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sábado, 22 de julho de 2017

Aventurar-me - os desafios

De vez em quando sou acometida de uma certa inquietude, e de vez em quando sou forçada a ela.

A minha vida tem um lado familiar muito estável e um lado profissional que, a espaços mais ou menos regulares, ameaça revolução. Sou professora há mais de 20 anos, quase 22, mas não pertenço ao Quadro de um escola: sou Quadro de Zona, o que sognifica que, a cada concurso, sou colocada perante a eventualidade de mudar de escola, sem o desejar. Claro que, com todos estes anos de profissão, estou já bem colocada para fazer as minhas escolhas, mas entre a probabilidade e a certeza vai uma distância que é monstruosa, para quem espera.  Tenho sonhos esquisitos na véspera da "rande revelação", bate-me o coração que é um disparate enquanto consulto a lista maldita, dividida entre a esperança de continuar na minha querida escola e o medo da interferância de algum espírito maligno  ter forçado toda a gente que está à minha frente a fazer as mesmas escolhas do que eu, e me ter atirado para alguma escola que não escolhi, mas já estou acostumada a isto e aprendi, há muitos anos, a não me afligir por antecipação.

Há, porém, outros desafios, que estão relacionados com a minha segunda ocupação, a escrita - não posso chamar-lhe profissão, quando não vivo nem viverei dela - que é muitas vezes a primeira no coração, perdoem-me todos os alunos de quem gosto tanto. É uma missão pejada de dificuldades e impedimentos, que são causados muitas vezes pelo meu ganha-pão, de dúvidas terríveis quanto à pertinência do que faço, de cansaços e desapontamentos, quando se constata que o nosso trabalho teve uma recepção boa, mas limitada (e sim, estou a falar deste último, de que eu e os leitores parecem gostar, mas teve muito pouca saída), mas é, ao mesmo tempo, uma compulsão, que se alimenta de si própria e das pequenas recempensas, de uma opinião agradável ou de um pequeno reconhecimento. 

Esta ocupação coloca desafios sérios e muito estimulantes à minha personalidade um tanto instrospectiva e às minhas naturais inseguranças: é preciso, de quando em quando, sair da minha casca para comunicar com os leitores, que, decidi, não hão-de adivinhar a minha timidez. É um exercício cansativo, que me surpreende sempre com uma certa vontade de fugir a meio da coisa. Depois passa e reconheço, no fim, o bem que me faz. É preciso atirar-me de cabeça, ocasionalmente, a tipologias de texto que nunca antes contemplara redigir, como o conto ou, recentemente, a crónica,  nada fácil para quem é escritora de romance, de dissertação, de artigo científico (embora há muito que não o faça, com grande pena minha) e do ocasional poema desafinado. Mas faz-me bem. Faz-me bem. 

E depois, há aquele empurrão que vem precisamente quando nos sentimos estagnados.  Afigura-se uma mudança no horizonte, que é também uma permanência: como mudar de casa, para acompanhar a família. Veremos o que muda, o que se mantém, para além da gente maravilhosa. Vamos ver também se posso acompanhá-la com uma pequena variação noutros aspectos, mas disso vos darei testemunho em breve. Para já, talvez esta seja a mudança de que necessito num momento de particular indecisão quanto à escrita... Vamos ver se este empurrão me põe por fim na trilha certa!

quinta-feira, 6 de julho de 2017

O prazer de escrever por escrever


Tenho umas quantas razões para não estar em idílio perfeito com a escrita. Corrigo: com a publicação. É preciso distinguir uma coisa da outra com muita clareza: a escrita não me entristece, é uma catarse, um prazer, uma necessidade, a publicação é sempre uma incógnita, porque depende de muitos factores, da minha vontade, das decisões da editora, do mercado, das vendas, etc, etc, e traz-me tantos prazeres como dissabores. 

