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sábado, 10 de outubro de 2015

não-viajante



Nada na minha vida é aventuroso. Nada tenho que queira contar. Sou da quietude do corpo, do conforto do familiar. Na cabeça, porém, na página branca, tudo acontece e aí não há fronteiras ou muro que obste ao meu caminho, de tudo sou capaz, já estive em toda a parte e em todo o lado estarei. O meu corpo não é viajante, mas já fiz muitas viagens. Ou ou elas, as personagens. 

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Ausência justificada

Há dias que não fecho o texto de O Ano da Dançarina... No Ano da Dançarina... A Dançarina... isto veremos. Tê-lo sempre aberto significa que lá vou sempre que me sobra um bocadinho, porque agora que acabaram as férias e ando a mil é que me apetece finalmente escrever. Mal venho ao blogue. 

Decidi fazer de conta que isso importa, ahahahah, e mostrar o que me mantém longe - ai, pobres de vós, o que hão de fazer sem postas no monstro? - com um "docinho": um excertozinho do que ando a fazer, unedited, claro. Sintam-se livres de dizer se vos parecer mal, mal, mal. 


      "Trepou com exasperante lentidão o lance de escadas até ao primeiro andar onde ficavam o consultório e a habitação do médico, à direita e à esquerda respectivamente, e empurrou a porta do gabinete, aberto durante as horas de atendimento. Custódia sorriu-lhe, sentada como de costume à sua secretária na salinha de espera, decorada com quatro confortaveis cadeiras de braços, um grande vaso ao canto e cópias de quadros de Renoir e  Monet nas paredes.
- Veio cedo. – declarou, indicando com o queixo a única paciente que esperava, uma senhora de alguma idade com uma pluma roxa no grande chapéu, tão empertigada que lhe lembrou um mosqueteiro. – Terá de esperar um pouco, senhor Nicolau.
- Não tem importância nenhuma. – Dirigiu à cliente que esperava um aceno educado. – Muito bons dias, minha senhora.
- Bom dia.
Remeteram-se ambos a um silêncio conformado, cortado apenas pelo correr insconstante do aparo de Custódia no papel e pelo clique-clique dos ponteiros do relógio de parede.  Não tardou a que Mendes de Almeida abrisse a porta do seu consultório e escoltasse um homem alto até à porta.
- Não se esqueça de que a medicação e a dieta que lhe recomendei são essenciais. O homem concordou, ainda que com ar mal conformado e Nicolau suspeitou que era a dieta e não os remédios que o contrariava. Provavelmente fora proibido de beber álcool e de comer jaquinzinhos e outras frituras. Escondeu um sorriso. Antes ser manco. Levantou-se mais depressa do que devia quando a senhora de idade se ergueu, e a perna fraquejou-lhe.
- Sente-se, pelo amor de Deus, – disse a mulher, estendendo uma mão para equilibrá-lo – que não quero ser responsável por nenhum desastre!
- Mas, se acontecer, está no sítio certo, não é verdade? – retorquiu Mendes de Almeida, sorrindo e estendendo a mão à velha senhora – Bons dias, senhora D. Ana, e não se aflija, que o Nicolau é rijo. E é médico, como eu, conhece bem as consequências da sua precipitação.
Nicolau fitou-o, desconfiado, perguntando-se se César ou a mãe já teriam vindo contar-lhe o incidente da sua primeira saída. Não importava, saíra desse túnel escuro, saíria de todos os outros em que ainda viesse a entrar, no seu caminho para a recuperação física e mental. Para a sanidade. Trabalhar ajudaria. Tinha de ajudar.
- Pois vamos lá atendê-la. O Nicolau aguarda mais um pouco?
- Com certeza. Hoje venho mais para falar consigo do que para consultá-lo.
- Pois faremos ambas as coisas, porque eu tenho toda a intenção de ver como isso está.
Demorou quase meia hora com D.Ana e, quando saiu, a mulher trazia o nariz empinado e Mendes de Almeida parecia impaciente. Despediu-se dela sem nenhuma recomendação especial, a não ser muito chá de camomila, e fez sinal a Nicolau para entrar.
- Custódia, faz-nos também um chá… ou um café, que esta senhora esgota-me. – Para Nicolau, esclareceu – Tem uma saúde de ferro, mas quem a ouça, diria que padece de todos os males do mundo. Espirrou duas vezes, provavelmente por ter pó no agasalho, e convenceu-se de que a espanhola a tinha apanhado…
- Talvez precise da atenção."
(aí por volta da pág 150...) 


Também ando a ler A Espia do Oriente, em papel, em casa, e Tangled, no tm ou no Kindle, onde calha. Espero ter opiniões em breve...

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Não estou MIA

Desapareci durante uma semana, provavelmente continuarei meio desaparecida, mas desta vez não é nenhuma crise "blogueira". 

Não que ande animadíssima e cheia de opiniões para partilhar, mas poderia ter, pelo menos, aqui vindo dizer qualquer coisa sobre o filme "Como Água para Chocolate" que vi na TV completamente por acaso e que primeiro estranhei e depois se entranhou. Por momentos apeteceu-me, mas a vontade foi logo, logo ultrapassada pelo que tenho andado a fazer.

Primeiro, fiz anos. Dia 6. Shhhhtt. Não é preciso contar a mais nunguém que cheguei à capicua dos quarenta. Dia bom, tranquilo, e, pela primeira vez em muito tempo, não fiz balanços e não me deixei perturbar por eles... 

Segundo, regressei ao trabalho. Não estou ainda afogada nele, mas já me ocupa e ocupar-me-à muito mais. 

Terceiro, deitei-me aos planos e enredos. Como já por aqui disse, este último livro, No Ano da Dançarina ou como vier a chamar-se (se for publicado), tanto andou para a frente e para trás, tanto sofreu com a minha falta de ânimo, que dei por mim perdida e sem saber o que fazer desta história,. Começou de uma forma, foi alterada, depois alterada outra vez, depois ficou sem rumo. Portanto, durante uns dias dediquei-me de alma e coarção a repor a ordem. Ou seja, fiz um plano capítulo a capítulo, com as devidas anotações históricas e outras. E eis que, depois de muito bufar de impaciência e de muito hesitar e duvidar, pari o bicho. Habemus plano, a precisar de ajustes, claro, mas já com com ar completinho e capaz de fazer-me acreditar que consigo fazer disto uma história plausível e, espero, interessante. Dessas duas coisas julgará quem me ler. 

