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domingo, 22 de janeiro de 2017

Kill your darlings

Ausentei-me do blogue por algum tempo - foram mais de dez dias sem uma mensagem - por uma boa razão: estive em processo de revisão do meu próximo livro, O Ano da Dançarina, que, embora não tenha ainda data de lançamento, há de sair este ano pela Marcador. 

Foi uma revisão dura, com muitos cortes, uns quantos ajustamentos, algumas correções, para fortalecer o texto no seu conjunto. Não é fácil, nunca é fácil, reconhecer que "matar os teus queridos" (tradução tão literal, Deus meu!) pode ser o melhor para o produto final. Não é fácil admitir que o rascunho não é perfeito, que há muito a melhorar. Que às vezes até é preciso reescrever. Não é fácil, mas é essencial, como é essencial que um editor, com olhos frescos, experiênca e uma perspectiva diferente, quase de leitor, passe o texto a pente fino. Há detalhes que o autor, de tão bem conhecer o texto, já não vê. Há desperdícios que alguém de fora nota melhor e, sobretudo, tem menos pena de apontar. É preciso ouvir, decidir, concordar - e por vezes discordar. A presunção serve tão mal ao autor como a excessiva humildade.  

Fiquei muito cansada, os meus olhos queixam-se bastante, e também um pouco farta do ano de 1918 e dos Lopes Moreira, os meus protagonistas.... mentira, deles gosto mesmo muito!! 

Feito o trabalho duro, agora é esperar e ter esperança de que as revisões estejam concluídas, que a capa seja maravilhosa e que não demore demasiado a sair! 

Nada é fácil nisto de ser escritor. Nem sequer dizer a mim própria (por fim) que sou escritora.

sábado, 9 de julho de 2016

Revisão e excerto

E terminei a primeira revisão! 

Para o bem ou para o mal, foi a revisão mais rápida que alguma vez fiz, e nem foi por me ter apressado - voou debaixo dos meus dedos! 

Cortei alguma coisa, pouco acrescentei. Agora só volto a pegar-lhe depois de ter tido notícias da editora!  Outras virão, talvez com valentes alterações, mas para já parto para outra revisão, a do A Chama ao Vento, com a barriga cheia... e não é só porque acabei agora mesmo de almoçar (o que também é verdade). Ehehehe. *Mum joke*

Ficam alguns parágrafos  do Dançarina, um cheirinho apenas da história...

O início do capítulo 2.


Foi uma sacudidela mais brusca, as rodas saltando nalgum buraco ou pedra dos que minavam a estrada de terra, que despertou César. Abriu os olhos com um sobressalto, sentou-se muito direito, sacudindo outra vez contra a porta, e engoliu uma exclamação de pavor.
- Está tudo bem. Aqui há mais buracos, foram as granadas… mas já foi há muitas semanas – disse-lhe o condutor, a voz rolando de trás do bigode como um pequeno trovão. – O senhor adormeceu.
A constatação embaraçou César. No início da viagem, espreitava a estrada e os campos como se, a qualquer momento, um batalhão alemão pudesse sair de debaixo do chão. Não se apercebera do momento em que a exaustão o arrastara, suprimindo o medo e a curiosidade, e o fingimento deixara de sê‑lo, nem sabia quanto tempo teria dormido, com a cabeça caída sobre o peito, sacolejando ao sabor das irregularidades do pavimento e dos protestos da viatura. Esfregou o pescoço rígido e espreguiçou-se discretamente, sentindo as dores que lhe tolhiam os movimentos. Fora chacoalhado e sovado desde Dover e o corpo queixava-se como se tivesse seguido numa velha carruagem dias a fio.  
- Estamos quase a chegar, daqui a pouco já consegue ver o Hospital. Ambleteuse é depois. – informou Jacques – Aqui pela costa, como vê, não corre perigo. Só dos buracos ou de algum coelho que o assuste.
César preferiu ignorar a provocação. Estava demasiado cansado e ansioso e imaginava que parecesse um pouco louco, com a sua urgência em vir meter-se no lugar de onde todos gostariam de escapar-se. A sorte, porém, devia estar do lado dos loucos, porque ali estava, incólume e já muito perto de Ambleteuse. Pagaria ao homem de acordo com o combinado e isso era o suficiente, os seus motivos, ainda que nada tivessem de secretos, eram só seus. Não sentia necessidade de justificar-se. Olhou em volta e para cima, para o céu onde agora o sol brilhava alto, entre nuvens que o iam cobrindo a espaços irregulares. Não via o mar, mas pressentia-o próximo, no brilho e na textura do ar. Devia passar do meio dia e eles continuavam a rolar entre campos onde, aqui e ali, se adivinhava a intenção de uma plantação, rectângulos de milho ou batata, mas que era, na sua maioria, terra inculta a perder de vista. César conseguia imaginá-la antes da guerra, verdejante no mês de Abril, prometendo fartura onde agora só haveria fome. Fome e morte. Ao fundo, do seu lado, um celeiro em ruínas e um casebre sem porta e quase sem telhado denunciavam a passagem das tropas.
Voltou-se para trás, curioso, e vislumbrou a torre semi-destruída de uma igreja, erguendo-se um pouco acima de um corpo de pedra antiga, que talvez tivesse sido bonito antes de lhe serem arrancadas duas paredes. Em seu redor, jaziam as ossadas de uma aldeia, meia dúzia de casas escuras, onde talvez já só vivessem algumas mulheres, crianças e velhos, talvez ninguém. De algumas restavam apenas escombros, uma parede, um monte de pedras, um improvável vão de porta. Quanto tempo teria a destruição, uma semana e meia como a batalha que o touxera ali, um mês, um ano? Quanto tempo seria necessário, quando por fim a guerra terminasse, como terminavam todas, para fazer renascer a terra, as aldeias… quantas delas nunca mais voltariam a ser habitadas como dantes?
         - Já cá estamos. – anunciou Jacques.


sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

revisto pela matina

Um bocadinho de escrita (vá, de revisão) matinal... O que me custa abandoná-la agora pelo meu ganha-pão!

Fica o testemunho...


Ela própria… a sua juventude no Alentejo parecia tão distante que mal se recordava do que fazia. Parecia-lhe que não fazia nada, mas não podia ser, pois não? Longos dias de vazio gelado, no Inverno, ardente, no Verão. As suas recordações eram quase todas de estar sentada a ler, e depois de Lisboa, onde ganhara nova vida. Saía todas as manhãs para a Faculdade, estudava muito e com gosto, passeava um pouco com Marília e Idália, ia comer gelados e lanchar, passear aos Jerónimos e na Baixa, de quando em quando metiam-se no comboio para ir ao Estoril, à praia. Mas para que lhes ia falar de passeios e da praia, a elas, que tinham ali mesmo o deserto e as Hortas e uma longa avenida na praia das Miragens, que frequentavam amiúde? E outras, segundo Alberto, à distância de um sopro, de automóvel, ainda mais belas?
- Gosto muito da Marginal, é bonita, – Tinha na voz a falsa segurança de quem finge que tem algo para oferecer. – e as Avenidas também, a da República e a da Liberdade... E Belém. Gosto muito.
- Lisboa é muito bela. Muito diferente da nossa cidadezinha, que é insignificante. – concordou Laurinda. – Com tanto para descobrir!

Brígida lembrou-se das escadarias e ruelas de Alfama e da Mouraria, onde os pais não sabiam que andara, mas não sabia como explicar-lhes sobre o encanto do sol a forçar os seus raios nos becos esconsos, sobre as flores nas sacadas das pequenas janelas, a roupa lavada suspensa nos andares de cima quase a tocar as janelas das vizinhas, numa troca de informações privadas que não guardava intimidades. Divertira-a que cada um soubesse o que usavam os outros por dentro, quando todos os assuntos do corpo eram cuidadosamente calados. Nem sabia explicar-lhes a estranheza e o encanto da batalha do cheiro dos refogados e do sabão da roupa contra o odor fétido das muitas sujidades que corriam livremente pelas calçadas, ou como lhe agradava o ardor nos músculos, de subir as escadas e trepar as ruas, ou, pelo contrário, de conter o passo para não escorregar à descida…

(do provisório O Coração Quente da Terra)

domingo, 3 de agosto de 2014

da revisão de texto - quem escreve é muitas vezes mau juiz do seu trabalho

Este post não é para ser levado a sério...a não ser por quem queira levá-lo a sério. Na verdade, reflecte apenas a forma como procedo e um ponto de vista que é o meu, e pronto.

