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sábado, 19 de janeiro de 2013

E Depois do Adeus

Começou hoje na RTP1 esta série sobre uma época difícil da História de Portugal, na linha do Conta-me como Foi.
 
 
Embora um ou outro diálogo me tenha parecido um pouco forçado, é cedo para saber se tem qualidade. O que é certo é que já me deixou com o coração pequeno. É que revi os meus pais naquele casal, mãe nascida em Angola, pai português há muito por lá, empurrados para fora da sua vida e do seu país, forçados a encaixotar à pressa alguns haveres e a fugir com meia dúzia de malas, sem dinheiro nem planos, sem saber o que fazer. Exilados em casa de familiares, sem solução à vista, sem poder recuperar o que era seu, sem trabalho, rotulados todos de "retornados" embora, como diz a personagem, retornar implique regressar, e não se pode regressar a um lugar onde nunca se esteve.
 
Já sei que vou acompanhar. e que vai custar-me.

4 comentários:

papaleguas disse...

Há umn saudosismo em mim que me impele para este tipo de produtos. Em 1975 tinha 10 anos, mas senti tudo aquilo como se fosse um adulto. talvez porque todos os meus irmãos já o eram. É como se tivesse vivido aquela época através deles. Obrigado por chamares a minha atenção para isto. Nos dias que correm simplesmente esqueco-me que existe televisão nacional.

teresa dias disse...

Olá Carla,
Fui retornada (ou sou?) e recuso-me a ver a série. Chega!
Bjs.

Carla M. Soares disse...

Pois é. Teresa. Eu é que era muito pequena e nunca se conversou muito sobre isso em casa. Há coisa que não sei como sucederam...

Cristina Cardoso disse...

Cristina Cardoso

Olá Carla

Nasci na bela Ilha de Moçambique e vivi parte da minha adolescência na bela cidade de L.M.
E desde Agosto de 1974 encontro-me a viver na bela cidade de Lisboa.
Eternamente, quer queiram ou não, a minha terra será Moçambique e a minha Pátria Portugal, tal como me foi ensinado na escola primária, na cidade de L.M..Da minha terra e do seu povo guardo recordações maravilhosas. Considero que foi um privilégio ter nascido no continente africano, porque é mágico, misterioso, inesquecível e possui riqueza natural suficiente para tornar felizes todos aqueles que o sabem Amar. Em geral, os portugueses que nasceram e viveram em África foram muito felizes. Mas tal felicidade não foi aceite pelos continenais devido à guerra. Pelo que, o êxodo dos portugueses dos territóros ultamarinos foi visto pelos continentais, como um castigo. E devido ao grande indíce de analfabetismo apelidaram de retornados, aqueles que nunca tinham, sequer vivido na metropole. Por tal motivo, não sofro qualquer trauma. Acho sinceramente, que devem ser perdoados, porque não sabiam o que diziam, nem o que estavam a perder. A questão da descolonização só agora começa a ser falada abertamente, porque as gerações subsequentes e mais esclarecidas pretendem, agora, apurar a verdade dos factos. Na minha familia somente eu e o meu irmão nascemos em África. O meu pai viveu em Moçambique, durante vinte anos e tinha as suas economias, em escudos de Mocambique, que aqui tinham pouco valor. Em consequência, o meu pai levantou todas as economias que tinha no Banco e converteu em ouro, comprando peças nas várias ourivesarias de L.M. e vendendo posteriormente, em Lisboa, para pagamento das despesas correntes, durante o seu período de desemprego. Nada recebemos do IARN. Vendeu o carro e as mobilias. Entregou o apartamento ao senhorio. Chamou o nosso leal amigo moçambicano, Francisco e entregou-lhe, a guarda de uma quintinha, situada perto do aeroporto de L.M., que tinha sido adquirida, a uma familia austriaca em 1950 e na qual o nossos amigo Francisco vivia com a sua família composta por três filhos e duas mulheres. Em 27 de Julho de 1974 embarcámos no paquete Infante D. Henrique rumo a Lisboa. Como não tinhamos familiares em L.M. e os amigos já tinha saído da cidade, recordo o nosso leal amigo Francisco, a dizer adeus e o navio a afastar-se lentamente do cais, rumo a Lisboa. O navio navegou suavemente junto à baía Espirito Santo, deixando lentamente para trás, a bela cidade de L.M. Passámos perto da Ilha da Inhaca, onde passávamos férias e entrámos em alto mar. Durante vários dias só viamos céu e mar. O navio somente fez escala em Luanda. Recordo que chegámos ao anoitecer e que a bela cidade estava toda iluminada. A minha adaptação à cidade de Lisboa foi fácil, porque frequentei um liceu, no qual tinha muitas colegas filhas de militares e de outros compatriotas, pelo que nunca senti o estigma de ser retornada. Durante os anos que frequentei uma faculdade de Lisboa tinha colegas de todas as terras e estávamos todos muito atentos à entrada na comunidade europeia. Tive alguns problemas, com os continentais, numa pequena cidade situada nos arredores de Lisboa, onde habitavam os meus avós. Tal situação verificou-se porque os meus avós eram abastados e os habitantes pessoas mal esclarecidas, devido à sua ignorância. Convém recordar que a maior parte dos continentais acreditavam no que lhes contavam. Muitos dos que viviam por cá, nem sabia onde fica África. E mesmos os mais instruídos, não tinham consciência do seu desenvolvimento, porque nunca lá tinham estado. Por outro lado, os jovens que iam mobilizados somente conheciam, infelizmente, o horror da guerra. Na verdade, acho que nada é mais triste do que viver em guerra. Por tal motivo os continentais tinham ódio aos portugues que viviam em territórios ultramarimos. Ainda hoje, há continentais que julgam que os jovens que viviam em territórios ultramarinos não eram mobilizados, para a guerra. Lamentávelmente ainda existem pessoas mal esclarecidas, apesar de possuirem formação universitária.