E assim, mão na massa, recorri ao que já tinha - porque começo sempre pela escrita - e encontro-me em pleno processo de escrita. Começo mesmo a acreditar que um dia destes tenho livro!  

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

O escritor sem nada para dizer

Há dias em que acorda convicto de que não tem mais nada para dizer. Nesses dias, cada vez menos raros, não sabe porque um dia começou a escrever ou se deve voltar a fazê-lo. Sabe que é passageiro, como uma nuvem ou uma dor de cabeça, se nada fizer, a tempestade desfaz-se e amanhã talvez volte à sua pele. Estranha pele, essa que o tira de si próprio, mas é nessa que se sente bem. Usa-a sempre, cheia de outros. Frente a frente com um espelho vazio não saberia o que fazer. Por isso, nesses dias em que é só um não se vê ao espelho, vira o rosto para não se encontrar em nenhum dos espelhos e vidros da casa.

Nesses dias, o escritor nada diz. Não se senta à sua secretária, não fica a ouvir os pássaros nem a chuva a cantar nas vidraças das janelas. Despe-se de todo o romantismo, não o de falar de amor, mas o de achar que as palavras podem dizer coisas importantes que tem dentro dele, o de achar que tem coisas importantes dentro dele, ideias, conceitos, histórias, sentimentos, até. Despe-se de tudo isso e sai à rua. 

Não vai ao café, não cumprimenta os tipos do costume, "Bom dia, senhor escritor" não lhe assenta nesse dia. Está nú e não se sente bem com o cumprimento. Vai ao centro comercial, onde evita cuidadosamente as livrarias que lhe lembram das palavras que os outros têm para dizer. As que são melhores que as dele, principlamente, e lhe causam um ligeiro desprezo por si próprio. Compra uma camisa. Vai ao cinema, sem pipocas, não porque estas não lhe agradem mas por achar, apesar de tudo, que um escritor a sério não as come no cinema. Ele quer ser sério, medido pelo valor das suas palavras e não pelo número de livros que vende. Permitem viver, mas ele quer mais. Nos outros dias, nesses não.

Vê um filme inconsequente, claro. Alguma coisa com tiros. Se nada tem para dizer, também não quer ter nada em que pensar. Nem quer reconhecer que não tem nada em que pensar. O chiar de travões e as explosões violentas calam o silêncio. Come uma sandes, por vezes um hamburguer com uma cola e deixa-se ir na impressão de que faz parte da maralha. Sabe que faz parte da maralha, de que serve a ilusão? Se não dessa, doutra qualquer. Pode ser da que pensa que vale mais do vale. Formigas, todos. Volta já o sol se pôs e a noite está pronta para o tomar de assalto, com um whisky no sofá e ainda sem nada para dizer. 

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Balanço férias

Em véspera de retorno ao trabalho, talvez se justifique um balanço das férias.

Tinha as seguintes perspectivas:

  • apaixonar-me por Barcelona, nos 5 dias que lá passei;
  • descansar muito, em casa e sobretudo no campo, onde estive também 5 dias;
  • escrever desalmadamente, de modo a deixar o No Ano da Dançarina perto de estar terminado;
  • ler bastante.


O resultado foi:

  • não me apaixonei por Barcelona, o que me deixou muito triste. Bela cidade, mas... post aqui.
  • descansei muito e bem! Os 5 dias no campo foram fantásticos, com muito sol à beira da piscina e nenhuma preocupação, em relax total.
  • a escrita... não aconteceu, foi acontecendo; na semana passada, decidi que precisava de dar um agrande volta ao enredo, começá-lo noutro ponto no tempo (dois meses mais tarde), o que, num romance de época, implica grandes reformulações. Consegui reescrever o início, o que implicou mais umas 40 páginas. e ando agora a replanificar... isto é uma palavra? Ando a reformular o plano e a montar o puzzle dos capítulos já escritos, com reescrita e escrita de novos pelo meio. No que eu me meti! Acho que, refeita a planificação e antes de avançar, vou ter que pedir a alguém que me leia o plano e as primeiras... vá, 60 ou 70 páginas, para ver que tal. Há voluntários?
  • Quanto às leituras, li menos do que tinha planeado, mas, fazendo a lista, um pouco mais do que pensava. Então:


Livros físicos:






Fiz bem as minhas escolhas... é de dizer "poucos, mas bons". Muito, muito bons, Falta-me ainda fazer a opinião do último. Li ainda os contos todos de:

Desassossego da Liberdade


Só não cheguei ao A Espia do Oriente, que levei comigo para férias. Provavelmente será a minha próxima leitura.

Ebooks:
The Rosie Project, Graeme Simsion
The Unleashing, Shelly Laurenston
Castles in the Air, Christina Todd
Playing for Love at Deep Haven, Katy Regnery
Shards of Hope, Nalini Singh
Vampire Most Wanted, Lyndsay Sands

Para os ebooks contribuiu muito o facto de não apreciar montanhas russas, pelo que me fartei de lê-los no Port Aventura, enquanto a família andava de cabeça para baixo. 

Todos estes desapareceram da minha estatistica para este ano no GR, sabe-se lá porquê... como tal, não sei se li ou não mais destes livros de entretenimento! Destes, só não gostei realmente do Playing for Love, que achei um tédio repetitivo, porque todos os outros cumpriram muito bem os objectivos: relaxar e divertir. The Unleashing e Shards of Hope são de duas das minhas autoras de paranormal favoritas, por motivos diferentes: a Shelly faz-me rir (e já agora, a Lyndsay Sands também, só por isso é que leio) e a Nalini inventou um universo que me interessa.

E pronto. Com o regresso ao trabalho amanhã, já me daá a vontade de escrever e ler e as outras coisas que serão, decerto, um pouco mais difíceis...

