são gargalhadas de água
em telhado plúmbeo
podia ser outro dia
de apenas tormenta
mas ei-las
um riso muito vivo
riso de andorinhas
riso alegre de chuva
ou de meninas ao vento
sexta-feira, 5 de maio de 2017
segunda-feira, 1 de maio de 2017
limpeza de primavera
pôr ladrilhos novos
mudar as sanitas
podar o único arbusto
que cresce num canteiro
pintar paredes
sacudir tapetes
deitar fora as tralhas
e as mãos com que escrevia
fechar a porta a ontem
chamar a camioneta
para levar a mesa velha
repleta de papéis
abrir a janela
para deixar voar o pássaro
da esperança
depurar o espaço
de palavras
recomeçar a vida
com ar para respirar
mudar as sanitas
podar o único arbusto
que cresce num canteiro
pintar paredes
sacudir tapetes
deitar fora as tralhas
e as mãos com que escrevia
fechar a porta a ontem
chamar a camioneta
para levar a mesa velha
repleta de papéis
abrir a janela
para deixar voar o pássaro
da esperança
depurar o espaço
de palavras
recomeçar a vida
com ar para respirar
domingo, 30 de abril de 2017
O Dia dos Prodígios - Lídia Jorge
Há muito tempo que tinha este livro na estante e na lista informalísima e inconstante de livros que não podia deixar de ler um dia. Até já lhe tinha pegado algumas vezes, sem lhe dar início, mas, por uma ou outra razão, acabava por escolher outras leituras. Não conhecia a escrita de Lídia Jorge e parecia-me essencial conhecê-la.
Desta vez, foi pega de caras. Ou de cernelha, talvez, porque comecei indecisa, e li as primeiras páginas indecisa. Não sou apaixonada pela escrita rebuscada que modela a pontuação à sua vontade, colocando pontos finais a meio das frases, para transformar uma frase em duas, três, quatro, ou que utiliza metáforas sobre metáforas ou expressões que forçam uma certa entoação poética (a "cintura dos joelhos"), e todas essas coisas acontecem neste livro. Não foi o primeiro que li com estas características, mas não me faz apreciá-las mais.
Por isso - ou apesar disso - este foi um livro que primeiro estranhei e depois deixei entranhar-se. O livro cosntitui uma curiosa crónica da vida rural nos últimos anos da ditadura (foi curioso chegar ao 25 de Abril no livro mais ou menos a 25 de Abril), em que se sentem bem os efeitos isoladores do êxodo e emigração, e está imbuído de sentimento humano, no que tem de melhor e pior, e de um certo realismo mágico - ou crendice popular - feito de prodígios, adivinhações, sonhos e memórias. A forma diluiu-se no conteúdo e acabou por dar-lhe força, sobretudo ao utilizar as expressões e modos de falar populares, e a leitura acabou por ser um estranho prazer. Acabei por aperceber-me de que já lera uma cena, da agressão aos cães da aldeia, que é para mim horrenda. Foi a única que, sabendo o que me esperava, passei adiante.
Não estou certa de ter ficado totalmente rendida a Lídia Jorge, apesar de ter gostado particularmente do seu desenho das personagens, mas fiquei decerto convencida a repetir a autora.
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Tertúlia no Museu de Ovar
Rumei a norte esta sexta feira, para uma tertúlia literária no Museu de Ovar, a propósito do lançamento de O Ano da Dançarina. Sendo o meu primeiro encontro deste tipo, desloquei-me com satisfação, mas cheia de (pequenos) receios. Não temia não saber conversar ou não ser capaz de corresponder, mas receava muito que um convite para vir ouvir e conversar com uma escritora quase desconhecida não fosse atraente para ninguém. Ainda há pouco li uma publicação de uma escritora best-seller americana que nunca aceita eventos a solo, sejam autógrafos ou encontros ou palestras, por recear o constrangimento de enfrentar sozinha o vazio de uma sala sem leitores.