Os últimos livros que escrevi e publiquei, sobretudo O Ano da Dançarina, foram trabalhosos do primeiro ao último dia, um labor intenso de pesquisa, escrita, conjugação entre facto e ficção, edição, revisão, correção... Neste momento, tendo em conta os resultados mais recentes (os números, não as opiniões, que parece que não batem certo, opiniões excelentes e números que... enfim), tenho mais perguntas do que respostas. Estou consciente de que esta honestidade pode não me favorecer, mas há momentos em que é, ao menos, libertadora. Não vou fingir uma indiferença que não tenho nem entendo, porque, como tenho dito muitas vezes, quem escreve pode fazê-lo só para si, mas quem publica não. Quem publica, quer ser lido (muito lido, muito, muito lido) e ter quem goste e, porque não, quem deteste o seu trabalho. Logo, tanto as opiniões como o número de leitores que adquirem e/ou leem o livro importa. Representam o sucesso do romance e do autor e muitas vezes o seu futuro. 

Dito isto, o romance que estou a escrever neste momento sabe-me ao paraíso. Há muitas razões:

Primeira, não requer nenhuma pesquisa. Os meus livros publicados são todos de época, históricos, se quiserem. Sou exigente comigo própria na conjugação da História com a história, para que tudo seja fluido e nada chatinho, para que nunca seja uma lição, mas ainda assim se descubra a época, para que o retrato seja fiel, cheio de detalhes engraçados, sem ser doutrinário, e isso dá uma trabalheira inimaginável. Muito mais difícil, acreditem, do que espetar com os factos nas páginas, em parágrafos e parágrafos que parecem tirados ds compêndios de História, o que é uma tentação a que nuca cedo. Este romance, porém, não é de época e, se preciso que um ou outro facto bata certo com o que digo, é coisa mínima, mais do lugar do que do tempo. Coisa fácil, portanto, facílima. e de grande liberdade. Tanta, tanta, que até sou capaz de escrever a qualquer hora do dia, eu que há anos só sou capaz de fazê-lo de manhã, com a cabeça fresca! 

Segunda, porque escrevo o que me apetece. Tenho uma ideia geral do que será esta história, de quem são as personagens e o que fizeram ou farão, mas ela flui como bem quer, sem uma linha cronológica, sem nenhuma obrigação. Não tenho um esquema ou plano - ao contrário do anterior, que exigiu uma tabela detalhada - o que quer dizer que a qualquer momento posso ser surpreendida por qualquer das personagens. Talvez a coisa terrível tenha sido feita, não pela personagem a quem agora a atribuo, mas por outra. Talvez a minha protagonista fique em Portugal, talvez não. Sei lá. Nem tenho ainda um fim definido, nem estou certa do que sucederá no próximo capítulo. Nem sei se a terminarei, mas uma coisa sei: será curto, menos de 200 páginas. Se calhar. menos de 150. Nisso, estou determinada. 

Terceira, porque não faço ideia do que lhe farei quando... se o terminar, porque não sinto essa obrigação. Não sei se tentarei a minha actual editora, que me tem como escritora de históricos, se o colocarei num envelope para um prémio qualquer (pelo desafio, que me importa, sei bem como é isto dos prémios), se o deixarei bem quietinho no seu ficheiro, bem escondidinho, se o imprimirei apenas para os amigos, que ão uns queridos e querem sempre ler o que vou fazendo. As dúvidas costumam ser: será que a editora o quer? Será que, se não  quiser, encontrarei outra interessada? Desta vez, pouco me importa. Uma parte da indiferença poderá advir de um certo desapontamento, mas a maior parte de ser um livro diferente dos anteriores e não ter expectativas para ele, por não ser provável à partida, que a editora o queira. Deva ficar com pena? Pois. Sei lá.  Entretanto, dei-lhe o título provisório (ou não) de Limões na Madrugada, por causa de um poema que escrevi há tempos e está por aqui no blogue, poema medíocre mas que deixou semente.  

São motivos mais do que suficientes para que escrever este romance, seja um prazer, no sentido em que a liberdade absoluta é um prazer. 

sábado, 1 de julho de 2017

Florença - ainda o caderninho

Deixei passar demasiado tempo entre textos, e os dias em Florença começam a aglutinar-se numa impressão geral e em recordações globais, em que já se me torna difícil distinguir o que fiz em cada dia. A agravar a questão, há o caderno abandonado. Estou nos últimos registos: deixei de fazê-los a meio do terceiro dia, o "dia dos museus".

Em breve, terei de assumir uma aproximação diferente: em vez de continuar dia a dia, ou em parcelas de dias, para não estender o texto, vou destacar momento, lugares... em quantas publicações irá resultar, não sei. Pode ser uma apenas, podem ser muitas. 