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Coincidência curiosa...

E de repente apercebo-me de que, pela segunda vez, as férias no campo são acompanhadas por leituras, que, de uma forma ou de outra, me levam da beira da piscina para os campos de concentração da segunda grande guerra...  


No ano passado, li o maravilhoso A Centelha da Vida, de Eric-Maria Remarque (opinião aqui). 



Este ano, apanho-me com O Relatório de Brodeck, de Phillip Claudel, que não tendo a acção diretamente num campo de concentração, tem excertos de memória de coisas passadas num deles. Já me emocionei, claro, e, embora esteja longe de terminar, posso dizer que é mesmo muito bom.


E entretanto, consegui avançar um pouco com No Ano da Dançarina (note-se a pequeníssima mas significativa alteração no nome, de O Ano, para No Ano...) e fiz o encontro do novo início com o texto original. Já não estou em França, embora continue em Abril de 1918... E agora espera-me o duro trabalho de correção das cerca de 150 páginas de texto já existente, para que tudo faça sentido, antes de poder prosseguir a história.

E até já, que vou para debaxo do guarda sol, escrever enquanto o computador deixar, e depois junto-me de novo a Brodeck...

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Nem assim?

Com isto e de pernas ao sol, devia ser capaz de escrever mais e melhor.





Pois está difícil.  Estou agora sentada numa daquelas cadeiras, com um guarda sol e dois textos abertos - No Ano da Dançarina e A Grande Mão, um em fase de escrita, outro em eterna revisão. Mas a coisa sai devagar, muito devagar. Continuo... distraída. Começo a perguntar-me se o novo livro "sairá"... das minhas mãos, que a publicação são outros quinhentos, nunca assegurados. Ou quando. Nada de importante, claro, a não ser para mim. Talvez.

Trouxe O Relatório Brodeck (que já tinha começado) e A Espia do Oriente. Vou lendo um bocadito, pronto.

sábado, 1 de agosto de 2015

O escritor e o reflexo

O escritor dá uma olhadela inadvertida ao espelho da entrada, vê o seu simulacro familiar e compõe por instinto o cabelo. Fica aborrecido. Não lhe importa o aspecto que tem, nem se recorda de quem determinou que aquele era um bom lugar para pendurar um espelho ou desde quando lá está. Desde sempre? Repete que o vai tirar dali, sabendo que se esquecerá disso assim que fechar a porta. Lembrar-se-à quando voltar a abri-la e se enfrentar, para depois voltar a esquecer-se.  É um jogo com a memória das coisas relevantes, cujo desfecho lhe é indiferente. Não se importa com o seu reflexo. 

Continua ali, todavia, olhando-se. Agora tem as mãos nos bolsos, não alisa os vincos do rosto ou da Tshirt. Pergunta-se se deveria atribuir significados ao gesto de observar-se. Não descobre nenhum, embora saiba que a maioria os inventa e se reinventa dentro do espelho. Poucos se guardam num espelho como são na realidade. A ele não faz diferença e, no entanto, talvez esse espelho tenha uma função, mostrar-lhe que ainda existe ou lembrar-lhe a passagem do tempo. Ri-se de si próprio. É um cliché, afinal, como outro qualquer. Como ter um espelho na entrada. Lembra-se de que há  anos escreveu um conto sobre uma mulher apaixonada por um espelho. A mulher ama a moldura antiga de talha dourada, a superfície lisa e brilhante, a eternidade que vislumbra dentro dela, na possibilidade do reflexo repetido, o tempo todo contido dentro dele. A mulher vive no tormento dessa paixão e do ciúme pela figura dentro do espelho, que, sabe bem, não é ela. Parece-se com ela, uma versão envelhecida dela, e essa é a maior das traições. Acaba muito mal, esse conto, num acto de homício tresloucado que destroi o espelho traidor e a mulher dentro dele e depois usa o corpo qubrado do seu amor para pôr fim à sua vida.
  
Hoje não escreveria esse conto, parece-lhe que lhe deu um fim demasiado apertado. Deixou de gostar de portas fechadas nos seus textos, só conhece uma porta que se fecha em definitivo e não tem pressa em atravessá-la e cerrá-la atrás de si. Tranca em vez disso a de casa, com sarcasmo na ponta dos dedos.  Sabe porque continuará ali o espelho. Tem visto a sua figura mudar nele diariamente e, por isso, parece-lhe que nada mudou nela nos últimos anos. Congelou algures da década de 90, quando era jovem e as histórias como essa da mulher ciumenta eram comboios desgovernados de ideias, e o espelho insiste em devolver-lhe ainda esse homem impossível. Não sabe onde reside essa ilusão teimosa, se na superfície reflexiva, se no negativo nos seus olhos, mas gosta de ver-se nesse engano, agora que as palavras já não lhe chegam como antes, que o bloco que leva sempre consigo não se abre em qualquer parte para registar um impulso repentino e tem dias como esse, de fim de Verão, em que nem a secretária perpendicular à janela por onde o sol e canto dos pássaros lhe invadem a casa lhe abrem caminho para elas.   Vai tomar um café, ouvir falar de futebol. Não lhe interessa o futeol, não gosta da conversa no café da esquina, mas está cansado de ideias.


sábado, 18 de julho de 2015

O escritor e o autógrafo

Quando a mulher se afasta com o autógrafo e uma pergunta por fazer, que ele adivinha na expressão mas não incentiva, o escritor pensa que devia ser mais simpático. Depois o leitor seguinte aproxima-se e ele muda de ideias, como já fez tantas vezes, parece-lhe que assim é que está bem e assina, sem dedictória e sem conversa, só um rabisco e a data e o homem, desta vez um homem, são sempre menos mas ele ainda os tem como leitores, segue quase passo a passo o caminho da mulher antes dele e desaparece na multidão na larga entrada da livraria. O escritor acha que leva uma expressão indiferente. Talvez o livro afinal não lhe interese e lhe tenham encomendado o autógrafo. Tanto faz. 

