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terça-feira, 27 de junho de 2017

a tarefa por contar

tremenda tarefa
a de agarrar a bainha dos dias
com os dentes
ainda a manhã é insuspeita
e todos os dias se partem
os molares
disso não há relato
não há crónica
nem artigo
cansam-se os braços
feitos ao mar todos os dias
as pernas de andar
presa até aos joelhos na areia
ardem os olhos de negar
que há horizontes
melhores do que essa linha
ninguém conta
nem uma página diz
que mais doi a tremenda tarefa
de fazer nascer verdade
do espumaço da maré na madrugada
que conformar o corpo
ao destino em terra





segunda-feira, 26 de junho de 2017

fast burners ou long runners?

Todos nós, leitores, temos uma noção mais ou menos clara de que há livros de consumo rápido, de fácil digestão e olvidáveis, outros que ficam connosco muito tempo e outros ainda que, com a sua capacidade de permanecer e representar, pertencem ao espólio literário de um país - ou da humanidade. Que se tornam clássicos. 

Não vou fazer juízos de valor, nem tentar estabelecer aqui os padrões de uma coisa e de outra. Sendo os clássicos uma categoria aparte, porque são-no independentemente do agrado ou desagrado com que possam ser lidos, a verdade é que um livro pode ser olvidável para um leitor e memorável para outro. Nada disso é relevante para mim, que leio com gosto quase tudo o que me vem parar às mãos, até rótulos de champô, se se der a necessidade.  

Esta publicação é sobre uma outra ideia que me deixou a magicar. 

Há pouco tempo, fui colocada perante um conceito que não me tinha ocorrido, e que está menos relacionado com a nossa posição enquanto leitores, do que com a forma como um livro vai penetrando e encontrando o seu lugar junto do público. Como vende, portanto. Um autor que muito admiro, a propósito de mais uma edição do seu livro, comentou que não esperava o impacto imediato desse livro: esperava que tivesse melhor desempenho ao longo do tempo, do que de início, ou seja, que fosse um long runner. Não sei se usou esta expressão, mas é a que me ocorre quando penso nisso. 

É muito interessante, e pôs-me a pensar sobre os livros em geral. Ocorreram-me outras expressões. Há livros que são fast runners. Tomam a dianteira de repente e vendem muito num instante, uma, duas, muitas edições. Alguns destes gastam-se depressa, independentemente da qualidade. Não são maratonistas. No caso deste autor, felizmente, o livro tem-se mostrado ao mesmo tempo as duas coisas: ao fim de imenso tempo, continua a vender bem, num mercado bastante miserável como é o nosso. 

Há outros, porém, que nem uma coisa, nem outra. São fast burners, ardem um pouco, mas a chama apaga-se depressa, sem ter causado grande impacto. É o que sucede, creio, à maior parte dos livros que vão sendo publicados por cá, a não ser que recebam o oxigénio de um prémio, da exposição pública de quem o escreveu (de preferência anterior à publicação) ou de uma ligação ao pequeno e fechado universo literário nacional, ou de algum outro acontecimento extraordinário. Ou da sorte, claro. Não questiono a qualidade, que devia ser essencial para o sucesso de um livro (nem sempre é, infelizmente), apenas o facto de por vezes isso não ser suficiente. Os livros traduzidos parecem chegar de fora com duas botijas de oxigénio: a primeira, o já terem habitualmente algum reconhecimento antes de cá chegarem; a segunda, a confiança e curiosidade dos leitores portugueses - maior com o que vem de fora do que com o que se faz cá dentro. 

