de mangas curtas e pronto para passar o Natal na praia. Depois, a avó chamou-nos a todos. As crianças passaram a sentar-se com os adultos. Ao meu lado, em vez da tia velha e das suas castanholas, estava a chata da minha irmã mais nova.  Do outro lado dela, em vez do tio Alfredo, estava a minha prima Luísa, que acabara de fazer os treze anos, mas nunca conheceria o gosto particular de ser promovida à mesa dos adultos.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Que Desassossego!

Lembram-se de vos ter falado, aqui há tempos, de certa colectânia organizada pela Sofia Teixeira, do blogue Morrighan, com autores convidados e outros selecionados em concurso? Esteve em crowdfunding e, por ser coisa que promete, reuniu sem dificuldade o valor necessário. Deram-se os passos necessários e habituais na edição de qualquer livro e... cá está ela! Ao vivo e a cores e cheia de letras boas de ler!

Já começou a ser enviada para os que a encomendaram através da campanha, e está já à venda online AQUI. Para além disso, tem ficha no GoodReads, AQUI.  Parece-me que até já há quem ande a lê-la!

Depois de ir buscar a minha aos Correios, poderei falar-vos do aspecto interior e da organização. Para já, posso apenas dizer-vos que estou curiosíssima, porque o conjunto de autores é muito ecléctico, pelo que se adivinham contos muito diferentes uns dos outros.

O meu chama-se Três Suspiros e Uma Palavra, e começa assim: 

1.    O homem de borco


O homem teria na boca mais palavras com cheiro a cravo, clamando pela reforma agrária, pela nacionalização, pelo regresso dos últimos soldados. Na véspera gritara um parecido com este, amanhã seria outro, homens do partido que abriam caminho para o futuro. Este já não tinha futuro. Abriu a boca e dela saiu apenas uma meia dose de fôlego, pôs-se vermelho e caiu de borco, olhos abertos, cara de lado no chão, boca aberta. Dentro dele houvera debandada, um tropel de cavalos assustados, agora estava tudo parado, já não saía nem entrava fôlego pela boca que engolia terra sem engolir nada. Se os olhos viam era para longe, arregalados a ver o espanto do fim do seu tempo, e se o homem tinha coisas para dizer, não disse, a voz acabara‑se e acabara-se o homem. 

Curiosos? Boa leitura!

Edição de dia seguinte:

Fui buscar o livro. É muito bonito, por fora e por dentro, vêm? Até desfocado se apresenta bem!




No entanto, descobri que o meu texto - parece que apenas o meu, não entendo, tem vários hifens desformatados e, como tal, umas quantas gralhas. Não está assim no original, asseguro-vos. De resto, dei uma vista de olhos rápida aos textos que ainda não conhecia (não li na totalidade, claro) e parece-me que cumprem o que prometiam. Fico contente.

Aos leitores desejo, mais uma vez, boa leitura!  

domingo, 29 de março de 2015

O conto e a colectânea

O conto com que participo na colectânea do blogue Morrigan é anterior ao projecto. Escrevi-o porque sim, e quando a Sofia me fez esta proposta, a minha resposta foi: "Tenho mesmo o conto para isso."

Partilho um excerto, a pouco mais de uma semana do fim da campanha de crowdfunding. É outra estreia para mim, que nem de contos sou! Estamos com 80% do objectivo conseguido... e não acredito que não haja mais por aí quem queira ler o meu conto, o do Nuno Nepomuceno, o do Manuel Jorge Marmelo, o do Pedro Medina Ribeiro, o do Samuel Pimenta, o dos dois convidados especiais do mundo da música, Noiserv e Guillermo de Llera, e o dos cinco selecionados, entre os quais o da Márcia Balsas. Teriamos ainda um conto do Luís Miguel Rocha, se, por motivos muitos tristes e bastamente conhecidos, isso não se tivesse tornado impossível.

É, parece-me, um belíssimo projecto, com os eventuais lucros dos autores convidados e da organizadora a reverter inteiramente para a associação Burricadas. Podem reservar um livro (contribuindo ao mesmo tempo para a campanha) AQUI.

Chama-se "Três Suspiros e Uma Palavra". O excerto é o capítulo... parte 7 do conto.


A prima disfarçada

Um dia a visita chegou disfarçada de prima, trazendo com ela um bocadinho de medo disfarçado de primo. E a mãe disse:
- Estes são os teus primos do Porto. Vão brincar os três, deixem os crescidos conversar.
Os crescidos sentaram-se nos sofás de pele gasta com cafés de cafeteira, e Mariana levou os primos para o seu quarto e olhou para eles. Achou que a prima era uma prima de brincar mas o primo era uma volta perdida do seu relógio, quando disse,
- Fazemos um jogo. Sei um giro.
Disfarçaram o quarto de noite cerrada e os recantos de esconderijos e Mariana e a prima fingiram-se invisíveis para os olhos cegos de escuro e as mãos do primo, com olhos nas pontas dos dedos. Encontrou-as, escolheu-as pelo tacto,
- Mariana.

