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segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

O escritor duradouro

O escritor perguntava-se muitas vezes para que servia escrever. Não o acto em si, que lhe dava um certo gozo e uma espécie de alívio, como o abrir moderado de uma torneira de alta pressão. Não escrevia para si, ou tudo o que escrevia teria sido despjado de si para a página e dali para o lixo, mas ainda assim questionava, em dias mais vazios, para que servia entregar ao mundo o que escrevia,  que era uma forma de se perguntar se o que fazia valia, na apreciação global das coisas, um tostão furado. 

O que o confundia não era o apreço que os leitores do seu tempo podiam ter - ou não - pelos seus livros. Há muito que deixara de pensar nisso. Vendia bem, era um nome recorrente nas recomendações dos críticos, tinha um prémiozito de bom nome, e havia quem lhe tivesse apelidado os livros de "enfabulações hiper-críticas da modernidade" e de "imaginativas simulações de um ocidente em decadência". Agradavam-lhe ambos os clichés, na medida em que um cliché podia agradar-lhe, mas, nos dia em que o ego nada tinha de que alimentar-se, lembrava-se de que a verdade era só uma: seus livros eram  grão de areia no deserto, gota de água no oceano. Ficavam-lhe bem os clichés, afinal. Faziam parte da mesma maioria perecível de toda a literatura light

A ideia não devia incomodá-lo, porque, ainda assim, as páginas eram mais duradouras do que a carne e, com um pouco de sorte, quando se lhes acabasse o tempo já as letras na sua lápide estariam tão gastas que seria difícil saber que escritor ali fora a enterrar. A durabilidade relativa do que ficava registado não o consolava, porém, nesses dias de cépticos, em que lhe era excessivamente claro que no seu tempo a anonimidade também existia na excepção. Ou, talvez, que a excepção era rara e temporária e olvidável no espaço de um blink, um click, o virar de uma página, o cair de uma estrela.

O que ficava, pois, nesses dias? O que ficava nos outros dias?  O acto da escrita. Um certo gozo e uma espécie de alívio, como o abrir moderado de uma torneira de alta pressão

domingo, 25 de outubro de 2015

O escritor e aquela mulher

Mesmo que houvesse coisas que pudesse dizer-lhe, não sabia se lhas diria. Não era obrigação do escritor guardar as palavras profundas para as páginas a escrever? Não as desbaratar, não as usar à toa em situações passageiras. 

O amor era coisa de um momento. Paixão, olhar, coxas, sexo. Depois do sexo pouco ficava. Nada que ele quisesse, pelo menos. Ficava repetição dos ponteiros do relógio. A impaciência dos ponteiros do relógio. A mulher a querer trocar palavras e ele a querer poupá-las, a ofensa de um silêncio que não era contra ela, mas se erguia contra ela até a empurrar porta fora. Estava bem assim, ganhavam ambos. Ganhava ele, isso era certo. 

E de repente, esta não. Esta sim, paixão, olhar, coxas, sexo, e ainda não fora capaz de gastar palavras com ela, ainda não, mas elas estavam debaixo da língua "Vens outra vez? Quero que venhas outra vez." Algumas mulheres eram desejáveis duas vezes, três vezes, mais. Já vestida, ela ainda lhe sorriu. Rabiscou um número num papel, a provar que voltaria, se ele quisesse, pequenina e elegante. Viria descompôr-se na sua cama, no seu sofá, sem esperar nada dele. Ele talvez esperasse coisas dela. Da próxima vez talvez lhe oferecesse uma bebida, ou jantar. 

Chegou-se à janela, de camisa aberta, a ver a tarde a morrer enquanto ela se alinhava à pressa no espelho da entrada, abria e fechava a porta, saía para a rua . Viu-a caminhar pelo passeio, sustendo-se nos saltos finos sobre as pedras traiçoeiras, mais adiante o automóvel deu sinal da abertura de portas, ela voltou-se um instante e acenou. Respondeu. Foi sacudido por um arrepio, podia ser da brisa ligeira e, metendo-se para dentro, já não a viu desaparecer na esquina e misturar-se no trânsito da rua principal.  

Sentou-se à secretária, ligou o computador e abandonou-se à lassidão satisfeita do pós-coito. Estava cheio de palavras soltas na cabeça, mas não lhe chegavam às pontas dos dedos.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

O escritor sem nada para dizer

Há dias em que acorda convicto de que não tem mais nada para dizer. Nesses dias, cada vez menos raros, não sabe porque um dia começou a escrever ou se deve voltar a fazê-lo. Sabe que é passageiro, como uma nuvem ou uma dor de cabeça, se nada fizer, a tempestade desfaz-se e amanhã talvez volte à sua pele. Estranha pele, essa que o tira de si próprio, mas é nessa que se sente bem. Usa-a sempre, cheia de outros. Frente a frente com um espelho vazio não saberia o que fazer. Por isso, nesses dias em que é só um não se vê ao espelho, vira o rosto para não se encontrar em nenhum dos espelhos e vidros da casa.

Nesses dias, o escritor nada diz. Não se senta à sua secretária, não fica a ouvir os pássaros nem a chuva a cantar nas vidraças das janelas. Despe-se de todo o romantismo, não o de falar de amor, mas o de achar que as palavras podem dizer coisas importantes que tem dentro dele, o de achar que tem coisas importantes dentro dele, ideias, conceitos, histórias, sentimentos, até. Despe-se de tudo isso e sai à rua. 

Não vai ao café, não cumprimenta os tipos do costume, "Bom dia, senhor escritor" não lhe assenta nesse dia. Está nú e não se sente bem com o cumprimento. Vai ao centro comercial, onde evita cuidadosamente as livrarias que lhe lembram das palavras que os outros têm para dizer. As que são melhores que as dele, principlamente, e lhe causam um ligeiro desprezo por si próprio. Compra uma camisa. Vai ao cinema, sem pipocas, não porque estas não lhe agradem mas por achar, apesar de tudo, que um escritor a sério não as come no cinema. Ele quer ser sério, medido pelo valor das suas palavras e não pelo número de livros que vende. Permitem viver, mas ele quer mais. Nos outros dias, nesses não.

Vê um filme inconsequente, claro. Alguma coisa com tiros. Se nada tem para dizer, também não quer ter nada em que pensar. Nem quer reconhecer que não tem nada em que pensar. O chiar de travões e as explosões violentas calam o silêncio. Come uma sandes, por vezes um hamburguer com uma cola e deixa-se ir na impressão de que faz parte da maralha. Sabe que faz parte da maralha, de que serve a ilusão? Se não dessa, doutra qualquer. Pode ser da que pensa que vale mais do vale. Formigas, todos. Volta já o sol se pôs e a noite está pronta para o tomar de assalto, com um whisky no sofá e ainda sem nada para dizer. 

sábado, 1 de agosto de 2015

O escritor e o reflexo

O escritor dá uma olhadela inadvertida ao espelho da entrada, vê o seu simulacro familiar e compõe por instinto o cabelo. Fica aborrecido. Não lhe importa o aspecto que tem, nem se recorda de quem determinou que aquele era um bom lugar para pendurar um espelho ou desde quando lá está. Desde sempre? Repete que o vai tirar dali, sabendo que se esquecerá disso assim que fechar a porta. Lembrar-se-à quando voltar a abri-la e se enfrentar, para depois voltar a esquecer-se.  É um jogo com a memória das coisas relevantes, cujo desfecho lhe é indiferente. Não se importa com o seu reflexo. 

Continua ali, todavia, olhando-se. Agora tem as mãos nos bolsos, não alisa os vincos do rosto ou da Tshirt. Pergunta-se se deveria atribuir significados ao gesto de observar-se. Não descobre nenhum, embora saiba que a maioria os inventa e se reinventa dentro do espelho. Poucos se guardam num espelho como são na realidade. A ele não faz diferença e, no entanto, talvez esse espelho tenha uma função, mostrar-lhe que ainda existe ou lembrar-lhe a passagem do tempo. Ri-se de si próprio. É um cliché, afinal, como outro qualquer. Como ter um espelho na entrada. Lembra-se de que há  anos escreveu um conto sobre uma mulher apaixonada por um espelho. A mulher ama a moldura antiga de talha dourada, a superfície lisa e brilhante, a eternidade que vislumbra dentro dela, na possibilidade do reflexo repetido, o tempo todo contido dentro dele. A mulher vive no tormento dessa paixão e do ciúme pela figura dentro do espelho, que, sabe bem, não é ela. Parece-se com ela, uma versão envelhecida dela, e essa é a maior das traições. Acaba muito mal, esse conto, num acto de homício tresloucado que destroi o espelho traidor e a mulher dentro dele e depois usa o corpo qubrado do seu amor para pôr fim à sua vida.
  
Hoje não escreveria esse conto, parece-lhe que lhe deu um fim demasiado apertado. Deixou de gostar de portas fechadas nos seus textos, só conhece uma porta que se fecha em definitivo e não tem pressa em atravessá-la e cerrá-la atrás de si. Tranca em vez disso a de casa, com sarcasmo na ponta dos dedos.  Sabe porque continuará ali o espelho. Tem visto a sua figura mudar nele diariamente e, por isso, parece-lhe que nada mudou nela nos últimos anos. Congelou algures da década de 90, quando era jovem e as histórias como essa da mulher ciumenta eram comboios desgovernados de ideias, e o espelho insiste em devolver-lhe ainda esse homem impossível. Não sabe onde reside essa ilusão teimosa, se na superfície reflexiva, se no negativo nos seus olhos, mas gosta de ver-se nesse engano, agora que as palavras já não lhe chegam como antes, que o bloco que leva sempre consigo não se abre em qualquer parte para registar um impulso repentino e tem dias como esse, de fim de Verão, em que nem a secretária perpendicular à janela por onde o sol e canto dos pássaros lhe invadem a casa lhe abrem caminho para elas.   Vai tomar um café, ouvir falar de futebol. Não lhe interessa o futeol, não gosta da conversa no café da esquina, mas está cansado de ideias.


sábado, 18 de julho de 2015

O escritor e o autógrafo

Quando a mulher se afasta com o autógrafo e uma pergunta por fazer, que ele adivinha na expressão mas não incentiva, o escritor pensa que devia ser mais simpático. Depois o leitor seguinte aproxima-se e ele muda de ideias, como já fez tantas vezes, parece-lhe que assim é que está bem e assina, sem dedictória e sem conversa, só um rabisco e a data e o homem, desta vez um homem, são sempre menos mas ele ainda os tem como leitores, segue quase passo a passo o caminho da mulher antes dele e desaparece na multidão na larga entrada da livraria. O escritor acha que leva uma expressão indiferente. Talvez o livro afinal não lhe interese e lhe tenham encomendado o autógrafo. Tanto faz. 

Assina assim vários volumes do seu último livro, em silêncio, como se não estivesse ali. Não está, pelo menos na totalidade, parte dele continua perpendicular à sua janela, sentado a ver a chuva cair em vez de escrever.  Outro livro pousa à sua frente e a mulher que o trouxe sorri-lhe, ele retribui porque o livro que ela trouxe não é o novo. É o seu primeiro. Fá-lo com parcimónia, porém, não quer que o leitor seguinte lhe exija o mesmo. Raramente olha para os rostos, em geral vê apenas as mãos, a maioria feminina e bem cuidada, unhas lacadas nas mais variadas cores, de quando em quando uma sem adornos, a espreitar de um punho de camisa de homem. Prefere essa aura de distância e indiferença, que o afastam da vulgaridade do mundo. Pensa que é melhor que pensem que o escritor vive num mundo aparte. Que não vai às compras e não usa a casa de banho. Que vive de letras, alcoól, escassas horas de sono, cigarros. Ele não fuma. Bebe um pouco, talvez, dorme muito mais do que devia, por vezes fora de horas.

E é melhor que pensem que pouco se importa com os livros ou o que deles pensam os que os leem. E no entanto, ali está ele, a assinar volumes, precisa que lhos comprem ou terá que empregar-se numa coisa qualquer. Por ora não precisa. Ocorre-lhe que tambem aquilo é trabalho, e fora de horas. É Sábado e ali está ele outra vez. Na véspera foi outra cidade, outra grande livraria num espaço comercial. Amanhã será outra. Por um momento, sente-se uma pop star, em tour pelo país. Ou afinal é estrela pimba, o autor de elite? Pergunta-se se terá corado. Tem o impulso para levantar-se  e abandonar a fila de gente que ainda espera. Passará pelo escritor caprichoso, que faz tudo a seu bel-prazer. Ingrato e talvez um pouco louco. Servir-lhe-à essa fama? É um passo adiante da que agora tem e tanto lhe custou a cultivar. Não consegue decidir. 

Outro leitor, mais um homem, estende-lhe o livro aberto, murmura um nome que ele não escreverá e aguarda. Ele aceita o livro. 

sábado, 11 de julho de 2015

O escritor compõe a história

O escritor tem de compor a história. Andou com o enredo para trás e para a frente, imaginou, reconstituiu, saltitou, transformou-o numa salganhada com buracos pelo meio. A história olha para ele, o escritor olha para ela e vê um Picasso, sorte teria se o seu trabalho valesse tanto, mas vê-o assim, tombado, a precisar de puxar narizes e orelhas para que se entenda. Uma figura desfeita está muito bem numa tela, nos seus livros não serve. Tem de compô-la, mas primeiro tem de encontrar outra palavra para o que vai fazer. Compor soa-lhe caseirinho, compor flores numa jarra, compor a roupinha. Tem um sabor entediante a normalidade e rotina. Pensou nisso nessa manhã no duche, à janela, à sua mesa no café da esquina, pensa nisso há horas na sua secretária perpendicular à janela. 

Estica os braços acima da cabeça, para fazer estalar as costas. Doem-lhe, é o preço que o corpo paga. A cabeça paga outro, mais alto. Tem uma sensação familiar de impotência que lhe vem só da preguiça. Não lhe falta o texto desta vez, como lhe contece por vezes antes da história se desenhar. Tem um plano mas não lhe apetece cumpri-lo. Não lhe apetece cumprir nada nesse momento, nem sequer os rituais do dia. Levanta-se e vai ouvir o dia à janela. Os pássaros estão mais sossegados agora, a manhã quase se esgoltou e o calor já os empurrou para as sombras das folhas. Tem sono, apesar de ter dormido muitas horas, talvez seja a terrível canícula de Julho na cidade ou talvez seja a necessidade de compor que lhe rouba a energia. Talvez devesse ir viver para o campo ou, porque ama a cidade, talvez devesse ficar ali e escrever outra coisa, até lhe chegar a coragem para atacar esta de frente. Sai da janela e vai meter a cabeça debaixo da água fria. Pensa que tem de cortar o cabelo em breve, quando o sente a pingar sobre a T-shirt. Está grande. 

Volta para o texto, a pensar em desistir e sabendo bem que não o fará. Não por ter algum amor em particular por esta história, depois de tantas é mais uma. Vai ser boa, se a acabar, mas há muito que nem as boas histórias lhe suscitam emoção e é melhor assim, parece-lhe. Se a demolirem depois de deixar de ser sua, ou se a ignorarem, não lhe custrá mais do que sua vaidade. 

Não a abandonará, portanto. Já se enrolou antes e nunca desistiu, já compôs outros enredos, raio da palavra, não encontra outra. Que escritor é ele afinal? Já lhe aconteceu precisar até de reescrevê-los, para encaixar tudo nos sítios certos. às vezes era como fazer um puzzle sem ter a certeza de ter todas as peças, e ele nunca teve paciência para eles. Mas é assim que escreve, embora não o confesse. Estão convencidos de que é escorreito e imediato, o texto da cabeça para o livro impresso em linhas direitas. Tem muitos livros publicados e nenhum foi assim, mas o mito fermentou e, como lhe agrada, deixou-o viver. Talvez um dia seja desmascarado, talvez morra velho com a fama colada a ele. 

Por ora, vai buscar um copo de água e senta-se outra vez à secretária, sentindo falta do tumulto da passarada. Levanta os dedos e, após um momento de hestitação, cansa-se também disso, das hesitações, retoma o trabalho industrioso de compor o que está descomposto.

Levanta-se, para desentorpecer as pernas. Apetece-lhe um café, mas não gosta dos que se fazem em casa e não quer ir ao café outra vez. 

sábado, 4 de julho de 2015

O escritor no café do bairro

No café do bairro pode-se fumar. O escritor, que não fuma, prefere essa liberdade que lhe lembra outros tempos e é ali que vai, todas as manhãs, beber a bica e ler A Bola, antes de ir sentar-se à sua secretária perpendicular à janela, de onde mesmo assim lhe vê a porta. 

Há anos que o faz. Conhecem-no pelo nome e sabem o que faz. O dono tira a bica antes de lha pedir, põe-lhe o jornal na mesa sem lho pedir e traz à conversa o Benfica assim que o vê pegar nele. O escritor não gosta particularmente de futebol e nem sequer é Benfiquista, lê para lhe ocupar os momentos e poupá-lo às conversas. Com o jornal não consegue, claro, o dono do café tem sempre muito a dizer. Às vezes traz um livro, o que é um pouco mais eficaz a isolá-lo. Um olhar perdido ou uma cara de louco também resultariam, mas o escritor não sabe como isso se faz nem quer para si essa fama. O escritor louco é coisa de outra era. 

Atira um bom dia assim que entra e há sempre uma resposta, duas, às vezes mais. Acham-no simpático, tanto que nessa manhã uma velhota que vive uns prédios mais diante, já a cumprimentou à porta de casa, lhe prometeu um saquinho de biscoitos. Que os fazia aos tabuleiros desde a morte do marido há quatro anos, para se ocupar, mas ele sabe que ela os vende e ofereceu-se para comprar. Que não, que não, que era com muito gosto. E bebericou o carioca com um sorrisinho. Deve achar, e com razão, que ele não tem de momento quem o presenteie com um mimo desses. Com mimo nenhum, aliás. E acha-o simpático, para escritor. Muito acessível. Muito normal.

