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quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

A Oeste Nada de Novo - Erich Maria Remarque. Que faço eu com esta leitura?

Terminei ontem a leitura de A Oeste Nada de Novo. Há algum tempo que estava para terminá-lo. Tinha lido várias passagens quando fiz a minha pesquisa para O Ano da Dançarina (passagens terríveis) e ganhei agora coragem para lê-lo de uma ponta à outra. 

Esta é a opinião que deixei no GR. Aqui fica também, porque TEM DE SER. Leiam-no, se faz favor. Leiam-no. 

"Hesitei bastante entre escrever uma opinião a quente, com os sentimentos à flor da pele, ou deixar as ideias organizarem-se, para redigir um texto mais organizado e fundamentado. O livro merece ambas as opções, mas acabou por vencer a primeira.

Na capa, uma curta frase defende que há obras que deviam ser lidas por todas as gerações - sugerindo, presumo, que esta é uma delas. Talvez seja verdade. O certo é que, em mim, provocou um efeito devastador. Escrevo com uma sensação dorida de vazio, e alguma vergonha de senti-lo... afinal, que vivi eu que se comparasse? Não me recordo do exodo que me trouxe de África, era pequena, e de qualquer forma a violência foi outra, e vivo esta pandemia no conforto da minha casa, assistida pelo acesso ao Mundo através dos ecrãs, com alimento, livros, e gente.

Impressionou-me a absoluta ausência de silêncio, Paul refere que o som da batalha os acompanha em todos os momentos, mais próximo ou mais distante, e parece-me que, do sossego do meu sofá, posso ouvi-lo também. Impressionaram-me as condições de vida, a má alimentação, higiene e vestuário, os piolhos, a rataria, a lama, o sangue. Impressionou-me a morte dos cavalos. Impressionou-me a capacidade de improvisar e sobreviver. Impressionou-me ter-me esquecido que estes são soldados alemães... não, são meninos lançados para a morte, e nisso a nacionalidade não importa. Nem, de certa forma, a eles próprios. Estes rapazes lutam com a consciência da (quase) inevitabilidade da morte, de uma forma muito distante da percepção abstrata e distante no tempo que temos dela e, no momento em que está sobre eles e em seu redor, não lutam por uma nação, mas por si próprios e pelos que estão ali, ao seu lado, contra os que atacam do lado de lá. Quem são? Pouco importa.

Há violência de ir às lágrimas, e o autor não nos poupa. Nem deveria. É um livro de guerra e a guerra é mais do que um palco. Assistimos à destruição física de uma geração - deparamo-nos com a descrição vivíssima e crudelíssima de ferimentos de todos os tipos e, como diz Paul, o narrador, em todas as partes do corpo, e de mortes atrozes. Pareceu-me algumas vezes insuportável, não apenas a morte, mas a vida: a forma como estes rapazinhos, mais ou menos da idade dos meus filhos, sobrevivem, transitando entre uma animalidade indiferente, em que, no momento da batalha, o medo é uma coisa física que lhes assegura o instintio de sobrevivência, e momentos de leviandade, sempre que estão um pouco mais afastados da Frente. É assim que Paul o descreve. É assim que o vemos. Sobretudo, pareceu-me insuportável compreender como esta geração de rapazes atirados dos bancos da escola para a guerra, que toma forma em Paul, se vai esvaziando de ligações com os seus lugares, memórias e gentes, de perpectivas e desejos para o futuro e, quase no fim do conflito, se percebe presa entre outras duas: a que tem algo para que voltar, uma família, um trabalho, e a que, segundo diz "é agora como nós costumavamos ser, e essa geração ser-nos-à completamente estranha e atirar-nos-à para o lado". Não será sempre assim nas guerras, feitas às custas das vidas dos jovens?

A Oeste Nada de Novo é uma narrativa ficcional. Mas o que nela se encerra não é, pois não?"

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

A Centelha da Vida, de Eric-Maria Remarque, ou a impossível teimosia da esperança

Se decidir ler este livro de 1952, respire primeiro, respire fundo antes de mergulhar, porque ao longo das 469 páginas (na minha versão) vai ser difícil levar ar aos pulmões.