Fui recebida, para jantar antes da tertúlia, pelo Carlos Nuno Oliveira, dinamizador do À Palavra com... e pelo Manuel Cleto, director deste museu, com uma simpatia inagualável, e tivemos oportunidade, durante o excelente jantar, para falar sobre estes encontros, sobre as alegrias e dificuldades deste museu, que é particular, e sobre o seu maravilhoso espólio. Houve tempo também - atrasando um pouco o início da tertúlia, é verdade - para uma visita guiada pelo Manuel ao Museu, que é na verdade uma casa particular no centro da cidade. Saramago disse certa vez acerca deste espaço com mais de 50 anos que é menos um museu e mais um "guarda-tudo" e pareceu-me que tinha acertado em cheio, porque vi fotografias internacionais e uma coleção de apiculturas, bonecas do mundo e louça portuguesa, quadros de grande modernidade e um bordado típico feito com cabelo humano... E vi uma cozinha com um tecto originalíssimo. O espólio é enorme e valioso, mas não está exposto em permanência, vai rodando e sendo emprestado.
Na tertúlia não eramos uma sala cheia, mas tão pouco estava vazia como eu temia, e a conversa acabou por prolongar-se por mais de hora e meia. Falamos sobre o Dançarina, sobre História e sobre a história - recusei-me a revelar a razão do título e o aparente desafazamento entre título e imagem na capa - falamos sobre as personagens e sobre a sua criação, sobre pesquisa, sobre o meu percurso e sobre o livro anterior, O Cavalheiro Inglês, sobre O Chama ao Vento, sobre de onde nascem as histórias, sobre os constrangimentos e vantagens da escrita de romance de época. As conversas vão fluindo, não me lembro já de tudo o que foi sendo dito.
A certa altura, o Carlos Nuno Oliveira quase me atirou da cadeira abaixo, de surpresa, ao mencionar o blogue e ler dois pequenos poemas tirados daqui. Não sei o que é um poeta, não sei o que é um bom ou mau poema, só sei daquilo que gosto. Gosto de escrever poemas e gostei de os ouvir, o que foi inesperado. Admiti que, talvez por escrever um género muito espartilhado pela necessidade de não deformar as verdades, mesmo sendo ficção, me sabe muito bem o imediatismo e a liberdade de escrever um poema. Se são bons ou maus... importa?
Refiro ainda a simpatia das intervenções dos interlocutores e um ou dois episódios muitíssimo engraçados, com a intervenção... assertiva e... inesperada de uma figura tão curiosa que daria um livro. Julguei vê-lo a dormir, mas afinal ouviu tudo e teve oportunidade para fazer ums espécie de sumário do que tinhamos dito (dentro do género "parece que ouvi aí falar sobre a gripe e também qualquer coisa sobre a guerra") e de, por exemplo, querer saber como "a ilustre senhora dona escritora", sendo mulher, imaginava as personagens masculinas, porque os homens tinham coisas de homem, segundo percebi, e daí partiu para uma diatribe sobre conhecer pessoas, de cujos detalhes infelizmente não me lembro. Não cheguei foi a responder, e ainda bem, não saberia bem como... Creio, mas não juro, que a certa altura este participante quis pôr-me a escrever com uma pena, em vez do computador, como fizeram os grandes escritores... antes da invenção desta máquina utílissima.
No final, com o Porto de Honra, tive oportunidade de dar dois dedinhos de conversa com alguns dos participantes, incluindo um leitor que eu não esperava de todo que se interessasse por ler o livro ou ouvir-me. Confessou-me ter detestado a sinopse (pela qual sou parcialmente responsável, claro, uma vez que o livro é meu), e nisso não me surpreendeu. O tal assistente de personalidade curiosa também ficou para conversar e percebi que, apesar de ter recursos muito limitados e um certo desfazamento da realidade, é uma pessoa culta, interessada, que mantém a sua pequena biblioteca... e que gere a sua liberdade privada de forma muito original!
