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segunda-feira, 13 de maio de 2013

Tempo para escrever

O desejo de qualquer escritor é poder escrever. Cada vez mais e melhor. Ter a inspiração, evidentemente, as ideias, a capacidade de pô-las no papel (ou no ecrã) de uma forma que traga prazer a quem lê, num bom português. Tudo isto ou se tem, ou não se tem, ou se aprende ou não, ou se melhora ou não. Uns são mais teimosos, mais persistentes, outros menos, uns são mais permeáveis à crítica, outros não a aceitam, alguns são mais clarividentes quanto aos seus próprios defeitos e à qualidade dos seus textos, outros vêm em tudo o que produzem uma obra prima. Eu confesso: ainda não escrevi nenhuma, não sei se alguma vez escreverei, nem sei se a reconheceria se escrevesse.
 
Inegável é que, para escrever, é preciso... tempo para escrever. É o que invejo, coisa feia, a quem o tem. A quem vive da escrita ou de outra coisa qualquer, e pode dispender longas horas de concentração descansada num texto. Por que isto de escrever não é só escrever, como muito bem sabe quem escreve ou anda a tentar. Para um poema, podem chegar uns minutos, se o impulso está lá. Pode até ser um excelente poema. Mas sempre que há uma história a desenvolver, há muitos aspectos que antecipam e acompanham o verter das palavras para o papel.
 
Há, por exemplo, o planeamento. Não perco muito tempo com ele, por duas razões: nunca cumpro o plano, e acredito que o livro só nasce quando o escrevemos. Podemos planear uma vida inteira e nunca chegar a produzir uma história. Mas é preciso ter, pelo menos na cabeça, uma ideia, um delinear das personagens que nos servem, mesmo que depois as vamos ajustando. Para isto, é preciso tempo, não só em minutos ou horas, mas tempo útil de cabeça descansada e sossego.

Há, em muitos casos, a pesquisa. Certos livros exigem-na, é lugar comum. Recentemente dediquei-me aos de época e é um deus nos acuda. Nem me refiro ao conhecimento da época histórica em geral, as voltas e reviravoltas políticas, económicas e sociais que estão acessíveis em inúmeros livros e sites. Refiro-me aos pormenores. Um pormenor insignificante, como por exemplo que navios partiram de Portugal para os Estados Unidos em certo mês de certo ano pode levar horas, dias a descobrir. Onde se podia cear em certa cidade no início do século. Como se chamava a rua X no ano Y e que aspecto tinha. Esses detalhes que tornam "real" uma história, quando me interessam pessoas mais do que acontecimentos históricos e... enfim, as personagens se mexem e falam e comem, e dormem e se vestem!

A inevitável escrita. Longas horas de batalha perante as teclas, para trazer à vida gente que se possa amar e odiar, acontecimentos plausíveis num certo quadro histórico real, mas que sejam muito humanos, individuais, e não ilustrações de uma época, e que, idealmente, obriguem o leitor a uma leitura compulsiva. Que sejam lógicos, bem encadeados, com bom ritmo, bom equilíbrio entre acção, instrospeção, informação, diálogo e descrição. Posto assim, parece demasiado. E é. Precisa de tempo. E depois a  revisão. As revisões, uma duas, tantas quantas forem precisas até o texto apresentar uma estrutura e português decentes, e o minímo possível de gralhas. Eu não a destesto, como tanta gente, embora por vezes já nem possa com certo texto. Corto cenas, acrescento cenas, transformo discurso em diálogo, reescrevo muito. Horas e horas, longos dias a aprimorar. A afinar.

E para isto tudo o quê? Tempo, que é do que carecem todos os escritores que não o são a tempo inteiro nem têm quem ajude. Queria viver da escrita? Sim, para poder escrever mais e melhor.

3 comentários:

Olinda P. Gil © disse...

As tuas palavras expressam exactamente o que sinto: a falta de tempo, a falta de tempo de qualidade, a necessidade de pesquisa.

Há uns meses andei a pesquisar por causa de um conto passado na altura do regicídio: como era a rua x? Que transportes havia até lá? Que roupas vestir à personagens, em que pensão ele vai dormir. O q ele vai cear?

Entretanto:acho que encontrei uma solução para o primeiro conto do "Sudoeste". Vou dar "trabalhinho" ao rapaz.

Carla Pais disse...

O tempo é coisa de fugir. A mais ou a menos, nunca nos chega porque na ponta dos dedos pulsa sempre a ânsia de querer escrever mais e mais e mais e depois, quando damos por ela, não houve tempo... Todos passamos por isso! Sabes o que mais noto em mim? A diferença se escrevo de manhã, de tarde ou à noite...
Um beijinho Carla :-)

Carla M. Soares disse...

Eu tenho muita dificuldade em escrever à noite, Carla Pais, quando já estou habitualmente muito desconcentrada e cansada, por vezes até para ler. Como trabalho sempre de manhã, fico em geral reduzida às manhãs dos fins de semana. Poucas coisas me enfurecem mais do que ver-me com qualquer coisa obrigatória para fazer nesses momentos...