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quarta-feira, 2 de abril de 2014

Caranguejos - Mar II

O rapazinho vergou-se ao esforço dos remos no barquinho mal remendado, no acto de cortar a água limpa e espessa. Era preciso força para atravessar a baía de madrugada, mesmo para quem já ganhara nos braços uma força maior do que a dos seus anos. De quando em quando, um olhar ao balde de caranguejos vivos, apanhados a custo de sangue nas rochas. Mal sentia as mãos nos remos, mas tinha os bichos. Vendia-os e arranjava um bolo como o que ele queria, mas então não havia um irmão valente para enfrentar o mar feroz. “Eu” Riu-se. Desembarcou a assobiar.



terça-feira, 1 de abril de 2014

Onda - Mar I

Drabble Temático - Mar



- Sai daí, parva!
Ela viu avançar o dorso curvo, ouviu rugir e sentiu o ataque nas rochas por baixo do paredão. Os outros recuaram, ela resistiu para receber o spray salgado e frio. Sentiu-o na cara, nas mãos, lamentou as nuvens grossas que ameaçavam despencar e o vento cortante porque a impediam de despir-se para sentir o sal na pele toda.
- Maluca!
A necessidade de ignorar os amigos, amar a violência e a liberdade do mar apertou-lhe o ventre como uma garra de aço. Silenciou-os dentro e ouviu o mar prometer que daí a pouco a devolveria inteira.



domingo, 23 de março de 2014

O murro - Noite

Drabble temático - A noite


Acordou outra vez com o murro no estômago. Arquejou, aflita, Encolheu-se. Arregalou os olhos. Estava calor e escuro e só percebeu os contornos vagos desenhados pela luz da rua no estore mal fechado. Tremia, era sempre assim ao acordar, o corpo hesitava em esquecer. Voltou-se, ignorando o protesto dos ossos. Lá fora, os primeiros pássaros anunciavam a madrugada, em breve a luz artificial seria cinzenta e depois dourada. Suspirou, tranquilizada, pensou nas horas e sorriu. Iludia a sensação familiar mais a cada noite. O medo abandonava-a devagar. Um dia, esqueceria o que lhe fora roubado ao corpo certa noite. Talvez. 

terça-feira, 18 de março de 2014

Apressada

Drabble temático. Parece que é sobre a Primavera.

Ali estava,uma coisinha despontando ao abrigo de uma rocha. Ameaçava pétalas violáceas na extremidade de um pé hesitante e espreitava, envergonhada de ter-se adiantado, assustada por ver que lá em cima rolavam nuvens com grandes barrigas de chuva, em vez do sol que ainda na véspera a chamava. Se  não chovesse, ou resistisse até outras das suas companheiras assomarem, decerto sacudiriam as corolas num riso colectivo, “apressada”, num sopro que se confundiria com a brisa. Lançou o olho-estame para cima, viu que o céu depressa desabaria. Estremeceu. Não tinha ainda força para resistir.  Que raiva. Não veria a Primavera.

sábado, 15 de março de 2014

chefe

Drabble de tema livre.


Entrou pelo gabinetezinho disposta a apontar, em palavras duras que ensaiara repetidamente, tudo o que estava errado na forma como o homenzinho tratava os funcionários. As ofensas. As injustiças. As exigências pouco razoáveis. As preferências descaradas. Aquela mãozinha que nem sempre ficava onde devia. O balofo fitou-a com o descaramento de quem está sempre por cima. Não a convidou a sentar-se.  Sentiu um cansaço súbito, profundo.
- Vou-me embora.
- Tem a certeza?
- Arranjei outro trabalho.
- Que trabalho?
Ficou calada.
- És uma parva, sabes? São às dúzias, vocês.
Desatou o avental, atirou-lho. Ele riu-se.
- Adeuzinho, hã?

terça-feira, 11 de março de 2014

Máscara IV - de bonita

Drabble 4, último deste tema, que já não me apetece mais.


Acordou outra vez com a impressão de que era o dia, embora não houvesse um dia especial para essas coisas que podem vir qualquer dia ou nunca. Vestiu-se da sensação de que ao virar da esquina se cruzaria com algo maior do que o caminho que fazia diariamente. Uma surpresa. Mais mundo. Mais ar. Vida. Bastava-lhe osso e carne e pele e pouco mais, mas mesmo assim vestiu-se de bonita, mascarada de feia podia fugir-lhe o encontro. Assim que saiu viu a mesma rua a olhar para ela. Pousou o pé. Encheu os pulmões. Tudo igual. Encolheu-se. Apagou-se. Ainda não.


terça-feira, 4 de março de 2014

Máscara III - Boneca

Drabble número 3. 