Assina assim vários volumes do seu último livro, em silêncio, como se não estivesse ali. Não está, pelo menos na totalidade, parte dele continua perpendicular à sua janela, sentado a ver a chuva cair em vez de escrever.  Outro livro pousa à sua frente e a mulher que o trouxe sorri-lhe, ele retribui porque o livro que ela trouxe não é o novo. É o seu primeiro. Fá-lo com parcimónia, porém, não quer que o leitor seguinte lhe exija o mesmo. Raramente olha para os rostos, em geral vê apenas as mãos, a maioria feminina e bem cuidada, unhas lacadas nas mais variadas cores, de quando em quando uma sem adornos, a espreitar de um punho de camisa de homem. Prefere essa aura de distância e indiferença, que o afastam da vulgaridade do mundo. Pensa que é melhor que pensem que o escritor vive num mundo aparte. Que não vai às compras e não usa a casa de banho. Que vive de letras, alcoól, escassas horas de sono, cigarros. Ele não fuma. Bebe um pouco, talvez, dorme muito mais do que devia, por vezes fora de horas.

E é melhor que pensem que pouco se importa com os livros ou o que deles pensam os que os leem. E no entanto, ali está ele, a assinar volumes, precisa que lhos comprem ou terá que empregar-se numa coisa qualquer. Por ora não precisa. Ocorre-lhe que tambem aquilo é trabalho, e fora de horas. É Sábado e ali está ele outra vez. Na véspera foi outra cidade, outra grande livraria num espaço comercial. Amanhã será outra. Por um momento, sente-se uma pop star, em tour pelo país. Ou afinal é estrela pimba, o autor de elite? Pergunta-se se terá corado. Tem o impulso para levantar-se  e abandonar a fila de gente que ainda espera. Passará pelo escritor caprichoso, que faz tudo a seu bel-prazer. Ingrato e talvez um pouco louco. Servir-lhe-à essa fama? É um passo adiante da que agora tem e tanto lhe custou a cultivar. Não consegue decidir. 

Outro leitor, mais um homem, estende-lhe o livro aberto, murmura um nome que ele não escreverá e aguarda. Ele aceita o livro. 

sábado, 11 de julho de 2015

O escritor compõe a história

O escritor tem de compor a história. Andou com o enredo para trás e para a frente, imaginou, reconstituiu, saltitou, transformou-o numa salganhada com buracos pelo meio. A história olha para ele, o escritor olha para ela e vê um Picasso, sorte teria se o seu trabalho valesse tanto, mas vê-o assim, tombado, a precisar de puxar narizes e orelhas para que se entenda. Uma figura desfeita está muito bem numa tela, nos seus livros não serve. Tem de compô-la, mas primeiro tem de encontrar outra palavra para o que vai fazer. Compor soa-lhe caseirinho, compor flores numa jarra, compor a roupinha. Tem um sabor entediante a normalidade e rotina. Pensou nisso nessa manhã no duche, à janela, à sua mesa no café da esquina, pensa nisso há horas na sua secretária perpendicular à janela. 

Estica os braços acima da cabeça, para fazer estalar as costas. Doem-lhe, é o preço que o corpo paga. A cabeça paga outro, mais alto. Tem uma sensação familiar de impotência que lhe vem só da preguiça. Não lhe falta o texto desta vez, como lhe contece por vezes antes da história se desenhar. Tem um plano mas não lhe apetece cumpri-lo. Não lhe apetece cumprir nada nesse momento, nem sequer os rituais do dia. Levanta-se e vai ouvir o dia à janela. Os pássaros estão mais sossegados agora, a manhã quase se esgoltou e o calor já os empurrou para as sombras das folhas. Tem sono, apesar de ter dormido muitas horas, talvez seja a terrível canícula de Julho na cidade ou talvez seja a necessidade de compor que lhe rouba a energia. Talvez devesse ir viver para o campo ou, porque ama a cidade, talvez devesse ficar ali e escrever outra coisa, até lhe chegar a coragem para atacar esta de frente. Sai da janela e vai meter a cabeça debaixo da água fria. Pensa que tem de cortar o cabelo em breve, quando o sente a pingar sobre a T-shirt. Está grande. 

Volta para o texto, a pensar em desistir e sabendo bem que não o fará. Não por ter algum amor em particular por esta história, depois de tantas é mais uma. Vai ser boa, se a acabar, mas há muito que nem as boas histórias lhe suscitam emoção e é melhor assim, parece-lhe. Se a demolirem depois de deixar de ser sua, ou se a ignorarem, não lhe custrá mais do que sua vaidade. 

Não a abandonará, portanto. Já se enrolou antes e nunca desistiu, já compôs outros enredos, raio da palavra, não encontra outra. Que escritor é ele afinal? Já lhe aconteceu precisar até de reescrevê-los, para encaixar tudo nos sítios certos. às vezes era como fazer um puzzle sem ter a certeza de ter todas as peças, e ele nunca teve paciência para eles. Mas é assim que escreve, embora não o confesse. Estão convencidos de que é escorreito e imediato, o texto da cabeça para o livro impresso em linhas direitas. Tem muitos livros publicados e nenhum foi assim, mas o mito fermentou e, como lhe agrada, deixou-o viver. Talvez um dia seja desmascarado, talvez morra velho com a fama colada a ele. 

Por ora, vai buscar um copo de água e senta-se outra vez à secretária, sentindo falta do tumulto da passarada. Levanta os dedos e, após um momento de hestitação, cansa-se também disso, das hesitações, retoma o trabalho industrioso de compor o que está descomposto.

Levanta-se, para desentorpecer as pernas. Apetece-lhe um café, mas não gosta dos que se fazem em casa e não quer ir ao café outra vez. 

sábado, 4 de julho de 2015

O escritor no café do bairro

No café do bairro pode-se fumar. O escritor, que não fuma, prefere essa liberdade que lhe lembra outros tempos e é ali que vai, todas as manhãs, beber a bica e ler A Bola, antes de ir sentar-se à sua secretária perpendicular à janela, de onde mesmo assim lhe vê a porta. 