Há já algum tempo que queria ler A Oeste Nada de Novo, culpa da Cristina Drios e do seu excelente Os Olhos de Tirésias, mas não me decidi a comprá-lo. Nas férias, porém, costumo sempre espreitar a estante da casa de aldeia dos meus pais, onde a minha mãe armazenou uma série de livros fantásticos da sua juventude, John Steinbeck, Norman Mailler, Remarque, outros. Foi dessa estante que li há anos, a cair de podre, o meu favorito A Leste do Paraíso, e foi lá que descobri, também a cair de podre, este A Centelha da Vida, que de imediato passou à frente de todas as minhas intenções de leitura. Primeiro precisei, com fita cola e paciência, de repará-lo o suficiente para as páginas de 1963 (é mais velho do que eu, respeitinho) não me ficarem nas mãos!

Pensamos sempre, volvidos quase 70 anos sobre o fim da Segunda Grande Guerra, que sabemos tudo sobre os horrores nela cometidos. E não é inteiramente mentira - sabemos dos campos de concentração e de extermínio, já vimos as fotos , já acompanhamos as séries de ficção e os documentários, já lemos muitos livros. Saber, porém, não diminui o horror. Por isso previno, é preciso respirar fundo antes destas páginas. Muito fundo. O autor, que é alemão e a prova de que ser alemão não é, nem era na época, ser nazi, previne no início que esta é uma obra de ficção. O campo de trabalho de Mellen (não de extermínio, este não tem câmaras de gás) nunca existiu, nem as personagens. Todavia, afirma, tudo o que consta do livro aconteceu, algures, nalgum campo, tudo foi recolhido de testemunhos reais. E isso é que é terrível, e isso é que nós já sabíamos mas preferíamos não saber. 

Cada página deste livro passado mesmo no final da guerra, na Primavera de 1945, é de um perfeito horror. Decorre num campo de trabalho dividido em dois, do qual acompanhamos o sector dos "esqueletos", os que estão para além da capacidade de trabalho, colocados no campo pequeno para "rebentar"(não preciso de esclarecer o que representa), doentes com tifo, desinteria ou simplesmente demasiado fracos. O que lemos está muito além e acima daquilo que parece possível suportar, descrito sem pudor nem comiseração mas com um tremendo respeito pela vida humana, pela resiliência do homem em situações extremas, para além de extremas, por essa espécie de integridade que leva os homens a unirem-se quando tudo faz prever que seja cada um por si na luta pela sobrevivência. Não fazem falta lenços de papel, não é esse tipo de livro, o tom não é lamentoso nem de uma emotividade barata. É duro e é simples, como se os horrores da vida no campo fossem tão naturais como os pequenos acontecimentos da vida numa aldeia. Esse é, talvez, o aspecto mais impressionante - como o homem é capaz de adaptar-se para sobreviver. E de como o medo e a esperança andam lado a lado, tão capazes de tolher como de empurrar.

Desta leitura, apesar de terrível...terrível, ficam no fim as impressões de resistência e esperança. De calor humano, de amizade, de uma certa pureza. Atravessa todo o texto essa centelha da vida de que fala o título, na capacidade para simplesmente resistir antes de se prever a chegada dos Aliados, numa esperança atemorizadora depois de se perceber que está para breve o fim. Li com paixão, apesar de ter demorado um pouco - por vezes, já não era capaz de absorver mais horror. 

Duas notas.

  1. Há um ponto, para o fim do livro, meia dúzia de páginas com duas ou três conversas um pouco mais políticas e dogmáticas, sobre o que se previa do domínio comunista no fim da guerra. Não roubaram nada ao livro e seriamdecerto importantes no ano de 1952, quando o tema era "quente". De qualquer forma, é engraçado confirmar, tantos anos depois, o que o autor prevê no livro...
  2. Foi muito curioso ler esta versão de 1963, nesta fase em que tanto custa a engolir o Acordo. Era um pouco diferente, o português, os advérbios acabados em "mente", por exemplo, levavam acento. Também notei que a edição não é muito cuidada... mas foi irrelevante!