Este é o terceiro livro que leio do autor - os anteriores foram A Tábua de Flandres e O Clube Dumas - e não houve nenhum de que não tivesse gostado. O meu favorito continua a ser o primeiro, mas este cola-se-lhe com facilidade aos calcanhares.
Neste Tango, o autor alterna o presente das peersonagens com épocas do seu passado para contar uma história de amor. Não é uma história de amor bonita, porque as personagens também não o são... isto é, são-no por fora, e muito, para além de refinadas e inteligentes, mas aquilo de que se ocupam e os jogos que fazem desfeiam-nos interiormente. Max, o protagonista, é um belo dançarino mundano, gigolo e ladrão, que se recriou a partir de uma certa elegância natural e "apagou" um passado miserável. Do passado de Mecha Inzuza nada se sabe, nem importa porque não se pressente nele nenhuma dificuldade particular, é uma mulher lindíssima da alta sociedade espanhola, no início da narrativa casada com um famoso compositor, Armand de Troyes.
Conhecem-se a bordo de um transatlântico, desenvolvem um relacionamento porque Armand quer compor um tango especial, autêntico, e Max, dadas as suas origens, conhece os lugares na cidade de Buenos Aires (creio, falha-me aqui um pouco a memória) onde ele pode ouvi-lo e vê-lo. Este tango "da velha guarda" é mais brusco, mais sensual, mais "sujo" do que o seu sucedâneo de salão, e é isso mesmo que este livro é - uma espretadela aos bastidores da artificialidade que estas personagens encarnam.Há algo de crú, de brutal, sob a sua pele, que os atrai para este tipo de tango e para os jogos em que se envolvem - físicos, sexuais, mas também mentais e emocionais. Há um assomo de história de amor, mas não há nela beleza ou inocência ou sequer o reconhecimento do amor. Sentimos com frequência uma espécie de azedume e nunca temos a ilusão de que venha a concretizar-se para além do plano físico - ou seja, nunca ultrapassará o momento, porque Max, fiel a si próprio, escolherá sempre a sobrevivência.
Os ambientes são luxuosos, mas deixam pressentir a cruza e fisicalidade, e uma certa dualidade nas interações e nas personagens - como se se escondesse sob o luxo um modo quase obsceno de existir, em que tudo é permitido e quase tudo aceite, desde que não exibido. É assim na sexualidade - com Mecha e Armand, por exemplo - e é assim nos relacionamento sociais.
Foi muito interessante a colocação temporal dos dois momentos do passado nos anos que antecederam as duas guerras, quando habitualmente se procura o impacto da guerra em si para fazer florescer a acção. Neste caso, sente-se o fervilhar de acontecimentos que as antecipam - sobretudo a segunda - com os movimentos de espiões e outras figuras com quem Max acaba por envolver-se, sem o desejar. Há referências ao franquismo, ao fascismo de Mussolini. com a sua associação a Hitler, mais tarde ao comunismo da guerra fria... que seriam confusas, sem o conhecimento prévio das posições de cada país na guerra e depois dela. O vislumbre que temos dos jogos de bastidor é o mesmo que é oferecido a Max - e pelo meio surge Mecha Inzunza e outro tipo de jogos, sensuais, mentais e do coração.
Não é um livro doce nem limpo, nem o fim é uma porta fechada, mas está muito bem escrito e é realmente interessante.

Olá Carla,
ResponderEliminarNunca li nada deste escritor mas tenho uma enorme curiosidade. Não sei por qual livro começar, o que me aconselhas?
Beijinhos e boas leituras.
Eu gostei muito do A Tabua de Flandres, que tem um mistério em torno de um quadro (fala menso de xadrês, de que não entendo nada, ehehe, mas não se torna complexo).
ResponderEliminarO Clube de Dumas tem também um mistério, desta vez com o livro Os Três Mosqueteiros, mas achei mais confuso.
Espreita as opiniões destes dois nos links.
Há quem diga que Assédio é fantástico, mas ainda não li.
Obrigada Carla pelas sugestões.
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