Não me importa agora o que, para além da qualidade ou falta dela, faz com que um livro seja um corredor rápido, outro um corredor de fundo e um outro mal ter pernas para andar. Achei piada à ideia, mais ainda aos nomes "em estrangeiro" que me ocorreram. Que me perdoe quem achar tudo isto um disparate.  Há dias assim. 




sábado, 24 de junho de 2017

dantes é que era bom

era dantes
tu tinhas seis palmos e eu sardas
e bolsos no vestido
de remendos
corríamos as duas nas manhãs de verão
que eram todas as manhãs
menos a de Natal
e havia sempre bolo de mármore
matrucos e bonecas de pano
no empedrado da rua
e livros novos
da biblioteca itinerante

nada é mentira, sabes,
nos retângulos de memória
de cartão
dantes é que era bom
se prometeres
que é assim que foste menina
para sempre
sem terrores nocturnos
nem frio de inverno
e se jurares que nunca vimos
o longo futuro
debruçar-se sobre nós
como papão










quinta-feira, 22 de junho de 2017

quando vais

fazes parte da manhã
com convicção
largas o sonho
nos lençois
pousas os pés no chão
um de cada vez
desdobras o corpo
antes da luz
cresces de dentro para fora
eu fico a ver-te
nascer assim para o dia
tão certo dele e de ti
e tenho medo
dos passos que darás
na escuridão








quarta-feira, 21 de junho de 2017

Florença segunda, a manhã

Durmo bem, tomo um pequeno almoço simpático no hotel e preparo-me para o calor, vestido de alças e chapéu, antes de sairmos para começar um dia que prevejo esgotante e fantástico. 

Santa Maria del Fiori

Vamos diretos a Santa Maria del Fiori, devagar, gozando a cidade. São dez da manhã e a praça do Duomo já se enche de turistas. Junto à Catedral, forma-se uma enorme fila, que a contorna e desaparece numa curva. Anuncia-se mais de uma hora de espera. A aquisição de bilhete é um pouco confusa, feita no número 7 dessa rua. Pagamos, se não me engano, 15 euros, que nos dão direito à entrada em vários espaços.

O Battistero 

Por ter muito menos gente, visitamos primeiro o Battistero di San Giovanni, estrutura circular com uma alta cúpula, que parece, ainda assim, uma anã junto do Duomo. O espaço é despido de artefactos, com excepção de uma grande estrutura circular ao centro, como uma mesa, mesmo debaixo da clarabóia. Tem-se a noção exacta do que pretendia a construção sacra: é preciso olhar para cima e, ao fazê-lo, o espanto, no melhor sentido da palavra, é inevitável. Painéis dourados com cenas bíblicas trepam a cúpula, e é-nos possível "ler" alguns, identificando as histórias que se contam da esquerda para a direita, horizontalmente. Sob as primeiras imagens, arcos e nichos profusamente trabalhados acolhem uma multiplicidade de janelas. A luz é coada, pensada decerto para acentuar a impressão de paz e imensidão. É fácil imaginar o espaço preenchido silenciosamente por nobres em vestidos e capas, nos baptismos dos seus pequenos princípes e princesas, ou ficcionar conspirações sussurradas na penumbra...

Duomo 

Quando nos dispomos a entrar no Duomo, descobrimos que a enorme fila é para todos, porque, para o edifício principal, a entrada é gratuita. Uma americana simpática guarda-nos lugar enquanto vamos confirmá-lo com um segurança muito antipático, porque foi ela quem o sugeriu, e, quando voltamos ao nosso lugar lá muito atrás, acabamos por conversar um pouco. Acho divertido como começa por falar devagar, marcando muito bem as palavras, não vamos nós ser incapazes de entendê-la, mas acelera o discurso, assim que vê que o nosso domínio do inglês é excelente. A fila anda, afinal, muito mais depressa do que esperavamos e estamos dentro do edifício relativamente depressa. Aprendi em Barcelona que o melhor é trazer sempre um grande lenço na mala, para cobrir os ombros à entrada das Catedrais. Em S.Lorenzo esqueci-me e emprestaram-me uma espécie de pano à entrada (uma gentileza para com os turistas), mas desta vez trago um comigo e, a custo porque o calor aperta, lá cubro os ombros.  