Há anos que o faz. Conhecem-no pelo nome e sabem o que faz. O dono tira a bica antes de lha pedir, põe-lhe o jornal na mesa sem lho pedir e traz à conversa o Benfica assim que o vê pegar nele. O escritor não gosta particularmente de futebol e nem sequer é Benfiquista, lê para lhe ocupar os momentos e poupá-lo às conversas. Com o jornal não consegue, claro, o dono do café tem sempre muito a dizer. Às vezes traz um livro, o que é um pouco mais eficaz a isolá-lo. Um olhar perdido ou uma cara de louco também resultariam, mas o escritor não sabe como isso se faz nem quer para si essa fama. O escritor louco é coisa de outra era. 

Atira um bom dia assim que entra e há sempre uma resposta, duas, às vezes mais. Acham-no simpático, tanto que nessa manhã uma velhota que vive uns prédios mais diante, já a cumprimentou à porta de casa, lhe prometeu um saquinho de biscoitos. Que os fazia aos tabuleiros desde a morte do marido há quatro anos, para se ocupar, mas ele sabe que ela os vende e ofereceu-se para comprar. Que não, que não, que era com muito gosto. E bebericou o carioca com um sorrisinho. Deve achar, e com razão, que ele não tem de momento quem o presenteie com um mimo desses. Com mimo nenhum, aliás. E acha-o simpático, para escritor. Muito acessível. Muito normal.

Ele acha-se normal, sim, para fraude. É-o como escritor, claro, mas isso são-no todos, as palavras asseguram-se que nada do que está escrito é realmente o que existe ou o que se pensa ou se sente. A escrita é um meio esvaziador. Quando, por exemplo, o amor chega ao papel, já vai vazio de amor - reduziu-se às palavras que falam do amor. Quando a descrição de uma mulher é lida, a mulher que cresce atrás dos olhos do leitor pode ser loura e baixa, como a primeira, e ter olhos verdes, mas é outra.  Mas não é nisso que ele é fraude, porque nisso não podia ser outra coisa. 

É a pessoa que engana. Que é simpático, que é acessível, que é merecedor de um saquinho de bolachinhas caseiras.  Não é. Ou acha que não é. Não sabe. Cada um vê o que vê, e ele executa todos os gestos da criatura simpática. Sorri e cumprimenta, com o vazio atrás dos cumprimentos. Escuta a conversa sobre bola e responde, sem se interessar. Interessa-se às vezes por outros temas, mas do que gosta é do silêncio. Aceita as bolachas, e vai comê-las, mas não entende porque lhe são oferecidas. Preferia que não fossem, não sabe como agradecer. Não sabe como agradecer o orgulho de servir a bica ao escritor, senhor escritor, como está, para quando um livro novo, quando nem como escritor é muito bom no engano.

Acha que devia deixar de ir ao café do bairro, onde o conhecem, procurar cadeiras novas, gentes mais apressadas. Parece-lhe, porém, que não o fará. Não sabe porquê. Talvez até nisso seja uma fraude e encontre, afinal, algum conforto no desconforto familiar de ter identidade.


terça-feira, 30 de junho de 2015

O escritor não sabe o que fazer


O escritor recosta-se. As costas do assento são confortáveis, talvez demasiado, e ele suspira e contempla, desconfiado, o branco à sua frente. Quer enchê-lo de linhas escuras, mas hesita. Não sabe onde elas estão.

Não é verdade. O escritor não sabe é o que fazer, se há de escrever as histórias que esperam na sua cabeça, se há de escrever a alma. Não gosta da palavra, mas por ora não tem outra. Acha que devia fazer as duas coisas juntas, mas não lhe apetece. As suas histórias têm demasiada luz, se a deixa cair sobre a alma, luz diurna sobre a escuridão, pensa aqui que precisa de outra imagem menos batida, mas está vazio de palavras nessa manhã. Se calha cair luz sobre a alma, pode obliterá-la ou, pior, deixá-la exposta em todos os seus ângulos agudos, fundas brechas, côncavos e convexos, e ele não está pronto para vê-la assim, em toda a sua resplandecente miséria. Sorri, feroz, desagradado. Não é só a palavra que lhe desagrada, não gosta por ir além da coisa em si. Talvez esteja apenas cansado de conviver diariamente com o que tem por dentro. Poderá divorciar-se de si? Fixa outra vez o branco. Ali pode. Até pode ser temporariamente intrépido.     

Alinha duas ou três palavras. Parece-lhe que se conseguir passar disso, terá aberto uma fenda no dique e outras se seguirão. Não faz ideia se será assim ou não ou que se precipitará nessa manhã. Acha também que devia obrigar-se a escrever, uma hora por dia, duas, mais, mas não tem método. Nunca teve. Duvida de si também por isso.  

Levanta-se para ir buscar um café. Apetecia-lhe um whisky, mas é cedo ainda e ele não quer a imagem do escritor boémio. Nada tem de boémio. Talvez seja por isso que lhe falham as palavras. Talvez um homem comum não tenha nada dentro de si, a não ser histórias brancas e uma alma preta.  E medo, quase sempre. Recosta-se na ombreira da janela aberta sobre um estreito varandim de ferro verde, recortado, a beber o café. Está quente. Do lado de fora, numa das árvores plantadas num círculo de terra no meio dos paralelipípedos do passeio, um pássaro trina a sua excitação. Sente simpatia por ele. Está um belo dia. O escritor pensa que seria feliz se tivesse ao menos um terço desse entusiasmo e irrita-se. Oxalá o bicho fosse cantar para outro lado, é triste que até a passarada se ria dele.

Volta-lhe as costas, vai sentar-se à secretária perpendicular à janela para, segundo lhe disseram, receber a melhor luz. Recosta-se. A cadeira é confortável, talvez demasiado, e ele suspira e contempla o branco à sua frente. Continua desconfiado, mas agora está também irritado. Não pode calar o pássaro nem lhe apetece fechar a janela. Ao branco, quer enchê-lo de linhas escuras, afinal sabe onde elas estão, mas hesita.   

quinta-feira, 18 de junho de 2015

ter para dizer

Seria incoerente que me opusesse a que um escritor coma do que escreve, o que me parece, isso sim, condenável, é que escreva quando não tem nada para dizer.
José Saramago



Claro que o autor achar que tem algo para dizer e os outros acharem que ele tinha alguma coisa para dizer são coisas diferentes. Quem decide se o que se disse é ou não alguma coisa? Aí é que a porca torce o rabo e aí é que eu, a autora, me acagaço. 



domingo, 22 de março de 2015

Do velho se faz novo

Se calhar isto é assim mesmo.