Por ora, há caderno. Avancemos.

Pitti

O Palazzo Pitti, do lado de lá da Ponte Vecchia, é um monstro. Um largo enorme, em declive, e o palácio em cima, por trás dele os jardins. Compramos bilhetes, passamos pela segurança, entramos. Subimos vários lances de escadas e ocorre-me que, outrora, homens e mulheres deviam ter coxas de pedra. Por fim começamos a visita e o Pedro depressa se irrita, porque, onde esperava ver quartos, salas, a cozinha, os banhos, e descobrir como viviam os Médici, vemos afinal retratos e mais retratos antigos de figuras relevantes, em salas lindas de tectos pintados, paredes forradas e cortinados pesados e veludo. Há corredores cheios de caras novas e velhas, quase todas feias, uma ou outra mais composta. Descubro uma mulher lindíssima, um homem bonito da cada d'Este, outro feíssimo, um Médici. Reconheço alguns nomes, muitos não, mas sempre gostei de retratos e esta transformação em museu de figuras e expressões em nada me incomoda.  Depois, por fim, meia dúzia de salas opulentas onde terão habitado os donos do palácio, passando pela do trono e terminando nos aposentos da rainha. Temos de espreitá-los, porque um cordão impede a entrada. Proliferam veludos e brocados, dourado e cristal, brilho e excesso. O palácio testemunha o poder e riqueza dos Médici e não seixa dúvidas sobre quem eram, a par da Igreja, tão predominante, os donos desta cidade maravilhosa.  
Imagino homens e mulheres percorrendo estas salas, sentados nas banquetas, sussurrando conspirações, e ocorre-me, a despropósito, o imenso trabalho de acender (e substituir) todas as velas nos lustres e castiçais de complexo desenho e o perigo de incêndio que tudo aquilo terá constituído. Passamos pela Sala Branca, decerto uma sala de baile, mas não temos acesso à prometida exposição de trajes (que não encontramos e concluímos estar fechada). O Pedro está tão aborrecido com o Palazzo, e eu tão cansada, que depressa concordamos que não vale a pena pagar o bilhete para visitar os jardins. Deambulamos pelo "outro lado" de Florença, de mapa na mão, à procura de mais qualquer coisa para ver. O tempo que paramos para beber alguma coisa numa esplanada mal chega para que as pernas me deixem de tremer de cansaço, mas continuamos sob o sol escandante e acabamos por atravessar a ponte para o "nosso lado" pela ponte Americo Vespucci. Cada um de nós vai um pouco insatisfeito, por razões diferentes. Eu, porque gostei de Pizzi, mas não do que veio depois, não quero andar por toda a parte até que a exaustão me impeça gozar a cidade. Talvez seja má turista, mas quero parar mais vezes, parar mais tempo, não sinto necessidade de procurar cada quadradinho laranja no mapa, para ver se é monumento. O Pedro pela razão oposta: detestou Pizzi e não encontrou mais nada aberto, mais nada para visitar daquele lado da cidade. Temo que isto se torne complicado para mim. Outra vez.


Música no Palazzo

Reconcilio-me com esta viagem logo depois de um duche e algum descanso, quando paramos num cantinho bonito, para vinho branco, queijo e prosciutto, e ali ficamos algum tempo. Isto sim! Tentamos depois encontrar um restaurante que me encantara na véspera, mas às tantas já não sabemos onde estamos e acabamos, meio irritados, por comer onde calha. A minha pasta é quase igual à que comi, mas bastante picante. Tenho tanta sede que o vinho não me satisfaz, nada me sabe ao que devia e o mundo só se endireita quando, depois do jantar, bebo finalmente uma garrafa inteira de água.