A propósito de um post no facebook em que um autor (creio que não é português, mas como não conheço...) anuncia que o seu próximo livro será fantástico... ou será maravilhoso... ou extraordinário? Não importa, é nessa linha. Diz o autor que sabe que será assim porque colocou nele todo o seu esforço e, presumo, capacidade de escrita. Como disse, não conheço nem autor nem livros, logo não posso avaliar da justeza da sua presunção, que a mim me soa muito presumida - mas disso e de água benta, cada um toma a que quer, não é o que diz o ditado? Pode ser excelente, não sei nem é isso que importa.

Ocorreu-me foi que quem escreve é muitas vezes mau juiz do seu trabalho, por vezes porque tem pouca confiança nele, sim, mas mais ainda se é pouco exigente ou mau juiz de si próprio também, ou se tem o seu produto em tão alta conta que não admite a possibilidade de falhar. E quem tem experiência não está livre de vaidades.

O processo de escrita é sempre longo e complexo, o que não quer dizer que o que no final sai dele seja bom. Não falo da impossibilidade de agradar a gregos e troianos, mas da hipótese do resultado ser um texto f com erros a vários níveis. O autor está feliz porque terminou as 250 páginas e deu um fim à coisa? Sem dúvida. Gosta do que fez? Claro! Mas é bom? Pode ser ou não. Pode ser fantástico, como diz o autor do facebook, pode ser sólido, ser razoável, ter aspectos a limar mas ser promissor, ou pode ter falhas enormes e irremediáveis, as piores uma narrativa fraca e batida e personagens cliché, a partir das quais não se consegue melhorar nada. Só reescrevendo tudo... com outra história... e outra gente dentro dela. Nada é novo, é verdade, o que significa que é preciso que o autor se apodere (e faça seu, logo novo) do que já foi decerto feito, de outra maneira, por mais alguém. Que tenha uma voz, uma forma de expor a sua história que seja única e o torne interessante pelo menos para os gregos. Ou os troianos.  

Posto isto, se não temos uma editora que queira tudo o que vomitamos porque vendemos como pãezinhos quentes, ou uma que nos aponte os pontos fracos (quando os há), ou seja, quando andamos nisto de novo e não somos ninguém, como saber em que categoria cai o que parimos com tanto esforço e muito prazer? Para mim, e só por mim posso falar, há quatro momentos: 

1ª. 
Pôr um ponto final, o que não é fácil para quem, como eu, vai escrevendo e revendo, e deixar o texto "repousar" uns meses, para se verem bem as impurezas. Não lhe mexer, mesmo que seja grande a tentação.

Revê-lo com absoluta honestidade. Como se não fosse nosso, com a coragem de cortar, zás-zás, alterar, abandonar o que, se o texto não fosse nosso, nos faria levantar uma sobrancelha de cepticismo. Acrescentar, também, se for caso disso, resolver "buracos" na intriga, se os houver, atar a pontas soltas. 

3º. 
Dá-lo a ler.  Para mim, a fase seguinte, depois do pousio e da primeira revisão, é "entregá-lo" a meia dúzia de pessoas que sejam brutalmente honestas. Não à mãe e àquela amiga que gostam tanto de nós que tudo o que fazemos é maravilhoso e se não é não nos diriam... errr... a minha mãe diz, se a coisa não presta ou estou mais gordinha, é certo que vou saber por ela! Nem à outra amiga que gosta de tudo o que lê, até dos rótulos da comida para gatos. É até bom se alguns desses leitores não nos conhecerem pessoalmente, melhor ainda se forem reconhecidos por serem exigentes e maus (eu sou,) e tiverem diferentes gostos. Ficamos a conhecer não só os pontos fortes e fracos das nossas narrativas, como a quem elas poderiam agradar. Ou não. Claro que, para isto, é preciso:

  • ter a paciência para esperar que as pessoas possam ler, não andam ali à nossa disposição!
  • estarmos dispostos a ouvir, sem nos indignarmos, o que têm para dizer. Se não queremos ouvir críticas honestas, que por vezes são desagradáveis, temos duas hipóteses: as tais amigas ou deixar tudo na gaveta. Estamos sujeitos à crítica quando o livro é publicado, mais vale encarar a opinião sincera, boa e má, como treino.  
  • saber defender os nossos pontos de vista, i.e., não desatarmos a alterar tudo o que cada um nos diz que não está bem. Muito disso cai no capítulo "gregos e troianos", o relevante são os erros mais apontados (se dos 6 leitores, 4 dizem que tenho erros de construção sintática... se calhar tenho! Se 3 apontam o mesmo plothole ou uma personagem que não faz sentido, se calhar devo resolver a questão...) e a impressão geral (quase todos gostaram? fixe! ninguém gostou? lixo!)