Em Dezembro comecei, animadíssima, a escrita de um novo romance de época, que, na altura, via como uma continuação para O Cavalheiro Inglês. Situei-o em 1918, no fim da Primeira Grande Guerra, ano terrível da gripe espanhola. Estudei a época. Coloquei como personagens centrais os filhos dos protagonistas d'O Cavalheiro. Criei um conjunto de outras personagens, congeminei uma intriga central (mal alinhavada, incompleta) com as reviravoltas que faziam sentido nesta época e algumas secundárias. E avancei. 

Avancei ao todo 56 páginas e parei. Sem saber porquê, perdi a vontade, perdi a confiança no texto e na minha habilidade para levá-lo a bom porto. Não foi por não gostar das personagens - factor essencial para conseguir escrevê-las - ou da época, que é muito interessante. Cheguei a pensar em abandonar completamente a história. Depois em abandonar a escrita, o que me seria impossível. Envolvi-me, então, em mais uma revisão de A Grande Mão, o meu comfort book para todas as ocasiões.

Esta manhã, ainda nem estava inteiramente desperta, tive uma espécie de epifania. Não posso fazer uma continuação de coisa nenhuma, porque não gosto de escrever continuações! Era um erro. Era preciso mudar - e mudei. 

Resultado de imagem para la dansarina gripe pneumónica
Continuo a ter a gripe espanhola, o pós-guerra e as greves como centro da acção. A história de amor mantém-se entre as mesmas personagens, mas com outras nuances. Vou matar a mesma pessoa neste novo enredo. Mas a família é outra, tem outro nome e já nada tem a ver com os Silva Andrade. Há uma segunda (pequena) família, e esta não é rica. Os primos passam a irmãos, são muitos, surgem novas personagens, uma nova intriga, há coisas que iam desenvolver-se de uma forma e se desenvolverão de outra. E até lhe encontrei um nome... outro nome provisório: O Ano da Dançarina. A dançarina, esclareço, não é personagem, mas um dos muitos nomes da pneumónica (la dansarina).

Vamos ver se agora - quando entrar na pausa das actividades lectivas, consigo refazer as 56 páginas já escritas e avançar. E se desta vez a coisa pega. 

sábado, 21 de março de 2015

Dia Mundial da Poesia? Pois então um quadro e quase um poema


No Dia Mundial da Poesia, fica um quadro que é um poema de luz, forma e cor, de um enorme poeta das imagens. 


Hotel Room, de Edward Hopper, 1931


O que lês, mulher? 
Ficaram palavras no seu lugar?
Está na linha dos teus ombros
nos polegares hirtos. 
Que escassa a cor 
dessas palavras, que indolente
a lâmina que te fere.
Não compreendo.
Pousa dobrado esse abandono
ou hão-de sufocar-te 
as paredes de luz 
as sombras de corpo
as ilusões que ainda ontem 
arrumaste em papel de seda.
Ontem ainda o seu corpo era o meu.
E tu lês, mulher, lês
enquanto elas se cobrem
de cinzas incrédulas,
e a luz procura os teus joelhos juntos
Ontem ainda eram de fogo as suas mãos. 
Desarruma o mundo, mulher,
e segue, mulher, segue, mulher, segue,
que  a ausência é fria e impiedosa nos lençois.
Ainda ontem era de sangue o seu amor.
Desalinha o corpo, 
move um ombro, aperta as mãos,
erverga se quiseres o vestido de ontem,
que tempo desse quadro acabou.
O comboio das dez suspira e chama,
e ele não te espera na estação.


E agora ide, ide ler um poema de verdade.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Mal(es) de autor. Não, desta autora.

Há muitos, uns piores do que outros. Só a BRINCAR, vamos ver de quantos padeço...

Do mal de presunção ou da arrogância dúvido que alguma vez sofra. Talvez do oposto, que isto é uma luta e, havendo muito quem, muito naturalmente, não goste do que faço, elas não matam mas moem.


Do mal de uma escrita emproada tentarei por todos os meios escapar. Não é preciso provar a erudição, originalidade e elevação a cada linha, MAS é preciso escrever bem, portanto...

... contra o mal de má escrita trabalho arduamente. Se me acontece ou não, julgará quem ler. Agradeço o aviso, se me estampar.

Também trabalho arduamente contra o mal do enredo entediante. Não tenho nada, nada contra a previsibilidade, que em alguns géneros é expectável e conforta, mas ser (mais ou menos) previsível não significa ser aborrecido.

Idem para o das personagens bi-dimensionais ou ocas. Quero escrever pessoas, não bonecos de cartão.

Do mal de repetição, mal de fórmula, fujo como o diabo da cruz. Conto com quem me vai lendo para me dar um pontapé nas canelas, se começar a repetir-me.

Do mal do espartilho de género não sofro enquanto leitora, não quero sofrê-lo como escritora. Veremos o que me traz o futuro.

Do mal da "impublicação"... bom, desse mal posso muito bem sofrer, não depende de mim. Eu escreverei, outros publicarão ou não.

O mal da ansiedade é uma inevitabilidade para mim. "Mas estão a lê-lo ou não?" "Está bem feito ou não?" Invejo os autores desligados e ultra-seguros, anseio ser como eles um dia, mas não vejo como.

Do mal da dúvida... ai o mal da dúvida! Das dúvidas, tantas, tantas, e afinal quem as não tem? Vale a pena? Devo continuar a publicar (ou tentar)? Onde é que encontro o tempo? A motivação? Devo "assumir" um género, que afinal é o que tem vindo a ser publicado (ai o temor da fórmula!) ou escrever o que, no momento, me dá na real gana, sabendo que dificilmente encontrará saída? Desta amostra se vê o que me tem vindo a assaltar.