Ele acha-se normal, sim, para fraude. É-o como escritor, claro, mas isso são-no todos, as palavras asseguram-se que nada do que está escrito é realmente o que existe ou o que se pensa ou se sente. A escrita é um meio esvaziador. Quando, por exemplo, o amor chega ao papel, já vai vazio de amor - reduziu-se às palavras que falam do amor. Quando a descrição de uma mulher é lida, a mulher que cresce atrás dos olhos do leitor pode ser loura e baixa, como a primeira, e ter olhos verdes, mas é outra.  Mas não é nisso que ele é fraude, porque nisso não podia ser outra coisa. 

É a pessoa que engana. Que é simpático, que é acessível, que é merecedor de um saquinho de bolachinhas caseiras.  Não é. Ou acha que não é. Não sabe. Cada um vê o que vê, e ele executa todos os gestos da criatura simpática. Sorri e cumprimenta, com o vazio atrás dos cumprimentos. Escuta a conversa sobre bola e responde, sem se interessar. Interessa-se às vezes por outros temas, mas do que gosta é do silêncio. Aceita as bolachas, e vai comê-las, mas não entende porque lhe são oferecidas. Preferia que não fossem, não sabe como agradecer. Não sabe como agradecer o orgulho de servir a bica ao escritor, senhor escritor, como está, para quando um livro novo, quando nem como escritor é muito bom no engano.

Acha que devia deixar de ir ao café do bairro, onde o conhecem, procurar cadeiras novas, gentes mais apressadas. Parece-lhe, porém, que não o fará. Não sabe porquê. Talvez até nisso seja uma fraude e encontre, afinal, algum conforto no desconforto familiar de ter identidade.


terça-feira, 30 de junho de 2015

O escritor não sabe o que fazer


O escritor recosta-se. As costas do assento são confortáveis, talvez demasiado, e ele suspira e contempla, desconfiado, o branco à sua frente. Quer enchê-lo de linhas escuras, mas hesita. Não sabe onde elas estão.

Não é verdade. O escritor não sabe é o que fazer, se há de escrever as histórias que esperam na sua cabeça, se há de escrever a alma. Não gosta da palavra, mas por ora não tem outra. Acha que devia fazer as duas coisas juntas, mas não lhe apetece. As suas histórias têm demasiada luz, se a deixa cair sobre a alma, luz diurna sobre a escuridão, pensa aqui que precisa de outra imagem menos batida, mas está vazio de palavras nessa manhã. Se calha cair luz sobre a alma, pode obliterá-la ou, pior, deixá-la exposta em todos os seus ângulos agudos, fundas brechas, côncavos e convexos, e ele não está pronto para vê-la assim, em toda a sua resplandecente miséria. Sorri, feroz, desagradado. Não é só a palavra que lhe desagrada, não gosta por ir além da coisa em si. Talvez esteja apenas cansado de conviver diariamente com o que tem por dentro. Poderá divorciar-se de si? Fixa outra vez o branco. Ali pode. Até pode ser temporariamente intrépido.     

Alinha duas ou três palavras. Parece-lhe que se conseguir passar disso, terá aberto uma fenda no dique e outras se seguirão. Não faz ideia se será assim ou não ou que se precipitará nessa manhã. Acha também que devia obrigar-se a escrever, uma hora por dia, duas, mais, mas não tem método. Nunca teve. Duvida de si também por isso.  

Levanta-se para ir buscar um café. Apetecia-lhe um whisky, mas é cedo ainda e ele não quer a imagem do escritor boémio. Nada tem de boémio. Talvez seja por isso que lhe falham as palavras. Talvez um homem comum não tenha nada dentro de si, a não ser histórias brancas e uma alma preta.  E medo, quase sempre. Recosta-se na ombreira da janela aberta sobre um estreito varandim de ferro verde, recortado, a beber o café. Está quente. Do lado de fora, numa das árvores plantadas num círculo de terra no meio dos paralelipípedos do passeio, um pássaro trina a sua excitação. Sente simpatia por ele. Está um belo dia. O escritor pensa que seria feliz se tivesse ao menos um terço desse entusiasmo e irrita-se. Oxalá o bicho fosse cantar para outro lado, é triste que até a passarada se ria dele.

Volta-lhe as costas, vai sentar-se à secretária perpendicular à janela para, segundo lhe disseram, receber a melhor luz. Recosta-se. A cadeira é confortável, talvez demasiado, e ele suspira e contempla o branco à sua frente. Continua desconfiado, mas agora está também irritado. Não pode calar o pássaro nem lhe apetece fechar a janela. Ao branco, quer enchê-lo de linhas escuras, afinal sabe onde elas estão, mas hesita.