Estamos muito perto do meu querido Palazzo Vecchio e, ao caminharmos nessa direção, apercebemo-nos da música. Há música em muitas ruas desta cidade, músicos que tocam violino, violão, viola, outras coisas nos passeios e praças. Ontem, duas jovens de longos vestidos tocavam violino numa praceta, mas isto é diferente: há um concerto em frente ao Palazzo, coisa de orquestra inteira (pequena, claro), com muita gente de pé a assistir. Ficamos também a ver o que é. O entusiasmo estoira na assistência quando, terminada a peça que tocavam à nossa chegada, o maestro explica, em italiano e depois inglês, que vão tocar... Star Wars! E tocam, e é maravilhoso!  Troco um olhar de prazer e um sorriso com uma desconhecida, que nem sei se é turista ou habitante local, e penso em como a música pode ser unificadora. Gostava de ser capaz de reter este prazer e toma-me a ideia, despropositada no momento, de que a música é como a poesia, um êxtase momentâneo, que depressa esmorece, mas que permanecem ambas, uma na partitura, outra na página, para que o gozo possa repetir-se, sempre diferente. Todos reconhecem o tema do filme, transformado numa peça belíssima pela composição de John Meyer e pela orquestra e, no fim, o aplauso é estrondoso. A praça quase encheu. Hesitamos em ficar ou ir e eu, com voltade de ficar, atiro "E se a seguir tocassem James Bond?." Estou a brincar, claro. Cada 007 tem o seu tema, porque haviam de ir buscá-los? Quais? O maestro agradece e declara que, dentro do tema "música para cinema", se seguirão três temas de... James Bond! Depois de Bond, tocam O Bom, O Mau e O Vilão e nós ficamos, até se esgotarem todos os temas que a orquestra trazia planeada e o maestro, espantado com o entusiasmo do público, improvisar com a orquesta: tocam uma marcha americana antiga, que faz lembrar vagamento o hino. Só depois disso saímos dali.

Vou cansadíssima, mas com o peito cheio. É isto, afinal, que me dá gosto.


       

segunda-feira, 26 de junho de 2017

fast burners ou long runners?

Todos nós, leitores, temos uma noção mais ou menos clara de que há livros de consumo rápido, de fácil digestão e olvidáveis, outros que ficam connosco muito tempo e outros ainda que, com a sua capacidade de permanecer e representar, pertencem ao espólio literário de um país - ou da humanidade. Que se tornam clássicos. 

Não vou fazer juízos de valor, nem tentar estabelecer aqui os padrões de uma coisa e de outra. Sendo os clássicos uma categoria aparte, porque são-no independentemente do agrado ou desagrado com que possam ser lidos, a verdade é que um livro pode ser olvidável para um leitor e memorável para outro. Nada disso é relevante para mim, que leio com gosto quase tudo o que me vem parar às mãos, até rótulos de champô, se se der a necessidade.  

Esta publicação é sobre uma outra ideia que me deixou a magicar. 

Há pouco tempo, fui colocada perante um conceito que não me tinha ocorrido, e que está menos relacionado com a nossa posição enquanto leitores, do que com a forma como um livro vai penetrando e encontrando o seu lugar junto do público. Como vende, portanto. Um autor que muito admiro, a propósito de mais uma edição do seu livro, comentou que não esperava o impacto imediato desse livro: esperava que tivesse melhor desempenho ao longo do tempo, do que de início, ou seja, que fosse um long runner. Não sei se usou esta expressão, mas é a que me ocorre quando penso nisso. 

É muito interessante, e pôs-me a pensar sobre os livros em geral. Ocorreram-me outras expressões. Há livros que são fast runners. Tomam a dianteira de repente e vendem muito num instante, uma, duas, muitas edições. Alguns destes gastam-se depressa, independentemente da qualidade. Não são maratonistas. No caso deste autor, felizmente, o livro tem-se mostrado ao mesmo tempo as duas coisas: ao fim de imenso tempo, continua a vender bem, num mercado bastante miserável como é o nosso. 

Há outros, porém, que nem uma coisa, nem outra. São fast burners, ardem um pouco, mas a chama apaga-se depressa, sem ter causado grande impacto. É o que sucede, creio, à maior parte dos livros que vão sendo publicados por cá, a não ser que recebam o oxigénio de um prémio, da exposição pública de quem o escreveu (de preferência anterior à publicação) ou de uma ligação ao pequeno e fechado universo literário nacional, ou de algum outro acontecimento extraordinário. Ou da sorte, claro. Não questiono a qualidade, que devia ser essencial para o sucesso de um livro (nem sempre é, infelizmente), apenas o facto de por vezes isso não ser suficiente. Os livros traduzidos parecem chegar de fora com duas botijas de oxigénio: a primeira, o já terem habitualmente algum reconhecimento antes de cá chegarem; a segunda, a confiança e curiosidade dos leitores portugueses - maior com o que vem de fora do que com o que se faz cá dentro. 