Do mal do vazio, vulgo bloqueio. Como o temo. Ainda não estou bem lá, estou meia cheia, mas com um entupimento qualquer à saída. Podem ser os dois males anteriores a arrastar este.

E outros? Estão à vontade para apontá-los, assim, a BRINCAR, como eu.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

a medida para o mundo

Abres os olhos para um dia indeciso, nem sol nem chuva, e ficas tu próprio indeciso sobre sair da cama ou permanecer no calor do corpo, que tão bem te acolheu enquanto dormias. Fechas os olhos e voltas a abri-los. Já não dormes. 

A luz lá fora provoca-te, não gostas de perder horas do dia. Há coisas para fazer, ou coisa nenhuma para fazer, a não ser estar desperto. Há que estar sempre desperto, essa sensação diária de ter o fim da vida lá, tão longe, algures na bruma indistinta de um futuro distante, quando os anos te tiverem dobrado ao meio e vincado de rugas, de ser afinal eterno até lá, não é real. Todos os minutos são preciosos, cada fôlego. Tens uma noção clara da tua mortalidade por um segundo e a guinada do medo é aguda no estômago. Empurra-te pata fora da cama, vais lavá-la do teu corpo. Sabes que és movido pelo medo, um medo debilitante, e não gostas. É preciso mais do que isso.

Tem pouco importância o que tens para esse dia. Ficas grato, aliás, se nada vier perturbar o fio das horas. Não precisas de movimento, não precisas de companhia. Precisas apenas de estar contigo e respirar, de te perderes dentro da tua cabeça. Tens o mundo inteiro na cabeça em palavras, nas nervuras do teu cérebro desenham-se em letras de imprensa todas as viagens que fizeste, todas as viagens que poderias ter feito, todas as que talvez ainda faças, se esse medo não te amarrar os pés. Tens o azul translúcido e brando, tens as vagas enormes de um mar zangado e o cheiro a maresia de oceanos distantes, tens a força de troncos de árvores, a explosão de verdes, as sequóias e bétulas e salgueiros e pinheiros bravos das florestas de toda a parte, tens o odor do asfalto e as linhas direitas e altas, o refulgir do vidro no cimento de edifícios modernos, os requebros e o colorido surpreendente das fachadas restauradas, tens as lojas e as feiras, e tens a fome dos bairros desfeitos de todas as cidades do mundo, tens corpos, olhares, gestos. Respiram todos a um só tempo, prenhes de vida das coisas inertes e das coisas móveis, da inteligência dos bichos e da inteligência do homem, das memórias encerradas em pedra e letra e das outras, passageiras, que se hão de esgotar nos milhares de milhões de últimos suspiros. E tu sabes, são todas tuas, porque, mesmo encerrado em ti mesmo, a todas imaginas. Essa infinda, incontrolável, invencível imaginação. Essa estranha empatia que por vezes te sufoca e te faz virar a cara e parecer insensível. Frio como um peixe.

Lembras-te do que ouviste certa vez, todos os lugares são iguais, viste um, viste todos. Sabes que é verdade, porque os viste todos sem teres visto a maior parte. E a mais absoluta das mentira. Nenhum lugar é igual, movem-se a ritmos diferentes, têm na alma diferentes canções, enchem-se de gente que nasce toda na dor e no sangue, entre as pernas de uma mulher, e depois cresce para a diferença. Ilusória diferença que atira corações e fígados e rins e pulmões feitos da mesma massa para lados opostos da existência, destinos feitos diferentes pela invenção. Fronteiras de terra e de oportunidade e de sexo e de crença. É de gente, tu sabes, que há muito se fazem os lugares. O que de bom isso tem, tem de mau. Mas não importa, mal e bem cabem-te na imaginação.

Sais para a rua e afinal está sol. Pensas nas partes do mundo em que está sol, nas partes do mundo que sucumbem sob o excesso de sol, nas partes do mundo que se enterram em neve e de água. Naquelas em que nada disso importa, importa viver outro dia. Sabes que pensas nelas à medida do homem, de ti próprio, será assim enquanto as coisas te vierem em palavras. A palavra é a tua medida para o mundo, para o conteres e para o devolveres. Sabes que estás fechado dentro de ti com todas elas, bem contidas na sua diversidade. Sorris. Hoje talvez seja manhã de palavras. Talvez não, mas não importa. Amanhã vencerás outra vez o medo ao despertar. Amanhã o mundo cá estará contigo, 
  

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

As renas teimosas (conto infantil)

O "presente" do monster neste Natal é um pequeno conto natalício. Escrevi-o há anos, para os meus filhos, quando estes ainda eram pequenos. Teve direito a um livrinho artesanal com desenhos meus, que ainda deve andar lá por casa, na desarrumação da estante de um deles. Aqui fica. Se gostarem, leiam-nos aos vossos meninos. Feliz Natal!

