Páginas

segunda-feira, 17 de julho de 2017

sim, um barco

Havia um barco
ponto ao longe no azul
brilhante
mas tu insistias que era
um barco
e eu
porque os olhos nunca
mo mostram
dizia sim, um barco
que lindo barco
Tu sonhavas-te nele
tu que não sabes velejar
eras quase
capitão
de casca de noz
eu estendida no convés
e depois o amor ao sol
O mar
devolvia-te o desejo
num refulgir
de prata
e o sol bronzeava-te
a pele
e eu também sonhava
um barco
Sim, um barco
no centro do oceano tão quieto
eu e um barco
eu, que tão pouco
sei velejar
capitã de veleiro
nem tu com a tua pele
de sol e mar
nem a tua voz
nem o teu desejo
nem nada
eu e o medo
um livro um cão
no silêncio
do grito das gaivotas
o resto só linha de horizonte
muito tempo
o tempo todo talvez
e tu dizes,
um barco é que era bom
e eu suspiro.
Sim, um barco










domingo, 16 de julho de 2017

Seja Feita a Tua Vontade, Paulo M.Morais


Evito, por princípio, opinar sobre os livros dos autores que conheço pessoalmente, em particular sobre aqueles por quem tenho estima e admiração, independentemente de ter ou não gostado do livro. Já me sucederam ambas as coisas. Não sou capaz, porém, de fugir a umas palavrinhas no fim desta leitura e, ao contrário da maior parte das opiniões que vou escrevendo, gostaria de as ter redigido no momento em que terminei, a "quente". Sabia bem o que queria dizer, não tive oportunidade e creio que as palavras vão custar-me mais a oganizar agora.

Li alguns livros do Paulo. O primeiro, do tempo do Colectivo Nau (se tiverem curosidade, vejam o que foi aqui) foi Revolução Paraíso, depois disso li Uma Parte Errada de Mim e este Seja Feita a Tua Vontade e parece-me que este texto está tão longe do primeiro que li, não em qualidade, que nunca esteve em causa, mas em estilo e tema, como o Paulo está já do escritor (e se calhar do homem) que impulsionou a Nau. É preciso que diga, antes de mais, que gostei bastante do Revolução, mas gosto mais assim. É um critério pessoal, claro, assente sobretudo no facto desta escrita me parecer também mais pessoal. 

Confesso que, dada a temática, hesitei em pegar no livro neste momento de menos ânimo. Estava curiosa, mas não o teria lido neste momento se não fosse curto e sobretudo se não conhecesse o livro anterior. Por tê-lo lido (e gostado), sei que a escrita do Paulo não é dada ao drama, mesmo quando o tema é trágico, nem à auto-comiseração, mesmo quando há razão para tristeza. Sei também que a linguagem  crua e simples, exacta, culta, atribui à narrativa uma certa leveza, não no sentido da superficialidade, mas de uma leitura escorreita, e uma emoção contida, sem excessos de caixa de Kleenex. 

É o que acontece também em Seja Feita a Tua Vontade, que acabei por ler em meia dúzia de sessões, muitas páginas de uma assentada - e juro que só fiquei com lágrimas nos olhos uma vez, não porque o episódio seja trsite, que é, mas por ser de sentimentos bonitos, de grande generosidade, que me suscitam sempre muito mais emoção. Nestas curtas páginas, o narrador coloca-se no centro desassombrado de uma relação e de uma situação complexa com o avô, antigo médico, que escolhe a sua própria morte, e disseca-as com muita clareza de espírito. A história cinge-se a um espaço e tempo limitados pela morte do avô, mas acaba por ultrapassá-lo, porque não se narra apenas o processo difícil do fim da vida na velhice, o autor vai tecendo em seu redor, uma espiral de sentimentos e dúvidas, por vezes persistentes, de rebeliões e conciliações, de referências culturais e pequenas histórias do passado e do presente, recordações com um cunho muito pessoal. Ou não.