Não me importa agora o que, para além da qualidade ou falta dela, faz com que um livro seja um corredor rápido, outro um corredor de fundo e um outro mal ter pernas para andar. Achei piada à ideia, mais ainda aos nomes "em estrangeiro" que me ocorreram. Que me perdoe quem achar tudo isto um disparate.  Há dias assim. 




quarta-feira, 14 de junho de 2017

Dias de Florença - caderno abandonado

Conhecer Florença era um dos meus sonhos e, por saber que teria dias de muita caminhada e poucos tempos mortos, segui sem computador, mas com um caderno  na bolsa e a determinação de, sempre que me sentasse para um café ou uma cerveja, assentar alguma coisa do que visse, sentisse e pensasse, assim ao jeito de caderno do viajante. Escolhi um fininho de capa bonita e até lhe dei o nome pretencioso de "caderno florentino". Neste tipo de passeio, em que em poucos (pouquíssimos) dias se aglomeram muitos lugares, se vê muitas coisa e muita do mesmo tipo ou épica, tudo acaba por tornar-se difuso e, no fim, já me pergunto por onde é que andei em que dia, e onde é que eu vi aquela estátua fantástica do rapto das sabinas?

O caderno era para esse registo e para satisfazer a escritora - e porque é que, depois de três livros publicados, continuo a hesitar perante a palavra? - a quem a ideia de cinco dias sem escrever absolutamente nada, se calhar nem o meu nome, dava a impressão de uma longa travessia do deserto.  Levei um caderno a fazer de odre de água.  

Descobri depressa que seria mais difícil do que calculara, não porque me faltasse a vontade de escrever, mas porque, sendo dois na viagem, impunha-se conversar nas pausas entre caminhadas, sobre o visto e feito, o "a ver" e "a fazer" em seguida, em vez de me embrenhar nas palavras e deixar o parceiro apenas com a companhia dos seus pensamentos. Acrescentou-se o facto de parar menos do que necessitaria para fazer bons apontamentos (ou desejaria, para um passeio a meu gosto) e de andar muito e ver muitas coisas entre descansos. 

Quando aos dois "mas..." se juntou o cansaço, potenciado pelo calor, o caderno ficou abandonado no saco. Ou seja, tenho anotações da primeira tarde e dos dois primeiros dias - embora cada vez menos frequentes - e nadinha do terceiro dia e última manhã, o que significa que não tenho detalhes dos lugares por onde andei nessa altura, menos ainda do que os lugares me suscitaram. Uma ideia ou outra talvez regresse, coada pelo tempo e algum descanso, se não me der a preguiça ou não for atropelada pela vontade de escrever outras coisas ou pelo trabalho. Entretanto, vou ler o que está feito e, disso, ver o pouco que valerá a pena refazer para o meu monster.

Nota inicial: Florença é uma obra de arte antiga.  



segunda-feira, 15 de maio de 2017

A maioria dos livros...

... vive menos tempo do que leva a nascer.
Depois da sua morte, alguns têm ocasionais rasgos de Fênix, renascendo com mais ou menos fulgor para fenecer novamente, mas a maioria permanece como costumam ficar os mortos: morto.
Um ou outro, mais raros, fazem-se (quase) perenes.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Coisitas de escritor

E o que quer um escritor que publica? Quer pouco, mas muito.

Condições para escrever.
Seja estabilidade ou tumulto, silêncio ou ruído, viajar ou estar quieto, conforto ou tortura. Acima de tudo, que tenha uma cabeça fresca e esse bem precioso que, à conta de tanto nos faltar, vale ouro: tempo. Muito tempo, para respirar, pensar, planear, redigir, reler, apagar, reescrever, adorar, odiar, não se conformar com o que escrever. Um bocadinho de inspiração ajuda, mas defendo que há na escrita (de romances) mais trabalho do que inspiração. Para quem tem a escrita como actividade colateral, embora necessária, não é dado adquirido que as condições se reunam sempre.

