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domingo, 18 de novembro de 2012

Eva - parte 2

Como ninguém se queixou, mas também ninguém pediu mais, mato já a coisa.
Aqui está a parte 2, para maiores de 18... vá, como estamos em 2012, de 16.

***
 
Olhou-os, um por um, longamente. Cada um deles se deixou olhar, quietos como pássaros sob o olhar da serpente. Ela sibilava nas suas almas, e eles sorriam. Conhecia-os todos, e aos seus sonhos e desejos, nunca um diferente do outro, porque este queria uma boa colheita e uma casa quente, e o outro queria conhecer o mundo, e o terceiro desejava uma mulher de olhos verdes, e outro ainda queria apenas existir, mas todos a queriam a ela, uma vez na vida, a primeira e derradeira. Porque ela era tudo, e eles sabiam, e escondia nela todos os segredos, e depois dela não havia nada.
Escolheu um de entre eles com  ombros fortes e olhos brilhantes. Ergueu a mão e ele tomou-a. Os outros calaram o seu desapontamento e baixaram as cabeças. As mulheres espreitaram sobre o ombro para saber quem era. Uma gritou, um lamento longo, e por um instante o homem hesitou. A terra debaixo dos pés estremeceu, rolou, derrubou uma mãe com o filho no colo, uma rapariga de cabelos de ouro que se erguera, um ancião. Fez-se silêncio. Era este, este era o homem certo. Cerrou a mão em torno dos seus dedos, uma prisão inescapável. Ele suspirou, e aproximou-se.
Ficou quieto em frente dela. Olhou o seu corpo frágil, o seu cabelo para sempre inquieto, o verde baço dos olhos. Aspirou o perfume vago a maçã. O desejo subiu-lhe pelos pés descalços que tocavam o solo, empinou-lhe o membro, fê-lo suar, estremecer. Os dedos fremeram. Flectiu-os num punho apertado. Não devia tocar-lhe, ainda não. Era assim a regra. Ali mesmo onde estavam ela o desnudou. Devagar, como devia, e quando acabou cada homem suava e vibrava e se agitava no seu lugar. Deslizou um dedo pelo seu peito nú, pelo ventre duro, e todos os homens se arrepiaram. Tomou o membro na sua mão nodosa e um gemido colectivo fez encolher as mulheres. Fez chorar as mulheres.
Deitou devagar o homem no chão lamacento. Cobriu o corpo dele com o seu, e os homens ofegaram. Abriu as pernas fortes como troncos sobre o homem e tomou-o dentro dela. Cada homem sentiu o prazer de deslizar para dentro desse calor eterno. Mãos calosas do trabalho rodearam membros quentes e imitaram o ritmo que os olhos seguiam, que se propagavam pelas veias, depressa, devagar, mais depressa, brutal, agonizantemente lento e longo e húmido.
Atrás deles as mulheres chorosas tinham-se voltado para ver. E viram, por entre lágrimas e revoluções de desejo nos ventres. A que ondulava sobre o escolhido florescia. O seu corpo magro rejuvenescia e enchia-se e tornava-se forte. Os cabelos ondulavam à brisa inexistente, brilhantes e rosados como as pétalas da macieira. E o perfume. O perfume da maçã preenchia o espaço, forte, espesso, sufocante. Carregava com ele desejos de cama e promessas de ventres cheios e despensas fartas. As mulheres soltaram os filhos, que fugiram para longe, assustados, e abraçaram-se, as almas consoladas, os corpos ardentes.
Sobre o homem Eva ondulava agora com violência. E o homem gritava, e gritavam todos os homens no estertor de um prazer prolongado. Um prazer invejoso, porque as suas mãos sobre os sexos não eram macias nem cheiravam a maçã, como a mulher que devorava o escolhido. Ele movia agora as mãos incessantemente sobre os seios fartos, sobre as ancas vastas, sobre as coxas duras, sobre as nádegas, recolhia e oferecia prazer nas pontas dos dedos. O ar vibrava desse prazer colectivo, e os homens lembraram-se das suas mulheres e procuraram as suas mulheres e enterraram-se nas suas mulheres, noutras mulheres, e elas deixaram-se querer e quiseram e gozaram o prazer de todos os homens.
E de repente o homem sob Eva urrou para os céus, e Eva tremeu sobre ele, e todas as mulheres tremeram sob e sobre os homens, e todos os homens urraram para dentro das suas bocas ou para o ar ou para lado nenhum. E tudo ficou quieto de repente, gasto, saciado, homens e mulheres e o chão de terra e a mulher árvore.
Levantou-se muitos minutos depois. Levantaram-se todos, uns envergonhados, outros mais vivos do que nunca. E atreveram-se a medo, a fitá-la, sabendo o que veriam. A mulher árvore com o corpo forte e flores por cabelo sorria-lhes, os dentes afiados tintos de sangue escarlate, que lhe desenhava macabros caminhos pelo queixo, pela garganta, pelos seios, até ao sexo.
“Obrigada” sibilou, serpente e vento entre folhas numa só voz“O coração deste homem era bom. Agradeçam-lhe. Este ano será fértil.”
Desapareceu na orla da floresta que era a sua casa.
Os homens da aldeia avançaram em passos hesitantes, cansados, com a alma pesada e exultante e saudosa e revoltada ao mesmo tempo. Não puderam olhar para o peito rasgado e vazio do companheiro. Com mãos reverentes levantaram o seu corpo. Com mãos reventes o colocaram sobre a pilha que ele próprio ajudara a montar.
Pegaram-lhe fogo.

1 comentário:

Olinda P. Gil © disse...

Só não pedi mais porque não vim cá ler antes...

Apreciei o erotismo na perpectiva feminina, de domínio do másculo, assim como da articulação do fantástico.

Escrever textos mais pequenos também é uma questão de treino: e andas a treinar bem ;)