O desejo de qualquer escritor é poder escrever. Cada vez mais e melhor. Ter a inspiração, evidentemente, as ideias, a capacidade de pô-las no papel (ou no ecrã) de uma forma que traga prazer para quem lê, num bom português. Tudo isto ou se tem, ou não se tem, ou aprende-se ou não, ou se melhora ou não. Uns são mais teimosos, mais persistentes, outros menos, uns são mais permeáveis à crítica, outros não a aceitam, alguns são mais clerividentes quanto aos seus próprios defeitos e à qualidade dos seus textos, outros vêm em tudo o que produzem uma obra prima. Eu confesso: ainda não escrevi nenhuma, não sei se alguma vez escreverei, nem sei se a reconheceria se escrevesse.
Inegável é que, para escrever, é preciso... tempo para escrever. É o que invejo, coisa feia, a quem o tem. A quem vive da escrita ou de outra coisa qualquer, e pode dispender longas horas de concentração descansada num texto. Por que isto de escrever não é só escrever, como muito bem sabe quem escreve ou anda a tentar. Para um poema, podem chegar uns minutos, se o impulso está lá. Pode até ser um excelente poema. Mas sempre que há uma história a desenvolver, há muitos aspectos que antecipam e acompanham o verter das palavras para o papel.
Há, por exemplo, o planeamento. Não perco muito tempo com ele, por duas razões: nunca cumpro o plano, e acredito que o livro só nasce quando o escrevemos. Podemos planear uma vida inteira e nunca chegar a produzir uma história. Mas é preciso ter, pelo menos na cabeça, uma ideia, um delinear das personagens que nos servem, mesmo que depois as vamos ajustando. Para isto, é preciso tempo, não só em minutos ou horas, mas tempo útil de cabeça descansada e sossego.
Há, em muitos casos, a pesquisa. Certos livros exigem-na, é lugar comum. Recentemente dediquei-me aos de época e é um deus nos acuda. Nem me refiro ao conhecimento da época histórica em geral, as voltas e reviravoltas políticas, económicas e sociais que estão acessíveis em inúmeros livros e sites. Refiro-me aos pormenores. Um pormenor insignificante, como por exemplo que navios partiram de Portugal para os Estados Unidos em certo mês de certo ano pode levar horas, dias a descobrir. Onde se podia cear em certa cidade no início do século. Como se chamava a rua X no ano Y e que aspecto tinha. Esses detalhes que tornam "real" uma história, quando me interessam pessoas mais do que acontecimentos históricos e... enfim, as personagens se mexem e falam e comem, e dormem e se vestem!
A inevitável escrita. Longas horas de batalha perante as teclas, para trazer à vida gente que se possa amar e odiar, acontecimentos plausíveis num certo quadro histórico real, mas que sejam muito humanos, individuais, e não ilustrações de uma época, e que, idealmente, obriguem o leitor a uma leitura compulsiva. Que sejam lógicos, bem encadeados, com bom ritmo, bom equilíbrio entre acção, instrospeção, informação, diálogo e descrição. Posto assim, parece demasiado. E é. Precisa de tempo. E depois a revisão. As revisões, uma duas, tantas quantas forem precisas até o texto apresentar uma estrutura e português decentes, e o minímo possível de gralhas. Eu não a destesto, como tanta gente, embora por vezes já nem possa com certo texto. Corto cenas, acrescento cenas, transformo discurso em diálogo, reescrevo muito. Horas e horas, longos dias a aprimorar. A afinar.
E para isto tudo o quê? Tempo, que é do que carecem todos os escritores que não o são a tempo inteiro nem têm quem ajude. Queria viver da escrita? Sim, para poder escrever mais e melhor.