Ter uma voz só sua.
Uma voz que esteja nos seus trabalhos independentemente das temáticas e dos malabarismos narrativos que decida para cada livro. Ser distinto, reconhecível mas não idêntico, de livro para livro. Não ser igual a ninguém, nem ser inteiramente igual a si próprio, sem no entanto se trair. Confuso? Não, nem por isso. Difícil? Pois, não sei. Se não surgir naturalmente, não sei como se faz. E que com ela venha uma coisa essencial, o respeito. É fundamental ser respeitado enquanto autor, ter um lugar. E só sobre isso haveria um texto completo para escrever.

Ter leitores.
Ter leitores que o seguem de livro para livro e leitores novos a cada livro. Estranho que um autor que publica diga que lhe são indiferentes os leitores. Assumo que se publica para lhes trazer algo, conhecimento, prazer ou incómodo, outra coisa? Um leitor que publica nada é sem leitores, ainda que não escreva (não deva, não possa) condicionado por eles. Que de preferência que os leitores gostem do que faz, claro, porque há muito suor nas páginas e nem sempre o ego do autor é de ferro. São de invejar os autores que decidem que, se o mundo não os aprecia, é porque não os compreende e não os merece, mesmo que isso seja uma espécie de cegueira que os protege. Claro que o autor que publica precisa de costas largas e fortes, custa um bocadito se o trabalho desagradar, mas há que assumir que a exposição traz alegria e dor, que é natural (e desejável?) que, onde uns encontram virtudes, os outros descubram falhas, que leitores diferentes interpretem de formas diferentes, de acordo com as suas naturezas e experiências. e que enfim, enfim, enfim.

Outros autores poderão precisar de mais. De ganhar dinheiro, ser famoso, fazer da escrita a sua vida, ser a voz de uma nação, ganhar o Nobel, sei lá. Contento-me com menos: tempo, uma voz, respeito e leitores. Peço muito? Se calhar. Mas trabalho, sem dúvida, para os merecer.

domingo, 7 de maio de 2017

Desempoeiramento

Limpou do livro todo o pó, página a página muito bem limpo para que a filha pudesse lê-lo sem lhe faltar o ar. Se o ar lhe faltasse, que fosse por saber que Blimunda via entranhas, quando em jejum, e nove anos passara em busca de Sete-Sóis. Estivera guardado o livro muito tempo, Blimunda e Baltasar e o Convento sentados todos à espera, o Rei sem emprenhar a Rainha, Blimunda sem comer o pão, Baltasar sem desaparecer, o Convento todo por erguer, desde que as mesmas mãos que agora cuidadosamente o saneavam dos vestígios do tempo primeiro o tinham aberto e por fim fechado, muitas páginas depois. Amarelas, agora, manchadas, mas as palavras, essas, tão bem conservadas que, a quem as lia pela primeira vez, pareciam novas. Boas ou más, mas novas. Está desempoeirado, o livro, Memorial todo pronto para mudar de olhos.   

domingo, 30 de abril de 2017

Tertúlia no Museu de Ovar

Rumei a norte esta sexta feira, para uma tertúlia literária no Museu de Ovar, a propósito do lançamento de O Ano da Dançarina. Sendo o meu primeiro encontro deste tipo, desloquei-me com satisfação, mas cheia de (pequenos) receios. Não temia não saber conversar ou não ser capaz de corresponder, mas receava muito que um convite para vir ouvir e conversar com uma escritora quase desconhecida não fosse atraente para ninguém. Ainda há pouco li uma publicação de uma escritora best-seller americana que nunca aceita eventos a solo, sejam autógrafos ou encontros ou palestras, por recear o constrangimento de enfrentar sozinha o vazio de uma sala sem leitores. 
  
Fui recebida, para jantar antes da tertúlia, pelo Carlos Nuno Oliveira, dinamizador do À Palavra com... e pelo Manuel Cleto, director deste museu, com uma simpatia inagualável, e tivemos oportunidade, durante o excelente jantar, para falar sobre estes encontros, sobre as alegrias e dificuldades deste museu, que é particular, e sobre o seu maravilhoso espólio. Houve tempo também - atrasando um pouco o início da tertúlia, é verdade - para uma visita guiada pelo Manuel ao Museu, que é na verdade uma casa particular no centro da cidade. Saramago disse certa vez acerca deste espaço com mais de 50 anos que é menos um museu e mais um "guarda-tudo" e pareceu-me que tinha acertado em cheio, porque vi fotografias internacionais e uma coleção de apiculturas, bonecas do mundo e louça portuguesa, quadros de grande modernidade e um bordado típico feito com cabelo humano... E vi uma cozinha com um tecto originalíssimo. O espólio é enorme e valioso, mas não está exposto em permanência, vai rodando e sendo emprestado.    

