Esta manhã, li num tweet que uma merceria de bairro fechou, porque o merceeiro adoeceu com COVID. Era onde iam os idosos do bairro, agora todos em risco e, para mais, sem lugar para fazer as suas compras mais necessárias. Ontem ouvi nas notícias que as funerárias pedem o fim dos velórios, na véspera que um crematório em Lisboa tinha 4 dias de atraso.
Hoje, os números são os mais brutais de sempre: mais de 15.300 infectados, mais de 270 mortos. Muitos novos internados, filas de âmbulancias.
E lembro-me, cada vez mais, de excertos do meu O Ano da Dançarina, o meu romance de 2017, sobre a pandemia de influenza de 1918. Esse mesmo que, apesar de estar tão perto do centenário do fim da guerra, e de agora se provar tristemente actual, foi muito menos lido do que, na minha (não tão) modesta opinião, merecia. Fica um excerto.
Mendes de Almeida fechou a maleta num gesto lento de fadiga e dirigiu-se à filha, sentada à secretária (...)
O médico espreitou com consternação o caderno nas mãos de Custódia, com muitas linhas preenchidas com consultas, a maioria para clientes antigos. Não havia nada a fazer.
– Chama o Quim…
– Ó paizinho, o Quim? Já se esqueceu?
O moço de recados fora, de entre os seus conhecidos, a primeira vítima da gripe. Depois dele, fora-se o irmão mais novo e uma das irmãs, depois o vizinho e o dono da mercearia, que fechara, como tinham fechado tantos dos estabelecimentos que tinham resistido à escassez dos bens, mas não à mortandade da espanhola. Tantos se tinham ido, tantos se iam a cada dia, em todas as ruas, que as funerárias, as igrejas, os coveiros, começavam a não dar conta do trabalho. Os sinos tocavam sem cessar a finados, o povo queixava-se do desrespeito dos coveiros, que mal cobriam uma sepultura e já corriam a abrir outras, e via-se com frequência passar um funeral com o morto carregado a «pau e corda».
– Como se fossem uma escrivaninha ou um armário – comentara o pai, desolado, vendo-os passar da janela. – E eu aqui a tentar curar a gente… Ah, não valemos nada, filha, nadinha.
Se não havia dinheiro para a funerária, ou sequer para as cordas, os cadáveres esperavam no passeio pela carreta da morgue, embrulhados em lençóis velhos ou nas sacas de serapilheira onde um dia se tinham guardado batatas, quando ainda as havia, para serem enterrados em covas sem lápide e, por vezes, sem identificação, por não haver tempo para ela, benzidos às pressas pelo padre, triste circunstância à qual Mendes de Almeida não pudera poupar o moço de recados, por não ter chegado a tempo de o mandar enterrar com mais dignidade.
"Mendes de Almeida fechou a maleta num gesto lento de fadiga e dirigiu-se à filha, sentada à secretária (...)
O médico espreitou com consternação o caderno nas mãos de Custódia, com muitas linhas preenchidas com consultas, a maioria para clientes antigos. Não havia nada a fazer.
– Chama o Quim…
– Ó paizinho, o Quim? Já se esqueceu?
O moço de recados fora, de entre os seus conhecidos, a primeira vítima da gripe. Depois dele, fora-se o irmão mais novo e uma das irmãs, depois o vizinho e o dono da mercearia, que fechara, como tinham fechado tantos dos estabelecimentos que tinham resistido à escassez dos bens, mas não à mortandade da espanhola. Tantos se tinham ido, tantos se iam a cada dia, em todas as ruas, que as funerárias, as igrejas, os coveiros, começavam a não dar conta do trabalho. Os sinos tocavam sem cessar a finados, o povo queixava-se do desrespeito dos coveiros, que mal cobriam uma sepultura e já corriam a abrir outras, e via-se com frequência passar um funeral com o morto carregado a «pau e corda».
– Como se fossem uma escrivaninha ou um armário – comentara o pai, desolado, vendo-os passar da janela. – E eu aqui a tentar curar a gente… Ah, não valemos nada, filha, nadinha.
Se não havia dinheiro para a funerária, ou sequer para as cordas, os cadáveres esperavam no passeio pela carreta da morgue, embrulhados em lençóis velhos ou nas sacas de serapilheira onde um dia se tinham guardado batatas, quando ainda as havia, para serem enterrados em covas sem lápide e, por vezes, sem identificação, por não haver tempo para ela, benzidos às pressas pelo padre, triste circunstância à qual Mendes de Almeida não pudera poupar o moço de recados, por não ter chegado a tempo de o mandar enterrar com mais dignidade."