Todos os meninos sabem que, na véspera de Natal, sem falhar, desde que há Natal no mundo, São Nicolau põe todos os brinquedos no seu trenó, junta as renas à sua frente e, juntos, correm os céus para entregar brinquedos nas chaminés e janelas das casas que celebram esta data. São muitas renas e muito especiais, porque são rápidas como o vento e tão espertas que até sabem falar.
Certo Natal muito frio, estavam as renas reunidas-se no seu redil no Pólo Norte, a conversar sobre a noite seguinte, quando uma rena muito grande e sempre mal disposta resmungou:
- Pois eu não sei porque é que temos que andar por aí numa noite tão fria. Os outros animais ficam nas suas casas!
Continuou a protestar, a protestar, contagiando cada rena com a sua irritação. Umas diziam uma coisa, outras diziam outra e às tantas diziam todas o mesmo, mas não se entendiam! Fizeram tanto barulho que as luzes na casa de Nicolau se acenderam e ele saiu, de camisa de dormir e grandes pantufas encarnadas. A barba branca e as bochechas brilhavam ao luar.
- Mas o que é que se passa aqui? Preciso de dormir, amanhã é a grande noite!
- Tio Nicolau, - disse uma rena de hastes tão grandes que chegavam aos ramos mais baixos do abeto - nós este ano não queremos andar por aí na véspera de Natal. Não vamos contigo entregar os brinquedos. Temos frio!
O Pai Natal ficou muito admirado e muito aflito.
- Mas, queridas renas, vocês dormem sempre na rua! E...
Um coro de protestos interrompeu-o. Que não era o mesmo, que lá em cima nos céus estava mais frio, que estavam fartas.
- Mas então como é que eu levo os presentes aos meninos? Eles vão ficar tristes este Natal?
As renas pensaram e pensaram.
- Vai de carro. – sugeriu uma lá do fundo – Os carros são rápidos e não têm frio como nós!
- Os carros não voam, renas! Como é que eu vou  atravessar os oceanos para levar os brinquedos até ao fim do mundo?
Uma respondeu, numa vozinha atrevida:
- Então vai de avião. Os aviões voam.
O Pai Natal abriu muito os olhos. As renas estavam a gozar com ele? Que ideia tão estranha! O Pai Natal, de avião? Nunca se tinha visto tal coisa. A perder a paciência, lembrou:
- Os aviões passam lá muito em cima! Com um avião, eu não consigo chegar às chaminés e muito menos às janelas. Como é que eu entregava os brinquedos? Se os atirar, partem-se, e ainda posso enganar-me na casa... E se a Marianinha fica com o carro vermelho e o Luís com a boneca dela?
As renas ficaram muito aborrecidas. Já não tinham mais nenhuma ideia, mas eram muito teimosas e por isso bateram o pé... ou o casco, que é o que as renas têm no fim das pernas!
- Pois, nós não sabemos como vais fazer, tio Nicolau, mas queremos ficar em casa. Temos muito frio e vamos ficar por aqui.
Nicolau ficou a olhar para elas, muito triste e zangado e sem saber o que fazer. Era um problema, aquilo. Uma das renas, que já era um bocado velhota e estava com ele há muitos anos, furou pelo meio das outras até à cerca e sorriu para ele, daquela maneira especial que as renas falantes têm de sorrir.
- Eu estou velha e com pouca força, Nicolau, mas vou contigo. Nós os dois vamos conseguir levar os presentes aos mais pequeninos.
Nicolau, tão preocupado que nem notava o gelo na barba e sobre os seus cabelos brancos, respondeu:
- Obrigada, minha querida, mas sabes... é impossível. Há tantos meninos no mundo, e só os dois, com o trenó tão pesado, vamos muito devagar de certeza.
Olhou para as renas, que baixaram a cabeça, um pouco envergonhadas mas cheias de teimosia, e voltou-lhes as costas. Já não dormiu mais nessa noite, mas não conseguiu descobrir nenhuma solução. 
A noite seguinte estava bela, com uma lua muito gorda e brilhante reflectida na neve muito branquinha, e muito fria, mas Nicolau nem notava, só via a montanha de presentes no trenó. Sacudiu a cabeça, desanimado, ajeitou o gorro e atrelou a sua única rena fiel. Estalou a língua e sairam os dois, a rena bufando e suando para arrastar todo aquele peso. Iam levar aos meninos tantos brinquedos quantos pudessem. Enquanto se afastava pelo céu escuro, Nicolau pensava que aquela ia ser a noite de Natal mais triste de sempre.
Da janela, as renas viram-nos afastar muito devagar, a muito custo, e ficar cada vez mais pequeninos, mais pequeninos, até desaparecerem no horizonte. Tinham entrado em casa de Nicolau, como faziam sempre depois de entregar os presentes, para se sentarem à frente da lareira bem acesa e quentinha, mas o calor não lhes chegava ao coração, que lhes pesava como uma grande pedra de gelo. Já não tinham muita certeza de terem razão. Levar os presentes aos meninos era um trabalho muito importante. E, afinal, lá em cima no céu estava sempre frio... era assim mesmo, desde sempre, e elas nunca se tinham importado. Gostavam de voar nos outros dias e tinham orgulho do seu trabalho. De onde lhes viera a ideia de ficar para trás?
- O que é aquilo ali? – perguntou uma rena mais pequenina e curiosa, ainda à janela.
Sairam lá para fora e viram, debaixo do grande abeto decorado lá fora, muitos pequenos presentes. “RENA”, era o que estava escrito em cada um. Muito admiradas, porque sabiam que não se tinham portado bem, rasgaram o papel com a boca e descobriram... belos cachecóis quentinhos, gorros de lã especiais para renas e lindas pantufas, quatro para cada, para aquecer as suas patas preguiçosas.
- Ai,ai,ai,ai, ai... – queixou-se uma rena e, num instante, todas se queixavam.
Estavam muito, mas mesmo muito envergonhadas. Tinham sido tão teimosas e o Pai Natal, mesmo assim, não se esquecera delas e daquilo que elas mais desejavam: estar quentinhas nesse Natal. A rena grande e resmungona ficou calada e as outras conversaram durante um bocadinho.
- Vamos?
- Vamos!
Puseram nas patas as pantufas, nas cabeças teimosas os gorros, enrolaram os cachecóis nos pescoços e saíram atrás de Nicolau, pelo caminho que sabiam de cor. Encontraram-no logo a seguir. Tinha andado pouco, com aquele trenó tão carregado e só uma rena, ainda por cima a mais velha e cansada de todas as renas, e estava parado mais adiante para deixá-la descansar. Nem um presente fora entregue ainda e Nicolau suspirava de desânimo. Pousaram ao seu lado.
- Desculpa-nos, Nicolau, desculpa-nos. Nós fomos casmurras, mas estamos arrependidas e queremos ajudar-te a levar os presentes. Podemos? Vamos a tempo?
Ele soltou uma gargalhada, as grandes bochechas brilhando de felicidade.
- Estou um pouco desapontado convosco, minhas amigas, mas nesse momento isso não importa: o que importa era o Natal dos meninos! Vamos embora! Depressa!
As renas alinharam-se na sua posição habitual, com a velha rena entre elas, sorrindo o seu sorriso de rena, Nicolau atrelou-as, a rena de nariz brilhante à frente, a apontar o caminho, com a cabeça bem erguida, e partiram e direcção às estrelas, para que todos os meninos tivessem Natal.