Deixei Ovar encantada com a simpatia e com a disponibilidade de quem cede o seu tempo, de forma graciosa, para gerir esta casa com poucos apoios e recursos e para fomentar actividades culturais. E pude provar um delicioso pão-de-ló de Ovar! Pela minha parte, espero não ter despontado.
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quinta-feira, 27 de abril de 2017
cala-te
Andas com palavras dentro da boca
como carvões em brasa
tantas línguas de fogo inútil
melhor serias quieto
que se o amor fosse o umbigo do mundo
era isto o que dirias sobre ele
...
porque há serenidade e silêncio
e nada se move no olho da tormenta
como carvões em brasa
tantas línguas de fogo inútil
melhor serias quieto
que se o amor fosse o umbigo do mundo
era isto o que dirias sobre ele
...
porque há serenidade e silêncio
e nada se move no olho da tormenta
quarta-feira, 26 de abril de 2017
coisa breve
Não haver nada
depois
crescer apenas no poema
coisa breve
estar no espaço
vazio
com a leveza
da palavra como
orvalho
teia
asa
brisa
água
momento
tudo suspenso
depois
crescer apenas no poema
coisa breve
estar no espaço
vazio
com a leveza
da palavra como
orvalho
teia
asa
brisa
água
momento
tudo suspenso
terça-feira, 25 de abril de 2017
Liberdade e o aniversário

Há cinco anos também era dia de celebrar a liberdade e muitos de nós não sabíamos o que era viver sem ela. Continuamos, felizmente, sem saber, apesar do que o mundo nos tem enfiado pelos olhos e pela vida dentro.
Chovia a cântaros e havia Feira do Livro, que nesse e noutros anos foi mais cedo.
Na tarde de 25 de Abril de 2012, fui à FLL apresentar ao (meu pequeno) mundo o primeiro livro que não ficou reservado à gaveta e aos amigos. Chuva só combina com livros quando há um tecto e um sofá, mas veio muita gente e outra parou a ver o que faziam tantos doidos numa chuvada daquelas. Foi necessário reacomodar quem me veio acompanhar, para que o resultado não fosse uma pneumonia colectiva a acompanhar o autógrafo. Mas foi tudo bonito, o dia, o que se disse, os autógrafos, os abraços. Até a ansiedade foi bonita.
Hoje, passados cinco anos, não sei bem se aceite este como o primeiro dos meus objectos-públicos-imperfeitos, ou se deseje ardentemente pôr-lhe as mãos, porque, 5 anos volvidos, o tanto que lhe fazia! Acho que é assim um escritor, por muito contente que esteja, permanece insatisfeito.
Seja assim também quem ama a liberdade. E a igualdade. Este ano, no mundo amnésico em que de repente vivemos, parecem-me ambas muito mais importantes.
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quinta-feira, 20 de abril de 2017
a ladainha da diligente
Não querer saber.
Alimentar a distância.
Dizer nada.
Não perguntar.
Perguntar é ridículo.
Anular expectativas.
E ilusões.
Não me deixar levar.
Estar calada.
Dizer nada.
Não perguntar.
Mas e a demora?
É que demora!
Não.
Caladinha.
Ser mais rija.
É mesmo preciso ser rija.
É preciso desligar.
Desligar.
Desligar.
Será o que for, a minha parte está feita.
Fiz tudo. Fiz bem feito.
Fiz bem feito?
E lá estão as dúvidas.
Um desfile de dúvidas.
Dizer nada.
Não perguntar.
Não faço mais isto.
Faço.
Não sei não fazer.
Não ter condescendência para comigo.
Repugna-me a condescendência.
O que for será.
E recomeça.
Alimentar a distância.
Dizer nada.
Não perguntar.
Perguntar é ridículo.
Anular expectativas.
E ilusões.
Não me deixar levar.
Estar calada.
Dizer nada.
Não perguntar.
Mas e a demora?
É que demora!
Não.
Caladinha.
Ser mais rija.
É mesmo preciso ser rija.
É preciso desligar.
Desligar.
Desligar.
Será o que for, a minha parte está feita.
Fiz tudo. Fiz bem feito.