Mariana saiu do seu esconderijo numa gargalhada sem fôlego e o peito num atropelo. Os relógios e os fôlegos por vezes desarranjam-se sozinhos.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

As renas teimosas (conto infantil)

O "presente" do monster neste Natal é um pequeno conto natalício. Escrevi-o há anos, para os meus filhos, quando estes ainda eram pequenos. Teve direito a um livrinho artesanal com desenhos meus, que ainda deve andar lá por casa, na desarrumação da estante de um deles. Aqui fica. Se gostarem, leiam-nos aos vossos meninos. Feliz Natal!

Todos os meninos sabem que, na véspera de Natal, sem falhar, desde que há Natal no mundo, São Nicolau põe todos os brinquedos no seu trenó, junta as renas à sua frente e, juntos, correm os céus para entregar brinquedos nas chaminés e janelas das casas que celebram esta data. São muitas renas e muito especiais, porque são rápidas como o vento e tão espertas que até sabem falar.
Certo Natal muito frio, estavam as renas reunidas-se no seu redil no Pólo Norte, a conversar sobre a noite seguinte, quando uma rena muito grande e sempre mal disposta resmungou:
- Pois eu não sei porque é que temos que andar por aí numa noite tão fria. Os outros animais ficam nas suas casas!
Continuou a protestar, a protestar, contagiando cada rena com a sua irritação. Umas diziam uma coisa, outras diziam outra e às tantas diziam todas o mesmo, mas não se entendiam! Fizeram tanto barulho que as luzes na casa de Nicolau se acenderam e ele saiu, de camisa de dormir e grandes pantufas encarnadas. A barba branca e as bochechas brilhavam ao luar.
- Mas o que é que se passa aqui? Preciso de dormir, amanhã é a grande noite!
- Tio Nicolau, - disse uma rena de hastes tão grandes que chegavam aos ramos mais baixos do abeto - nós este ano não queremos andar por aí na véspera de Natal. Não vamos contigo entregar os brinquedos. Temos frio!
O Pai Natal ficou muito admirado e muito aflito.
- Mas, queridas renas, vocês dormem sempre na rua! E...
Um coro de protestos interrompeu-o. Que não era o mesmo, que lá em cima nos céus estava mais frio, que estavam fartas.
- Mas então como é que eu levo os presentes aos meninos? Eles vão ficar tristes este Natal?
As renas pensaram e pensaram.
- Vai de carro. – sugeriu uma lá do fundo – Os carros são rápidos e não têm frio como nós!
- Os carros não voam, renas! Como é que eu vou  atravessar os oceanos para levar os brinquedos até ao fim do mundo?
Uma respondeu, numa vozinha atrevida:
- Então vai de avião. Os aviões voam.
O Pai Natal abriu muito os olhos. As renas estavam a gozar com ele? Que ideia tão estranha! O Pai Natal, de avião? Nunca se tinha visto tal coisa. A perder a paciência, lembrou:
- Os aviões passam lá muito em cima! Com um avião, eu não consigo chegar às chaminés e muito menos às janelas. Como é que eu entregava os brinquedos? Se os atirar, partem-se, e ainda posso enganar-me na casa... E se a Marianinha fica com o carro vermelho e o Luís com a boneca dela?
As renas ficaram muito aborrecidas. Já não tinham mais nenhuma ideia, mas eram muito teimosas e por isso bateram o pé... ou o casco, que é o que as renas têm no fim das pernas!
- Pois, nós não sabemos como vais fazer, tio Nicolau, mas queremos ficar em casa. Temos muito frio e vamos ficar por aqui.
Nicolau ficou a olhar para elas, muito triste e zangado e sem saber o que fazer. Era um problema, aquilo. Uma das renas, que já era um bocado velhota e estava com ele há muitos anos, furou pelo meio das outras até à cerca e sorriu para ele, daquela maneira especial que as renas falantes têm de sorrir.
- Eu estou velha e com pouca força, Nicolau, mas vou contigo. Nós os dois vamos conseguir levar os presentes aos mais pequeninos.
Nicolau, tão preocupado que nem notava o gelo na barba e sobre os seus cabelos brancos, respondeu:
- Obrigada, minha querida, mas sabes... é impossível. Há tantos meninos no mundo, e só os dois, com o trenó tão pesado, vamos muito devagar de certeza.
Olhou para as renas, que baixaram a cabeça, um pouco envergonhadas mas cheias de teimosia, e voltou-lhes as costas. Já não dormiu mais nessa noite, mas não conseguiu descobrir nenhuma solução. 