Na tertúlia não eramos uma sala cheia, mas tão pouco estava vazia como eu temia, e a conversa acabou por prolongar-se por mais de hora e meia. Falamos sobre o Dançarina, sobre História e sobre a história - recusei-me a revelar a razão do título e o aparente desafazamento entre título e imagem na capa - falamos sobre as personagens e sobre a sua criação, sobre pesquisa, sobre o meu percurso e sobre o livro anterior, O Cavalheiro Inglês, sobre O Chama ao Vento, sobre de onde nascem as histórias, sobre os constrangimentos e vantagens da escrita de romance de época. As conversas vão fluindo, não me lembro já de tudo o que foi sendo dito. 

A certa altura, o Carlos Nuno Oliveira quase me atirou da cadeira abaixo, de surpresa, ao mencionar o blogue e ler dois pequenos poemas tirados daqui. Não sei o que é um poeta, não sei o que é um bom ou mau poema, só sei daquilo que gosto. Gosto de escrever poemas e gostei de os ouvir, o que foi inesperado. Admiti que, talvez por escrever um género muito espartilhado pela necessidade de não deformar as verdades, mesmo sendo ficção, me sabe muito bem o imediatismo e a liberdade de escrever um poema. Se são bons ou maus... importa?

Refiro ainda a simpatia das intervenções dos interlocutores e um ou dois episódios muitíssimo engraçados, com a intervenção... assertiva e... inesperada de uma figura tão curiosa que daria um livro. Julguei vê-lo a dormir, mas afinal ouviu tudo e teve oportunidade para fazer ums espécie de sumário do que tinhamos dito (dentro do género "parece que ouvi aí falar sobre a gripe e também qualquer coisa sobre a guerra") e de, por exemplo, querer saber como "a ilustre senhora dona escritora", sendo mulher, imaginava as personagens masculinas, porque os homens tinham coisas de homem, segundo percebi, e daí partiu para uma diatribe sobre conhecer pessoas, de cujos detalhes infelizmente não me lembro. Não cheguei foi a responder, e ainda bem, não saberia bem como... Creio, mas não juro, que a certa altura este participante quis pôr-me a escrever com uma pena, em vez do computador, como fizeram os grandes escritores... antes da invenção desta máquina utílissima. 

No final, com o Porto de Honra, tive oportunidade de dar dois dedinhos de conversa com alguns dos participantes, incluindo um leitor que eu não esperava de todo que se interessasse por ler o livro ou ouvir-me. Confessou-me ter detestado a sinopse (pela qual sou parcialmente responsável, claro, uma vez que o livro é meu), e nisso não me surpreendeu. O tal assistente de personalidade curiosa também ficou para conversar e percebi que, apesar de ter recursos muito limitados e um certo desfazamento da realidade, é uma pessoa culta, interessada, que mantém a sua pequena biblioteca... e que gere a sua liberdade privada de forma muito original!

Deixei Ovar encantada com a simpatia e com a disponibilidade de quem cede o seu tempo, de forma graciosa, para gerir esta casa com poucos apoios e recursos e para fomentar actividades culturais. E pude provar um delicioso pão-de-ló de Ovar! Pela minha parte, espero não ter despontado. 


quinta-feira, 20 de abril de 2017

a ladainha da diligente

Não querer saber.
Alimentar a distância.
Dizer nada.
Não perguntar.
Perguntar é ridículo.
Anular expectativas.
E ilusões.
Não me deixar levar.
Estar calada.
Dizer nada.
Não perguntar.
Mas e a demora?
É que demora!
Não.
Caladinha.
Ser mais rija.
É mesmo preciso ser rija.
É preciso desligar.
Desligar.
Desligar.
Será o que for, a minha parte está feita.
Fiz tudo. Fiz bem feito.
Fiz bem feito?
E lá estão as dúvidas.
Um desfile de dúvidas.
Dizer nada.
Não perguntar.
Não faço mais isto.
Faço.
Não sei não fazer.
Não ter condescendência para comigo.
Repugna-me a condescendência.
O que for será.
E recomeça.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Azul-errado