Revê-lo com absoluta honestidade.... outra vez, à luz do que acima aponto. Uma revisão, duas... vinte, sabendo que o primeiro (e o segundo) ponto final no texto não pode ser definitivo. E depois, saber quando realmente pôr fim à coisa. Para mim, é capaz de ser o mais difícil, quantas vezes abra o ficheiro, tantas encontrarei uma frase, um parágrafo inteiro, uma cena que pode ser melhorada... razão pela qual não leio o que está publicado e já não posso alterar. 

Um 5º passo seria, com a história em condições, enviá-la às editoras... e ter paciência, costas largas e expectativas baixas.  

Posto isto, as minhas histórias são sempre:

  • fantásticas enquanto as escrevo;
  • horríveis quando as revejo;
  • maravilhosas se os meus primeiros leitores, os beta, gostam delas;
  • irritantes à décima sétima revisão, eheheheheh;
  • surpreendentes quando são publicadas;
  • boas quando as vejo opinadas num sítio qualquer;
  • más quando as vejo opinadas num sítio qualquer;
  • horríveis quando o tempo vai passando e o livro "desaparece"!




sábado, 26 de julho de 2014

Em revisão - apresento-vos o Corvo

Prosseguindo a revisão de A Grande Mão, à página 48 (A4), Noam está prestes a meter-se em (mais) sarilhos... Apresento-vos o Corvo e o seu bando.




http://tattooingtattoodesigns.com/gallery/tattoo-images
Quando passaram por ele, pode ver por fim com clareza o seu aspeto. Ostentavam expressões de satisfação agressiva, realçada pelo cabelo inteiramente rapado em todos menos no último, o único silencioso, que ostentava a meio do crânio, como uma crina, uma fita de longo cabelo negro. Todos traziam o tronco nú e os ombros cobertos por uma capa escura que lhes descia até aos tornozelos. Prendiam-na sobre o peito com o curioso alfinete de ferro que Risa descrevera, com o formato de uma ave cujo olho de esmeralda brilhava à luz da tocha, parecendo fixar um ponto na noite. Debaixo da capa do segundo homem espreitava o contorno de uma cobra negra, que se alongava pela pele do estômago, subia pelo ombro e repousava a cabeça achatada junto ao pescoço, a língua bifurcada lambendo uma argola de ouro no lóbulo da orelha esquerda. Movimentava-se ao ritmo exato do seu dono. Noam arrepiou-se e estreitou os olhos para ver melhor. A boca abriu-se-lhe de espanto: a serpente era um desenho perfeitamente realista, uma marca imposta a si próprio pelo homem que a ostentava. Atentou nos outros. Todos tinham pelo menos uma dessas gravuras tatuadas sobre a pele, no tronco, nas pernas, mesmo no rosto. O esboço de um par de asas pretas enfeitava o caminhante silencioso como uma máscara. Sobre os seus olhos severos não havia um par de vulgares sobrancelhas, mas as asas de uma ave, que se estendia pelo nariz e sob ele num corpo esguio e numa cauda fendida na ponta sobre os lábios, de modo que era impossível determinar ao certo que idade teria o homem ou como seriam as suas feições. Caminhava como um espectro, apesar da sua altura e da musculatura densa que se adivinhava sob o tecido escuro.  

terça-feira, 15 de julho de 2014

Revisão de texto? Pois é...

... de repente, vejo-me de novo a rever A Grande Mão, o texto de fantasia que tinha há muito posto de parte. 

 Descobri que, em Calibri 11, espaço e meio, tem de momento 379 páginas, 154.446 caracteres. No fim serão mais ou menos? terei muito para cortar ou, pelo contrario, acabarei por acrescentar? Coragem, coragem... Para me empurrar, ver se isto passa de caracol a cruzeiro, fica um excerto do início do texto.


A ave em voo em céu de safira
O monstro que se esconde
No mar profundo e escuro
A fera no interior da floresta
O réptil rastejando no deserto
Nenhum é Homem nenhum traz
A espada luminosa no punho
Com um mistério dentro do peito
E o frio medo por trás ds olhos

A intenção na presa o coração na caça
Feroz a clara idea a força vencedora

(Excerto de A Lenda da Grande Mão)


_ _ _ _ _ _ _ _ _ 



Capítulo 1.
  