Fiz bem feito?
E lá estão as dúvidas.
Um desfile de dúvidas.
Dizer nada.
Não perguntar.
Não faço mais isto.
Faço.
Não sei não fazer.
Não ter condescendência para comigo.
Repugna-me a condescendência.
O que for será.
E recomeça.
terça-feira, 18 de abril de 2017
alta velocidade
atrás de mim ficou apenas fumo
dedos dos pés marcados no asfalto
trago os olhos postos no horizonte
trago os olhos postos no horizonte
segunda-feira, 17 de abril de 2017
A Mulher é uma Ilha - Audur Ava Ólafsdóttir
Este livro constituiu a minha estreia com a autora islandesa Audur Ava Ólafsdóttir, cujo primeiro nome se escreve com uma letra que, por muitas voltas que desse ao teclado e aos símbolos, não consegui descobrir. É autora de um outro romance também publicado pela Marcador, cujo nome me seduz, mas que ainda não li: Rosa Candida.
A leitura de A Mulher é uma Ilha foi iniciada, pois, sem nenhuma ideia do que me esperava, menos ainda da estranheza deste enredo e desta escrita, simples e todavia curiosa, o que significa que fui apanhada de surpresa pelo livro e mais ainda pela rapidez com que o li, porque não haveria, à partida, nada de concreto a agarrar-me a ele. Acompanhamos uma mulher, a narradora na primeira pessoa, num momento de separação e mudança, em que, como aponta a sinopse, ela é deixada pelo amante, no mesmo dia pelo marido, fica encarregue do filho mudo da melhor amiga hospitalizada, ganha duas lotarias - numa, uma casa pré-fabricada, noutra, bastante dinheiro - e decide partir coma criança pela Islândia, numa viagem que parece não ter destino, mas que acaba por ter um destino, e talvez um objectivo, muito concreto. Estamos em Novembro quando viaja, e os dias são curtíssimos, as noites muito longas (estamos quase no Polo Norte) e a temperatura deveria ter baixado dos 0º, com o respectivo gelo e neve, mas mantém-se nuns quentinhos 10 a 12º, com chuvas constantes, inundações e derrocadas. O clima é quase mais uma personagem, o que, sendo tão extremo e condicionante, se compreende.
Poderá tratar-se de uma característica da escrita nórdica, ou ser característica da autora (mal conheço uma ou outra), mas há um toque de surreal no que lemos. Tudo é comum e rotineiro, e no entanto desfazado, inconsistente, a começar pela personalidade peculiar da narradora, cujo nome nunca conhecemos. As outras personagens, excepto Tumi, o pequenito, entram e saiem de cena como se pairassem e fica-se com a impressão de que a narradora nos mantém de fora, a espreitar de uma janela, sem nos revelar o suficiente para a conhecermos ou conhecermos os outros. Por um lado, não faz parte da sua forma de estar deixar os outros entrar, por outro, pouco se importa com a impressão que tenham dela. Através dos seus olhos, temos ao mesmo tempo a imagem de povo muito gregário, que se junta com frequência para o convívio, e de uma enorme solidão, de isolamento, muito ligado à paisagem. É-nos ainda sugerido um segredo no passado, algo que terá sucedido na aldeia para onde se desloca, e temos até um vislumbre do que poderá ter sido, mas tão escasso, tão indefinido, que caberá ao leitor decidir em que medida o que vai lendo em itálico é memória ou imaginação.
A estranheza é acentuada por um humor ácido, frio, quase cruel, delicioso, que demoramos a compreender que poderá ter sido introduzido deliberadamente, e não ser apenas consequência do absurdo e de alguma crueldade. Por exemplo, a louca amiga grávida da narradora (mãe de Tumi) partilha o nome da autora... será a autora? A narradora vê-se através das lentes nada rosadas da ironia, fará a autora o mesmo consigo própria? O mesmo sucede com a morte de bichos a torto e a direito - são caçados, atropelados, afogados, pouco importa, mas há um humor associado que é subtil, terrível, ilógico. Esse humor negro permeia a forma como vê o que está à sua volta, mas o leitor tarda a entendê-lo. O mais curioso é que, depois de tudo, guardamos a impressão de uma espécie de ternura no modo como esta mulher desligada se deixa envolver e tenta corresponder às necessidades de uma criança com necessidades especiais. O miúdo, visto pelos seus olhos, é delicioso.
Nota: vale a pena ler as receitas (não são receitas...) no fim do livro, que a Marcador optou por manter, e muito bem.
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domingo, 16 de abril de 2017
canção de espera
sentei-me no muro à espera
de novas vindas do mar
da barcaça marinheira
da cantiga de embalar
diz o vento que virá
mas não chega a esta praia
faz-se engano e ilusão
truque velho de maré
sopra vento vem feroz
traz-me novas de além mar
mas não de homem ou viagem
nem razão para ficar
nem de mim nem de ninguém
que eu não sei que novas quero
nem sei bem quem mas trará
diz o vento que virá
mas não chega a esta praia
faz-se engano e ilusão
truque velho de maré
e eu cansada de esperar
de novas vindas do mar
da barcaça marinheira
da cantiga de embalar
diz o vento que virá
mas não chega a esta praia
faz-se engano e ilusão
truque velho de maré
sopra vento vem feroz
traz-me novas de além mar
mas não de homem ou viagem
nem razão para ficar
nem de mim nem de ninguém
que eu não sei que novas quero
nem sei bem quem mas trará
diz o vento que virá
mas não chega a esta praia
faz-se engano e ilusão
truque velho de maré
e eu cansada de esperar
sexta-feira, 14 de abril de 2017
Assim se lançou o livro
Eram cerca de 18.10h quando cheguei à FNAC e tinha já, à minha espera, algumas pessoas da minha família próxima. Mal tive tempo para dois dedos de conversa, porque outras pessoas foram chegando e, pelas 18.30, hora a que deviamos começar a falar sobre o livro, andava de um lado para o outro a cumprimentar família, amigos, conhecidos, alunos e ex-alunos e os seus pais, e a tentar, sem grande sucesso, ter um minutinho para uma palavrinha com cada um.
A Ana Cristina Antunes, a quem estou muito grata, prometeu falar menos de uma hora e cumpriu! Falou o tempo certo e falou muito, muito bem, contextualizando com perfeição a época histórica, não fosse ela historiadora, e destacando os aspectos que, de facto, contemplo no livro. Falou do livro, claro, das personagens e do enredo, do muito que gostou delas e dele, sem revelar nadinha. Foi uma proeza! No fim, passou-me a batata quente com uma pergunta sobre a criação das personagens, sobre inspiração e trabalho e a magia da escrita... eu mato-a, juro!
Respondi o melhor que pude, porque, na verdade, nem sempre sei de onde vem esta gente que me povoa os livros. Houve, desta vez, um planeamento muito consciente do enredo, porque 1918 foi um ano complicadíssimo e cheio de acontecimentos históricos - e eu não podia permitir que a história da família os esquecesse ou que a História abafasse a narrativa dos Lopes Moreira. Falei um pouco sobre este aspecto, sobre o livro, sobre as personagens, sobre... Já não sei. O maior problema do improviso não é, para mim, perder-me ou não ter o que dizer, é nem sempre me lembrar depois de tudo o que disse. Falei daquilo que, no momento, me pareceu interessante e pertinente, e pronto. E não, nem eu nem o livro voamos da mezzanine abaixo. Isto de lançamento não teve nada!
No fim, autografos, cumprimentos, beijinhos, abraços, fotografias, agradecimentos. E flores! Foi muito bom. Foi tudo muito bom. Obrigada.
Os meus agradecimentos à Marcador, à FNAC e sobretudo a todos os que estiveram presentes!
APROVEITO PARA LEMBRAR:
o giveaway no Goodreads (aqui)
o passatempo da página de facebook da FLUL Alumni (aqui)
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O Ano da Dançarina
quarta-feira, 12 de abril de 2017
Vai ser muitíssimo bem apresentado pelo Hugo Gonçalves, que editou o livro e o conhece muito bem, e pela historiadora e amiga Ana Cristina Antunes que, para além de vos dizer umas coisas sobre o livro, talvez também vos diga alguma coisa sobre o ano de 1918.
No fim, estou lá eu para assinar livros e conversar com quem queira dar-me dois dedinhos de conversa (ou mais, que as palavras são como as cerejas!)
Até amanhã!
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O Ano da Dançarina
terça-feira, 11 de abril de 2017
Entrevista - FLUL Alumni
Tive a surpresa de, a propósito do meu romance O Ano da Dançarina, ser entrevistada para o site da FLUL Alumni, o site Faculdade de Letras sobre os seus antigos alunos.
Fui aluna desta Faculdade duas vezes, com muito mais prazer nos anos de doutoramento no Instituto de História da Arte, sob aorientaçãos dos professores Vitor Serrão e Mário Avelar... mesmo que, por razões estritamente profissionais, não o tenha terminado. Já tive oportunidade de referir que, a fazer algo, é para ser bem feito, e a investigação e redação de uma boa tese seria impossível de conjugar com nove turmas, depois sete... Enfim, um dia regressarei.
“É difícil equilibrar a vertente da história com o peso da História”
A Lisboa de 1918 é o ponto de partida do novo romance da alumna Carla M. Soares. O Ano da Dançarina, editado pela Marcador, recupera na narrativa episódios como a participação portuguesa na I Guerra Mundial ou a gripe espanhola.
Sem ser historiadora, a alumna, que se licenciou em Línguas e Literaturas Modernas na FLUL, e onde iniciou o Doutoramento em História da Arte, revela ser exaustiva na investigação. São quase 400 páginas de um romance que coloca a família Lopes Moreira no centro da acção, e que o FLUL Alumni foi descobrir na companhia da autora...
A entrevista, AQUI.
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O Ano da Dançarina
Azul-errado
Estou no cimo de uma estrada larga, num recanto perdido no meio das montanhas, e abre-se à minha frente uma avenida larga, que desce até ao fim da ravina. É de um desses azuis vivos e suaves que precisam de outro nome, azul-cobalto, azul-celes, azure, azul-real, azul da pérsia. Azul-sonho.
A ladeá-la, casas coloridas, banhadas também ela de azul translúcido, como se à beira de uma piscina. Têm telhados pálidos, em triangulo, caixilhos brancos nas janelas e portas. Há flores nas sacadas e um rio a gorgolejar algures, sei que há, mas não o vejo. Creio que o ouço, mas não sei se há som nos sonhos. Por trás, a floresta escura ameaça.
Desço e, de perto, nada é tão bonito. Há vidros sujos e, onde as casas eram pequeninas e delicadas, são agora as casas de cimento cor-de-burro-quando-foge das nossas terras mais feias. O desapontamento é brutal. Nos sonhos, estas coisas são sempre brutais.
De repente, desemboco outra vez no cimo da avenida, acabada de percorrer a custo a longa estrada, porque é de noite e acho que estou perdida. Fico sem fôlego. Lâmpadas douradas iluminam a larga rua e transmutam o postal de encanto pitoresco num cenário de contos de fadas. Podiam irromper elfos da floresta para dançar, envoltos em pirilampos, com as meninas que sairiam das lindas casas, com sardas no rosto e flores nos cabelos.
Não quero descer a rua. Prefiro acordar. Acordo. Não estou encantada. Há algo errado. No cenário, no que eu fazia no sonho. Não sei o quê. Não me lembro.
Não havia sapatos à entrada, mas lembro-me agora de Tim Burton e Big Fish.
A ladeá-la, casas coloridas, banhadas também ela de azul translúcido, como se à beira de uma piscina. Têm telhados pálidos, em triangulo, caixilhos brancos nas janelas e portas. Há flores nas sacadas e um rio a gorgolejar algures, sei que há, mas não o vejo. Creio que o ouço, mas não sei se há som nos sonhos. Por trás, a floresta escura ameaça.
Desço e, de perto, nada é tão bonito. Há vidros sujos e, onde as casas eram pequeninas e delicadas, são agora as casas de cimento cor-de-burro-quando-foge das nossas terras mais feias. O desapontamento é brutal. Nos sonhos, estas coisas são sempre brutais.
De repente, desemboco outra vez no cimo da avenida, acabada de percorrer a custo a longa estrada, porque é de noite e acho que estou perdida. Fico sem fôlego. Lâmpadas douradas iluminam a larga rua e transmutam o postal de encanto pitoresco num cenário de contos de fadas. Podiam irromper elfos da floresta para dançar, envoltos em pirilampos, com as meninas que sairiam das lindas casas, com sardas no rosto e flores nos cabelos.
Não quero descer a rua. Prefiro acordar. Acordo. Não estou encantada. Há algo errado. No cenário, no que eu fazia no sonho. Não sei o quê. Não me lembro.
Não havia sapatos à entrada, mas lembro-me agora de Tim Burton e Big Fish.

domingo, 9 de abril de 2017
Mulher
Apertada
dentro de uma lua,
enlaçada,
presa no meu sangue,
raiva inteira
de ser só poesia
Nem Marta.
Nem Maria.
O poema é de 1990... tinha 19 anos... D-E-Z-A-N-O-V-E-A-N-O-S.
Pfff. Ninguém tem 19 anos!
dentro de uma lua,
enlaçada,
presa no meu sangue,
raiva inteira
de ser só poesia
Nem Marta.
Nem Maria.
O poema é de 1990... tinha 19 anos... D-E-Z-A-N-O-V-E-A-N-O-S.
Pfff. Ninguém tem 19 anos!
café
parar em curto hiato
travar o mundo na chávena
de café
o mundo todo no agridoce
do café
conter a respiração
desencontrada
morar no sossego solitário
desta mesa
enquanto posso
lembrar que o tempo leva
o tempo traz
o tempo faz e desfaz
travar o mundo na chávena
de café
o mundo todo no agridoce
do café
conter a respiração
desencontrada
morar no sossego solitário
desta mesa
enquanto posso
lembrar que o tempo leva
o tempo traz
o tempo faz e desfaz
sábado, 8 de abril de 2017
Acabei de dar o Dançarina por lido no Goodreads
É a primeira vez que leio um livro meu depois de publicado, porque nunca tenho a coragem para fazê-lo, e foi isto que escrevi por lá:
Não sou capaz de dar uma classificação a um livro meu. Jamais o faria, não me parece correcto.
Sou capaz, porém, de dizer que tem falhas e virtudes como todos os livros, e que, como tal, agradará a uns e não a outros, alguns leitores vão adorá-lo (espero), outros, possivelmente, detestá-lo.
Posso dizer também que o reli com muito mais prazer do que esperava, eu, que não releio os meus livros porque me deparo sempre com frases que já não escreveria e coisas que diria de outra forma. Suponho que será assim com a maioria dos escritores, porque uma obra nunca está pronta… Diz o Záfon, se não me engano, que somos nós, temos de ser nós que a abandonamos, ou nunca terá um fim. Sucedeu-me aqui, claro, mas menos do que imaginava.
Reli-o, pois, com prazer, e senti-me transportada para onde desejava que o livro transportasse os leitores, para o difícil ano de 1918 em Lisboa. Continuei presa às personagens, a Nicolau, tão frágil no início, a César, à valente Bernarda, a Eunice e aos irmãos mais novos, a Cecília e ao avô Cupertino, e também a Raul, D. Carolina, até a Hermengarda e Nuno, como desejo que aconteça aos leitores. Acompanhei as graças e desgraças que lhes sucedem quase como se não as conhecesse (quase). Fiquei contente com a narração dos episódios – a maior parte reais – da História desse ano, e com as peripécias que criei para os Moreira Lopes, em redor deles.