Porque essa é a questão. Sendo uma história na primeira pessoa, acompanhada por imagens e listas em anexo, temos por quase certo que este narrador é o autor, que este é o seu avô, em busca de uma morte digna, que as recordações são suas. Vou, porém, fazer de advogado do diabo: e se não fossem? Faria diferença na forma como leriamos este livro? A meu ver, nenhuma. A leitura continuaria a parecer-nos uma espécie de vislumbre de momentos muito intímos numa relação única, e a parecer-nos verdadeiros. Porque é o que faz um autor, sobretudo quando a escrita é tão pessoal e na primeira pessoa, diluir a barreira entre a realidade e a ficção, até não se estar certo de se estar perante um texto quase biográfico ou uma fantasia, como são todas as obras de ficção. Ou como é, afinal, a nossa memória dos outros.   

terça-feira, 11 de julho de 2017

caminheira de mim

dizes-me que limpe o pó
dos dedos dos pés
me recoste na almofada
de calor e linho
e deixe sarar as feridas
de muito caminho
eu tenho medo
porque a vontade é muita
porque o corpo doi
e já andei tanto, tanto
sem sair do sítio
mas sem o chão nos pés
não descubro
a linha imaginária da vontade
e no horizonte manso
eu serei aquietada
e sim, contente
e sim, coisa nenhuma de mim
não me chames
do meio do abandono
que eu não quero ser contente
quero  os espinhos
nas palavras
desta estrada de poeira
e nuvem branca












quinta-feira, 6 de julho de 2017

O prazer de escrever por escrever


Tenho umas quantas razões para não estar em idílio perfeito com a escrita. Corrigo: com a publicação. É preciso distinguir uma coisa da outra com muita clareza: a escrita não me entristece, é uma catarse, um prazer, uma necessidade, a publicação é sempre uma incógnita, porque depende de muitos factores, da minha vontade, das decisões da editora, do mercado, das vendas, etc, etc, e traz-me tantos prazeres como dissabores. 

Os últimos livros que escrevi e publiquei, sobretudo O Ano da Dançarina, foram trabalhosos do primeiro ao último dia, um labor intenso de pesquisa, escrita, conjugação entre facto e ficção, edição, revisão, correção... Neste momento, tendo em conta os resultados mais recentes (os números, não as opiniões, que parece que não batem certo, opiniões excelentes e números que... enfim), tenho mais perguntas do que respostas. Estou consciente de que esta honestidade pode não me favorecer, mas há momentos em que é, ao menos, libertadora. Não vou fingir uma indiferença que não tenho nem entendo, porque, como tenho dito muitas vezes, quem escreve pode fazê-lo só para si, mas quem publica não. Quem publica, quer ser lido (muito lido, muito, muito lido) e ter quem goste e, porque não, quem deteste o seu trabalho. Logo, tanto as opiniões como o número de leitores que adquirem e/ou leem o livro importa. Representam o sucesso do romance e do autor e muitas vezes o seu futuro. 

Dito isto, o romance que estou a escrever neste momento sabe-me ao paraíso. Há muitas razões:

Primeira, não requer nenhuma pesquisa. Os meus livros publicados são todos de época, históricos, se quiserem. Sou exigente comigo própria na conjugação da História com a história, para que tudo seja fluido e nada chatinho, para que nunca seja uma lição, mas ainda assim se descubra a época, para que o retrato seja fiel, cheio de detalhes engraçados, sem ser doutrinário, e isso dá uma trabalheira inimaginável. Muito mais difícil, acreditem, do que espetar com os factos nas páginas, em parágrafos e parágrafos que parecem tirados ds compêndios de História, o que é uma tentação a que nuca cedo. Este romance, porém, não é de época e, se preciso que um ou outro facto bata certo com o que digo, é coisa mínima, mais do lugar do que do tempo. Coisa fácil, portanto, facílima. e de grande liberdade. Tanta, tanta, que até sou capaz de escrever a qualquer hora do dia, eu que há anos só sou capaz de fazê-lo de manhã, com a cabeça fresca! 

Segunda, porque escrevo o que me apetece. Tenho uma ideia geral do que será esta história, de quem são as personagens e o que fizeram ou farão, mas ela flui como bem quer, sem uma linha cronológica, sem nenhuma obrigação. Não tenho um esquema ou plano - ao contrário do anterior, que exigiu uma tabela detalhada - o que quer dizer que a qualquer momento posso ser surpreendida por qualquer das personagens. Talvez a coisa terrível tenha sido feita, não pela personagem a quem agora a atribuo, mas por outra. Talvez a minha protagonista fique em Portugal, talvez não. Sei lá. Nem tenho ainda um fim definido, nem estou certa do que sucederá no próximo capítulo. Nem sei se a terminarei, mas uma coisa sei: será curto, menos de 200 páginas. Se calhar. menos de 150. Nisso, estou determinada. 

