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terça-feira, 9 de agosto de 2016

Stranger Things (netflix) - em directo dos anos 80


A nova série de sucesso da netflix, Stranger Things, tem os ingredientes certos para agradar a (quase) qualquer pessoa, um bom enredo, com mistério, suspense, ficção científica e um tanto de fantasia, personagens giras, entre miúdos e graúdos que são, ao mesmo tempo, clichés de um certo género e personagens com densidade, e uma época muitíssimo bem retratada. A prova disso mesmo está em que a minha jovem de 17 anos agarrou-se à série numa tarde e só parou quando estavam vistos os 8 episódios. Pois é, só 8, é curtinha a temporada e ainda não há outra.

A série é melhor ainda para quem cresceu nos anos 80 ou para quem é, ao menos, fã dos filmes dessa época. A primeira coisa em que reparei, decorrendo a acção em 1983, é que nesse ano eu tinha precisamente a idade dos protagonistas mais novos, 12 anos. Não era dedicada a jogos de tabuleiro do estilo Dungeons&Dragons - ainda faltava muito tempo para os computadores em casa, nem mesmo Ataris ou Amigas ou sequer os malditos Spectrums, horas à espera que o jogo carregasse do gravador, com o mesmo alarido de um copo misturador, para no fim ler "loading error" or "load failed" ou o que era... mas mesmo isso foi mais tarde. Preferia livros, mas a bicicleta era essencial para mim e as referências, salvaguardando as distâncias e diferenças geográficas, estão todas lá. Até o fascínio com a ciência e a previsão - fácil de introduzir a posteriori, claro - de que o futuro estava nas ciêncas e nas tecnologias.

Para além do enquadramento visual da época - ahh, os velhos telefones fixos, os walkie-talkies que faziam as nossas delícias antes dos tms existirem, as calças de cintura alta superfoleiras, e tudo, tudo - há um sem número de referências fílmicas que são capazes de escapar aos jovens mais distraídos. Os miúdos lembram os Gonnies, mas de bicicleta saltamos logo para o ET, os adolescentes são Footloose (sim eu sei que é de 1984), os aspectos mais obscuros fazem-me lembrar os filmes de horror da época, The Thing, Poltergeist e outros, o gore é muito Alien (o 8º Passageiro é de 1979), e há um momento Rambo que me fez sorrir...  Só não meto por aqui os X-files, porque são posteriores! 

Pode-se, pois, apreciar a série de muitas perspectivas diferentes: pela série em si, pelo enredo, acção, personagens, etc, pela forma como remete de forma impecável para o ano de 1983, apropriando-se e usando da melhor forma possível os clichés da época, ou pela homenagem aos filmes de uma época que foi, de certa forma, fundadora de uma corrente mais pop. Há decerto outras coisas que não vi, mas estão lá e podiam ser acrescentadas.   Quem pode apreciar isto tudo junto? Maravilha!


quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Jason Bourne - fantástica adrenalina inútil

A trilogia Jason Bourne foi das mais entusiasmantes a que assisti nos últimos tempos. A acção foi sempre extraordinária, brutal, de manter o espectador agarrado ao assento e de respiração suspensa, mas a história não ficou atrás e cada filme veio completar o anterior. 

Cheguei ao fim da trilogia com a sensação de ciclo fechado e, como tal, o anúncio de um novo Jason Bourne deixou-me curiosa (vou esquecer o outro spin-off, o tal Legado, que sendo um bom entretenimento, tanto podia ser Bourne como outra coisa qualquer). O que poderia este filme trazer que acrescentasse ao que já estava feito? Ou seria um derivativo inútil? Conseguiria manter o nível de entusiasmo com que continuo a ver os três do primeiro ciclo?

Sim e não. 

O filme é uma montanha russa, que, no que diz respeito à acção, falhou para mim apenas na segunda perseguição automóvel, pelas ruas de Las Vegas, longa, exagerada, excessivamente brutal, desnecessária e, em última análise, irrealista. Fogo de artifício. De resto, é de prender o fôlego desde o primeiro ao último momento. Matt Damon, nos seus quarentas, continua fantástico. Ele é Jason Bourne, esqueçam as mudanças à James Bond. Tommy Lee Jones é sempre garantia de algo bom, embora não fuja do padrão dos anteriores directores da CIA nestes filmes, e Alicia Vikander domina com um ar de incoência que nos mantém na dúvida quanto às suas intenções mesmo até ao fim. Há cenas fantásticas de uma manifestação violenta na Grécia, logo no início - embora mesmo aí mantenha que as perseguições de carro por entre multidões sem se verem corpos a saltar, atropelados, é irrealista. Infelizmente, tivemos bem noção disso em recentes acontecimentos reais. 

A intriga não é desisteressante, pelo contrário, mantém os ingredientes dos anteriores numa mistura exacta... e, no entanto, inútil. Este filme não faz falta. Não prejudica os anteriores, mas não era de todo necessário. Ficamos a saber um pouco mais acerca do modo como David Webb / Jason Bourne chegou aos programa? Sim, mas não era preciso. Acrescenta-se um novo conhecimento sobre programas futuros? Sim, mas já se calculava que eles existissem, com vigilância global, etc. Ficamos a saber mais sobre a o modo de vida actual de Bourne? Um pouco... mas nada que nos fizesse falta. E o que quer isto dizer? Que me diverti muitíssimo e que o filme é excitante, enquanto estamos sentados na cadeira, um excelente espectáculo de cinema. Faz da trilogia uma tetralogia? Bom... não. Para mim não. 

domingo, 27 de março de 2016

maratona de (dia e noite de) Páscoa

Não, não é de orações pascais - não sou crente.

Nem é uma caminhada para a cumprir promessas, não sei se é agora que se cumprem mas não fiz nenhuma.

E também não é de doces, embora os tenha comido e ainda para ali tenha amêndoas de chocolate.

Não é de livros ou de escrita, o que seria de esperar de um blogue de leitora / escritora. Na verdade só escrevi um pouco de manhã e ainda não li nada. Daqui a pouco já vou ao Jonathan Strange, em simultâneo com...

... vários filmes, todos adequadíssimos à época. ;)

Os dois primeiros foram a pedido da jovem da casa, que tinha ouvido falar, mas não conhecia nenhum dos dois: 


Psycho, de Alfred Hitchcock, 1960  


a ver pelo menos uma vez na vida, ou de como um filme a preto e branco que deve ser um dos mais referenciados noutros filmes (de vários tipos) e portanto não já não traz surpresas, ainda pode ser enervante e fantástico. Iamgino como terá caído o queixo aos primeiros espectadores quando a aparente protagonista é assassinada em certa famosíssima cena no duche, ainda o filme não ia a meio. Não há spoiler se o filme tem mais de 50 anos, pois não? Há uma prescrição para isso, certo ? Ehehehehe.