Nolan equilibrou-se afastando as pernas e puxou a rede velha pela terceira vez nessa manhã, olhou para ela e soltou um palavrão irritado. 
Outra vez vazias! Porcaria de buracos!
Observou um único peixe, uma coisinha insignificante que se debatia para libertar o corpo luzidio das malhas que o prendiam. Sentiu-se, por um momento, tão enrodilhado como ele. Não gostava de pescar nem sabia fazê-lo com redes rotas, mas a tarefa fastidiosa cabia‑lhe, dia sim, dia não. Dia sim, dia não, não havia peixe para ninguém.
- Tu não tiras a fome a ninguém, bicho. Vai à tua vida.
Desembaraçou o animal dos nós e, com um suspiro resignado e um ligeiro arrepio, devolveu-o à água. Nunca ficava com o que não pudesse comer. Sentou‑se, sentindo a pequena vida formigar nas pontas dos dedos e um peso nas pernas, a pedra a pulsar junto ao peito, suspensa do gasto cordão de cabedal onde a trazia, o cansaço familiar da decisão sobre a vida ou a morte. Sucedia-lhe ao esmagar inadvertidamente um insecto, ao poupar a vida a um pardal, sempre que a sua flecha trespassava o coração de um cervo inquieto ou a pele dura de um javali. Sentia a vida do bicho correr-lhe nas veias, e a pequena pedra trabalhada, cujas inscrições não compreendia, aquecia, às vezes até quase lhe queimar a pele, emanando uma energia de vida e morte. Já desistira de perguntar-se porquê e aceitara que era tão seu quanto os caracóis na cabeça ou as unhas roídas nas pontas dos dedos. Respirou fundo e voltou a lançar a rede, protestando entre dentes:
- Só o idiota do Tullock é que pode achar que isto é uma arte!

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Maratona de revisão


Agora que vou entrar em período de pausa, espero poder fazer uma dessas maratonas que tanta gente faz... mas de revisão! 


Estou na página 220 de cerca de 380 d'O Cavalheiro Inglês. Cada vez que lhe pego, mesmo por pouco tempo, avança como se fosse a galope. 

Fica o excerto do ponto exacto em que estou... 


- Listen – murmurou Robert, quando Sofia se preparava para bater à porta do escritório – deixar-me falar. Eu ir dizer... things... coisas que talvez não lhe agradar.  Ouvir o que ouvir, não mostrar-se surpreendida ou offended, please. Por favor.
- O que vai...
- Eu saber que fazer - interrompeu – mas ir precisar de seu compreensão. Não zangar comigo, sim? Esta casamento ser importante para mim.
Intrigada pelas suas palavras, e muito preocupada com o que Robert diria ao visconde, Sofia assentiu. Que mais podia fazer, quando não fazia ideia nenhuma de como resolver aquilo e tinha na cabeça uma imagem de Tião a ser arrastado pela polícia... e outra do pai, furioso, a fechar-lhe a porta na cara. Bateu, com um punho trémulo.
- Entre! – resmungou o homem, do lado da lá da porta.
- Está realmente mal disposto. Não quer fazer isto noutra altura? – murmurou.
- Sofia ter-me chamado, sim? Não haver outra altura.  
- Então, por favor, tenha cuidado.
Ele assentiu, embora o seu olhar prometesse problemas. Sofia rodou a maçaneta com dificuldade. Tinha as mãos húmidas. Entraram juntos, e esperaram que o visconde levantasse a cabeça dos papéis que analisava, com uma ruga entre os olhos e os lábios apertados. Só depois de longos segundos de silêncio ergueu os olhos. Arregalaram-se, quando pousaram sobre a visita inesperada, e depois as sobrancelhas desceram ferozmente. Levantou-se de um salto, vermelho de fúria.
- O que faz aqui? – cuspiu, furioso – Já lhe disse que não é bem vindo na minha propriedade! Em nenhuma das minhas propriedades! Quem o deixou entrar? O Bolina? Não, o Bolina não. Foi a menina?
- Sim, pai, fui eu – respondeu Sofia – Há uma coisa que...
- Deixou entrar um desconhecido na minha casa? Sem meu conhecimento?
- Não é um desconhecido. – contrapôs, levantando o queixo que tremia. Perguntava-se quando é que Robert tencionava falar – Depois do que disse o Tião, achei melhor que... enfim, estivessemos os dois para falar consigo. Ouça, paizinho...
- Ora essa! Os dois... ora essa! E de onde é que a menina conhece este... esta criatura, posso saber? Fale!
- Pai, acalme-se, por favor, que ainda se sente mal.
- Explique-se! - berrou, batendo com o punho na mesa. Sofia sobressaltou-se, e calou-se.
- Senhor visconde... – começou Robert, adiantando-se um passo, finalmente. Sofia teve vontade de recuar e pôr-se atrás dele.
Cobarde!, soprou para si própria, e avançou também um passo.
- Cale-se! – berrou o dono da casa, corando de irritação – Não falei consigo! Não quero ouvi-lo. Nem vê-lo! Na minha casa, não sou obrigado a isso. Vá-se embora, já lhe disse que não tenho mais negócios a tratar consigo. – Tocou a sineta uma, duas vezes, quando percebeu que Robert não se movia – Desapareça! Saia da minha vista e não volte!
Robert não se mexeu e o visconde inclinou-se para a frente e sacudiu violentamente a sineta.
- É preciso pô‑lo fora?
- Pai, ouça, por favor. – tentou Sofia – Temos uma coisa...