Depois da promessa do seu exterior opulento, o Duomo desaponta um pouco. Claro que exibe a sobredimensão costumeira nas catedrais, e a sua riqueza, os tectos altíssimos, as colunas, os arcos e as ogivas, as capelinhas trabalhadas, algumas obras maravilhosas, mas, depois de me ter emocionado com maravilhas do lado de lá de portas insignificantes em Roma, parece-me pouco. Ocorre-me que talvez a diferença esteja aí, Roma foi o meu primeiro amor italiano, e por isso talvez Florença fique áquem. É cedo, claro, para afirmações destas: o Duomo poderá não ter sido pensado para estarrecer por dentro, mas apenas por fora, é provável que outros espaços me seduzam mais. Sei que o Pedro partilha do mesmo sentimento de ligeira desilusão, mas admiramo-lo, ainda assim, e descemos às catacumbas para ver os vestígios da construção em épocas anteriores, recuando ao romanos. 

Saímos por fim do lado oposto, onde se forma uma longa fila para trepar a torre lateral. Para esta é preciso bilhete, que temos, mas hesitamos e decidimos tomar um café, enquanto observamos o avançar da linha. Sentamo-nos, sem notar, no que deve ser o café mais caro de Florença, o Café d'el Opera (creio que li isso nalgum lugar) e saímos dali 8 euros mais pobres. Eu já o esperava, mas o Pedro fica chocado, nem os bolinhos secos, nem o mini-copo de água justificam 4 euros por um expresso. Entretanto, desistimos de subir, a fila não avança nada enquanto esperamos. Imaginamos o tempo que todas aquelas pessoas, à espera à torra de um sol abrasador, levarão a subir e descer. Optamos, pois, por visitar o Museu d'el Opera, onde vemos uma reprodução da fachada gótica do Duomo, anterior à actual, e as três portas assombrosas do Battistero, para além de uma profusão de arte sacra e de arte antiga. Começo a sentir que talvez o bilhete tenha sido bem comprado. Para subir à cúpula é preciso marcação, e nós só temos vez daí a dois dias, às 11.30 da manhã. Marcamos. Vão ser 463 degraus. 463 degraus. Serei capaz?

Palazzo Vecchio

Continuamos por ruas e vielas estreitas até ao Palazzo Vecchio. Parece-me que é disto que mais vou gostar nesta cidade, de simplesmente estar e, apenas por isso ou por estar calor, tenho uma vontade constante de sentar-me nas esplanadas. São muitas, embora a maioria um pouco cara e ao sol. Notamos que, apesar de não ser ainda hora de almoço sequer, muitos turistas bebem um cocktail cor de laranja. É decerto coisa a experimentar. O percurso é rápido, mesmo fazendo-o devagar, e a praça do Palazzo um espanto. O edifício de pedra avermelhada à minha esquerda é extraordinário, de fachada direita, rectangular, encimada por uma ameia e interrompida por janelas a espaços regulares. Ao cenro,  a alta torre do relógio. Duas estátuas que, desconfio, serão imitações de Michelangelo (mas não confirmei, posso estar inteiramente errada), guardam a enorme porta de entrada. Perco-me um pouco no enleio de observar o Palácio, que me fascina
muito mais do que o Duomo. Não me apetece mover-me dali, mas está muito sol e, à minha frente, do outro lado da praça, várias estátuas e a sombra das arcadas que as abrigam chamam-me. Gosto pelo menos tanto de escultura como de pintura, por vezes mais, e não posso deixar de admirar as proporções perfeitas destas. Procuro angulos para as (péssimas) fotografias que vou tirando, enquanto aproveito a sombra o melhor que posso. O calor é quase insuportável. 

O Arno - Ponte Vecchia


Seguimos uma espécie de avenida junto a um edifício cinzento e longo, em direção ao rio. Há uma fila enorme: são as Galerias Uffizi, que, segundo li, são dos museus mais visitados do mundo. Deixamo-las para o dia seguinte e vamos debruçar-nos no muro, procurando um espacinho entre os muitos e muitos turistas como nós, para admirar o Arno, o rio estreito - se comparado com o Tejo, que em Lisboa é quase mar - e muito verde. Para a esquerda, pontes de arcadas com ar antigo. à direita, a estranhíssima Ponte Vecchia. Quem se terá lembrado de construir edifícios sobre ela, ou, nas margens, de estendê-los sobre o rio, sustentados por vigas oblíquas? Tudo me dá a impressão de fragilidade, precaridade, mas suspende-se assim há séculos e é decerto de uma firmeza inabalável.  Atravessar a ponte é uma experiência curiosa. Não se tem a impressão de passar o rio, porque somos distraídos pelos muitos turistas, mas mais ainda pela profusão de ouro nas montras: todas as lojas são ourivesarias, e a maioria exibe, sem gosto nenhum, todo o ouro que a montra comporta. Há flores nas sacadas dos edifícios, por cima, o que me leva a pensar que vive ali gente. Como será viver sobre uma ponte?

