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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O embaraço de pedir opiniões

Já escrevo há algum tempo, quase dez anos, creio. Nesses dez anos produzi vários romances completos, uns oito, deixei dois a meio e iniciei um segundo volume de um grupo de livros cujo primeiro volume funciona como stand-alone.
 
 
Desses oito, um está publicado, sabem qual, a minha estreia. Há dois que ninguém leu: um porque o acabei agora, o outro porque acho que não é legível. Um dia experimento-o eu, e logo vejo se posso salvá-lo.  
 
E chego ao que quero dizer. Os outros seis tiveram todos leitores. Primeiro um só leitor, bastante jovem, que foi de boa vontade "vítima" dos meus esforços iniciais de fantasia: primeiro A Senhora do Rio, e mais tarde A Grande Mão, que já disponibilizei por aqui. Não me envergonho de nenhum deles, e o jovem que os leu gostou muito de ambos. Mais tarde dei a ler o que fui fazendo a outras pessoas, todas minhas conhecidas, todas com um rosto, uma voz, uma presença na minha vida.
 
E de tudo o que fui dando a ler, com muito gosto, às pessoas minhas amigas, concluo uma coisa: não sou capaz de pedir opinião. Tenho esse embaraço, não por recear que não gostem - todos os rascunhos são, à partida, textos falhados - mas por recear que pensem que pesco elogios. Tenho uma vergonha terrível disso, e mais ainda que comentem em frente de outros, que vão perguntar: "mas tu escreves?" "Hummm, umas coisinhas..." "Ehhh, sim." (isto sempre muito baixinho, não vão as pessoas pensar, "Olh'á convencida, com a mania que é escritora!")  Muitas vezes também receio que, por serem minhas amigas, algumas dessas pessoas tenham problemas em ser honestas e dizer: isto não presta, o que não ajuda. Embora eu seja a minha crítica mais dura - o que fiz precisa sempre de alterações e mais alterações e melhorias e mais melhorias - outro olhar, menos envolvido, é muitíssimo importante. É loucura acharmos que qualquer livro está prontro sem ter levado uma boa refrega de olhos alheios.
 
Os "amigos"da net, aqueles que fazemos por causa dos livros, têm quanto a isso várias vantagens:
1. não fazem parte do nosso dia a dia, portanto não têm pejo nenhum em dizer-nos o que precisamos de ouvir;
2. porque não fazem parte do nosso dia a dia, custa muito menos pedir opinião;
3. muitos estão habituados a esta coisa da opinião, e sabem o que é preciso apontar.
 
O problema de "distribuir" assim os textos (como fiz com A Grande Mão e, para duas ou três pessoas apenas, A Chama ao Vento e Ciclo) é o feedback: primeiro, ler no ecrã não é como ler em papel, custa e demora e até pode prejudicar a impressão do livro; segundo, com todos os nossos afazeres e livros já publicados  e tão bons para ler, nem sempre chegamos a estes rascunhos-que-talvez-um-dia-sejam-livros-ou-então-não...
 
 
 
 
 

6 comentários:

Patrícia disse...

oh mulher tu pede opiniões à vontade. E da parte de quem leu o "a grande mão" e o "Alma rebelde" , fica sabendo que quando quiseres uma opinião verdadeira podes pedir:)

Elphaba J. disse...

Olá Carla,

Compreendo o teu sentimento. Embora eu nunca tenha "escrito" nada, vou escrevendo pequenas coisas (em parte por causa do curso que estou a tirar mas, também, pela própria paixão que sinto pelas palavras), no entanto não tenho coragem de as mostrar a ninguém.

Mas o que eu te quero dizer é que, atendendo à opinião que fiz do teu livro publicado e da interpretação que fiz do mesmo, se quiseres que algum dia leia algo teu *acho que lhes chamam leitores Beta* estou disponível. Independentemente de alguma falha que tenha encontrado na tua personagem ou enredo gostei imenso da tua escrita. Será, portanto, um prazer.

*Sucesso*

Olinda P. Gil © disse...

Tens razão, é um problema ler no ecrã. Estou a pensar em adquirir um bichido daqueles, um e-reader. Sempre deve ser mais confortável isso no regaço que um pc, por pequeno que seja.

Destaco: "outro olhar, menos envolvido, é muitíssimo importante". È isso mesmo, nós estamos demasiado envolvidos, as pessoas que nos são mais próximas também.

Já comecei a ler o teu outro texto ;)

Iceman disse...

Olá Carla,
eu tenho seguido os teus posts mas só agora me decidi a comentar.
Penso que qualquer escritor quando escreve, o faz primeiro para ele próprio como uma espécie de catarse própria e, quanto a mim é essa a principal pretensão do livro.
Depois, escreve aquilo que gostaria de ler. Ou seja, um escritor escreve o romance que gostava de encontrar nas livrarias, aquele que o iria deixar extasiado.
Finalmente tem de ser fiel a si próprio e não ver no que está a fazer uma possível investimento ou uma fonte de receitas.
Esta última só os grandes escritores se podem dar ao luxo de o fazer mas, tirando algumas excepçoes nitidamente comerciais, poucos o fazem, pois são sempre fieis a si próprios.
Tens um autor, apenas como exemplo, que é extremamente fiel ao que pensa e vê a sua literatura. Embora eu não goste dele, reconheço-lhe qualidade e tiro-lhe o meu “chapéu”, trata-se do Lobo Antunes.
Desta forma, penso, que não te deves preocupar muito com a opinião das pessoas e sabes porquê? Porque a quem dás a ler os teus “rascunhos”, são leitores comuns sem grandes conhecimentos que lhe permitam avaliar todas as componentes da escrita, logo, viram-se apenas para a acção da história e pouco mais. Nota que há romances brilhantemente extruturados e escritos que as pessoas não apreciam e depois vemos romances comerciais e escritos às três pancadas como best-Sellers.
Na prática o que pretendia dizer é que é muito arriscado dares a ler a outras pessoas os teus livros. Arriscas a que as pessoas digam bem apenas por simpatia ou então que façam critica negativa porque não gostaram do enredo. Eu, se um dia escrever alguma coisa, faço-o para mim e, se achar que tem qualidade, entrego a alguém que de facto perceba de literatura.
Porém há algo que não podemos esquecer. Nenhum romance agrada a todos.

Carla M. Soares disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carla M. Soares disse...

Obrigada, meninas, não hesito se se proporcionar.

Iceman, li com muita atenção o teu comentário, que levanta algumas questões muito pertinentes. Obrigada.
Não escrevo a pensar nas opiniões, menos ainda a pensar no lucro, que realmente é para poucos. Escrevo porque sim. Por prazer. Quanto a escrever o que gostaria de ler, bom, tenho que gostar de ler o que escrevo, espero um dia extasiar-me com um livro meu. Extasiao-me com o acto da escrita, ainda não aconteceu com o produto.
Quanto aos riscos de pedir opinião, concordo contigo até certo ponto - mas também acho que é importante conhecer a opinião do leitor 'comum'., não especializado. A maior parte dos leitores são comuns. Mas claro que uma opinião não é mais do que isso, não vai condicionar o meu trabalho nem fazer-me desistir de um texto em que confie. E asseuro-te que o destino final dos meus textos é o mesmo - ser enviado para a Porto Editora, onde alguém especializado dirá de sua justiça.