O Ano da Dançarina, cap.25."Mendes de Almeida fechou a maleta num gesto lento de fadiga e dirigiu-se à filha, sentada à secretária (...)
O médico espreitou com consternação o caderno nas mãos de Custódia, com muitas linhas preenchidas com consultas, a maioria para clientes antigos. Não havia nada a fazer.
– Chama o Quim…
– Ó paizinho, o Quim? Já se esqueceu?
O moço de recados fora, de entre os seus conhecidos, a primeira vítima da gripe. Depois dele, fora-se o irmão mais novo e uma das irmãs, depois o vizinho e o dono da mercearia, que fechara, como tinham fechado tantos dos estabelecimentos que tinham resistido à escassez dos bens, mas não à mortandade da espanhola. Tantos se tinham ido, tantos se iam a cada dia, em todas as ruas, que as funerárias, as igrejas, os coveiros, começavam a não dar conta do trabalho. Os sinos tocavam sem cessar a finados, o povo queixava-se do desrespeito dos coveiros, que mal cobriam uma sepultura e já corriam a abrir outras, e via-se com frequência passar um funeral com o morto carregado a «pau e corda».
– Como se fossem uma escrivaninha ou um armário – comentara o pai, desolado, vendo-os passar da janela. – E eu aqui a tentar curar a gente… Ah, não valemos nada, filha, nadinha.
Se não havia dinheiro para a funerária, ou sequer para as cordas, os cadáveres esperavam no passeio pela carreta da morgue, embrulhados em lençóis velhos ou nas sacas de serapilheira onde um dia se tinham guardado batatas, quando ainda as havia, para serem enterrados em covas sem lápide e, por vezes, sem identificação, por não haver tempo para ela, benzidos às pressas pelo padre, triste circunstância à qual Mendes de Almeida não pudera poupar o moço de recados, por não ter chegado a tempo de o mandar enterrar com mais dignidade."
Este ano, quase podia ser eu a ter as chaves do Marquês. Por coincidência, ou porque no dia em que era suposto ir (dia 10, se não me engano) não estou cá, acabei por preencher dois espaços: no primeiro dia e no último. Davam-me o molho de chaves e eu fechava aquilo tudo! Abrir não, porque antes de mim esteve a Célia Loureiro, e ainda bem, porque assim sempre nos cruzamos e conversamos um bocado.
A conversa é o melhor da Feira, confesso, para um autor pouco conhecido, sem fãs que lhe façam fila à espera de um autógrafo. Lembro-me sempre do que li, sobre uma autora americana (de best sellers, devo dizê-lo), que nunca aceita estar a solo. Ela conta que, numa livraria, cruzou-se certa vez com um homem sentado sozinho numa mesa, que olhava com um misto de desespero e esperança para cada pessoa que passava por ele. Era miúda e teve medo dele, até descobrir que o desgraçado era um autor em solitária sessão de autógrafos. Da ideia de ser um dos que reune multidões, já desisti, e temo sempre ser o a outro, o do olhar bipolar. Não influencia a minha escrita, desconfio que vou escrever sempre, embora por vezes influencie a minha vontade de publicar e mais ainda, influenciará a vontade da editora de publicar-me. Como seria voltar à estaca zero? Não sei se tentaria de novo, na esperança de que à terceira pudesse ser de vez ou que algum prémio trouxesse algum reconhecimento ao meu (muito) trabalho, ou se escreveria apenas para mim e para os amigos, como já fiz. Era decerto menos complicado para o meu frágil ego. Mas isto é especulação, e da parva, porque o Dançarina tem tido poucas, mas belas opiniões (o que não tem de reflectir sucesso de vendas) e a Marcador tem sido sempre uma editora 5 estrelas.
