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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Uma coisa que acontece

a quem escreve - ou pelo menos acontece-me a mim - é estar a ver um filme ou a ler um livro e, em vez de simplesmente desfrutar do prazer do que me é oferecido, estou a 'desmanchar' a intriga, estou a analisar as personagens, estou a descobrir as ligações e, com frequência, estou a prever o que vai acontecer. Ou o que é previsível que aconteça.
 
 
Acontece principalmente com filmes, mais curtos e imediatos, sem a mediação das palavras e de todas as pequenas reflexões e pormenores que os livros permitem; nestes, se o trabalho for bom, por vezes distraio-me. Nos filmes, acontece por vezes dizer «Ó, não se está mesmo a ver o que vai ser?», a coisa dá-se, e o marido pergunta, desconfiado, «Mas tu já viste isto?» Agora já não pergunta, diz-me só para estar calada e não estragar. Adoro quando, mais adiante, uma reviravolta qualquer me surpreende. De vez em quando acontece. Outras vezes é tudo tão louco que qualquer coisa pode acontecer.
 
Mas pergunto-me muitas vezes se esta história de 'montar' histórias e criar pessoas com presente, passado e futuro me estraga o prazer doutras histórias ou se, simplesmente, me faz mais exigente. A mim e aos outros que escrevem, e aos que leem muito.
 
Hummm, não sou muito exigente, tenho uma montanha de guilty pleasures inconsequentes. E continuo a gostar de ler e ver filmes de (quase) todos os tipos. Meh.

2 comentários:

Ana C. Nunes disse...

Acredita Carla, não és a única. Eu faço exactamente a mesma coisa. A minha família enerva-se comigo porque eu estou sempre a dizer "Oh, já sei no que isto vai dar." e coisas parecidas.
Mas acontece-me exactamente o mesmo com os livros.
Acho que faz parte de ser escritor e de sentir a necessidade de desconstruir e analisar tudo o que constrói uma boa ou má história.
Mas já me queixei várias vezes que isso me impede, por vezes, de desfrutar simplesmente de um filme/livro, sem andar para ali a tentar montar/desmontar o puzzle.

Olinda P. Gil © disse...

Torna-nos exigentes.
O montar/desmontar é também outro prazer ;). Uma opção é ver filmes cheia de sono: ou adormeço ou não desmonto nada.