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quarta-feira, 26 de abril de 2017

coisa breve

Não haver nada
depois
crescer apenas no poema
coisa breve
estar no espaço
vazio
com a leveza
da palavra como
orvalho
teia
asa
brisa
água
momento
tudo suspenso

terça-feira, 25 de abril de 2017

Liberdade e o aniversário



Há cinco anos também era dia de celebrar a liberdade e muitos de nós não sabíamos o que era viver sem ela. Continuamos, felizmente, sem saber, apesar do que o mundo nos tem enfiado pelos olhos e pela vida dentro.  

Chovia a cântaros e havia Feira do Livro, que nesse e noutros anos foi mais cedo.


Na tarde de 25 de Abril de 2012, fui à FLL apresentar ao (meu pequeno) mundo o primeiro livro que não ficou reservado à gaveta e aos amigos. Chuva só combina com livros quando há um tecto e um sofá, mas veio muita gente e outra  parou a ver o que faziam tantos doidos numa chuvada daquelas. Foi necessário reacomodar quem me veio acompanhar, para que o resultado não fosse uma pneumonia colectiva a acompanhar o autógrafo. Mas foi tudo bonito, o dia, o que se disse, os autógrafos, os abraços. Até a ansiedade foi bonita.


Hoje, passados cinco anos, não sei bem se aceite este como o primeiro dos meus objectos-públicos-imperfeitos, ou se deseje ardentemente pôr-lhe as mãos, porque, 5 anos volvidos, o tanto que lhe fazia! Acho que é assim um escritor, por muito contente que esteja, permanece insatisfeito.

Seja assim também quem ama a liberdade. E a igualdade. Este ano, no mundo amnésico em que de repente vivemos, parecem-me ambas muito mais importantes.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

a ladainha da diligente

Não querer saber.
Alimentar a distância.
Dizer nada.
Não perguntar.
Perguntar é ridículo.
Anular expectativas.
E ilusões.
Não me deixar levar.
Estar calada.
Dizer nada.
Não perguntar.
Mas e a demora?
É que demora!
Não.
Caladinha.
Ser mais rija.
É mesmo preciso ser rija.
É preciso desligar.
Desligar.
Desligar.
Será o que for, a minha parte está feita.
Fiz tudo. Fiz bem feito.
Fiz bem feito?
E lá estão as dúvidas.
Um desfile de dúvidas.
Dizer nada.
Não perguntar.
Não faço mais isto.
Faço.
Não sei não fazer.
Não ter condescendência para comigo.
Repugna-me a condescendência.
O que for será.
E recomeça.

terça-feira, 18 de abril de 2017

alta velocidade

atrás de mim ficou apenas fumo
dedos dos pés marcados no asfalto
trago os olhos postos no horizonte

segunda-feira, 17 de abril de 2017

A Mulher é uma Ilha - Audur Ava Ólafsdóttir

Resultado de imagem para a mulher é uma ilhaEste livro constituiu a minha estreia com a autora islandesa Audur Ava Ólafsdóttir, cujo primeiro nome se escreve com uma letra que, por muitas voltas que desse ao teclado e aos símbolos, não consegui descobrir. É autora de um outro romance também publicado pela Marcador, cujo nome me seduz, mas que ainda não li: Rosa Candida. 

A leitura de A Mulher é uma Ilha foi iniciada, pois, sem nenhuma ideia do que me esperava, menos ainda da estranheza deste enredo e desta escrita, simples e todavia curiosa, o que significa que fui apanhada de surpresa pelo livro e mais ainda pela rapidez com que o li, porque não haveria, à partida, nada de concreto a agarrar-me a ele. Acompanhamos uma mulher, a narradora na primeira pessoa, num momento de separação e mudança, em que, como aponta a sinopse, ela é deixada pelo amante, no mesmo dia pelo marido, fica encarregue do filho mudo da melhor amiga hospitalizada, ganha duas lotarias - numa, uma casa pré-fabricada, noutra, bastante dinheiro - e decide partir coma  criança pela Islândia, numa viagem que parece não ter destino, mas que acaba por ter um destino, e talvez um objectivo, muito concreto. Estamos em Novembro quando viaja, e os dias são curtíssimos, as noites muito longas (estamos quase no Polo Norte) e a temperatura deveria ter baixado dos 0º, com o respectivo gelo e neve, mas mantém-se nuns quentinhos 10 a 12º, com chuvas constantes, inundações e derrocadas. O clima é quase mais uma personagem, o que, sendo tão extremo e condicionante, se compreende. 

Poderá tratar-se de uma característica da escrita nórdica, ou ser característica da autora (mal conheço uma ou outra), mas há um toque de surreal no que lemos. Tudo é comum e rotineiro, e no entanto desfazado, inconsistente, a começar pela personalidade peculiar da narradora, cujo nome nunca conhecemos. As outras personagens, excepto Tumi, o pequenito, entram e saiem de cena como se pairassem e fica-se com a impressão de que a narradora nos mantém de fora, a espreitar de uma janela, sem nos revelar o suficiente para a conhecermos ou conhecermos os outros. Por um lado, não faz parte da sua forma de estar deixar os outros entrar, por outro, pouco se importa com a impressão que tenham dela. Através dos seus olhos, temos ao mesmo tempo a imagem de povo muito gregário, que se junta com frequência para o convívio, e de uma enorme solidão, de isolamento, muito ligado à paisagem. É-nos ainda sugerido um segredo no passado, algo que terá sucedido na aldeia para onde se desloca, e temos até um vislumbre do que poderá ter sido, mas tão escasso, tão indefinido, que caberá ao leitor decidir em que medida o que vai lendo em itálico é memória ou imaginação. 