A noite seguinte estava bela, com uma lua muito gorda e brilhante reflectida na neve muito branquinha, e muito fria, mas Nicolau nem notava, só via a montanha de presentes no trenó. Sacudiu a cabeça, desanimado, ajeitou o gorro e atrelou a sua única rena fiel. Estalou a língua e sairam os dois, a rena bufando e suando para arrastar todo aquele peso. Iam levar aos meninos tantos brinquedos quantos pudessem. Enquanto se afastava pelo céu escuro, Nicolau pensava que aquela ia ser a noite de Natal mais triste de sempre.
Da janela, as renas viram-nos afastar muito devagar, a muito custo, e ficar cada vez mais pequeninos, mais pequeninos, até desaparecerem no horizonte. Tinham entrado em casa de Nicolau, como faziam sempre depois de entregar os presentes, para se sentarem à frente da lareira bem acesa e quentinha, mas o calor não lhes chegava ao coração, que lhes pesava como uma grande pedra de gelo. Já não tinham muita certeza de terem razão. Levar os presentes aos meninos era um trabalho muito importante. E, afinal, lá em cima no céu estava sempre frio... era assim mesmo, desde sempre, e elas nunca se tinham importado. Gostavam de voar nos outros dias e tinham orgulho do seu trabalho. De onde lhes viera a ideia de ficar para trás?
- O que é aquilo ali? – perguntou uma rena mais pequenina e curiosa, ainda à janela.
Sairam lá para fora e viram, debaixo do grande abeto decorado lá fora, muitos pequenos presentes. “RENA”, era o que estava escrito em cada um. Muito admiradas, porque sabiam que não se tinham portado bem, rasgaram o papel com a boca e descobriram... belos cachecóis quentinhos, gorros de lã especiais para renas e lindas pantufas, quatro para cada, para aquecer as suas patas preguiçosas.
- Ai,ai,ai,ai, ai... – queixou-se uma rena e, num instante, todas se queixavam.
Estavam muito, mas mesmo muito envergonhadas. Tinham sido tão teimosas e o Pai Natal, mesmo assim, não se esquecera delas e daquilo que elas mais desejavam: estar quentinhas nesse Natal. A rena grande e resmungona ficou calada e as outras conversaram durante um bocadinho.
- Vamos?
- Vamos!
Puseram nas patas as pantufas, nas cabeças teimosas os gorros, enrolaram os cachecóis nos pescoços e saíram atrás de Nicolau, pelo caminho que sabiam de cor. Encontraram-no logo a seguir. Tinha andado pouco, com aquele trenó tão carregado e só uma rena, ainda por cima a mais velha e cansada de todas as renas, e estava parado mais adiante para deixá-la descansar. Nem um presente fora entregue ainda e Nicolau suspirava de desânimo. Pousaram ao seu lado.
- Desculpa-nos, Nicolau, desculpa-nos. Nós fomos casmurras, mas estamos arrependidas e queremos ajudar-te a levar os presentes. Podemos? Vamos a tempo?
Ele soltou uma gargalhada, as grandes bochechas brilhando de felicidade.
- Estou um pouco desapontado convosco, minhas amigas, mas nesse momento isso não importa: o que importa era o Natal dos meninos! Vamos embora! Depressa!
As renas alinharam-se na sua posição habitual, com a velha rena entre elas, sorrindo o seu sorriso de rena, Nicolau atrelou-as, a rena de nariz brilhante à frente, a apontar o caminho, com a cabeça bem erguida, e partiram e direcção às estrelas, para que todos os meninos tivessem Natal.


sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O Regressado - conto de Natal no Crónicas...

A blogueira Vera Carregueira pediu a alguns autores um presente de Natal especial: um conto para o seu blogue . Este é o meu.


O Regressado

Abriu a porta e saiu para a noite fria, abandonando atrás de si o calor da taberna e os sons familiares dos homens, risos e ruídos, pequenas discussões sem propósito nem consequência, o abandonar das tensões e dos medos nessa bolha de ilusória protecção, antes do regresso nocturno à família ou à casa vazia. O odor da neve substituiu o perfume azedo do vinho e ele respirou fundo. Arrependeu-se assim que o ar gelado queimou o seu caminho até aos pulmões, lhe afastou a indiferença do álcool como quem afasta de repente uma cortina e lhe revelou a exaustão absoluta e impiedosa que há muito lhe contraía os músculos. Espalmou a mão sobre a porta escura, agora fechada, para sentir a rugosidade antiga da madeira. Tinha vontade de ficar ali, onde não importava.
- Mas é preciso regressar.

(...) 

podem ler o restante, porque ainda falta um pouco, no blogue Crónicas de uma Leitora. Enjoy!


Os restantes contos são, por ordem de publicação: