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sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

um quadro frio e liso - sobre Western Hotel, de Edward Hopper

há um quadro frio e liso
de azul sobre vermes
Eward Hopper, Western Hotel.
que abraçam o gume
de uma espada de cimento
Agacha-se um sapo verde
nos ângulos amargos
talvez desapareça na luz
talvez se engula
talvez tenha engolido
um homem
há outro quadro onde
a mulher do Leste
aguarda ainda
de torso indeciso
talvez expectante
talvez desiludido de viver
de cama em cama
com o mundo na mala
e no recto limite da janela


(São tantas as solidões das mulheres de Hopper que jamais serei capaz de contá-las todas)





sábado, 21 de março de 2015

Dia Mundial da Poesia? Pois então um quadro e quase um poema


No Dia Mundial da Poesia, fica um quadro que é um poema de luz, forma e cor, de um enorme poeta das imagens. 


Hotel Room, de Edward Hopper, 1931


O que lês, mulher? 
Ficaram palavras no seu lugar?
Está na linha dos teus ombros
nos polegares hirtos. 
Que escassa a cor 
dessas palavras, que indolente
a lâmina que te fere.
Não compreendo.
Pousa dobrado esse abandono
ou hão-de sufocar-te 
as paredes de luz 
as sombras de corpo
as ilusões que ainda ontem 
arrumaste em papel de seda.
Ontem ainda o seu corpo era o meu.
E tu lês, mulher, lês
enquanto elas se cobrem
de cinzas incrédulas,
e a luz procura os teus joelhos juntos
Ontem ainda eram de fogo as suas mãos. 
Desarruma o mundo, mulher,
e segue, mulher, segue, mulher, segue,
que  a ausência é fria e impiedosa nos lençois.
Ainda ontem era de sangue o seu amor.
Desalinha o corpo, 
move um ombro, aperta as mãos,
erverga se quiseres o vestido de ontem,
que tempo desse quadro acabou.
O comboio das dez suspira e chama,
e ele não te espera na estação.


E agora ide, ide ler um poema de verdade.

terça-feira, 6 de maio de 2014

À espera de Denver

A propósito de Automat, de Hopper


Edward Hopper, Automat, 1927,
Entrou sozinha pediu um café
fitou a chávena branca a ler nas borras
o desenho incómodo dos dias.
Disse-me que esperava o autocarro
das onze para Denver
Atrás do balcão
imagino que a espera uma casa vazia,
um trabalho hipotético
uma amiga sem tempo
o mover automático das horas
num relógio de parede
e nenhum homem
O que muda da maçã para Denver
se o casaco é do mesmo verde
A solidão grumosa
come em azeitona o negro da noite
todos os dias o vermelho
me incomoda à janela
e ainda não o mudei de lugar
Ela quer pagar
"Deixe-se estar, ainda é cedo
e cá dentro está calor."
Sirvo outro café e ela agradece
tem a boca rosada
e voz pequena e fria
Lembro-me do homem que ontem
se sentou nesse lugar
a medir os dias numa fatia de tarte
se esperasse mais do que coincidências
talvez se descobrissem
um no outro à mesa,
talvez ele não seguisse as luzes
do tecto para o fundo da noite
para um estúdio com kitchenete
no décimo andar
e a briga dos vizinhos
e por causa de um sorriso
ela perdesse o autocarro
para Denver



sábado, 1 de fevereiro de 2014

aqui a sombra a luz (Morning Sun, Hopper)

ninho de paredes nuas
muito alto
simetria clínica
desenho a bisturi
irrompe da janela a luz dura
Morning Sun (1952) by Edward Hopper
geométrica
abre-se na cama
um segundo lençol
imaculado
esquina na parede
como porta
sem perdão na pele leitosa
e pesada
pêssego insuspeitado
sobre ela
aqui a sombra a luz
de novo a luz
solitária
quase queima
incinera a cor no corpo
que contempla
a suspeita de uma vida
noutro lado