Nota: quem se lembra de ver Hitchcock Apresenta na TV? EU! EU!


The Silence of the Lambs Poster

The Silence of the Lambs, de Jonathan Demme, 1991


não só não perdeu nenhum do seu fascínio e creepiness, como Hannibal Lecter continua a ser o mais elegante, inteligente e artisticamente dotado dos serial killers repulsivos. Na cena do polícia-anjo pendurado nas grades, a minha filha comentou que, em termos puramente artisticos (ou seja, esquecendo o macrabr do corpo esventrado) a montagem era lindíssima. E pronto.







E começou-se agora mesmo, com perspectiva de verdadeira maratona, 
a Trilogia Dark Night, de Christopher Nolan
Batman Begins (2005), The Dark Night (2008) e The Dark Night Rises (2012) 


Creios que os vi todos. Não recordo nenhum. 

E uma boa noite para vós, que, a seguir com isto, a minha terminará tarde. 

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Star Wars - O Despertar da Força

Li alguma coisa sobre este filme antes de ir vê-lo ao cinema (ontem, sem 3D), incluindo alguns spoilers que me foram indiferentes - raramente me estragam as experiências. 

Li coisas boas: que o filme recupera o espírito, personagens e ambientes dos três mais antigos, que a acção é non-stop e que as novas personagens introduzidas estão muito bem. Também li coisas más, como por exemplo que o filme carece de originalidade e que é quase decalcado dos tais mais antigos, que podiam ter feito mais do que associar os "maus" à imagética nazi, que muito fica por explicar, etc, etc.

Visto este O Despertar da Força, não roubo razão a ninguém, nem sequer me apetece discutir o tema. E porquê? Porque eu sou das que ainda viu o filme V e VI no cinema (para o IV era nova e portanto vi-o mais tarde, em DVD), que se sentiu um pouco defraudada com os outros três e a quem soube bem, mesmo, mesmo bem, ver regressar a Millenium Falcon e recuperar aquela sensação de Guerra das Estrelas que só os filmes com o Han Solo tiveram! 

A história não é brutalmente original? Não. O tema central, a redescoberta da Força, soa muito familiar, tal como as circunstâncias da personagem central e aquelas em que o espírito Jedi se manifesta e sim, há certos momentos que estão tão próximos de outros dos filmes IV, V e VI que dão aos cépticos, aos ultra-críticos, alguma lenha para queimar o filme. Acontece que eu vejo isto de outra forma: acho que é inteiramente propositado...tem de ser. Não acredito nem por um momento que qualquer realizador consciente - ou com um dedo e meio de testa - e as N ouras pessoas com direito a decisão nestas coisas, como por exemplo os produtores, não se apercebessem das semelhanças e, como tal, só posso assumir, e com satisfação, que não são nada casuais: houve decerto a intenção de ir buscar os precisamente esses temas, recuperá-los, como se recuperou o fantástico tom aventuresco e bem humorado dos "verdadeiros" Star Wars. 

Também não creio que tenha havido "preguiça" na associação do Império ao visual nazi, acho que vem na linha do que é o Império e do que ele representa no nosso imaginário. Nem na definição de alguns ambientes, como o bar de Maz, tão parecido com aquele em que o Jabba aparece pela primeira vez. Ficam coisas por explicar ? Pois ficam, mas há mais dois filmes planeados. Se, no fim, ainda estiverem respostas por dar, então apontarei o dedo. Antes disso não. E o vilão parece ainda pouco firme, pouco controlado e pouco cool, se comparado a Darth Vader? Parece, mas desconfio que ainda chega lá. É um vilão "em crescimento". 

Apetecia-me falar um pouco do Han Solo, da Leia, etc, mas não vou, é impossível fazê-lo sem spoilers. Também podia falar dos novos, do Fin e da Rey, que são melhores actores do que o Luke e a Leia do passado, ainda que sejam "politicamente correctos" e isso... enfim, é uma opção um pouco Disney, sim. Mas não quero dizer mais nada e estragar (mais) a experiência a quem detesta spoilers. Não sou nada imparcial, nem boa cinéfila, como quem me lê por aqui já deve ter concluído, porque aprecio os filmes tanto com o coração, como com a cabeça e os conhecimentos que tenho, e talvez porque gosto demasiado de relaxar e de me divertir no cinema, mas... que importa? O filme passou num instante e, como boa "geek cota", palavras do meu filho, ficava contente se tivesse durado mais uma horinha. Ou duas.  

O que me apetece agora é passar a tarde a rever os velhos episódios Star Wars... 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Hunger Games, A Revolta 2, acabou-se a fome

Fui ao cinema jver o filme com o livro lido - como no anterior. Isso acontece-me com frequência, nas adaptações e, quando assim é, tenho sempre alguma curiosidade em saber até que ponto a película divergirá do original escrito. às vezes é inevitável: há tanto no livro que seria impossível e pouco aconeselhável "despejar" tudo no filme. O essencial, nesses caso, parece-me ser que se mantenha o espírito, que o retrato das personagens se mantenha fiel, que o desenho essencial do filme, o seu esqueleto, seja o do livro e que o que lhe dá consistência, a carne sobre o ossos, seja coerente e relevante.

Posto isto, confesso que já não me lembro dos detalhes do terceiro livro da série Hunger Games. Lembro-me do essencial, de que não vou falar em pormenor para não fazer um enOrme SPOILER, mas posso dizer que nem mortos, nem sobreviventes me surpreenderam, nem as escolhas. Houve um factor de previsibilidade no filme que (creio), não está relacionado com a leitura, mas com os clichés do género, os vencidos e os vencedores, as perdas inevitáveis e os pequenos ganhos, mas, para mim, a precvisibilidade não é necessariamente má: não preciso de ser surpreendida a cada curva do caminho, mas de sentir que o percurso e o desfecho são verosímeis, cumprem os pressupostos e me deixam, no fim, com uma impressão de satisfação generalizada. E, claro, que, num filme deste tipo, é preciso entusiasmar-me com a acção. Atrás de mim havia um miúdo que não tinha visto os anteriores e se queixava de pouca acção, mas este filme segue o ritmo dos outros... tenho ideia de haver mais armadilhas no livro, mas pode ter sido apenas porque as coisas se estendem mais na escrita do que na imagem em movimento. Pareceu-me bem. 
E pronto, acabou-se a fome. Vi este último filme com o mesmo prazer com que vi os anteriores, porque eu sou das que gosta de relaxar no cinema, gosta de YA e de distopias, e que acha a ideia dos Jogos da Fome muito interessante. O conjuto da série faz sentido para mim e, ao contrário de muita gente, gosto da Katniss, mesmo da do filme, com a sua dureza e com as suas fraquezas, que são muitas. É boa pessoa? Uma heroína ideial? Age sempre pelos motivos certos e mais honrados. Não, não e não. E eu gosto disso.

(Este texto sai sem revisão. Estou muito cansada para isso. Desculpem qualquer coisinha)

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

O último Bond, Daniel Bond, e os espectros

A série 007 acumulou, nos seus muitos anos, uns quantos Bonds.

Não me lembro de todos - há um ou dois nomes que me passam ao lado e outros que nunca me convenceram enquanto agentes secretos. Há os icónicos, claro, Sean Connery, um charme, e Roger Moore, um canastrão que encheu muito bem os sapatinhos da figura de Bond. Pierce Brosnan não se saiu mal, consegue aquele ar de sedução de bolso e de misoginia assumida que assenta bem à série. E não lhe saía um cabelo do lugar. Ficavam bem numa série cheia de improváveis, impossíveis, armas estranhas e estranhas geringonças, vilões do piorio e mulheres seminuas, muita acção, etc, deliciosos clichés que era (é) preciso aceitar antes de ver o filme, ou não vale a pena vê-lo. Bond surgia neles como uma figura imediata - sem passado nem futuro, sem raízes, sem sentimentos, sem profundidade e, claro, sem escrúpulos ou fantasmas no que diz respeito à licença para matar".

Os últimos filmes de Bond, porém, com Sam Mendes ao leme e Daniel Craig à proa, têm navegado águas um pouco diferentes. Costumo chamar-lhes os Bond da geração Jason Bourne: são mais duros, mais sujos, mais assombrados, e a diferença essencial está na figura do próprio 007, que é mais duro, mais sujo, mais assombrado. Este Bond não chega ao fim do filme com a camisa branca engomada, sem uma nódoa de sangue, sem um arranhão, sem uma mazela na alma. Não é uma figura inteiramente solitária e sem raízes: conhecemos-lhe, finalmente, uma ascendência e uma infância, os fantasmas de um passado difícil, conhecemos-lhe uma casa (e eu que sempre o imaginei de hotel em hotel!!) e ligações fortes com, por exemplo, Vesper Lynd e M. de que senti muita falta neste filme, apesar de Ralph Fiennes. Conhecemos-lhe a culpa - muita - e as falhas - o alcoolismo, a idade... Reduz-se ligeiramente a misoginia - um dos aspectos mais irritantes desta série de filmes - porque, ainda que as mulheres continuem a servir, de certa forma, como "enche olho" e como objecto descartável, encontramo-las um pouco mais fortes e temos M. numa posição de relevo. Há, também, menos Bond girls por filme, creio... Tanbém não as temos tanto como vilãs de perna de fora, pois não? 

Spectre (2015) Poster
O meu favorito é, nesse aspecto e em tantos outros, Skyfall (2012) com Casino Royale (2006) num segundo lugar relativamente próximo. Spectre tem um ar de fim de série e, sabendo que 007 não acaba, sei no entanto que estamos provavelmente no fim do ciclo Daniel Craig, o meu Bond favorito. Reunem-se as linhas do passado e todos os fantasmas deste novo Bond, que trava uma batalha pessoal contra uma figura da sua juventude, ao mesmo tempo que se debate com uma ameaça muito moderna - temos a actualíssima questão orwelliana da vigilância global - ao serviço de quem, na verdade? Em favor de quem (nosso, da nossa segurança ou de entidades que acabam por ter na mão as nossas vidas?) e a contra quem (contra o terrorismo ou, a médio prazo, contra nós mesmos?). Bond surge como uma figura de outros tempos, todo o programa 00 prestes a ser considerado obsoleto, um resquício de outros tempos mais hands on, o individuo contra o sistema... um bocado como se discutissemos "o livro ou o ebook?". Os argumentos Bond não são de tremenda complexidade, por isso surgem, infelizmente, poucas nuances na defesa assumida dos primeiros contra os segundos (que faz sentido, claro, o contrário seria um tiro no pé da própria série). Nem é de grande complexidade o vilão ou as suas motivações particulares, mas tão pouco é o que se espera de um filme de Bond. 

Resultado de imagem para madeleine swann 007A organização fantasma e seu lider (Specter) não são surpreendentes, nem as ligações às instituições governamentais. O vilão não me encantou enquanto vilão, mas Ralph Fiennes está muito bem, a actriz Léa Seydoux tem a presença e a força necessárias para não ser só outra Bond girl e há algumas cenas giras de acção. O que continua a ser  interessante é o próprio Bond, e não tem apenas a ver com a forma impecável como um homem de 47 anos enche o fundilho das calças e caminha como um tigre na caça - falta-me o português para o termo inglês prowl. Tem a ver com a ambiguidade que Mendes e Craig emprestam à personagem... e aqui, se continuar a escrever, vou repetir-me. Ah, acrescento que há vodka Martini, creio que shaken, not stirred, e uma referência ao Rato Mickey. 

Em conclusão: este filme não será o melhor da série, mas vi-o com agrado. Não envergonha de modo algum a "dinastia" Craig que, temo, tenha chegado realmente ao fim. Não só li por aí declarações do actor a dizer que preferia uma coisa qualquer terrível (do  tipo contrair lepra) a voltar a fazer de Bond, como o fim me soa mesmo, mesmo a fim de ciclo, uma espécie de fim feliz à moda do 007... mas comm a mulher vestida e sem oh, James.

nota: já faz uma semana que vi o filme... que só faça agora uma opinião é testemunho da minha falta de tempo... e, com ele, de imaginação para estas coisas.

sábado, 14 de novembro de 2015

Da bravura das mulheres - As Sufragistas

Terminado o post, apercebo-me de que é longuíssimo... e menos de metade é sobre o filme. Não faz mal, lerão aquilo que quiserem. 

AS SUFRAGISTAS desenha um retrato parcial das dificuldades das mulheres no início do século XX e a extensão daquilo a que algumas se dispuseram para reclamar os direitos que temos, no Ocidente, como adquiridos, mas talvez fizesse mais sentido chamar-lhe A SUFRAGISTA, no singular, porque criaria expectativas mais conformes ao que entrega. Na verdade, não conhecemos as vidas das diferentes sufragistas, nem a globalidade do movimento sufragista representado por Emmeline Pankhurst (uma aparição tão breve de Meryl Street que nem devia constar do cartaz) e outras, ou a sua história. Quase nada se diz da própria Pankhurst, ainda que o nome seja omnipresente: quem era? o que fez? como ascendeu à sua posição e, principalmente, o que sacrificou? A visão dos acontecimentos históricos chega-nos através do olhar de Maud, mulher e mãe do West End londrino, pobre, nascida e criada na lavandaria onde trabalha, que vai envolver-se no movimento sufragista que Edith Ellys (inspirada, segundo as minhas pesquisas, na militante Edith Garrud) lidera com grande dedicação e a surpreendente ajuda do marido. É precisamente este centrar quase intimista na personagem que constitui a maior força e fraqueza do filme.   

Este seria um péssimo filme se não nos trouxesse, para além do movimento sufragista, um vislumbre das condições de vida da vastíssima camada da população carenciada no início do século XX em Inglaterra. Não temos, infelizmente, senão uma brevíssima perspectiva do que viviam as mulheres das classes privilegiadas que, como as outras, estavam inteiramente sujeitas à boa-vontade de maridos, pais, irmãos, tios, primos ou qualquer outro membro da família com um apêndice entre as pernas. que detinham  poder absoluto de decisão em todos os aspectos da vida feminina, incluindo a maternidade - as mães não tinham nenhum direito sobre os filhos. Não é difícil de imaginar porque é que a generalidade  se opunha ao voto feminino, o primeiro passo num caminho de independência que as levaria a reclamar outros direitos, económicos, sociais, familiares. Gostaria de ter visto um pouco mais, todavia, da perspectiva masculina, por exemplo, da posição pessoal dos responsáveis políticos - pensariam todos da mesma forma? Reconheceriam a razoabilidade das pretensões, mesmo sem estarem dispostos a ceder? E a posição das mulheres que se opunham ao voto?É difícil de conceber que acontecesse, não é? Mas acontecia, como transparece de forma muito ténue no filme, nas lavadeiras e vizinham que viram a cara a Maud. Gostaria de tê-la visto na voz de mulheres que, como as sufragistas, mostrassem os seus argumentos...


O que é fraqueza é, nesta caso, também força. Ver o movimento de forma parcial e concentrada, avançando para um acontecimento fundamental - um funeral que reuniu milhares de mulheres e foi falado no mundo inteiro - através do progresso e da vida pessoal de Maud, confere ao filme o poder de nos tocar, graças também à capacidade da actriz para imprimir enorme tensão ao papel. As suas dúvidas e dificuldades fazem-se nossas, e não creio que seja preciso ser mulher para ficar emocionada(o) e revoltada(o) com a sua situação e de outras mulheres à sua volta, com a sua impotência perante a lei e as atitudes dos homens. algumas das quais nos repugnam... não posso deixar de pensar no marido, que, sendo sempre um homem doce, sem nunca bater ou insultar, sem nunca a tratar mal, comete as maiores atrocidades, ao abrigo da lei. É impossível não nos comovermos com a coragem destas mulheres dispostas a perder o pouco que têm, trabalho, casa, família, liberdade (bom... estão dispostas a ser presas e torturadas) e até a vida por um ideal justíssimo. 

Assisti a todo o filme com o coração apertado e a angustia a admiração ainda não me abandonaram. Embora tenha estudado as questões sufragistas e conheça bastante bem a época, não tinha a noção exacta, nem dos  actos  mais extremos a que se dispuseram estas mulheres, nem das consequências, os espancamentos nas manifestações, a enorme frequência das prisões e as greves de fome. Agora tenho, e de uma forma pessoal, porque este filme nada tem de documentário. É um testemunho histórico, sim, imperfeito mas fascinante, e o que ali se passa poderá ser extrapolado, em maior ou menor grau, para outros países ocidentais na mesma época, mas é também uma história emotiva. Confesso que me abalou e, quando cheguei a casa - hoje ainda - continuava abalada.

E sim, sei que a minha opinião é incompleta, ela própria imperfeita, e que não consigo ser imparcial... mas não preciso de sê-lo, neste meu monstro. O tema é um dos que mais me agita - sou uma feminista, já o tenho dito - e porque não? Daqui para a frente, pode parar de ler quem só quer saber sobre o filme.

***

Sim, sou, desde sempre, feminista assumida e isso transparece em todos os meus livros - creio que até nos meus livros de fantasia. Não sei, aliás, como pode uma mulher não ser feminista, quando sê-lo significa reclamar os mesmos direitos e os mesmos deveres dos homens. Os deveres, já os assumimos quase todos: as mulheres trabalham lado a lado com os homens, pagam contas, põem gasolina, montam móveis e mudam lâmpadas. E vão à guerra, embora não consiga decidir se isso é direito, dever ou uma enorme estupidez de ambos os sexos. É, porém, inteiramente ilusório assumir que há igualdade. 

Falo em primeiro lugar da igualdade que dita as mesmas oportunidades. As mulheres são a maioria nas escolas e universidades e estão em proporções iguais no mundo do trabalho - mas não auferem salários iguais, são as primeiras a perder o emprego, não têm o mesmo direito ao reconhecimento e a aceder aos lugares de topo, a que anularia o tecto de vidro em que parecem embater as mulheres, tolhidas pelo preconceito ou pela necessidade de assistir à família, que, por alguma estranha razão, se assume que lhes cabe a elas. Tanto quanto sei, fazer a família coube a ambos, com alguma sorte com muito prazer para os dois. Carregá-la, porém, cabe à mulher, mesmo depois do fim da amamentação. (curiosamente, a propósito disto acabei de ler ESTE estudo, já depois do post escrito) 

Falo também da pequena igualdade, a que mal se nota, a não ser dentro de portas. Nada tem de pequena, por se imiscuir nas rotinas de um dia a dia que, para muitas mulheres, se torna excessivamente pesado. Esta igualdade é a que diz que as tarefas domésticas e o cuidado dos filhos, o direito à diversão e ao descanso devem ser, como as despesas da casa, partilhadas. Na generalidade, não são - com honrosas e muito sedutoras excepções... Infelizmente, as perguntas "O que é o jantar?" e "Há cuecas limpas?" continuam, na maioria dos casos, a ser antecedidas da palavra "mãe" ou de um qualquer nome de mulher, mesmo nas casas onde os homens ajudam. O próprio verbo ajudar é pernicioso, por implicar um responsável e um que dá uma mãozinha, numa circunstância em que devia reinar a partilha: onde ambos trabalham fora de casa, o peso do desagradável e cansativo trabalho doméstico devia ser igual, tal como outros aspectos, relacionados com a responsabilidade sobre os filhos - ah, a desgraçada da mãe, essa eterna chata que vai à escola falar com o professor e que obriga a estudar e a fazer os TPCs!! É a mesma desgraçada que fica velha e enrugada e gorda, enquanto a barriga de cerveja e a careca não têm, aos olhos dos homens, não têm qualquer relevância! Enfim. 


Há muito trabalho a fazer ainda e este cabe às mães e pais, ensinando os filhos e as filhas que homens e mulheres não são iguais, mas tem exactamente o mesmo direito ao sucesso e ao descanso, e o mesmo dever de ser profissionais no trabalho e de trabalhar em casa. Em partes iguais, porque as mulheres não têm o gene do apreço pelo trabalho doméstico ou do amor pelos lugares de baixo da escada profissional... ou seja, as mulheres não nascem com o gene da subserviência. Como fazê-lo, porém, se o exemplo ensina e na maior parte das casas os filhos ainda é a mãe que recorrem para um par de meias? 

Podia alongar-me muito, muito mais, mesmo sem contemplar as culturas em que as mulheres (ainda) valem menos que os animais da casa... e regressaria ao filme. Não sou capaz, não quero mesmo fazê-lo hoje, sobretudo hoje, após os ataques terroristas em Paris, e vieram foi ler sobre o  filme, não é verdade? Adiante.
   

sábado, 7 de novembro de 2015

Ver na sala - O Agente da U.N.C.L.E

The Man from U.N.C.L.E. (2015) PosterOntem teria sido dia de ir ver o Bond, James Bond. Como me trocaram as voltas,  em jeito de consolação (bagh!) acabei por ver, na sala da minha humilde morada, O Agente da U.N.C.L.E, filme que em também quis ver quando estreou, mas não fui. Nem vale a pena elaborar sobre os irritantes motivos porque vou tão pouco ao cinema, quando gosto tanto.

Falemos do filme, que é melhor. Percebi, com uma pesquisa rápida, que recebeu poucas estrelas dos críticos, embora no IMDB, onde é o público que vota, esteja com 7,5 de pontuação. Ia aqui introduzir uma certa opinião sobre cinamatografias e literaturas, mas vou refrear-me. A minha opinião deste momento não faz falta a ninguém e é provável que me arrependa dela, quando eu mesma estiver menos... azeda.

Digo apenas que, como de costume, as opiniões "oficiais" não me importam mesmo nada, mesmo que isso faça de mim uma espectadora pouco exigente. Sei o que me diverte. Detesto as comédias do Jim Carey. Disto gostei, como gostei de Kingsman. Vi o filme com um sorriso divertido, deliciada com o tom a roçar a comédia, sem a detestável comédia física, mas com muitos momentos tongue in cheek, a brincar com os clichés dos filmes do género: a época de excelência da espionagem americana e russa - os anos mais quentes da guerra fria... ups, parece que até eu caí no cliché do quente-frio! A intriga central é típica, a caracterização dos dois... três espiões muito cool, a maldade dos vilões, os ambientes ricos, as perseguições em carros e motas e helicópteros e aviões, a tensão amorosa que não chega a resolver-se... temos um Bond recauchutado e muito divertido, sem ser demasiado divertido. Faço entender-me? Se calhar não. Não faz mal. Quem viu percebe, mesmo que não concorde, quem não viu, veja e julgue por si próprio se tenho ou não razão. 

Claro que não faz mal nenhum que os rapazes sejam bonitos, em especial o Armie Hammer, que está tão bem como espião russo, que "entreguem" bem o papel e que, apesar de se brincar com o conceito, seja ainda um filme de acção. 

Em resumo, não compensa uma ida ao cinema, mas foram uns bons momentos de sofá. Se houver sequela - é provável, ficou lançada a escada no fim - quero ir  vê-la na tela. Eh. Querer quero, mas não devo ir. Que chatice.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Andei perdida em Marte. Foi giro.

Foi há já uns dias, na sexta passada, que me perdi em Marte. Foi confortável, sentada numa cadeira almofadada num anfiteatro, com pipocas, e divertido. Fica o cartaz do original - O Marciano - porque gosto muito mais deste título. Quem tiver lido ou visto o filme saberá porquê. 

Ouvi falar tanto do livro The Martian, e tão bem, que estive para comprá-lo umas quantas vezes. Ando de mal com leituras, não avançam, por isso achei que mais valia estar quieta, era mais um para a pilha, mas quando vi o trailer, com o Matt Damon, não tive dúvidas: era assim que ia conhecer a história.

Lá fui, e serei muito breve. Não faço ideia se a ciência do filme é exacta. Não tenho conhecimentos para isso, mas tenho o fascínio. Fico maravilhada com a exploração, a descoberta do espaço - e do fundo do mar também, mas não vem ao caso. Não sei, pois, se alguma daquelas coisas é possível, mas da forma como estão apresentadas, são todas plausíveis. Entendi tudinho, o que me permitiu disfrutar do resto. O resto são mais de duas horas de Matt / Mark a sobreviver com graça e humor e dos bons velhos americanos a investir milhares de milhões para salvar uma alminha só. Não sei se seria possível alguém enfrentar com tanto espírito uma situação destas, mas este Mark consegue de imediato a empatia do público. A minha, ao menos. Houve lugar a gargalhada, um toquezinho ligeiro de drama, acção, muita tensão. Dei por mim colada à cadeira, como há muito não me acontecia. Pode ter sido a confluência de um cansaço extremo com situações por vezes frenéticas, mas não importa, apertei com força os braços da cadeira. Não houve momento mortos, apesar de acompanharmos sobretudo o desgraçado sozinho em Marte (mas não só, há o lado da Nasa).

Fica claro que gostei mesmo muito, foi o melhor bocado que passei num cinema em bastante tempo. 

E agora o resto. Quando salvam o rapaz - nem sequer é spoiler, não havia dúvidas quanto a isto, pois não? - dei por mim a pensar: "Tanta gente morre em guerras todos os dias, e aqui está tanto folclore, tantos milhões gastos e seis vidas arriscadas para salvar um americano." Ficcional, claro, a realidade podia ser diferente e talvez lá tivessem deixado o tipo a secar, mas lá está, é sintomático. Depois, em conversa com o meu miúdo, chegamos à conclusão que tem tudo a ver com dar um nome e uma cara à desgraça. A vítima anónima não move montanhas. E claro, é uma americanada, mas, desta vez, com uma contribuição fundamental dos chineses. Ao menos isso.

Seja como for, foram boas horas as que passei em Marte. Uma nota para a banda sonora, com muita música disco, um piscar de olho à primeira fase do enstusiasmo espacial  pós-Neil Armstrong...


sábado, 19 de setembro de 2015

Fui, pois... e, ou me falha a memória, ou é muito diferente!

Fui, claro que fui ver The Scorch Trials! Levei os teens da casa, o mais novo satisfeito, a mais velha envergonhada por estar no cinema com dois dos dez ou quinze adultos (digamos maiores de 40, pronto) na sala cheia.

O filme é sempre a abrir, como o livro, e adorei - não me batam, já sabem que I'm a sucker por filmes destes, parte de mim não cresceu completamente. Deixem-me estar. 

Li os livros (o segundo e o terceiro) e é em parte por isso a minha curiosidade. Apeteceu-me reler, porque, ou me falha aqui qualquer coisa, ou o filme The Scorch Trials é muito diferente do livro The Scorch Trials. Estão lá os os elementos essenciais - os outros imunes (ou não) dos restantes labirintos, a Wicked, o Flare, os Cranks, as novas personagens, a longa caminhada através do Scorch para a montanha e os relâmpagos, e há uma linha muito geral que é seguida. Mas... e é possível que esteja esquecida... mas tinha ideia de que, atenção SPOILER, o Scorch Trials ainda era uma "prova", como os labirintos, destinada a testar os imunes e compará-los aos outros...  No filme não é, ou até mais ver não é. Isto muda um bocado o espírito da história, creio. Se calhar vou mesmo ter de reler.

Há também vários aspectos que me pareceram diferentes, como o que se passa antes da fuga, a própria fuga - senti falta de alguns detalhes acerca dos quais estava curiosa - o deserto, que no livro é mesmo ardente ao meio dia, tanto que mal se suporta... A forma como se encontram com o pessoal nas montanhas e o próprio pessoal nas montanhas, a forma como vão tomando conhecimento da realidade e da não-imunidade de alguns... e a Brenda, que, SPOILER, tanto quanto me lembro, nunca foi infectada no livro. Será que estão a preparar-se para mudar radicalmente o fim? Continuo a achar fraquíssima a presença da Theresa (actriz que a teen da casa adora, por conhecer de uma série chamada Skins, sendo que do protagonista nem se fala, claro!). É supostamente o interesse amoroso do protagonista, e embora isso seja menor, e muito bem, mal se percebe, Tem pouco destaque na relação com os outros, embora mais do que no anterior, em que foi pouco mais do que um acessório, o que, para mim, SPOILER, serve mal a impressão de traição no final do filme. Veremos o que vem aí. Não sei se será de propósito, mas a Brenda tem mais tempo de antena do que ela, e como se perde a vertente da telepatia entre Thomas e Theresa que há no livro(e ainda bem, detesto)... 

Seja como for, segundo o outro adulto, "isto como filme de acção está fixe, nunca pára" e "a história é muito melhor que as outras que andam aí, Hunger Games e detergentes..." o que é um elogio grande, se tivermos em conta que este mesmo adulto não é nada apreciador de distopias. Eu sou, e nada fiável na apreciação destas coisas... Creio que já por aqui disse que me apetece muito escrever uma? Vai chamar-se Lisboa Submersa e passar-se, adivinhem onde? Em Lisboa, em 2058 ou assim, num pós tsunami / terramoto global /subida brusca do nível do mar... Que tal? Eheheheh.

Quanto ao filme... vou reler o livro assim que puder, até me apetecia listar as diferenças. E, porque gostei realmente e acho o actor principal muito credível, vou de certeza ver os restantes filmes! Parece que o próximo é só em 2017...?

Uma nota: revolta-me esta mania de dividir o último livro de cada série em dois filmes (plim-plim-plim, ouvem-se as moedas as cair). 



sábado, 29 de agosto de 2015

Fui sem saber ao quê... e não era.

Quando vi o trailer de Outro / Eu (Self/Less em inglês), fiquei convencidíssima de que o filme era a puxar à ficção centífica, com questões de clonagem, transplante de cérebo ou consiência, etc, e a exploração desses temas. 

Não li nada sobre ele e lá fui... arrastei toda a família, sem interesse nenhum pelo filme, mas a fazer-me a vontade. Assim, nos próximos três meses podem reponder "Ah, mas ainda na semana passada fomos ao cinema!" 

A premissa que eu esperava - mais ou menos - está lá, mas não é nada do que eu esperava. Há filmes bons e maus que exploram estas questões e mesmo os mauzinhos debatem um bocadinho mais as consequências físicas, éticas, morais, etc, do que este. Neste, há alguma ciência, muito pouco explicada ou explorada, a personagem principal debate-se com a moralidade do que fez (ou fizeram por ele), mas a película é, na verdade, de perseguição... o protagonista persegue a vida, depois a verdade, depois perseguem-no a ele e a mais algumas pessoas, depois é ele quem persegue os "maus" da fita e alguma redenção. Neste caso, a redenção implica uma escolha e a reposição da ordem natural das coisas. Claro que, em tudo isto, tem de estar envolvida uma filha distante, uma família com uma menina, um velho amigo com um enorme drama... e dá imenso jeito que o seu corpo tenha as características de um marine. Uff! Isto é foi um belo esforço para resumir o filme sem spoilers!

Como filme deste género, vê-se bem. Não achei monótono e o Ryan Reynolds, sobre cujos ombros assenta quase tudo, mostra-se suficientemente angustiado. Enfim, toda a família preferiu assim, menos eu, que não recomendo nem deixo de recomendar. Não era o que queria ou eperava, por isso, embora não me tenha entediado, também não fiquei contente. Bolas, realmente é bom saber-se ao que se vai. Mea culpa. 

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Jurassic World, ou como salvar o dia de saltos altos

Vi, está visto, é filme de entretenimento, que era o que queria. Entreteu-me bastante. Isto dito, vamos ao resumo. O filme é...

... sobre vários tipos de lagartos, todos maiores do que o Dragão de Komodo, sendo uns mais geneticamente manipulados do que outros;

... sobre uma badass bitch de todo o tamanho e variadíssimas qualidades, entre as quais uma bela dentição, que, claro, tinha que ser bicho fêmea;

... sobre como nada pode interferir na relação de um homem com o seu cã... ups, o seu velociraptor;

... sobre como temos mesmo mais olhos que barriga e mordemos o que não somos capazes de comer e em terra de cego quem... ah, não, este não. Mas pronto. Nós, homo (pouco) sapiens, nunca estamos contentinhos;

... sobre como todos os maninhos devem ficar juntos e as famílias entender-se e os que se amam amar-se e assim;

... sobre sapatos de salto alto mesmo, mesmo bons (Jimmy Choo no mínimo), com os quais se pode correr pela selva do Cretácio e à frente de lagartos de muitos metros, sem partir o salto ou torcer o pé. Era capaz de não jeito nenhum quando se tem bafo de qualquer-coisa-Rex a levantar-nos o cabelinho na nuca;

... sobre como o rei da selva será sempre o rei da selva - e o dos mares será sempre o dos mares - e no fim, uma gaja de saltos, dois bichos grandes e um pequeno conseguem pôr tudo nos eixos: e voilá, todos juntos podemos tudo e é mais bonito. 


E sabem que mais? Diverti-me muito, a moça é ruiva mas não sei o nome dela. Ah, e o o Chris Pratt continua mesmo, mesmo giro. 

terça-feira, 23 de junho de 2015

Mulher de Ouro - Simon Curtis



Desde que ouvi falar neste filme pela primeira vez e me apercebi de que era (1) sobre pintura, (2) sobre História, (3) com a Helen Mirren, que ele se tornou obrigatório para mim. Também sabia que era sobre tribunais, o que não cai nas minhas preferências, mas isso jamais seria suficiente para sequer ensombrar o meu desejo de vê-lo.




O filme tem com base o processo de recuperação da(s) obra(s) de Klimt, Adele (i.e.Woman in Gold), por Maria Altman. Adele é o retrato da sua belíssima e muito amada tia Adele, encomendado pelo seu tio e levado pelos judeus na fase de anexação da Áustria, e, como diz certa personagem, "a Mona Lisa da Áustria". Ainda que a arte esteja no centro da história, não cheguei exactamente a sneti-la, ou a ter oportunidade de me deixar envolver por ela, como acontece, por exemplo, em A Rapariga do Brinco de Pérola. A história não é a deste luxuoso quadro,  menos ainda a de Klimt, do qual temos apenas um pequeno apontamento, mas a de Maria, de Randy, o seu advogado, e da sua ligação à herança judaica.

São as dificuldades de recuperação dos quadros (e as recordações, de que falarei adiante) que vão pautando o ritmo do filme. Tanto quanto percebi, este "cola-se"  aos factos que lhe deram origem, o que pode torná-lo um pouco mais denso nos aspectos legai, mas é, a meu ver, um ponto positivo. Não passamos o filme no tribunal, nem há, felizmente, nenhuma longa cena de julgamento. Há vários meandros, voltas, avanços e recuos. Quanto ao desfecho, que é o verdadeiro (fui pesquisar), não sei bem o que pensar. Por um lado, compreendo a personagem, que, mais do que recuperar o quadro, deseja  o reconhecimento por parte do estado austríaco da apropriação do que não lhe pertencia, e da sua associação aos ideais nazis. Por outro, creio que preferiria outro desfecho - um em que a generosidade da personagem permitisse que o quadro permanecesse com o povo que o incorporou na sua herança cultural. Ainda que, pela perspectiva assumida e sabendo como foi o holocausto, seja fácil torcer por Maria... não sei.


O outro elemento relevante do filme são os flashbacks. Eu, que aprecio os aspectos históricos, gostaria de ter tido mais destes, ter visto mais do que aconteceu à família e aos outros judeus austríacos. Não é novidade, claro, sabemos todos o que aconteceu aos judeus em geral, mas teria sido interessante conhecer mais do destino destas famílias de artistas Vislumbra-se uma sociedade erudita, de pintores, músicos, escritores, etc, que frequentam a casa de Maria, mas pouco se vê deles. Ora isso é que gostaria de ter visto, mas então o filme talvez tivesse de ser outro... porque estes aspectos assentam em fragmentos de memórias de uma Maria que regressa a elas muito contrariada, e, como tal, recebemos apenas o seu ponto de vista, em momentos muito específicos e relevantes para ela - como o casamento, a chegada dos nazis e roubo dos bens ou a sua fuga. 

Devo dizer, porém , que, apesar de todos os pesares, tive muito prazer em ver este filme. Talvez porque Helen Mirren é uma senhora. Ponto final. E Viena deve ser bonita. Nunca tive, até aqui, qualquer interesse em conhecer a Áustria, mas até fiquei com vontade. Pena já não poder ir ver este Klimt ao Belvedere. Agora tenho de ir vê-lo a Nova Iorque. 


quarta-feira, 10 de junho de 2015

Mad Max - Fury Road. Gostei muito... mas porquê?

Já não esperava ir ver este filme ao cinema, o que quer dizer que já não esperava ver este filme de todo, porque o insiro na categoria dos que, a ser vistos, devem beneficiar da grande tela. E é mesmo assim.

Não há grande coisa a dizer sobre a história em Fury Road. É linear e dentro do que costuma ser habitual nestes filmes - começamos com uma situação terrível, e depois há fuga, salvamento, perseguição, vitória. Estrada, estrada, estrada (ou condução, condução, condução, que estradas não há), morte, morte, morte. Temos a nossa heroína badass e o lone boy, ambos assombrados pelos respectivos passados, temos as donzelas para salvar, que, num filme de 2015, não poderiam ser inteiramente indefesas, nem salvar-se todas, temos o grande vilão, mesmo, mesmo mau, e os seus cúmplices, e o pequeno vilão que se converte e passa a herói. 

Até aqui, teria todos os motivos para não gostar do filme. Não há nada que escape aos clichés do género... não sei, aliás, se há muito no filme que lhes fuja. Então porque é que eu gostei tanto dele?

Em primeiro lugar, porque não creio que tente escapar a cliché nenhum. Assume o género e representa-o, levado ao extremo. Não brinca consigo próprio, simplemente afirma: sou isto. Em torno disso, retoma a distopia da série Mad Max com excelência, no horror desse nosso futuro violento e desertificado, em que a falta de água e a deformação física são omnipresentes. O combustível, que esteve no centro de outros filmes, serve aqui sobretudo como pretexto para a fuga inicial (faz sentido em 2015, quando a preocupação é sobretudo com o destino e natureza do Homem e com a água) mas os veículos automóveis continuam a estar no centro da acção, com transformações brutais, que me fizeram sorrir muitas vezes... por exemplo, o enorme veículo de guerra com o monstro-rocker na frente, como num palco, a tocar guitarra eléctrica durante toda a perseguição. Bela piscadela aos anos 80! 

O armamento é escasso, a tecnologia nula mas a imaginação não, e tudo tem um feeling bárbaro e enlouquecido, única possíbilidade num mundo sequioso, escravizado e deformado por radiações e doenças. Poucos são os que não sofrem de uma qualquer deformação, incluindo o Imortan - o vilão escravizador - cujo harém de parideiras perfeitas, que podem dar-lhe os bébés perfeitos, Furiosa ajuda a escapar. É quase caricatural, esta distopia, e isso agrada-me.

Em segundo lugar... é impossível não respeitar Charlize Theron. Impossível. A mulher é camaleónica. Sendo belíssima, é capaz de se fazer feíssima, como em Monster, ou, como aqui, ser lindíssima na sua imperfeição. De cabelo quase rapado, maneta, e dura, protectora, intensa, feroz, ferida por dentro, incapaz de um sorriso... Furiosa. Luta como qualquer homem, porque não há concessões sexistas aqui, felizmente, e é a fúria do título e a do filme. Tom Hardy, Mad Max, complementa-a muito bem. Para além de ser mesmo bonito (quase tanto como Mel Gibson era no primeiro Mad Max), o actor tem a aura adequada de bad boy solitário, com uma figura intensa, e aguenta muito bem, claro, o aspecto físico. Nicholas Hoult, decerto já habituado a fazer de monstrinho pálido e canibal, está bem na sua transição de vilãozinho a herói (e a minha filha exclamou "fixe!" quando ele apareceu). Achei interessante que o grupo que, no final, combate e vence o vilão tivesse apenas dois homens, e que a maioria das mulheres desse grupo já tivesse passado há muito os verdes anos. 

E a acção? perguntais. Então e a acção?