Do lado de lá, ainda muita gente, centenas e centenas de turistas, de ténis, chinelas, sandálias, canções, vestidos curtos e compridos, mais e menos elegantes, mas também muitos habitantes locais. A confusão no trânsito é a mesma, as pessoas caminham e atravessam onde e quando calha, mas parece-me ver mais automóveis, menos bicicletas, nenhuma carruagem. Tenho a impressão de ter recuado ainda um pouco mais no tempo, mas pode ser ilusão ver as ruas mais estreitas e os edifícios mais antigos. Seja como for, agrada-me muito. Mais adiante, encontraremos o Palazzo Pizzi, mas antes disso, paramos numa pequena pizzeria de chão vermelho e branco e mesas de madeira, aberta para a rua, onde se come pizza às fatias. Eu insisto nos legumes, o Pedro nos fiambres, eu gosto muito, o Pedro nem tanto: a massa é pouco fina e a pizza tem demasiado tomate para o seu gosto. Descansamos um pouco. À tarde, espera-nos o enorme Pizzi.  

segunda-feira, 19 de junho de 2017

roubar esta gente à morte


fantasmas negros nas sombras
vultos de fumo e chama
lançam ao céu os braços inúteis e ardem
o ar esgotado na fuligem
adeus Deus adeus
feito todo de solidão
do rugido bruto do medo
Deus Deus adeus
quem vem de asa aberta
trazer chuva
roubar esta gente à morte
à morte esta floresta



domingo, 18 de junho de 2017

Florença - o primeiro olhar

(a partir do que fui escrevendo no meu miserável "caderno florentino", com alguma revisão)

Viagem

Partida às 8.45, do Aeroporto de Lisboa. O embarque é rápido e o avião parte com escassos 15 minutos de atraso. Não gosto particularmente de voar, sinto-me presa dentro de um tubo de metal, por isso, enquanto os motores ganham força, vem-me à cabeça o verso de Alanis Morissette, "Mr.Play it Safe was afraid to fly / He packed his suitcase and kissed his kids good-bye / He waited his whole damn life to take that flight / And as the plane crashed down he thought / "Well, isn't this nice." Sinto-me parva e afasto com esforço deliberado as palavras. Não tenho verdadeiro medo, mas não voo o suficiente para evitar o friozinho no estômago. Ou a excitação. Florença é o cumprimento de um sonho antigo. Eu tiro o kindle, no tablet o Pedro põe um filme de acção. à chegada, ainda teremos mais um autocarro e um comboio para apanhar, mas que importa? Estamos a caminho.

Chegada

Chegamos por volta das três da tarde. Faz calor e a rua é movimentada, mas escolhemos bem: é muito perto da estação e do Mercado e, se for verdade o que vimos nos mapas da cidade, perto de tudo o resto. Quase não damos pela entrada, apesar de ser um grande portão, e, lá dentro, temos de tomar o elevador para o 5º andar. Nunca me teria ocorrido que um hotel podia ocupar apenas os pisos superiores de um edifício. Algures no mesmo prédio há um albergue de uma estrela, pelo que temo um pouco que as imagens online nos tenham iludido (já aconteceu), mas o Hotel Cantoria tem uma entrada muito branca e azul, e tudo é simples, novo e limpíssimo. O italiano que nos atende é muito simpático - e bonito, com uns belos olhos azuis! 


