Páginas

domingo, 9 de dezembro de 2012

Vulcão

Pronto, ando numa de experimentar e fazer pequenos textos. Perde o blogue em interesse, ganho eu. Mais um.

Ficou sentado no alto da cratera, olhando para as labaredas que ainda lhe lambiam os dedos. A sua dança, sensual como a de uma bailarina do ventre, ainda o fascinava depois de tantos milénios. Flectiu os dedos de uma mão, depois abriu-os de repente e a chama saltou, leve, viva. Viva. Destrutiva. Deixou que os olhos escapassem das pontas dos dedos para a encosta do vulcão, pela primeira vez desde que a bola de fogo branco subira sobre o horizonte, tremeluzente e indecisa por trás da cinza. Atrás, o vulcão ainda rugia, fera saciada recolhendo devagar ao seu covil. Toda a noite ele caçara, com uma deliberação que era sua, do seu mestre, devorando tudo no seu caminho com uma fome de séculos. Agora, o que os seus olhos viam eram restos. Restos de lava incandescente, restos de vida.
Havia ali uma floresta, que descia a encosta em verdes violentos. Ao fundo da ravina abria-se em campos cultivados, e entre eles aninhava-se uma aldeia, umas dezenas de casas de madeira e colmo. Homens e mulheres trabalhavam, amavam, crianças brincavam e viviam e morriam, ano após ano, geração atrás de geração, diferentes nas cores e formas, e no entanto iguais na sua alma. Agora, sob um céu negro de fuligem e chumbo, o manto laranja e negro do vulcão cobria tudo, as suas servas saltando dele, sobre ele, com ele, ardentes, crescendo livremente, correndo sobre as coisas. Árvores tinham cabelos de fogo. Outras eram esquelos ossudos. O casario transformara-se em poucos instantes numa sombra escura e descarnada, sob a lava que descera veloz, e a cinza que ainda dançava no ar. Não se via ninguém, mas ele adivinhava as estátuas abraçadas nas suas camas, contidas para sempre nas suas casas. Para além da aldeia, a linha da costa, e o mar que rolava e se erguia, um espelho revolto e obscurecido da sua própria raiva. Sorriu. O seu irmão esquecia-se nessa manhã das suas próprias fúrias vingativas, para apontar-lhe um dedo de sal. Pouco importava. Estava feito. Estava feito e pesava-lhe.  
Era seu por direito, criar e destruir na base do vulcão. Tantos anos o fizera, e os homens tinham sempre reconhecido o seu poder com sacrifícos apaixonados e o terror constante dos seus mais infímos suspiros. Não apreciava a carne humana com que o gratificavam, mas devorava-a com o prazer de saber porque lha ofereciam, enfeitada com flores e pavor. E era misericordioso, era rápido. E generoso, segurava os seus servos e derramava fertilidade pelas encostas. Mas os homens que o amavam tinham mudado. Tinham vindo outros, de outros lugares, com engenhocas e muitas palavras, para convencer as gentes que era suas, suas, de que podiam prever os seus gestos, reconhecer os sinais das suas fúrias. E os seus tinham acreditado no que os olhos não viam, e deixado de subir a encosta em procissão, e deixado de gritar para os céus os seus cânticos. Principalmente, tinham deixado de trocar por vida a vida miserável das suas virgens.  Já não o respeitavam.
As labaredas arderam-lhe nas mãos com a intensidade da sua ira. Nem um humano. Nenhum. Não mais se ouviriam cânticos, nem homens trabalhando a terra, nem mulheres dando à luz. Com mãos de fogo esfregou o rosto, limpou os olhos, bateu no peito que lhe doía. Contemplou a sua ilha vazia e negra e ergueu-se. Soltou um urro que fez tombar rochas na montanha, reacendeu o coração das suas labaredas mais adiante. Soltou a fúria e a dor e preparou-se para a solidão. Porque um dia viriam outros homens para ocupar a sua ilha, mas ele sabia. Trariam outras maquinetas e a presunção de saber quem ele era, e mais nenhum lhe cantaria canções e lhe faria oferendas. E ele teria que mostrar-lhes a sua alma indomável, guardar a sua liberdade. Pouco importava. A solidão servia-lhe melhor do que a companhia dos homens arrogantes.
Suspirou, alimentando pela última vez as chamas até fim da encosta, e lançou-se, de cabeça, para dentro do vulcão que era a sua casa. Dormiria. Dormiria até que viessem.

1 comentário:

Olinda P. Gil © disse...

Não acho que o blog perca o que for com estes textos maravilhosos