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segunda-feira, 13 de junho de 2016

o outro silêncio

A minha vida tem demasiado ruído. Durante toda a semana nos meses de aulas tenho som à minha volta. O da gritaria de muitos miúdos nos intervalos, tanta que se ouve por toda a parte, o de muitas conversas cruzadas na sala de professores, os dos miúdos na aula, com a agitação da entrada, as perguntas, as conversas que tenho de travar, a participação deles e até, em momentos, o da minha própria voz. Tantas vezes a minha própria voz, ao explicar as coisas uma e outra vez, porque são muitos alunos, parece que me vai estourar a cabeça de dentro para fora. Em momento, julgo me me deixarei louca a mim mesma ou que me rebentarão os ouvidos e o topo do crânio... e eu não falo particularmente alto.

Há três anos uma otite deixou-me surda de ambos os ouvidos durante quase um mês, no início de um ano lectivo (não, não exactamente surda, mas com um zumbido constante e abafado). Curei-me, mas nunca fiquei boa, e agora tenho com frequência os ouvidos entupidos, basta que esteja nublado, como hoje, e um apito semi-permanente, como aquele das TVs antigas, que piora se estou cansada. O silêncio passou a ser uma miragem, porque se não há som... há esse som. 

O silêncio é por vezes uma coisa agressiva. Deixa-nos a sós connosco e obriga-nos a escutar as coisas de dentro que nem sempre queremos ouvir. Em jovem, enche-se a vida de gente, de música, de gritaria. Com o passar do tempo, incorporamos o silêncio na nossa vida, como incorporamos quem somos, uns mais do que outros. Para uns, passa a ser essencial. Para outros, continua a representar o vazio da solidão e, de certa fora, estão certos. A questão é que estar só - ou em silêncio - não tem de ser um acto de solidão, nem estar acompanhado representa sempre não sentir solidão. Não se diz que a solidão é pior, no meio de muita gente? Eu não sinto solidão quando estou só. Sinto solidão e incómodo quando estou entre gente tão diferente de mim, que podiamos ser de planetas distintos - mesmo se ruidosa. Os que são companhia e não ruído são poucos. Devem ser poucos. 

Eu perdi o meu silêncio, que é agora uma coisa preciosa e relativa. Na sua ausência, passou a corresponder a outra coisa: a ausência de vozes dirigidas a mim. A ausência de um som a que tenha de prestar atenção. A liberdade para estar só, mesmo com ruído de fundo. Um casulo de som basta-me para me sentir em silêncio, porque o meu silêncio é outro - significa apenas estar quieta dentro de mim mesma, não haver quem exija a minha atenção. O silêncio das palavras escritas. O silêncio de Glass, Einaudi, Seal, Ottis nos headphones e do martelar das teclas que me levam de onde estou para outro lado, para outro tempo, para lado nenhum. 

Preciso de um pouco disto todos os dias, como um remédio para o equilíbrio. Nem sempre acontece.  


1 comentário:

João Miranda disse...

Boas palavras, Clara. Não sei se conheces O Livro do Silêncio, de Sara Maitland. Ela fez um estudo sobre o silêncio muito interessante. Acho que podes gostar. :)