Voltando à Feira. Achei-a um pouco mais confusa junto ao Marquês, com mais... coisas a ocupar o espaço, provavelmente os tais espaços novos tão anunciados este ano. Talvez por estar bom tempo e ser Dia da Criança, já havia bastante gente a passear, com muitos pequenitos a brincar. Sentia-se a animação. Imagino que, de dia para dia, cresçam os visitantes, o que espero que se traduza em muitos livrinhos vendidos, para todos, porque as vendas de livros têm baixado muitíssimo até para os autores famosos ou pelo menos de nome firmado. Assinei alguns livros, é claro, mas foi sobretudo bom estar lá pelas visitas e pelas conversas - com algumas amizades virtuais, cujos rostos e vozes conheci por fim, com bloguers que já conhecia, com a Célia Loureiro, a Liliana Lavado e... a Sofia Teixeira, que em dia de aniversário veio passear na Feira e dizer-me olá! Pude dar-lhe um abraço de parabéns muito apertado, que isto de fazer 29 anos e nunca, nunca, nunca estar parada tem muito que se lhe diga. Estou agora a pagar - em cansaço - um mês de Maio agitado, com encontros no Norte, e por uma semana de arrasar, com tanto trabalho que mal tive tempo para lembrar-me de que estavamos quase na Feira!
Dia 18 às 18 há mais e, se alguma bloguer-amiga ainda não me tiver visitado, já sabe onde pode encontrar-me. Sabia-me igualmente bem ver lá outros leitores, à procura de dois dedos de conversa sobre o livro ou de um rabisco...
Não tarda mesmo nada, só faltam quatro dias, abre a Feira do Livro e, porque é uma festa, junto-me com um SORTEIO de um exemplar do meu romance mais recente O Ano da Dançarina, autografado, se o desejarem. Vou estar na Feira no primeiro dia, dia 1, e, portanto, o passatempo dura até à meia noite do dia anterior, dia 31. São três dias de passatempo. Para participar, basta "gostar" e "partilhar" a partir dapublicação no Facebook.
O sorteio será feito no dia 1 entre os que partilharam o sorteio a partir daqui. Não serão consideradas partilhas feitas a partir do blogue, nem de outras partilhas ou de outras páginas e, por questões práticas, o passatempo limita-se a participantes com endereço em solo nacional (incluindo as ilhas da Madeira e Açores).
Este ano, vou ter a oportunidade de estar duas vezes na Feira do Livro: no dia 1 e no dia 18. Quase podiam dar-me as chaves, que eu abria e fechava aquilo tudo.
Estarei, claro, com a editora Marcador no espaço da Presença, que anuncia aquio seu programa.
No dia 1, O Ano da Dançarina beneficiará de uma promoção especialíssima - para além de mais barato, como é evidente, pode vir ter comigo e levá-lo autografado.
No dia 18, encontram-me na companhia de outros autores, e dessa vez é O Cavalheiro Inglês que está em promoção especialíssima-especialíssima, por isso, se ainda não leu e tem curiosidade, este é o dia!
Espero-vos lá, para muita conversa e, se calhar, algum autógrafo!
que, numa coincidência engraçada, de que só me lembrei mesmo no fim do encontro, aparece muito rapidamente referido lá pela página 189 ou 190!!
Como foi, perguntais vós. Uma maravilha, respondo eu.
A meio da tarde saímos, pela terceira vez em menos de um mês, com destino ao Porto, para esta última tertúlia sobre O Ano da Dançarina. Fomos primeiro cumprir as francesinhas, como compete a quem visita o Porto, com o Paulo M.Morais, que acedeu com gentileza a orientar esta conversa no Perosinho, em jeito de lançamento, e a Isabel Rio Novo, autora de Rio do Esquecimento, e chegamos ao Perosinho quase, quase com pontualidade britânica (vá, só com uns cinco minutos de atraso).
O Paulo já me tinha falado um pouco sobre esta Biblioteca, que não é Municipal e que depende do empenho do Vitor e da Anabela, da Manuela, do José, da Carmindo, do Eduardo, do Jaime e da Albina. E que empenho! Nenhum aviso me poderia ter preparado para a surpresa de ver este espaço, em si acolhedor, preparado com tanto esmero para apresentar o livro! À chegada, não só fui recebida com toda a simpatia, café e alguns mimos saborosos, como me deparei com um espaço de tertúlia organizado ao jeito de café (mesmo como eu gosto), e decorado com as reproduções de notícias e fotografias da época que podem ver, sobre a primeira guerra e a pneumónica. Entre duas confortáveis cadeiras, ao centro, a capa do livro... e a máquina antiga? Tem um excerto do Dançarina!
Depois de dois dedinhos de conversa e admirado o espaço, tão bonito!, sentamo-nos para a tal conversa e eis que entra a jovem Mafalda, que abriu a tertúlia com uma delicada dança. Que dizer, a não ser que fiquei encantada? Como se não bastasse, prosseguimos com a leitura da declaração de guerra alemã aos portugueses e de um texto sobre a pneumónica que eu juraria reconhecer das minhas pesquisas. Que maravilha!