A estranheza é acentuada por um humor ácido, frio, quase cruel, delicioso, que demoramos a compreender que poderá ter sido introduzido deliberadamente, e não ser apenas consequência do absurdo e de alguma crueldade. Por exemplo, a louca amiga grávida da narradora (mãe de Tumi) partilha o nome da autora... será a autora? A narradora vê-se através das lentes nada rosadas da ironia, fará a autora o mesmo consigo própria? O mesmo sucede com a morte de bichos a torto e a direito - são caçados, atropelados, afogados, pouco importa, mas há um humor associado que é subtil, terrível, ilógico. Esse humor negro permeia a forma como vê o que está à sua volta, mas o leitor tarda a entendê-lo. O mais curioso é que, depois de tudo, guardamos a impressão de uma espécie de ternura no modo como esta mulher desligada se deixa envolver e tenta corresponder às necessidades de uma criança com necessidades especiais. O miúdo, visto pelos seus olhos, é delicioso. 

Nota: vale a pena ler as receitas (não são receitas...) no fim do livro, que a Marcador optou por manter, e muito bem. 

domingo, 16 de abril de 2017

canção de espera

sentei-me no muro à espera
de novas vindas do mar
da barcaça marinheira
da cantiga de embalar
diz o vento que virá
mas não chega a esta praia
faz-se engano e ilusão
truque velho de maré
sopra vento vem feroz
traz-me novas de além mar
mas não de homem ou viagem
nem razão para ficar
nem de mim nem de ninguém
que eu não sei que novas quero
nem sei bem quem mas trará
diz o vento que virá
mas não chega a esta praia
faz-se engano e ilusão
truque velho de maré
e eu cansada de esperar





sexta-feira, 14 de abril de 2017

Assim se lançou o livro

Eram cerca de 18.10h quando cheguei à FNAC e tinha já, à minha espera, algumas pessoas da minha família próxima. Mal tive tempo para dois dedos de conversa, porque outras pessoas foram chegando e, pelas 18.30, hora a que deviamos começar a falar sobre o livro, andava de um lado para o outro a cumprimentar família, amigos, conhecidos, alunos e ex-alunos e os seus pais, e a tentar, sem grande sucesso, ter um minutinho para uma palavrinha com cada um.

O espaço da FNAC do Oeiras Parque, mesmo à entrada da mezzanine que constitui a secção de livraria e música, um espaço muito agradável mas não muito grande, encheu, e, segundo me disseram depois, os funcionários "roubaram" bancos ao resto da mezzanine para ir acolhendo quem chegava. Vi pessoas de pé, o que, com o calor, há-de ter sido uma estucha. Fico-lhes grata pela paciência para ficar a ouvir-nos. E grata aos restantes por terem vindo, a uma hora e num dia que talvez não tivessem sido os mais convenientes. Estou de coração cheio.


Perdi, é claro, a noção das horas e é provável que tenhamos começado atrasados. Não sei dizer. Falou primeiro o Hugo Gonçalves, o óptimo editor deste livro. Disse muitas coisas bonitas, muitas interessantes. Retenho sobretudo a comparação do meu trabalho com a da minúcia de um relojoeiro, do mecanismo de um relógio, mas um "relógio-do-avô", desses altos, de parede, que é preciso primeiro construir e depois carregar. Ocorreu-me uma coisa muito pateta (e disse-a, Deus meu, quando chegou a minha vez!), que ainda bem que sou alta, ou o topo do relógio ficava por afinar... 


A Ana Cristina Antunes, a quem estou muito grata, prometeu falar menos de uma hora e cumpriu! Falou o tempo certo e falou muito, muito bem, contextualizando com perfeição a época histórica, não fosse ela historiadora, e destacando os aspectos que, de facto, contemplo no livro. Falou do livro, claro, das personagens e do enredo, do muito que gostou delas e dele, sem revelar nadinha. Foi uma proeza! No fim, passou-me a batata quente com uma pergunta sobre a criação das personagens, sobre inspiração e trabalho e a magia da escrita... eu mato-a, juro!


Respondi o melhor que pude, porque, na verdade, nem sempre sei de onde vem esta gente que me povoa os livros. Houve, desta vez, um planeamento muito consciente do enredo, porque 1918 foi um ano complicadíssimo e cheio de acontecimentos históricos - e eu não podia permitir que a história da família os esquecesse ou que a História abafasse a narrativa dos Lopes Moreira. Falei um pouco sobre este aspecto, sobre o livro, sobre as personagens, sobre... Já não sei. O maior problema do improviso não é, para mim, perder-me ou não ter o que dizer, é nem sempre me lembrar depois de tudo o que disse. Falei daquilo que, no momento, me pareceu interessante e pertinente, e pronto. E não, nem eu nem o livro voamos da mezzanine abaixo. Isto de lançamento não teve nada!


No fim, autografos, cumprimentos, beijinhos, abraços, fotografias, agradecimentos. E flores! Foi muito bom. Foi tudo muito bom. Obrigada.



 


Os meus agradecimentos à Marcador, à FNAC e sobretudo a todos os que estiveram presentes!

APROVEITO PARA LEMBRAR: 
o giveaway no Goodreads (aqui)  
o passatempo da página de facebook da FLUL Alumni (aqui