Terceira, porque não faço ideia do que lhe farei quando... se o terminar, porque não sinto essa obrigação. Não sei se tentarei a minha actual editora, que me tem como escritora de históricos, se o colocarei num envelope para um prémio qualquer (pelo desafio, que me importa, sei bem como é isto dos prémios), se o deixarei bem quietinho no seu ficheiro, bem escondidinho, se o imprimirei apenas para os amigos, que ão uns queridos e querem sempre ler o que vou fazendo. As dúvidas costumam ser: será que a editora o quer? Será que, se não  quiser, encontrarei outra interessada? Desta vez, pouco me importa. Uma parte da indiferença poderá advir de um certo desapontamento, mas a maior parte de ser um livro diferente dos anteriores e não ter expectativas para ele, por não ser provável à partida, que a editora o queira. Deva ficar com pena? Pois. Sei lá.  Entretanto, dei-lhe o título provisório (ou não) de Limões na Madrugada, por causa de um poema que escrevi há tempos e está por aqui no blogue, poema medíocre mas que deixou semente.  

São motivos mais do que suficientes para que escrever este romance, seja um prazer, no sentido em que a liberdade absoluta é um prazer. 

segunda-feira, 3 de julho de 2017

a casa que se vê

mostra-se ao mundo uma casa
de flores na sacada
janelas abertas com cortinas
flutuando ao vento como velas
creio até que se sente
um perfume doce de casa limpa
a ninguém se exibem
as gavetas onde as meias se misturam
o pó debaixo dos livros
os armários de tralhas velhas
os fantasmas no soalho
as paredes de onde já não é possível
lavar o mofo das memórias
linda a casa caiada de fresco
janelas pintadas de azul
um banquinho à porta
para as visitas
e o fumo na chaminé
enrolado em doces volutas
fumo da queima de tantos sonhos
isso não se mostra
isso não




domingo, 2 de julho de 2017

a aridez que sobra

aqui o verde, o azul, o perfume
de flores, os frutos nas árvores,
ao fundo a coluna de fumo 
antecede as labaredas quem sabe
pode ser o fim do sol
que incendeia o céu a oeste
ou o princípio do inferno
aqui há uma bolha de água
e relva fresca, há um baloiço,
há gatos, cantam pássaros,
corre o rio tranquilo no vale,
nada se inquieta, nada é feroz,
nem o tempo, que respira devagar
vejo tudo isto, tudo isto sei,
mas nas plantas dos pés, 
atrás dos olhos, dentro do crânio
as brasas tardam tanto a morrer 
a pele acomoda-se ao sol,
brilham cabelo e sorriso de verão
dentro só a aridez que sobra 
da bruta queimada da ilusão
o pé na relva pede nova força,
o sangue dentro é só cinza e sal







sábado, 1 de julho de 2017

Florença - ainda o caderninho

Deixei passar demasiado tempo entre textos, e os dias em Florença começam a aglutinar-se numa impressão geral e em recordações globais, em que já se me torna difícil distinguir o que fiz em cada dia. A agravar a questão, há o caderno abandonado. Estou nos últimos registos: deixei de fazê-los a meio do terceiro dia, o "dia dos museus".

Em breve, terei de assumir uma aproximação diferente: em vez de continuar dia a dia, ou em parcelas de dias, para não estender o texto, vou destacar momento, lugares... em quantas publicações irá resultar, não sei. Pode ser uma apenas, podem ser muitas. 

Por ora, há caderno. Avancemos.

