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sábado, 10 de dezembro de 2016

A Célula Adormecida - Nuno Nepomuceno

A Célula AdormecidaEste livro do Nuno Nepomuceno - mais uma vez estou perante uma opinião sobre um livro de alguém com quem já me cruzei e com quem simpatizo - parte de um premissa interessantíssima: a de que o nosso jardinzinho à beira mar plantado é tão susceptível como qualquer outro de ser vítima de um atentado terrorista. É o que sucede nas primeiras páginas e, a partir daí, vemo-nos embrulhados numa série de intrigas e jogos de interesse que nos levam a uma conclusão que, não sendo surpreendente, é lógica.

Há uma excelente pesquisa neste livro, sobretudo acerca dos costumes religiosos muçulmanos... embora saiba tão pouco sobre eles, que o Nuno podia ter inventado e eu acreditava. Sei, porém, que não o fez, e é de facto fantástico o detalhe a que se propôs. Nota-se ainda a preocupação de saber sobre o funcionamento dos serviços de segurança nacional, que dão um toque James Bond - moderado, afinal o protagonista é um professor universitário - ao livro, e em conhecer e dar a conhecer os meandros da situação política e económica no Médio Oriente, nomeadamente os interesses Ocidentais por trás dela. 

A história desenvolve-se em várias vertentes, sob diferentes pontos de vista, em capítulos curtos que são muito fáceis de ler. O Nuno tem um discurso limpo e adequado ao género e é cuidadoso na inserção da informação, de modo a não ser aborrecida, o que facilita a concentração nos acontecimentos. O ritmo é rápido, os acontecimentos sucedem-se, até porque saltamos de uma para outra personagem, algumas devidamente indefinidas, para não revelar segredos cedo demais. Para além disso, leva-nos para além de Lisboa, à Turquia e a Aleppo, no início da destruição. Coloca-nos, também, a bordo de um desses botes apinhados de refugiados que se esforçam por atravessar o mar de noite. São todas situações quase essenciais num livro deste tipo. 

O protagonista, o professor Afonso Catalão, é uma personagem interessante, complexa, com certa sedução séria, sofrida, cínica, ainda que não tenha conseguido importar-me tanto com ele como com André Marques-Smith. Há uma história pessoal pesada e pouca perspectiva de um pouco mais de luz no final, porque os fantasmas que o professor arrasta dificilmente o abandonarão. Não vejo como. Ainda assim, não chego a lamentá-lo, talvez por não ser, na verdade, um homem simpático. Há um aspecto na jornalista (também ela uma personagem com profundidade e interesse) que não posso revelar, mas me parece desnecessário... Não tem peso na narrativa, a não ser para tornar mais negro o presente e o futuro. Todas as restantes personagens têm uma função, sem desperdícios ou presenças inúteis, demonstrando algumas a devida profundidade e as outras a devida tipificação. O Nuno doseou-as bem.

Nota-se, da parte do Nuno, o bom coração, isto é, uma vontade muito grande de entender as razões para o ódio muçulmano, as responsabilidades do mundo ocidental na situação no Médio Oriente, as dificuldades de integração dos muçulmanos nos países ocidentais (neste caso, Lisboa)... e não sei se não foi aí que, para mim, o livro caiu no exagero. Quase fui assaltada pela impressão de que não há defeitos entre os muçulmanos, que são todos gente de paz, até lá colocarmos a semente do ódio, e que "nós" somos tão interesseiros, tão preconceituosos, que nem os adolescentes hesitam em cometer um dos piores crimes possíveis, Essa impressão deixou-me um amargo de boca, mas não posso, infelizmente, detalhar os motivos que a causaram, sem estragar a leitura com revelações que devem surgir aos poucos.  Esta interpretação pode ser errónea, claro, e foi decerto influenciada por um certo cinismo da minha parte em relação a todas as religiões e aos males que têm causado ao longo dos tempos.  Imagine no religion...

A Célula Adormecida é, antes de mais, um thriller bem construido, de leitura veloz, com um enredo sólido e interessante, apoiado em muita informação relevante, personagens fortes, ambientes bem definidos e num ritmo excelente. Ganha-se em ler este livro do Nuno Nepomuceno. 

   

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O fim da trilogia - A Hora Solene, de Nuno Nepomuceno

Está concluída a leitura da trilogia, André Marques Smith já tem um destino e, depois de vários dias sem tempo nem paciência, roubo uns minutos para escrever uma opinião pequena - vou tentar - sobre este último livro, A Hora Solene. Tenho que começar por dizer que foi uma leitura longa por culpa minha e não do livro, que tem um ritmo rápido e é fácil de ler e de gostar.  Posto isto, confesso  (desculpa, Nuno) que o meu favorito é o primeiro, O Espião Português . Talvez por não conhecer ainda o Espião, talvez por não ter ainda expectativas quanto ao que aí vinha ou ao que lhe sucederia. Os seguintes são o desenrolar mais ou menos inevitável do que o Nuno começou a construir nesse livro, com um ou outro twist inesperado, de que não falarei para não estragar leituras. 