Foi então que, depois de algumas palavras do Vitor, o Paulo Morais abriu as hostilidades, e a nossa conversa fluiu, com meia dúzia de perguntas certeiras, de jornalista, não só o livro em si, mas sobre a sua categorização (histórico ou de época?), sobre o processo da sua construção - e da minha construção da escrita, em geral - sobre o presente,o passado e o futuro, o romance de fantasia, o contemporâneo, a poesia e até o M. no meu nome! Mauzinho. O M. do Paulo é de mauzinho. Conheço o Paulo há já uns anos, de ouras andanças, pelo que acabou por ser uma conversa descontraída, divertida, em que cheguei a esquecer-me de que havia gente que não me conhecia a assistir. Quando assim é, sentimo-nos ao mesmo tempo um pouco atemorizados (terei dito alguma coisa que não devia?) e muito satisfeitos.
Terminada a conversa, houve lugar a assinatura de livros, a conhecer a Maria Manuel Magalhães, do blogue Marcador de Livros (podem ler a sua opinião do Dançarina aqui) e a Ana Ferreira, com quem converso há anos online, que já leu muita coisa minha e de quem já li algumas coisas também, mas que ainda não tinha tido oportunidade de me cruzar pessoalmente. Conversou-se, brindou-se à Biblioteca, aos escritores e aos leitores, fizeram-se fotografias, em ambiente de festa.
Na despedida, fica a minha admiração por quem leva adiante estes projectos com tanto carinho e amor pela literatura, e a minha gratidão, ao Perosinho e ao Paulo. Não é adeus, é até à próxima!
Uma semana depois de ter estado em Ovar, voltei a fazer a viagem para Norte, para um novo encontro com leitores, desta vez com a excelente Comunidade de Leitores da Biblioteca Municipal da Maia.
Foi, como esperava, um encontro muito diferente do anterior. Não na hospitalidade, que parece apanágio do todos os que me têm recebido, porque fui, mais uma vez, acolhida com a maior simpatia, num almoço de confraternização em que todos nos esforçamos por não falar do livro. A diferença foi no teor da conversa e no à vontade com que pude falar do livro, sem receio de revelar mais do que devia, uma vez que o livro já tinha sido lido - e discutido - pela generalidade dos presentes. Do resultado do primeiros desses dois encontros para discussão, aliás, dá conta o Joaquim Jorge Silva, no jornal MaiaHoje:
"A Comunidade de Leitores da Biblioteca Municipal da Maia tem em mãos o mais recente romance de Carla M. Soares, “O ano da dançarina” (Marcador, 2017), uma obra que (re)visita Grande Guerra, não tanto como eixo central narrativo mas como ponto de partida para uma história que coloca em paralelo duas tragédias que no seu conjunto, em Portugal, no ano 1918, dizimaram milhares de homens e mulheres: a Grande Guerra e Gripe Espanhola. (...) Em suma, estamos na presença de um livro arrojado, ambicioso, capaz de surpreender o leitor de o agarrar, dando-lhe, na sua viagem leitora, motivos para ficar a pensar na vida. A forma como cada um com ele se relacionará será, obviamente distinta, como distinta serão as suas opiniões." (opinião completa aqui)
Foi-me prometida discussão acesa, porque no segundo encontro ninguém se entendia quando ao conteúdo do livro, ao que era ou devia ser, ou quanto às minhas intenções e às virtudes e falhas da narrativa. E houve mesmo discussão acesa e muito divertida, porque todas as questões me foram colocadas, desde as expectáveis, como, por exemplo, algumas relativas ao papel da mãe, ao peso e natureza de cada personagem e ao seu percurso na narrativa, à guerra, à gripe e ao título, às mais inesperadas, sobre, por exemplo, a possibilidade de algumas relações amorosas que jamais me ocorreram, à pertinência de mostrar um casamento ou aos motivos para dar certo fim a certas personagens, que são prerrogativas do autor, como dono absoluto do que escreve. Chegou-se à conclusão lógica - e muito bem enunciada pela Isabel Rio Novo - de que o autor só é responsável pelo que escreve, não pelas interpretações dos leitores. Estes fazem, na sua leitura e a partir das suas experiências pessoais e natureza, a segunda parte do trabalho de criação, e, isto disse-o eu, é bom sinal que para o mesmo livro as interpretações sejam múltiplas e díspares, significa que a profundidade do que foi escrito as permite. Foram mencionadas algumas partes favoritas e menos favoritas do livro, o que foi interessantíssimo e muito recompensador.
Tratou-se, de facto, de uma conversa animadíssima e, juro ao Jorge e à Comunidade, não saí dela nada maltratada. Pelo contrário, vim com a impressão de que o livro tinha agradado. Mais ainda, é delicioso que as interações sejam diversas de encontro para encontro e que, num, possa falar da escrita em termos mais gerais, e menos do livro, para não cair em certas revelações e, noutro, possa esmiuçar o livro sem medo, e fale um pouco menos de escrita em geral - falou-se um pouco também, claro, de percursos, pesquisa, método de escrita e perspectivas futuras.
Tive direito a visitas especiais, as do Paulo M.Morais, que generosamente fará a apresentação do livro no Perosinho, da Isabel Rio Novo, que tinha tanta vontade de conhecer, e uma visita especialíssima da minha querida Rosa Maria Nunes, colega de mestrado que há tantos anos não via. No fim, um bolo lindíssimo (e delicioso) a marcar o Porto de Honra e um momento para fotografias de grupo, já desfalcadas de vários elementos presentes no encontro, e de conversa informal.
Resta-me agradecer ao Joaquim Jorge Silva e a esta afável e incansável Comunidade de Leitores, que espero ter a oportunidade de voltar a visitar.
(fotografias graciosamente cedidas pela Comunidade de Leitores da Maia)
Rumei a norte esta sexta feira, para uma tertúlia literária no Museu de Ovar, a propósito do lançamento de O Ano da Dançarina. Sendo o meu primeiro encontro deste tipo, desloquei-me com satisfação, mas cheia de (pequenos) receios. Não temia não saber conversar ou não ser capaz de corresponder, mas receava muito que um convite para vir ouvir e conversar com uma escritora quase desconhecida não fosse atraente para ninguém. Ainda há pouco li uma publicação de uma escritora best-seller americana que nunca aceita eventos a solo, sejam autógrafos ou encontros ou palestras, por recear o constrangimento de enfrentar sozinha o vazio de uma sala sem leitores.
Fui recebida, para jantar antes da tertúlia, pelo Carlos Nuno Oliveira, dinamizador do À Palavra com... e pelo Manuel Cleto, director deste museu, com uma simpatia inagualável, e tivemos oportunidade, durante o excelente jantar, para falar sobre estes encontros, sobre as alegrias e dificuldades deste museu, que é particular, e sobre o seu maravilhoso espólio. Houve tempo também - atrasando um pouco o início da tertúlia, é verdade - para uma visita guiada pelo Manuel ao Museu, que é na verdade uma casa particular no centro da cidade. Saramago disse certa vez acerca deste espaço com mais de 50 anos que é menos um museu e mais um "guarda-tudo" e pareceu-me que tinha acertado em cheio, porque vi fotografias internacionais e uma coleção de apiculturas, bonecas do mundo e louça portuguesa, quadros de grande modernidade e um bordado típico feito com cabelo humano... E vi uma cozinha com um tecto originalíssimo. O espólio é enorme e valioso, mas não está exposto em permanência, vai rodando e sendo emprestado.
Na tertúlia não eramos uma sala cheia, mas tão pouco estava vazia como eu temia, e a conversa acabou por prolongar-se por mais de hora e meia. Falamos sobre o Dançarina, sobre História e sobre a história - recusei-me a revelar a razão do título e o aparente desafazamento entre título e imagem na capa - falamos sobre as personagens e sobre a sua criação, sobre pesquisa, sobre o meu percurso e sobre o livro anterior, O Cavalheiro Inglês, sobre O Chama ao Vento, sobre de onde nascem as histórias, sobre os constrangimentos e vantagens da escrita de romance de época. As conversas vão fluindo, não me lembro já de tudo o que foi sendo dito.
A certa altura, o Carlos Nuno Oliveira quase me atirou da cadeira abaixo, de surpresa, ao mencionar o blogue e ler dois pequenos poemas tirados daqui. Não sei o que é um poeta, não sei o que é um bom ou mau poema, só sei daquilo que gosto. Gosto de escrever poemas e gostei de os ouvir, o que foi inesperado. Admiti que, talvez por escrever um género muito espartilhado pela necessidade de não deformar as verdades, mesmo sendo ficção, me sabe muito bem o imediatismo e a liberdade de escrever um poema. Se são bons ou maus... importa?
Refiro ainda a simpatia das intervenções dos interlocutores e um ou dois episódios muitíssimo engraçados, com a intervenção... assertiva e... inesperada de uma figura tão curiosa que daria um livro. Julguei vê-lo a dormir, mas afinal ouviu tudo e teve oportunidade para fazer ums espécie de sumário do que tinhamos dito (dentro do género "parece que ouvi aí falar sobre a gripe e também qualquer coisa sobre a guerra") e de, por exemplo, querer saber como "a ilustre senhora dona escritora", sendo mulher, imaginava as personagens masculinas, porque os homens tinham coisas de homem, segundo percebi, e daí partiu para uma diatribe sobre conhecer pessoas, de cujos detalhes infelizmente não me lembro. Não cheguei foi a responder, e ainda bem, não saberia bem como... Creio, mas não juro, que a certa altura este participante quis pôr-me a escrever com uma pena, em vez do computador, como fizeram os grandes escritores... antes da invenção desta máquina utílissima.
No final, com o Porto de Honra, tive oportunidade de dar dois dedinhos de conversa com alguns dos participantes, incluindo um leitor que eu não esperava de todo que se interessasse por ler o livro ou ouvir-me. Confessou-me ter detestado a sinopse (pela qual sou parcialmente responsável, claro, uma vez que o livro é meu), e nisso não me surpreendeu. O tal assistente de personalidade curiosa também ficou para conversar e percebi que, apesar de ter recursos muito limitados e um certo desfazamento da realidade, é uma pessoa culta, interessada, que mantém a sua pequena biblioteca... e que gere a sua liberdade privada de forma muito original!
Deixei Ovar encantada com a simpatia e com a disponibilidade de quem cede o seu tempo, de forma graciosa, para gerir esta casa com poucos apoios e recursos e para fomentar actividades culturais. E pude provar um delicioso pão-de-ló de Ovar! Pela minha parte, espero não ter despontado.
Eram cerca de 18.10h quando cheguei à FNAC e tinha já, à minha espera, algumas pessoas da minha família próxima. Mal tive tempo para dois dedos de conversa, porque outras pessoas foram chegando e, pelas 18.30, hora a que deviamos começar a falar sobre o livro, andava de um lado para o outro a cumprimentar família, amigos, conhecidos, alunos e ex-alunos e os seus pais, e a tentar, sem grande sucesso, ter um minutinho para uma palavrinha com cada um.
O espaço da FNAC do Oeiras Parque, mesmo à entrada da mezzanine que constitui a secção de livraria e música, um espaço muito agradável mas não muito grande, encheu, e, segundo me disseram depois, os funcionários "roubaram" bancos ao resto da mezzanine para ir acolhendo quem chegava. Vi pessoas de pé, o que, com o calor, há-de ter sido uma estucha. Fico-lhes grata pela paciência para ficar a ouvir-nos. E grata aos restantes por terem vindo, a uma hora e num dia que talvez não tivessem sido os mais convenientes. Estou de coração cheio.
Perdi, é claro, a noção das horas e é provável que tenhamos começado atrasados. Não sei dizer. Falou primeiro o Hugo Gonçalves, o óptimo editor deste livro. Disse muitas coisas bonitas, muitas interessantes. Retenho sobretudo a comparação do meu trabalho com a da minúcia de um relojoeiro, do mecanismo de um relógio, mas um "relógio-do-avô", desses altos, de parede, que é preciso primeiro construir e depois carregar. Ocorreu-me uma coisa muito pateta (e disse-a, Deus meu, quando chegou a minha vez!), que ainda bem que sou alta, ou o topo do relógio ficava por afinar...
A Ana Cristina Antunes, a quem estou muito grata, prometeu falar menos de uma hora e cumpriu! Falou o tempo certo e falou muito, muito bem, contextualizando com perfeição a época histórica, não fosse ela historiadora, e destacando os aspectos que, de facto, contemplo no livro. Falou do livro, claro, das personagens e do enredo, do muito que gostou delas e dele, sem revelar nadinha. Foi uma proeza! No fim, passou-me a batata quente com uma pergunta sobre a criação das personagens, sobre inspiração e trabalho e a magia da escrita... eu mato-a, juro!
Respondi o melhor que pude, porque, na verdade, nem sempre sei de onde vem esta gente que me povoa os livros. Houve, desta vez, um planeamento muito consciente do enredo, porque 1918 foi um ano complicadíssimo e cheio de acontecimentos históricos - e eu não podia permitir que a história da família os esquecesse ou que a História abafasse a narrativa dos Lopes Moreira. Falei um pouco sobre este aspecto, sobre o livro, sobre as personagens, sobre... Já não sei. O maior problema do improviso não é, para mim, perder-me ou não ter o que dizer, é nem sempre me lembrar depois de tudo o que disse. Falei daquilo que, no momento, me pareceu interessante e pertinente, e pronto. E não, nem eu nem o livro voamos da mezzanine abaixo. Isto de lançamento não teve nada!
No fim, autografos, cumprimentos, beijinhos, abraços, fotografias, agradecimentos. E flores! Foi muito bom. Foi tudo muito bom. Obrigada.
Os meus agradecimentos à Marcador, à FNAC e sobretudo a todos os que estiveram presentes!
o passatempo da página de facebook da FLUL Alumni (aqui)
quarta-feira, 12 de abril de 2017
É já amanhã que este meu novo livro vai ser lançado, quem sabe da mezzanine dda FNAC do Oeiras Parque cá para baixo, para cima dos computadores! Estão todos convidados para vir ver onde acerta, às 18.30h.
Vai ser muitíssimo bem apresentado pelo Hugo Gonçalves, que editou o livro e o conhece muito bem, e pela historiadora e amiga Ana Cristina Antunes que, para além de vos dizer umas coisas sobre o livro, talvez também vos diga alguma coisa sobre o ano de 1918.
No fim, estou lá eu para assinar livros e conversar com quem queira dar-me dois dedinhos de conversa (ou mais, que as palavras são como as cerejas!)
Tive a surpresa de, a propósito do meu romance O Ano da Dançarina, ser entrevistada para o site da FLUL Alumni, o site Faculdade de Letras sobre os seus antigos alunos.
Fui aluna desta Faculdade duas vezes, com muito mais prazer nos anos de doutoramento no Instituto de História da Arte, sob aorientaçãos dos professores Vitor Serrão e Mário Avelar... mesmo que, por razões estritamente profissionais, não o tenha terminado. Já tive oportunidade de referir que, a fazer algo, é para ser bem feito, e a investigação e redação de uma boa tese seria impossível de conjugar com nove turmas, depois sete... Enfim, um dia regressarei.
“É difícil equilibrar a vertente da história com o peso da História”
A Lisboa de 1918 é o ponto de partida do novo romance da alumna Carla M. Soares. O Ano da Dançarina, editado pela Marcador, recupera na narrativa episódios como a participação portuguesa na I Guerra Mundial ou a gripe espanhola.
Sem ser historiadora, a alumna, que se licenciou em Línguas e Literaturas Modernas na FLUL, e onde iniciou o Doutoramento em História da Arte, revela ser exaustiva na investigação. São quase 400 páginas de um romance que coloca a família Lopes Moreira no centro da acção, e que o FLUL Alumni foi descobrir na companhia da autora...
É a primeira vez que leio um livro meu depois de publicado, porque nunca tenho a coragem para fazê-lo, e foi isto que escrevi por lá:
Não sou capaz de dar uma classificação a um livro meu. Jamais o faria, não me parece correcto. Sou capaz, porém, de dizer que tem falhas e virtudes como todos os livros, e que, como tal, agradará a uns e não a outros, alguns leitores vão adorá-lo (espero), outros, possivelmente, detestá-lo. Posso dizer também que o reli com muito mais prazer do que esperava, eu, que não releio os meus livros porque me deparo sempre com frases que já não escreveria e coisas que diria de outra forma. Suponho que será assim com a maioria dos escritores, porque uma obra nunca está pronta… Diz o Záfon, se não me engano, que somos nós, temos de ser nós que a abandonamos, ou nunca terá um fim. Sucedeu-me aqui, claro, mas menos do que imaginava. Reli-o, pois, com prazer, e senti-me transportada para onde desejava que o livro transportasse os leitores, para o difícil ano de 1918 em Lisboa. Continuei presa às personagens, a Nicolau, tão frágil no início, a César, à valente Bernarda, a Eunice e aos irmãos mais novos, a Cecília e ao avô Cupertino, e também a Raul, D. Carolina, até a Hermengarda e Nuno, como desejo que aconteça aos leitores. Acompanhei as graças e desgraças que lhes sucedem quase como se não as conhecesse (quase). Fiquei contente com a narração dos episódios – a maior parte reais – da História desse ano, e com as peripécias que criei para os Moreira Lopes, em redor deles. Gostaria, como é natural, de ter tido o espaço para desenvolver todas as histórias – de permitir que Raoul e Eunice tivessem mais espaço, de acompanhar Bernarda no final da narrativa, ou Carolina, Hermano, Cupertino, Pedro, Mina, mas é Nicolau a minha personagem central e, se aprendi alguma coisa com a edição dos meus livros é que é preciso “kill some darlings”, i.e. cortar alguns segmentos de que gostamos e não estender outros como desejariamos fazer. Para quem vai lê-lo, desejo que se sinta, pois, em pleno ano de 1918 em Lisboa, e que sofra e se alegre com os Lopes Moreira e com as gentes da cidade, como eu me alegrei e sofri (bastante) durante a escrita e durante esta leitura.