Pizzi

O Palazzo Pizzi, do lado de lá da Ponte Vecchia, é um monstro. Um largo enorme, em declive, e o palácio em cima, por trás dele os jardins. Compramos bilhetes, passamos pela segurança, entramos. Subimos vários lances de escadas e ocorre-me que, outrora, homens e mulheres deviam ter coxas de pedra. Por fim começamos a visita e o Pedro depressa se irrita, porque, onde esperava ver quartos, salas, a cozinha, os banhos, e descobrir como viviam os Médici, vemos afinal retratos e mais retratos antigos de figuras relevantes, em salas lindas de tectos pintados, paredes forradas e cortinados pesados e veludo. Há corredores cheios de caras novas e velhas, quase todas feias, uma ou outra mais composta. Descubro uma mulher lindíssima, um homem bonito da cada d'Este, outro feíssimo, um Médici. Reconheço alguns nomes, muitos não, mas sempre gostei de retratos e esta transformação em museu de figuras e expressões em nada me incomoda.  Depois, por fim, meia dúzia de salas opulentas onde terão habitado os donos do palácio, passando pela do trono e terminando nos aposentos da rainha. Temos de espreitá-los, porque um cordão impede a entrada. Proliferam veludos e brocados, dourado e cristal, brilho e excesso. O palácio testemunha o poder e riqueza dos Médici e não seixa dúvidas sobre quem eram, a par da Igreja, tão predominante, os donos desta cidade maravilhosa.  
Imagino homens e mulheres percorrendo estas salas, sentados nas banquetas, sussurrando conspirações, e ocorre-me, a despropósito, o imenso trabalho de acender (e substituir) todas as velas nos lustres e castiçais de complexo desenho e o perigo de incêndio que tudo aquilo terá constituído. Passamos pela Sala Branca, decerto uma sala de baile, mas não temos acesso à prometida exposição de trajes (que não encontramos e concluímos estar fechada). O Pedro está tão aborrecido com o Palazzo, e eu tão cansada, que depressa concordamos que não vale a pena pagar o bilhete para visitar os jardins. Deambulamos pelo "outro lado" de Florença, de mapa na mão, à procura de mais qualquer coisa para ver. O tempo que paramos para beber alguma coisa numa esplanada mal chega para que as pernas me deixem de tremer de cansaço, mas continuamos sob o sol escandante e acabamos por atravessar a ponte para o "nosso lado" pela ponte Americo Vespucci. Cada um de nós vai um pouco insatisfeito, por razões diferentes. Eu, porque gostei de Pizzi, mas não do que veio depois, não quero andar por toda a parte até que a exaustão me impeça gozar a cidade. Talvez seja má turista, mas quero parar mais vezes, parar mais tempo, não sinto necessidade de procurar cada quadradinho laranja no mapa, para ver se é monumento. O Pedro pela razão oposta: detestou Pizzi e não encontrou mais nada aberto, mais nada para visitar daquele lado da cidade. Temo que isto se torne complicado para mim. Outra vez.


Música no Palazzo

Reconcilio-me com esta viagem logo depois de um duche e algum descanso, quando paramos num cantinho bonito, para vinho branco, queijo e prosciutto, e ali ficamos algum tempo. Isto sim! Tentamos depois encontrar um restaurante que me encantara na véspera, mas às tantas já não sabemos onde estamos e acabamos, meio irritados, por comer onde calha. A minha pasta é quase igual à que comi, mas bastante picante. Tenho tanta sede que o vinho não me satisfaz, nada me sabe ao que devia e o mundo só se endireita quando, depois do jantar, bebo finalmente uma garrafa inteira de água.

Estamos muito perto do meu querido Palazzo Vecchio e, ao caminharmos nessa direção, apercebemo-nos da música. Há música em muitas ruas desta cidade, músicos que tocam violino, violão, viola, outras coisas nos passeios e praças. Ontem, duas jovens de longos vestidos tocavam violino numa praceta, mas isto é diferente: há um concerto em frente ao Palazzo, coisa de orquestra inteira (pequena, claro), com muita gente de pé a assistir. Ficamos também a ver o que é. O entusiasmo estoira na assistência quando, terminada a peça que tocavam à nossa chegada, o maestro explica, em italiano e depois inglês, que vão tocar... Star Wars! E tocam, e é maravilhoso!  Troco um olhar de prazer e um sorriso com uma desconhecida, que nem sei se é turista ou habitante local, e penso em como a música pode ser unificadora. Gostava de ser capaz de reter este prazer e toma-me a ideia, despropositada no momento, de que a música é como a poesia, um êxtase momentâneo, que depressa esmorece, mas que permanecem ambas, uma na partitura, outra na página, para que o gozo possa repetir-se, sempre diferente. Todos reconhecem o tema do filme, transformado numa peça belíssima pela composição de John Meyer e pela orquestra e, no fim, o aplauso é estrondoso. A praça quase encheu. Hesitamos em ficar ou ir e eu, com voltade de ficar, atiro "E se a seguir tocassem James Bond?." Estou a brincar, claro. Cada 007 tem o seu tema, porque haviam de ir buscá-los? Quais? O maestro agradece e declara que, dentro do tema "música para cinema", se seguirão três temas de... James Bond! Depois de Bond, tocam O Bom, O Mau e O Vilão e nós ficamos, até se esgotarem todos os temas que a orquestra trazia planeada e o maestro, espantado com o entusiasmo do público, improvisar com a orquesta: tocam uma marcha americana antiga, que faz lembrar vagamento o hino. Só depois disso saímos dali.

Vou cansadíssima, mas com o peito cheio. É isto, afinal, que me dá gosto.