Gostaria, como é natural, de ter tido o espaço para desenvolver todas as histórias – de permitir que Raoul e Eunice tivessem mais espaço, de acompanhar Bernarda no final da narrativa, ou Carolina, Hermano, Cupertino, Pedro, Mina, mas é Nicolau a minha personagem central e, se aprendi alguma coisa com a edição dos meus livros é que é preciso “kill some darlings”, i.e. cortar alguns segmentos de que gostamos e não estender outros como desejariamos fazer.
Para quem vai lê-lo, desejo que se sinta, pois, em pleno ano de 1918 em Lisboa, e que sofra e se alegre com os Lopes Moreira e com as gentes da cidade, como eu me alegrei e sofri (bastante) durante a escrita e durante esta leitura.
Sou capaz, porém, de dizer que tem falhas e virtudes como todos os livros, e que, como tal, agradará a uns e não a outros, alguns leitores vão adorá-lo (espero), outros, possivelmente, detestá-lo.
Posso dizer também que o reli com muito mais prazer do que esperava, eu, que não releio os meus livros porque me deparo sempre com frases que já não escreveria e coisas que diria de outra forma. Suponho que será assim com a maioria dos escritores, porque uma obra nunca está pronta… Diz o Záfon, se não me engano, que somos nós, temos de ser nós que a abandonamos, ou nunca terá um fim. Sucedeu-me aqui, claro, mas menos do que imaginava.
Reli-o, pois, com prazer, e senti-me transportada para onde desejava que o livro transportasse os leitores, para o difícil ano de 1918 em Lisboa. Continuei presa às personagens, a Nicolau, tão frágil no início, a César, à valente Bernarda, a Eunice e aos irmãos mais novos, a Cecília e ao avô Cupertino, e também a Raul, D. Carolina, até a Hermengarda e Nuno, como desejo que aconteça aos leitores. Acompanhei as graças e desgraças que lhes sucedem quase como se não as conhecesse (quase). Fiquei contente com a narração dos episódios – a maior parte reais – da História desse ano, e com as peripécias que criei para os Moreira Lopes, em redor deles.
Gostaria, como é natural, de ter tido o espaço para desenvolver todas as histórias – de permitir que Raoul e Eunice tivessem mais espaço, de acompanhar Bernarda no final da narrativa, ou Carolina, Hermano, Cupertino, Pedro, Mina, mas é Nicolau a minha personagem central e, se aprendi alguma coisa com a edição dos meus livros é que é preciso “kill some darlings”, i.e. cortar alguns segmentos de que gostamos e não estender outros como desejariamos fazer.
Para quem vai lê-lo, desejo que se sinta, pois, em pleno ano de 1918 em Lisboa, e que sofra e se alegre com os Lopes Moreira e com as gentes da cidade, como eu me alegrei e sofri (bastante) durante a escrita e durante esta leitura.
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sexta-feira, 7 de abril de 2017
Agenda Dançarina de Abril e Maio
Em Abril e Maio, eu e a Dançarina vamos estar em alguns encontros, quase todos a Norte.
Salvo alguma dificuldade de última hora, são assim:
Salvo alguma dificuldade de última hora, são assim:
Mais tarde, anunciarei as datas em que estarei na Feira do Livro, em Junho.
São bem vindos os que puderem e quiserem estar presentes.
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quinta-feira, 6 de abril de 2017
posto fronteiriço
Eram três perguntas
todas de seguida
de onde vens
para onde vais
que queres daqui
ele acreditou que havia
no inglês manhoso do oficial
do posto fronteiriço
o gospel de uma vida
da sua vida
de onde vens
para onde vais
que queres daqui
sabia lá que fronteira
entre ter ou não
uma resposta
todas de seguida
de onde vens
para onde vais
que queres daqui
ele acreditou que havia
no inglês manhoso do oficial
do posto fronteiriço
o gospel de uma vida
da sua vida
de onde vens
para onde vais
que queres daqui
sabia lá que fronteira
entre ter ou não
uma resposta
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