Pois é, a acção. A acção! A coisa arranca depressa e já não pára. Não há tempo para respirar. As sequências são brutais, em todos os sentidos. São rápidas, espectaculares e violentas. Não poupam ninguém, nem grávidas ou velhinhas. E é por isso que este filme, a ser visto, tem de sê-lo no grande ecrã, para se poder usufruir de toda a espectacularidade das cenas de perseguição e batalha, e das inevitável mortes horríveis. Não há muito tempo para nos arrepiarmos: a grávida acabou de ficar debaixo de um veículo? Dois segundos depois, já estoira uma bomba de fogo sobre o motor do camião em fuga e logo a seguir há tiros dentro da cabina e ao mesmo é preciso alguém ir à parte de trás soltar o depósito de "guzolina"... É um exemplo, lembro-me lá eu, no meio de todas as sequências de acção, se a ordem é mesmo esta!

É também um filme sobre desespero e esperança, o que, ao fim e ao cabo, acaba por ser um belo cliché para este cliché tão bem montado e assumido! Não faço ideia se é um grande filme ou uma treta, nem isso me importa. A mim, encheu-me as medidas, sobretudo por ser apenas o que é, sem pretensões. E ser brutal.

Nota: Devo esclarecer, como fiz num comentário, que o filme me encheu as medidas dentro do género, claro, essencialmente como filme de entretenimento (e creio que é isso que se pretende). Reconheço-lhe muitos méritos, mas isso creio que ficou claro no texto. 

segunda-feira, 6 de abril de 2015

The Man from Earth - e se...?

Nunca tinha ouvido falar deste filme de 2007. Não sei sequer se esteve nas salas de cinema, mas passou esta noite na minha sala e ainda bem.


The Man from Earth (2007) PosterComecemos pela sinopse, traduzida às três pancadas por mim:

Uma festa de despedida improvisada para o Professor John Oldman tranforma-se num misterioso interrogatório, quando o professor revela aos colegas que não envelhece e está na Terra há 14.000 anos.

E é só... só isso.
Meia dúzia de Professores e especialistas em diferentes áreas (Antroplogia, Biologia, Religião, Psicologia) reuninem-se numa cabana na montanha para despedir-se do jovem colega e amigo John Oldman, que parte sem razão aparente. Insistem em conhecer os motivos e segue-se a natural perplexidade, curiosidade, incredulidade e até ira perante as suas revelações: o professor confessa que se muda a cada 10 anos, para que não vejam que não envelhece, porque é uma acaso da biologia e não envelhece - ele é, na verdade, um Cro-Magnon. 

Como numa peça de teatro, o filme constrói-se num só espaço, num período de tempo curtíssimo, com toda a sua estrutura assente nos diálogos entre as personagens, de cariz essencialmente filosófico: fala-se um pouco de verdade e mentira, de História, de Biologia, de sobrevivência, do Universo, do ser humano, de Religião...  e o filme voa. Vamos de questão em questão, de mistério em mistério, de dúvida em dúvida e de esclarecimento em esclarecimento quase sem dar por isso, porque, mesmo com toda a informação e a complexidade da contra-informação, da crença e descrença, não é possível não ficar fascinado.  É um filme sobre o qual não posso dizer quase nada - ou terei que dizer muito, dissecá-lo até ao âmago nas suas variadas implicações. Apetece-me, se me apetece, mas para isso teria que vê-lo de novo e, como uma boa estudante, tirar notas. Não sei se é um grande filme, há uma ou outro momento forçado (o fim, por exemplo), mas de certa forma, isso reforçou a minha impressão de assistir à filmagem de uma peça de teatro. Foi, todavia, uma bela surpresa. 

Resta acrescentar que vamos acompanhando o filme com a suspeita de que vamos ficar sem saber se o jovem Professor está louco, a pregar uma partida ou se é de facto um homem das cavernas. Não ficamos, mas podiamos ficar. Faria sentido, dentro da lógica do enredo (enredo?). Afinal, que sabemos nós, se não que tudo é possível e muito pouco é comprovável?

Uma  nota de espanto: é o mesmo realizador de Abraham Lincoln vs Zombies... a sério?!

Para a ficha técnica, o IMDB, e fica o trailer:

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Interstellar, tempo e espaço

Interstellar (2014) PosterO filme Interstellar começa em media res, com uma premissa muito perturbadora, a de que a Terra se encontra numa senda de autodestruição, presume-se que ecológica e inevitável (mas nunca sabemos  se causada pelo homem ou natural), que levará a que, num futuro próximo, a sobrevivência dos nossos descendentes passe pela procura de outras soluções. 

O destaque do filme não está no que nos levou à situação, nem no esforço de sobrevivência das últimas gerações de humanos - com os meios técnicos, mas sem alimento e quase sem defesa face a sufocantes nuvens de pó ("do pó viemos, ao pó voltaremos"?) - mas nessa espécie de novas Descobertas universo afora, aproveitando dobras espaciotemporais e uma série de outras casualidades científicas. Confesso que a minha curiosidade quanto a certos aspectos me levaram a pesquisar na internet sobre a probabilidade de se darem ou não, e encontrei, por exemplo, isto, no buzzfeed. Há um momento em que saltamos para um buraco negro e do científico para a especulação, tão completa que coloca um pezinho no fantástico. Daí em diante, é apreciar a loucura. Interessante, mas não determinante para a minha apreciação do filme. 

Nota: Bem me parecia que aqueles vagalhões num planeta oceânico em que se pode caminhar na água, de tão rasa (caminhar sobre as águas... onde é que eu já vi isto?) eram um pouco excessivos  e convenientes, mas enfim. Já a questão da relatividade do tempo, possível ou não, é absolutamente fascinante.

Há questões muito interessantes sobre as motivações humanas e a capacidade de sobrevivência, a autodeterminação, o livre-arbítreo, a forma como vivemos o tempo e o espaço, a curiosidade, a coragem, a solidão e o amor (paternal, fraternal) e os limites do altruísmo que, colocando de parte toda a ciência, a mais provável e a menos provável, fazem deste filme um objecto muito interessante. Ocorreu-me com frequência a comparação entre estes astronautas e os primeiros exploradores que atravessaram os mares, munidos de quase nada e cheios dos mesmos medos e perguntas: afinal o que está do lado de lá? Há algo de questionação religiosa também, mas esta questão, como tantas outras, permanece subjacente e sem conclusões.

O filme é filme exigente para o espectador. Não é só a ciência que é complexa e sem contemplações - nada de ter tudo explicadinho, uma distração e ficamos perdidos no espaço - como a representação é seca, dura, humana. Dispensava a heroícidade do protegonista, mas compreendo-a a partir do momento em se trata o acto final de quem nada tem a perder, porque o seu objectivo central se torna inalcansável. Mathew McConaughey levou o seu tempo a provar que é capaz, mas é mesmo muito capaz e Anne Hathaway já cresceu qualquer coisinha. Não h+a romance entre os dois, o que oferece uma variação muito bem vinda ao cliché homem-mulher-fechados-no-mesmo-espaço.

Fica, por fim, o poema que o velho cientista recita e repete no seu leito de morte. De Dylan Thomas, e muito, muito bonito.

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.