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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Daqui a nada já me arrependo e apago o post

Hoje a Cristina Carvalho, autora de Marginal e outros livros (confesso que ainda não li nada dela, está nos meus planos) colocou no face este excerto:


A arte literária é mais uma insignificância do cosmos. Quantos e quantos quilómetros de linhas já foram escritas? Quanto pensamento glorioso já oferecemos aos nossos deuses? Quantos restam? Quantos encantos e desencantos vamos sofrendo? O que é que aprendemos? O que é que valemos? Que interesse tem tudo? Tanta interrogação…
CC


A questão vem mesmo de encontro ao que com frequência me pergunto, quando levanto a hipótese de não voltar a escrever, sabendo que muito poucos o notariam, por entre os milhares de quilómetros de linhas que já foram escritos ao longos dos tempos, os quilómetros são escritos todos os dias, de qualidade variável. Eu própria já escrevi uns quantos metros... talvez quilómetros. 

No início escrevia por escrever, sem preocupação com a qualidade, com a legibilidade, com a possibilidade de um dia o que escrevo deixar de estar no escuro de um buraco negro... bom, de um ficheiro de computador, e passar a pertencer ao cosmos a que já pertencem tantos outros, melhores do que os meus ou mais divulgados. Agora é diferente, nem eu fazia ideia de como dar-me a conhecer mudaria as coisas para mim. A fraca publicação do Alma, com boas opiniões mas quase sem divulgação, um desconhecido do publico em geral, talvez me tenha roubado algum do encanto inicial. Nem lhe chamo "primeiro livro", até ter a certeza de que outros se seguirão. Neste momento vou fazendo por isso, sem vontade. 

E no fundo, o que importa isso, a não ser a mim? Eu explico. Cada livro é só mais um, um bom momento, uma pequena lição, na infinidade do universo literário, e mesmo os livros mais perenes não passam disso mesmo, e hão de todos esbater-se no tempo, como cada um de nós. Cada um de nós é quase nada. Quantos somos? Quantos já fomos? Quantos seremos? No correr do tempo, o que importa cada um de nós? O que importa o que escreve uma multidão de gente? 

Posso quando muito ambicionar a proporcionar uns bons momentos aos que me lerem, este livro ou outros. E a aprender, diz a Cristina Carvalho. Tem razão, escrever ensina. Gostei do que aprendi, a olhar para a vida e o mundo com olhos de ver, a controlá-los em pequenas parcelas, nos pequenos universos dos que me enchem as páginas, a construir humanos mais humanos, não obrigatoriamente amáveis, mas que se possam amar. Mas não sei se gosto do que vou aprendendo agora. Que a exposição rouba o prazer da escrita, quando não há relação entre esforço e sucesso? Que o desencanto é poderoso, e me faz questionar muito mais vezes do que devia.. o que é que eu valho? 

O que é que eu valho?
Tudo, no meu pequeno universo literário de um só. 
Muito pouco, no da arte literária, sendo que são pequenos os meus deuses.
Nada, no plano geral das coisas. 








5 comentários:

helena frontini disse...

Não apague. Afinal, os blogues literários não servem só para os passatempos de livros, mas também para trocarmos ideias sobre eles e sobre a escrita, a Literatura e tudo o que nos apetecer, certo?

Carla Ribeiro disse...

Já te disse que me identifico com praticamente tudo o que escreves nestes posts? Acho que já te disse isto antes, noutro post deste género, mas não faz mal repetir.

Eu, que parei de escrever há uns bons meses porque a tal pergunta do "o que valho eu" já era um grito insuportável na cabeça, e que agora tenho demasiadas histórias fechadas na alma... Venho aqui e apercebo-me de que não sou a única a sentir o tal desencanto, a impressão de que, às vezes, as coisas más já ultrapassam as coisas boas. E é reconfortante, de uma estranha forma, saber que não estou sozinha nestas impressões.

Por isso, não apagues, sim? É que, pelo menos para mim, estes teus posts valem muito a pena. :)

Olinda P. Gil © disse...

Não escrevemos só para os outros, escrevemos também para nós próprios. Porque este bichinho da escrita parece uma doença. As ideias surgem-nos, atormentam-nos, dominam-nos e nós temos de as deitar cá para fora.
Depois tudo isto entra tanto na nossa vida que se torna numa forma de viver.

Carla M. Soares disse...

Obrigada, meninas.

É verdade, Olinda. Se não fosse por isso, por escrever também para mim, talvez já tivesse parado. Tornou-se foi um exercício menos descontraído, o que é capaz de ser uma enorme parvoíce.

Patrícia disse...

Olá Carla,
Eu como leitora continuo a dizer que gosto de ler o que escreves. Sinceramente não sei como se pode ser publicitado decentemente em Portugal a não ser que se ganhe um prémio qualquer ou que já se tenha um nome sonante. Ou que se caia em graça...
Mas acho que a culpa é mais das editoras que dos escritores ou dos leitores.
Não desistas, escreve para ti e para nós.
(amanhã talvez te consiga mandar um email com a opinião do livro - tem sido complicado ler no computador mas já o acabei, só me falta passar para o papel a opinião mais ou menos bem estruturada)
bjs