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sábado, 6 de agosto de 2016

Agora que tenho tempo

ando nisto...

Dolce far niente, John William Godward (1861-1922)

... mas hei-de acabar pelo menos a re-re-revisão do A Chama ao Vento e ler o Arquipélago, que já comecei (promessa a mim própria).


sexta-feira, 13 de maio de 2016

o corpo diabo e o céu no olhar (e Trauma Cerebral, de Sonja Tines)


é a mulher
está na estratosfera 
sentada no mar
o corpo diabo
e o céu no olhar 

isso 
espreita

Sonja Tines, Trauma Cerebral, 2001

fá-lo com cuidado
que te queima a vista
e te espanca o rabo
parece serpente
agarra-te logo
para te pegar fogo

larga-te vazio
do cimo da torre
voas não voas
pairas no vento
ou páras nas rochas
pouco se lhe dá

está na estratosfera
sentada no mar
o corpo diabo
e o céu no olhar 


 


sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

um quadro frio e liso - sobre Western Hotel, de Edward Hopper

há um quadro frio e liso
de azul sobre vermes
Eward Hopper, Western Hotel.
que abraçam o gume
de uma espada de cimento
Agacha-se um sapo verde
nos ângulos amargos
talvez desapareça na luz
talvez se engula
talvez tenha engolido
um homem
há outro quadro onde
a mulher do Leste
aguarda ainda
de torso indeciso
talvez expectante
talvez desiludido de viver
de cama em cama
com o mundo na mala
e no recto limite da janela


(São tantas as solidões das mulheres de Hopper que jamais serei capaz de contá-las todas)





quarta-feira, 5 de agosto de 2015

calor


cai a tarde em fogo sobre o pavimento quente
arde o asfalto arde o mármore arde a pedra
em labareda a árvore no espírito e a casa 
o ar revolto redondo e fero a água loura
o dia morrendo num incêndio sobre o rio
arde o rio e sob o rio arde-me o peito


William Turner, The Morning after the Deluge: ca 1843

terça-feira, 17 de março de 2015

Édipo e a Esfinge - Ingres e Bacon e outros

Hoje no Museu Berardo, onde fui com os alunos de 9º ano a uma visita de estudo, a guia falou-nos, entre muitas coisas, da forma como por vezes vários artistas "bebiam" da mesma fonte, oferecendo diferentes visões de um mesmo tema. A propósito, referiu uma obra que o museu tivera em exibição há pouco, o Édipo e a Esfinge de Francis Bancon, que ofereceu (não me lembro se no próprio museu ou no Louvre) a hipótese de comparação com outra, do século anterior.

Fiquei curiosa (quando é que não fico, com arte?) e fui à procura das tais duas interpretações pictóricas deste mito que deu origem à expressão Freudiana "complexo de Édipo"... e esse todos sabemos o que significa. Não encontrei só duas, mas várias - Só aqui, estão quatro, e há mais.


A lenda (parte dela):

Édipo, figura lendária da Antiguidade grega, é filho de Laio, rei de Tebas, e de Jocasta, sua mulher.


Um oráculo prevenira Laio que o seu primogénito o mataria. Por isso, quando esse filho nasceu, Laio mandou expô-lo no monte Citíron, onde foi encontrado por uns pastores atado a uma pernada de árvore, de cabeça para baixo e com os pés perfurados e muito inchados, circunstância que os levou a pôr-lhe o nome de Édipo (= pés inchados). Os pastores levaram-no então a Políbis, rei de Corinto. Este tratou a criança como se fosse um filho e deu-lhe uma educação de príncipe. 

Chegado à idade adulta e informado de que a sua origem era misteriosa, Édipo deslocou-se a Delfos para consultar o oráculo, pois queria saber quem era o seu verdadeiro pai. O oráculo aconselhou-o a nunca mais voltar à sua pátria, pois estava-lhe destinado matar o pai e desposar a mãe. Édipo, para contrariar o trágico vaticínio e convencido de que a sua pátria era Corinto, exilou-se, seguindo por um caminho que ia dar a Beócia, mas quis o acaso que se encontrasse com Laio, que seguia num carro puxado por muares. A insolência de um dos servos de Laio provocou uma briga, na qual o rei quis participar. Durante esta briga, Édipo matou o verdadeiro pai, cumprindo-se assim a primeira parte da profecia do oráculo. 
Depois da morte de Laio, o trono de Tebas passou para Creonte, pai de Jocasta.

Nessa época, campeava naquelas paragens um monstro - a Esfinge - com corpo de leão e cabeça de mulher, que mantinha em pânico permanente os arredores de Tebas, pois devorava todos os viandantes que não decifrassem os enigmas que ela lhes propunha.  Creonte, sucessor de Laio no trono de Tebas, prometeu então o trono e a mão de Jocasta, a jovem e bela viúva, sua filha, a quem livrasse o país daquele monstro pavoroso. Édipo apresentou-se cheio de coragem e propôs-se tentar decifrar o enigma que a Esfinge lhe propusesse. O monstro segurou Édipo pelo cinturão e propôs-lhe o enigma «Qual é o ser que no começo da vida anda com quatro pés, a meio da vida anda com dois pés e pelo fim da vida anda com três pés?». Se o enigma não fosse decifrado, Édipo seria devorado pela Esfinge; se o enigma fosse decifrado, a Esfinge aniquilar-se-ia. Édipo respondeu prontamente que era o homem, uma vez que nos primeiros tempos de vida gatinha sobre os dois pés e as duas mãos, durante a vida se desloca sobre os dois pés e pelo fim da vida se desloca sobre os pés com a ajuda do bordão, que é o terceiro pé. Furiosa, a Esfinge lançou-se pelos rochedos da costa e caiu no mar despedaçada. Édipo foi aclamado rei e casou com Jocasta. Assim se cumpriu a segunda parte da profecia do oráculo... 
(em infodédia, http://www.infopedia.pt/$edipo,2)


Alguns quadros.