Mercado Central

Troco de roupa para algo mais adequado ao calor que faz lá fora. É bastante tarde e o horário do voo assegurou apenas uma sandes, pelo que temos fome. O Mercato Centrale é ali mesmo ao lado, um edifício grande a meio de uma rua com bancas sucessivas de malas, sacos, casacos de cabedal. Pergunto-me quais pertencerão às lojas escondidas mesmo por trás. Cheira intensamente a pele, o que em nada me incomoda. O mercado tem um espírito muito semelhante ao da Ribeira, junto ao Cais do Sodré, mas com as vendas no rés do chão e as mesas e bancas no primeiro andar. Escolhemos qualquer coisa logo na terceira banca, uma espécie de canudos de fritos, que insisto para serem, ao menso, uma mistura entre carnes e legumes. Não está muito cheio e sentamos sem problema. Enquanto como os legumes sem grande sabor e bebo a óptima cerveja, observo o tecto muito alto, do qual estão suspensos enormes candeeiros de vime de, pelo menos, três formatos dferentes. As mesas são em madeira, de alturas diferentes. 

Quase ao nosso lado, uma rapariga fala incessantemente sobre si própria, em inglês, com um rapaz que só consegue (ou quer) debitar uma palavra aqui e ali. Imagino uma conquista insipiente, um amor de férias, e lembro-me de como eram incertos, enervantes e excitantes os rituais da conquista. Tenho e não tenho saudades dessa sensação de ser tudo uma enorme pergunta. Ao fim de um bocado, já me pergunto se o rapaz estará tão aborrecido como eu, ou grato por não lhe ser exigido grande discurso. Talvez ela esteja cheia de sorte e ele seja tímido.  

Basílica de S.Lorenzo


Seguindo a rua por entre as bancas, desembocamos na praça de S.Lorenzo, onde a Basílica de tijolo castanho impera, enorme, com a sua cúpula de telha vermelha. Os edifícios de três ou quatros andares em redor da praça são amarelos ou ocre, com sacadas regulares e lojinhas no rés-do-chão.   Não consigo ainda "respirar" a cidade, como espero conseguir antes de a deixar, e, apesar de já lhe adivinhar a beleza, ainda não me seduziu

Tiramos uma maldita selfie antes de entrar na Basílica e compramos os bilhetes, 6 euros cada. Não investigei sobre isso, mas desconfio que em todos os monumentos nos será cobrada uma entrada respeitável, afinal manter toda esta magnificência anciã terá o seu preço. Os claustros são agradáveis, com uma laranjeira no centro do espaço ajardinado e aquela quietude que se insinua sempre em mim e me traz uma vontade enorme de me deixar ficar tempos infindos sentada nos muretes de pedra. Não ficamos, porém, há uma basílica enorme a ver. Tectos trabalhados, uma abóboda pintada com cores vivas sobre o altar, pilares à esquerda e à direita, quadros de Conti, Lipi e outros mestres importantes. Bonita, mas não me deixou de boca aberta, talvez por ter enchido o peito com estas igrejas em Roma. Visitamos o museu, onde estão expostos os cálices, ostentórios e custódias cujo valor não consigo imaginar, e muitíssimos relicários. Num, posso ver os ossos inteiros, da perna ou do braço dos homens santos, noutros são pequenas lascas, fios de cabelos e outros testemunhos que me arrepiam. Perturba-me sempre o culto dos mortos levado a este extremo, a fé transformada em luxuosa morbidez.

Nas catacumbas, espreitamos a tumba de Donatello, parcialmente responsável pelo desenho da Basílica, e percorremos uma fascinante exposição de arte contemporânea, com interpretações de temática religiosa - nuns mais, noutros menos, nuns mais irreverente, noutros nem por isso. Calculando que a minha filha estudante de arte gostaria de vê-la, peço ao Pedro que tire fotos e lhas envie. Eu só quero encher os olhos. 

