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terça-feira, 23 de dezembro de 2014

As renas teimosas (conto infantil)

O "presente" do monster neste Natal é um pequeno conto natalício. Escrevi-o há anos, para os meus filhos, quando estes ainda eram pequenos. Teve direito a um livrinho artesanal com desenhos meus, que ainda deve andar lá por casa, na desarrumação da estante de um deles. Aqui fica. Se gostarem, leiam-nos aos vossos meninos. Feliz Natal!

Todos os meninos sabem que, na véspera de Natal, sem falhar, desde que há Natal no mundo, São Nicolau põe todos os brinquedos no seu trenó, junta as renas à sua frente e, juntos, correm os céus para entregar brinquedos nas chaminés e janelas das casas que celebram esta data. São muitas renas e muito especiais, porque são rápidas como o vento e tão espertas que até sabem falar.
Certo Natal muito frio, estavam as renas reunidas-se no seu redil no Pólo Norte, a conversar sobre a noite seguinte, quando uma rena muito grande e sempre mal disposta resmungou:
- Pois eu não sei porque é que temos que andar por aí numa noite tão fria. Os outros animais ficam nas suas casas!
Continuou a protestar, a protestar, contagiando cada rena com a sua irritação. Umas diziam uma coisa, outras diziam outra e às tantas diziam todas o mesmo, mas não se entendiam! Fizeram tanto barulho que as luzes na casa de Nicolau se acenderam e ele saiu, de camisa de dormir e grandes pantufas encarnadas. A barba branca e as bochechas brilhavam ao luar.
- Mas o que é que se passa aqui? Preciso de dormir, amanhã é a grande noite!
- Tio Nicolau, - disse uma rena de hastes tão grandes que chegavam aos ramos mais baixos do abeto - nós este ano não queremos andar por aí na véspera de Natal. Não vamos contigo entregar os brinquedos. Temos frio!
O Pai Natal ficou muito admirado e muito aflito.
- Mas, queridas renas, vocês dormem sempre na rua! E...
Um coro de protestos interrompeu-o. Que não era o mesmo, que lá em cima nos céus estava mais frio, que estavam fartas.
- Mas então como é que eu levo os presentes aos meninos? Eles vão ficar tristes este Natal?
As renas pensaram e pensaram.
- Vai de carro. – sugeriu uma lá do fundo – Os carros são rápidos e não têm frio como nós!
- Os carros não voam, renas! Como é que eu vou  atravessar os oceanos para levar os brinquedos até ao fim do mundo?
Uma respondeu, numa vozinha atrevida:
- Então vai de avião. Os aviões voam.
O Pai Natal abriu muito os olhos. As renas estavam a gozar com ele? Que ideia tão estranha! O Pai Natal, de avião? Nunca se tinha visto tal coisa. A perder a paciência, lembrou:
- Os aviões passam lá muito em cima! Com um avião, eu não consigo chegar às chaminés e muito menos às janelas. Como é que eu entregava os brinquedos? Se os atirar, partem-se, e ainda posso enganar-me na casa... E se a Marianinha fica com o carro vermelho e o Luís com a boneca dela?
As renas ficaram muito aborrecidas. Já não tinham mais nenhuma ideia, mas eram muito teimosas e por isso bateram o pé... ou o casco, que é o que as renas têm no fim das pernas!
- Pois, nós não sabemos como vais fazer, tio Nicolau, mas queremos ficar em casa. Temos muito frio e vamos ficar por aqui.
Nicolau ficou a olhar para elas, muito triste e zangado e sem saber o que fazer. Era um problema, aquilo. Uma das renas, que já era um bocado velhota e estava com ele há muitos anos, furou pelo meio das outras até à cerca e sorriu para ele, daquela maneira especial que as renas falantes têm de sorrir.
- Eu estou velha e com pouca força, Nicolau, mas vou contigo. Nós os dois vamos conseguir levar os presentes aos mais pequeninos.
Nicolau, tão preocupado que nem notava o gelo na barba e sobre os seus cabelos brancos, respondeu:
- Obrigada, minha querida, mas sabes... é impossível. Há tantos meninos no mundo, e só os dois, com o trenó tão pesado, vamos muito devagar de certeza.
Olhou para as renas, que baixaram a cabeça, um pouco envergonhadas mas cheias de teimosia, e voltou-lhes as costas. Já não dormiu mais nessa noite, mas não conseguiu descobrir nenhuma solução. 
A noite seguinte estava bela, com uma lua muito gorda e brilhante reflectida na neve muito branquinha, e muito fria, mas Nicolau nem notava, só via a montanha de presentes no trenó. Sacudiu a cabeça, desanimado, ajeitou o gorro e atrelou a sua única rena fiel. Estalou a língua e sairam os dois, a rena bufando e suando para arrastar todo aquele peso. Iam levar aos meninos tantos brinquedos quantos pudessem. Enquanto se afastava pelo céu escuro, Nicolau pensava que aquela ia ser a noite de Natal mais triste de sempre.
Da janela, as renas viram-nos afastar muito devagar, a muito custo, e ficar cada vez mais pequeninos, mais pequeninos, até desaparecerem no horizonte. Tinham entrado em casa de Nicolau, como faziam sempre depois de entregar os presentes, para se sentarem à frente da lareira bem acesa e quentinha, mas o calor não lhes chegava ao coração, que lhes pesava como uma grande pedra de gelo. Já não tinham muita certeza de terem razão. Levar os presentes aos meninos era um trabalho muito importante. E, afinal, lá em cima no céu estava sempre frio... era assim mesmo, desde sempre, e elas nunca se tinham importado. Gostavam de voar nos outros dias e tinham orgulho do seu trabalho. De onde lhes viera a ideia de ficar para trás?
- O que é aquilo ali? – perguntou uma rena mais pequenina e curiosa, ainda à janela.
Sairam lá para fora e viram, debaixo do grande abeto decorado lá fora, muitos pequenos presentes. “RENA”, era o que estava escrito em cada um. Muito admiradas, porque sabiam que não se tinham portado bem, rasgaram o papel com a boca e descobriram... belos cachecóis quentinhos, gorros de lã especiais para renas e lindas pantufas, quatro para cada, para aquecer as suas patas preguiçosas.
- Ai,ai,ai,ai, ai... – queixou-se uma rena e, num instante, todas se queixavam.
Estavam muito, mas mesmo muito envergonhadas. Tinham sido tão teimosas e o Pai Natal, mesmo assim, não se esquecera delas e daquilo que elas mais desejavam: estar quentinhas nesse Natal. A rena grande e resmungona ficou calada e as outras conversaram durante um bocadinho.
- Vamos?
- Vamos!
Puseram nas patas as pantufas, nas cabeças teimosas os gorros, enrolaram os cachecóis nos pescoços e saíram atrás de Nicolau, pelo caminho que sabiam de cor. Encontraram-no logo a seguir. Tinha andado pouco, com aquele trenó tão carregado e só uma rena, ainda por cima a mais velha e cansada de todas as renas, e estava parado mais adiante para deixá-la descansar. Nem um presente fora entregue ainda e Nicolau suspirava de desânimo. Pousaram ao seu lado.
- Desculpa-nos, Nicolau, desculpa-nos. Nós fomos casmurras, mas estamos arrependidas e queremos ajudar-te a levar os presentes. Podemos? Vamos a tempo?
Ele soltou uma gargalhada, as grandes bochechas brilhando de felicidade.
- Estou um pouco desapontado convosco, minhas amigas, mas nesse momento isso não importa: o que importa era o Natal dos meninos! Vamos embora! Depressa!
As renas alinharam-se na sua posição habitual, com a velha rena entre elas, sorrindo o seu sorriso de rena, Nicolau atrelou-as, a rena de nariz brilhante à frente, a apontar o caminho, com a cabeça bem erguida, e partiram e direcção às estrelas, para que todos os meninos tivessem Natal.


2 comentários:

Ricardo António Alves disse...

Feliz Natal! <:)}

Olinda P. Gil © disse...

Conseguiste ser amorosa com renas em greve!