Jean Auguste Dominique Ingres, 1808 


Édipo ea Esfinge - (François Xavier Fabre)
François Xavier Fabre (1766-1837)

Gustave Moreau, 1864


Francis Bacon - Oedipus and the Sphinx (after Ingres), 1983
Francis Bacon, 1983 (inspirado em Ingres)


Interessante, a interpretação de Bacon, não só por deslocalizar inteiramente o mito no espaço e no tempo, como se o colocasse ele próprio no museu (a esfinge está num pedestal?), como por modificar inteiramente a figura de Édipo, que neste quadro se me lembra um pugilista ferido... Isto sem entrar por questões de perspectiva, abertura e fechamento proporcionadas pelas linhas geométricas do chão e das paredes e pela porta enviusada, que abre para... para quê? Para um espaço incompreensível, manchado de sangue. E as cores? O rosa absurdo e agressivo das paredes? É melhor nem começar!

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

o tempo concede (a propósito de William Turner)


sei de certeza a razão desses instantes
mesmo antes da luz se apagar no horizonte
parece que as horas se derretem em marés de ouro

é o pintor que as deseja assim e o tempo concede
esse privilégio de cores na respiração suspensa
na ponta do pincel será mais belo

assim a vida copia a arte parece que a inveja
invejo eu os olhos que assim veem 
invejo eu as mãos que assim fazem o mundo

A Sail Yacht Approaches the Arts, William Turner, 1840-5

sábado, 6 de julho de 2013

S. Jorge e os Dragões de Ignacio

"Sob um ceu esmaltado, recortado contra um horizonte de montanhas, um cavaleiro de armadura reluzente enfrentava o dragão que mantém aprisionada a donzela. Até aqui, nada de invulgar. A peculiaridade da obra residia nuns quantos pormenores que não se notavam logo à primeira vista. O primeiro encontrava-se no facto de o dragão parecer ter encurralado o cavaleiro, que desferia estocadas como um desesperado. O segundo era que a donzeçla, à entrada da gruta que o monstro usava como covil, não parecia assustada ou aflita; não que houvesse um sorriso, ou um gesto, era mais a sua aura, a titude serena com que contemplava a acção." 
(A Arte de Matar Dragões, pág.25)


Este quadro que Ignacio del Valle descreve é provavelmente inventado, para servir à narrativa, e teria sido pintado por autor desconhecido, durante o trezento - época em que o pintor era ainda um artífice e não assinava a obra. No entanto, resguardadas as diferenças, a inspiração é de época e esteve em muitos quadros pintados na Idade Média ou, como estes, no início do Renascimento. Vejam estes S. Jorge e o Dragão...
Saint George slaying the dragon, as depicted by Paolo Uccello, c. 1470
Paolo Ucello, c.1470

Jost Haller, 1445

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Eu não gosto da Alice

mas tenho por ela um fascínio absoluto, tanto por Alice in Wonderland como por Alice Through the Looking Glass, o seguimento menos conhecido da história.  
 
 
Vem este post a propósito de outro do Clube de Leitores, publicado ontem ou hoje, onde se mostra uma página do manuscrito de Carroll, com desenhos seus. Bonito, sem dúvida, como têm sido tantas e tantas obras de todos os tipos inspiradas pela loucura que é esta história. Não é a loucura que me repele, talvez seja o medo de crescer que revela. A ideia de ficar para sempre preso na infância assusta-me. Talvez não tenha sido uma criança suficientemente feliz, porque os meus filhos têm ambos um complexo Peter Pan, vão crescendo sempre com a vontade de não crescer. O meu interesse pela história é intelectual e não emocional ou prazeiroso, porque, na verdade, a única parte que me diverte é o poema Jabberwocky. Reside na sua ligação com o fantástico.
 
A natureza fantástica do sonho (porque Alice é um sonho, ou como um sonho, se quisermos), esse meio caminho entre o onirismo puro e uma viagem pelo subconsciente que nos permite  imaginar que elementos dominavam a vida do autor, chás e drogas e um encanto pouco natural por meninas pequenas, foi precursora do surrealismo, e o surrealismo é um dos movimentos mais fascinantes do século XX, em termos de uma viragem das mentalidades para o Eu e do reconhecimento de uma vida interior. É Freudiano, claro, tudo isto - e essa parte já não me agrada tanto. Mas adiante.
 
Tal é o fascínio, porém, aliado a essa repulsa visceral, que cheguei a considerar assentar a minha tese de doutoramento no estudo do reflexo da obra em artistas portugueses. Cheguei infelizmente à conclusão que é escasso e fraco e, tendo-me sido desaconselhado que saísse de fronteiras nesse trabalho, mudei para uma abordagem mais geral e feminina do fantástico por cá. Na altura, achei que tinha sido boa a mudança forçada, seria um trabalho doloroso para mim. Agora tanto faz: está tudo parado.
 
Quando iniciei as minhas pesuqisas, porem, encontrei alguns "objectos" artisticos interessantes, antigos e recentes, nacionais e estrengeiros, e é isso mesmo que quero partilhar. Para evitar um post ainda mais longo, fico-me por quatro imagens. Estas:
 
Magritte
 
Dali
 
Mark Ryden
 
Sonja Tynes
 
Munoz
 
Paula Rego
 
João Concha