Para não andar sempre a fazer publicações sobre o livro - embora, perdoem, me pareça natural neste momento que o meu blogue seja "dominado" por ele - junto nesta publicação duas informações.
Primeira, fica o convite para o lançamento, que estendo a todos os que desejarem estar presentes. Será apresentado não só por mim, era o que faltava lançar o livro sem o autor, mas por Hugo Gonçalves, o excelente editor, e por Ana Cristina Antunes, com um Brites lá pelo meio, como a Padeira. Historiadora local (procurem os seus livros sobre Cai-Água e a Parede, em co-autoria, que vão gostar), minha colega e amiga de longa data, acedeu a acompanhar-me em mais esta aventura. Fiquei muito contente.
Segundo, o livro já consta do Goodreads, com ficha aberta generosamente pela Titinha SCaeiro. Se estiverem nesta rede de leitores e quiserem adicioná-lo, fica o link.
E está quase... Dia 5 encontram-no nas livrarias, mas está em pré-venda na wook, com os 10% de desconto da campanha de lançamento!
Tenho frequentemente a tentação de, enquanto escritora, dar conta a minha vida a cada passo que dou, aqui ou numa rede social.
Tenho, por exemplo, a tentação de vir a correr contar que acabei de fazer uma revisão de texto, mesmo que seja a terceira ou quarta, se preveja pelo menos mais uma, depois de editado por quem sabe da poda, e não haja ainda data de publicação, como aconteceu esta manhã com A Chama ao Vento.
Ou de vir de imediato anunciar a data em que sairá o meu próximo romance, porque falta mesmo pouco, mesmo que a data ainda não esteja completamente assente (pode ser um dia ou outro dia), não haja capa e seja provável que ainda tenha lugar mais uma revisão, talvez em papel.
Ou partilhar excertos de textos que ainda não estão na sua versão final.
Ou as dificuldades inerentes a este trabalho, à pesquisa, à produção, à falta de tempo, às inseguranças e dúvidas e à vontade ocasional de mandar tudo às urtigas, porque, afinal de contas, poucos dariam por isso. (esperem, não assumam ainda que vivo em depressão, eheheh, porque:)
Ou partilhar o gozo que é ter criado estas histórias, estas personagens, o gozo que é trabalhar com a minha lindíssima língua-mãe, e saber que a leitura deu prazer a uns quantos leitores e talvez até tenha um ou dois... eeehh... vá, um ou dois fãs, que, sabendo que vem aí novo livro, o aguardarão cheios de vontade de ler. Partilhar o essencial que seria para mim continuar a escrever, mesmo que o fizesse só para amigos... porque não, não acredito no escritor que publica, mas diz que escreve só para si.
Posto isto, vou resistindo diariamente a todas estas tentações, porque uma coisa é a pessoa, que quer partilhar tudo, outra o escritor, que tem a obrigação de resguardar o seu trabalho até estar em condições de ser lido. De quando em quando acabo por ceder, como hoje. Hoje estou mesmo satisfeita: a revisão do Chama correu-me bem, matei muitos "darlings", mas é a última antes de ser visto pela editora. O Ano da Dançarina vem mais cedo do que esperava. Estou ansiosa pela capa. E posso dedicar-me ao projecto que deixei a meio. E voltar a ler! Suspendi todas as leituras para rever, mas agora estou a começar A História de Quem Vai e de Quem Fica. Iuuuupppiiii!!!
Prometo que a proxima publicação do monster será de outro tipo.