Ela entrou e sentou-se de perna cruzada, muito direita à espera da entrevista. Havia outras raparigas com o mesmo ar composto, cabeleireiro e saia casaco, escondendo camadas de ansiedade sobre maquilhagem a fingir que não. De repente lembrou-se das brincadeiras que em criança tinha com a irmã, cada uma usando a máscara de uma boneca com vinte centímetros de altura, cada uma a sua casa, a sua profissão, o seu marido, simulando vidas que nenhuma podia ainda adivinhar. Essa ingenuidade gastara-se depressa. Sentia-lhe a falta. Esperou muito tempo quieta, a sentir-se pesada. Quanto pesaria a máscara, depois de tornar-se pele? 

domingo, 2 de março de 2014

Máscara II - sobre o osso

Drabble segundo sobre o tema. Ainda devem restar-me variações


Ele sabe que incomoda. Sabe mas não confessa, porque o embranquecer das cãs e o murchar lento dos músculos, o pender inevitável da barriga é sempre perturbação escassa para um homem, coisa pouca, mesmo nada, que um homem é feito de charme sobre osso, a superfície a esconder a raíz. Mas incomoda‑o, queira ou não, ver as máscaras de civilidade erodidas pouco a pouco e assim exposta a pedra em que se endureceu. Vísivel no descuido dos gestos e palavras com o olhar na porta de saída. No vazio das manhãs. Das noites. Na árida nudez de si, assim desmascarado.


sábado, 1 de março de 2014

Máscara I - passos de lã


Ela caminhava nos dias com passinhos de lã e gestos quietos, porque acreditava que era desse modo que se caminhava sobre os dias para se chegar ao fim deles com a alma viva. Um dia dobrou-se sobre si própria sem querer e descobriu um recanto escuro que escapara à luz do sol que forçara pelo interior do seu corpo. Tocou-lhe com dedos medrosos, para expor ao azul a escuridão. Estremeceu quando o pontinho desconhecido subitamente expandiu a sua vontade de fazê-la coisa oculta e galopou por ela a devorar-lhe as máscaras, a fazê-la nua e agreste e dissonante. Então viveu.


O primeiro drabble  para o tema Máscaras. Desconfio que ainda tenho mais um ou dois debaixo da máscara

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Amazonia


Senta-se muito quieto a ouvir a água. Tomba gota a gota de uma folha para outra. Levanta-se o canto de um pássaro. Fecha os olhos. É exótico, plumagem azul e magenta contra o verde exuberante. Soam paus de chuva, e o índio nú entre a folhagem leva aos lábios a cana cortada e sopra. Cai do alto um macaco. Estoura a zoada da fuga dos restantes. Sacodem folhas. Cheira a frutos doces e maduros. O calor humido cola-se à pele. Zumbem os mosquitos. Espreita uma tarântula sobre o tronco de uma árvore. Arrepia-se. Abre os olhos. Desliga o som. Levanta-se.


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Vidro



Pedaços de vidro tombavam com o som de notas desordenadas, um de cada vez no mármore do chão e depois todos ao mesmo tempo, pequenos ressaltos que reverberavam lá dentro, e depois havia aqueles que se quebravam, mas nenhum era um rasgo desafinado como o dela. Traziam antes a transparência das coisas belas, em pequenos carrocéis que lhe corriam as veias. Sabia, sabia, porque sabia, que música assim era eterna, se não eterna no conhecimento do mundo, eterna pelo menos no espaço que durava a sua vida. Eterna nela porque era a própria vida, ela vertida de dentro para fora.



quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

um raio de sol

Amor antigo em 100 palavras. Outro drabble. 


Tinha todas as cartas de amor numa gaveta, atadas com corda velha, um raminho de flores secas a perfumá-las e manter longe as traças. As traças tinham-lhe roído a memória e quase não sobrava nada desse homem que um dia amara. Lia nas palavras que se tinham amado num Verão quando era jovem e que tinham sido felizes. Ou quase. Tinham tido uma promessa de felicidade, diziam as cartas. Não sabia como se apagara, mas o nome nas cartas não era o nome na aliança. Dava graças por ainda poder ler. Cada carta trazia um raio do sol desse Verão. 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

O fim em cem palavras

Em exactamente 100 palavras... acho que se chama um drabble.    



    - Então e aquilo tudo que me prometeste?
    - E o que é que te prometi?
Apercebeu-se de repente que todas as promessas tinham sido feitas na sua cabeça e a voz morreu-lhe. Ficou a olhar para a chuva a escorrer na vidraça e a enumerar os futuros que imaginara a partir de gestos e meias palavras. Da vez em que ele lhe dissera que a amava, convencera-se que estariam juntos para sempre, como se o amor fosse eterno. Era eterno, sim, enquanto durava.
    - Pois não, não fizeste nenhuma. Vou-me embora.
    - Não precisas de ir.
    - Mas vou.


imagem em: http://angelcry1990.blogspot.pt/2011/04/vi-o-e-fiz-lhe-adeus.html