Continua a ser delicioso ler um livro de acção tão português, no sentido em que Lisboa e arredores estão presentes de forma marcante. Claro que é também um livro internacional, porque nem este espião, nem os seus aliados e os seus inimigos param quietos... Lisboa funciona como âncora, porque as acções principais decorrem noutros lugares mais ou menos exóticos na Europa e fora dela. Nesse aspecto, e noutros, há muito de James Bond na trilogia, como referi já na minha opinião sobre A Espia do Oriente, com os clichés que isso implica - a gente bonita, os vilões estranhos, a forma como se desenrola a acção e onde. Não têm de ser uma coisa má, oferece referências e é cinematográfico, o que funciona muito bem aqui. A acção é rápida e bem descrita. De quando em quando, as explicações sobre os lugares são muito detalhadas, o que é um pau de dois bicos, porque, embora seja interessante saber, por vezes não fazia falta naquele momento da acção, pelo contrário. 

Este terceiro livro dispersa-se por mais núcleos de personagens, o que é natural, porque há coisas a acontecer longe do protagonista que são relevantes. Acompanhamos os maus da fita quase tanto como acompanhamos André Marques-Smith. Este mantém a consistência e a afabilidade que atraem o leitor, embora talvez necessitasse de um pouco mais de angústia - afinal, a sua situação é mais negra do que nunca. É um livro em que a acção é mais relevante do que a emoção, sim, mas o autor abriu caminho aos aspectos mais íntimos logo de início, criando uma envolvente pessoal para o espião, com família, amigos, coisas a decorrer que não se reduzem ao seu "trabalho". Não estão de todo ausentes deste volume, claro... a família talvez esteja até mais presente do que nunca.  

Quanto aos restantes, gosto mais das personagens que não são preto-e-branco, como Anna e Anssi, que caminham sobre o muro entre bem e mal, e gostaria de ter visto um pouco mais dessa dualidade na vilã... talvez algum sentido de proteção da cria que envolvesse sentimento e não interesse. Claro que a sua frieza é propositada, tal como a de outros membros menores do grupo.  

Uma nota, antes de concluir...  O último livro da maravilhosa saga Harry Potter tem um capítulo a mais, o epílogo. Fiquei capaz de matar a J.K.Rowlings quando o li. Teria preferido que a autora não me tivesse mostrado o futuro, mas a forma como as personagens se resolveram e reencontraram no presente. E pronto, é só isto, e juro que não me enganei, a falar aqui sobre o Potter, nem estou maluca! Não digo mais. 

No conjunto - e sim, os três livros precisam de ser todos lidos e a a conclusão é satisfatória - é uma trilogia que se lê muito bem e muito depressa. Quando o Nuno mandar cá para fora outras coisas, cá estarei para lê-las. 

quinta-feira, 30 de abril de 2015

O Espião Português - Nuno Nepomuceno


Quando este livro foi publicado pela primeira vez, tive alguma curiosidade, mas acabei por deixá-lo passar. Com a nova edição, desta vez com a TopSeller, achei que estava na altura. Fui tentada numa ida aos Correios (é verdade, deixo-me tentar assim), trouxe o livro para casa e comecei-o quase de imediato... e acabei-o quase de imediato. 


Embora esteja escrito no presente, o que me obriga sempre a um período de adaptação, a leitura é extremamente fácil, quase compulsiva, graças a um excelente ritmo e ao protagonista. Começa mesmo no meio da acção e quase não tem momentos mortos, mantendo as personagens  sempre em movimento. Acompanhamos essencialmente o protagonista, claro, pelo que vamos tendo conhecimento das coisas sobretudo sob o seu ponto de vista. Os curtos flashbacks fazem sentido, bem como os momentos da sua vida - muito jogging faz o rapaz! - porque facilitam a empatia, o que à partida é muito fácil: André é bonito, atlético, inteligente, determinado, mas humano, com um forte sentido de família e amizade e um coração partido.

Acho óptimo que seja um livro português, no sentido em que o protagonista é essencialmente português, vive em Lisboa, tem amigos portugueses, trabalha para o Governo português. É refrescante, quase inédito, e o Nuno Nepomuceno conseguiu fazê-lo muito bem, sem exageros nacionais e numa intriga quase bondiana, o que só por si vale pelo menos uma estrela no GR. Dei-lhe 4. Os espiões são todos bonitos e misteriosos, como num filme do James Bond (disso não gostei tanto, mas faz parte do género, vamos imaginar que os escolhem a dedo...), o vilão tem uma figura característica e há um enorme segredo e uma possível ameaça - global ou não? As personagens movem-se em altos círculos da política internacional, em espaços que não conheço, mas nos quais consegui imaginar-me com facilidade. Claro que não faço ideia dos protocolos e se estão bem retratados, mas é irrelevante para o caso, afinal isto é ficção. Não há nenhum exagero de descrição, nem nos espaços, nem na acção - as lutas, por exemplo, estão na medida certa.

A escrita é simples, directa e funciona bem. Como referi, estranhei o uso do presente, e logo a seguir esqueci-me disso. 

Consegui adivinhar bastante cedo o que se passava com André - qual era o segredo que lhe escondiam - o que não reduziu em nada o meu desejo de ler o resto, sobretudo para saber que destino lhe cabia. Estou, aliás, ansiosa por saber nos próximos livros e a torcer por ele, não só pela sua sobrevivência, mas pela sua recuperação, física e não só. E falta-me saber, afinal, como é que ele pode funcionar como... ah! Não, não! Spoiler alert!