- Deixar-me falar, sim, Sofia? Sua pai vai escutar. – Levou devagar a mão de Sofia aos lábios e beijou-lhe a palma, um gesto impróprio de intimidade que a fez corar e recomeçar dentro dela uma pequena revolução."

Bom, vamos ver o que sai daqui... Será que antes do Natal está pronto? Vamos a apostas? 

sábado, 30 de novembro de 2013

A "casa de Lisboa"

e a salinha onde Sofia prefere estar...

Revendo, vou encontrando estas coisas... que trapalhada de sala, nada como a imagem maravilhosa!


https://www.pinterest.com/lynnwhite58/opulent-interiors/
     A casa de Lisboa, que fora dos pais no início do casamento e à qual tinham regressado depois de tantos anos, estava cheia dos restos da sua vida. Tinha uma excelente localização, muito perto do Jardim da Estrela, era elegante e confortável, mas as três salas, uma convertida em escritório para o pai, e os quatro quartos eram insignificantes, quando comparados com as dimensões do chalet. As coisas sem as quais a mãe “não podia viver”, somadas às que realmente tinha sido necessário trazer, e ao que já existia na casa, tinham-na deixado atravancada, ao ponto de parecer que, por excesso decorativo, podia explodir a qualquer momento. Naquela salinha, mais pequena do que o seu quarto em Sintra, estavam objectos novos e antigos, amontoados sem nexo nem ordem. Nada dava com nada. A mãe mandara ali enfiar as três mesinhas pé-de-galo do estúdio do pai, muito antigas, e o canapé de veludo azul da sala dos bordados. Chocava violentamente com os tons granada e verde do cadeirão antiquado, que já lá estava e não podia ser reformado porque “era o favorito da avó”. Também havia a credência de estilo oriental que, em Sintra, costumava enfeitar o átrio dos quartos, com o seu horrível tampo em mármore verde e os embutidos dourados, e uma meia dúzia de candeeiros de diferentes tamanhos e formatos provenientes de diferentes épocas e partes do chalet. Nas estantes, as pequenas peças de prata, de madrepérola ou de madeira, caixinhas, cinzeiros e outras coisinhas sem propósito, tomavam o lugar dos seus preciosos livros. E as paredes! As paredes! Mal se via o brocado acetinado que as revestia, cobertas como estavam com uma multitude de quadros, de estilos tão diversos que incluiam uma Josefa de Óbidos e um Silva Porto, um Turner valioso, o favorito de Sofia, e uma dúzia de retratos de antepassados da família, metade dos quais, na sua opinião, nunca deveriam ter-se deixado retratar.
Não admira que a mãe nunca cá entre, considerou. Isto é uma sala de arrumos! Por vezes, até Sofia se sentia confusa lá dentro, embora, na verdade, fosse a sua divisão preferida, com o sol a entrar a rodos a refletir-se na profusão desorganizada de cores e brilhos. Quando ali estava, sentia-se num mundo aparte, mágico, sem o terrível espartilho das regras pelas quais vivia todas as outras horas da sua vida.

(O Cavalheiro Inglês, em revisão)