O primeiro Duomo

As ruas até ao Duomo são movimentadas e o trânsito, se lhe posso chamar isso, é confuso. As pessoas, muitas, andam pelo meio da rua como nos passeios, os automóveis são quase todos táxis eléctricos, muito silenciosos, e há bicicletas e carruagens. De quando em quando ouve-se uma apitadela, para que algum transeunte se afaste do caminho de um táxi ou de uma bibicleta, mas o espírito é descontraído e não vejo um único sinal de irritação. Há lojas modernas, mas a sensação é de antiguidade. 

Duomo (Santa Maria del Fiori)
Fico esmagada pelo Duomo. Não há outra forma de dizê-lo. O Pedro não contém o espanto, exclama e tira fotos, mas eu não sou capaz de tanto. Sentamos-nos numa esplanada às sombra, a praça não oferece muita, e pedimos cerveja, e eu só quero contemplar o edifício, bem caladinha, trazendo cá para dentro esse absurdo gigantesco, verde e branco, encimado por duas cúpulas de telha vermelha, mãe e filha. Ao lado, o Batitstério é um reflexo minimal, das paredes do edifício principal. Os meus olhos não são capaz de abarcar tudo. Há holofotes nos edifícios que cercam a praça, dando a ideia de que à noite, o monumento deve revestir-se de nova magnificência. Planeamos a visita para a manhã seguinte, primeiro destino. O Pedro começa a aborrecer-se com demora a trazer as cervejas. Eu não. Estou cansada, a praça é lindíssima e começa a soprar uma brisa agradável. 

De regresso ao hotel para um duche, ainda damos mais uma volta grande, com passagem
Santa Maria Novella (praça)
na praça da República, com o seu Arco do Triunfo (tantas cidades o têm!) e por Santa Maria Novella (a catedral fica para mais tarde), e o "espírito" da cidade começa por fim a mostrar-se, se calhar diferente para cada um dos que a visitarem. É disto que eu gosto, de deambular sem pressas, sentar-me nas esplanadas ou onde seja, a olhar para as fachadas, para as pessoas, para o movimento, imaginar o tempo e a vida a rolar sobre as construções. Oxalá desta vez não haja correrias para "ver tudo", "ver tudo", "ver tudo".

(nota: já em casa, fiz uma pesquisa curta e descobri que o Duomo, ou seja, a Catedral de Santa Maria del Fiori, começou a ser construido em 1296, e só terminou em 1436, e reune característica da Arquitetura gótica, do Renascimento, Neogótico e  Gótica Italiana, bem como o trabalho de arquitetos como Filippo Brunelleschi (o principal, segundo creio), Giotto di Bondone, Arnolfo di Cambio e Francesco Talenti)


O fim do dia

Resultado de imagem para trattoria dall oste
foto retirada da net
O Pedro traz a recomendação, a Trattoria dall Oste, para o primeiro jantar e a ideia de que será difícil de encontrar. Não é, e ainda bem, porque o meu corpo começa a ressentir-se do começo às 6 da manhã, depois de vários dias de trabalho intenso, da viagem e deste primeiro passeio. Parece que em Florença o melhor para comer são as bistecas... enormes bifes, altos, mal passados! Recuso-os terminantemente e opto por um pici (esparguete mais grosso) muito simples, com tomate e manjericão, que está delicioso. O Pedro delira com o bife  e até eu, provando um pedacinho da ponta, mais bem-passado, tenho de concordar que é bom. Bebemos Chianti, e claro que me lembro de Hannibal, n'O Silêncio dos Inocentes. Claro. Parvoíces. O serviço é simpático, como todos até aqui. Noto que estamos sentados, numa mesa redonda, dentro de uma pipa cortada ao meio e que atrás de nós há placas com nomes, e, a uma pergunta do Pedro, a empregada explica que são todos vinhos da região ou da Sicilia. Ficamos curiosos com uma sobremesa, um biscoito que se vai molhando num licor antes de cada dentada, que arranca umas caretas terríveis de nojo a um oriental - há muitos turistas chineses, japoneses ou coreanos, não saberia distinguir - mas não a pedimos. 

Em vez disso, terminamos a noite com mais um passeio, um gelado dividido e um café com água frizzante (com gás) numa esplanada. Fico muito contente por, por fim, poder deitar-me para uma boa noite de sono.