Estou no cimo de uma estrada larga, num recanto perdido no meio das montanhas, e abre-se à minha frente uma avenida larga, que desce até ao fim da ravina. É de um desses azuis vivos e suaves que precisam de outro nome, azul-cobalto, azul-celes, azure, azul-real, azul da pérsia. Azul-sonho.
A ladeá-la, casas coloridas, banhadas também ela de azul translúcido, como se à beira de uma piscina. Têm telhados pálidos, em triangulo, caixilhos brancos nas janelas e portas. Há flores nas sacadas e um rio a gorgolejar algures, sei que há, mas não o vejo. Creio que o ouço, mas não sei se há som nos sonhos. Por trás, a floresta escura ameaça.
Desço e, de perto, nada é tão bonito. Há vidros sujos e, onde as casas eram pequeninas e delicadas, são agora as casas de cimento cor-de-burro-quando-foge das nossas terras mais feias. O desapontamento é brutal. Nos sonhos, estas coisas são sempre brutais.
De repente, desemboco outra vez no cimo da avenida, acabada de percorrer a custo a longa estrada, porque é de noite e acho que estou perdida. Fico sem fôlego. Lâmpadas douradas iluminam a larga rua e transmutam o postal de encanto pitoresco num cenário de contos de fadas. Podiam irromper elfos da floresta para dançar, envoltos em pirilampos, com as meninas que sairiam das lindas casas, com sardas no rosto e flores nos cabelos.
Não quero descer a rua. Prefiro acordar. Acordo. Não estou encantada. Há algo errado. No cenário, no que eu fazia no sonho. Não sei o quê. Não me lembro.
Não havia sapatos à entrada, mas lembro-me agora de Tim Burton e Big Fish.
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sábado, 4 de março de 2017

Ando a fugir daqui...

porque, com o miolo (quase) pronto, com o nome que quis para ele e conhecendo-lhe a cara, que ainda requer alguma maquiagem, tenho de vencer a tentação de meter os pés pelas mãos e revelar o que ainda precisa de esperar mais um bocadinho. Morder a língua só mais um bocadinho. Posso dizer ao menos que estou a ficar contente com o resultado? É falar demais? 


E fui fazer fotos, para substituir aquelas com que, com quase menos dez anos, andava a enganar os leitores! 


Está quase, quase, tão quase que entrei na fase de expectativa e ansiedade. Não é o primeiro (nem o segundo!), mas bem podia ser. Será que não me acostumo?


sábado, 28 de janeiro de 2017

A tentação

Tenho frequentemente a tentação de, enquanto escritora, dar conta a minha vida a cada passo que dou, aqui ou numa rede social. 

Tenho, por exemplo, a tentação de vir a correr contar que acabei de fazer uma revisão de texto, mesmo que seja a terceira ou quarta, se preveja pelo menos mais uma, depois de editado por quem sabe da poda, e não haja ainda data de publicação, como aconteceu esta manhã com A Chama ao Vento.

Ou de vir de imediato anunciar a data em que sairá o meu próximo romance, porque falta mesmo pouco, mesmo que a data ainda não esteja completamente assente (pode ser um dia ou outro dia), não haja capa e seja provável que ainda tenha lugar mais uma revisão, talvez em papel.

Ou partilhar excertos de textos que ainda não estão na sua versão final.

Ou as dificuldades inerentes a este trabalho, à pesquisa, à produção, à falta de tempo, às inseguranças e dúvidas e à vontade ocasional de mandar tudo às urtigas, porque, afinal de contas, poucos dariam por isso. (esperem, não assumam ainda que vivo em depressão, eheheh, porque:)

Ou partilhar o gozo que é ter criado estas histórias, estas personagens, o gozo que é trabalhar com a minha lindíssima língua-mãe, e saber que a leitura deu prazer a uns quantos leitores e talvez até tenha um ou dois... eeehh... vá, um ou dois fãs, que, sabendo que vem aí novo livro, o aguardarão cheios de vontade de ler. Partilhar o essencial que seria para mim continuar a escrever, mesmo que o fizesse só para amigos... porque não, não acredito no escritor que publica, mas diz que escreve só para si.
    
Posto isto, vou resistindo diariamente a todas estas tentações, porque uma coisa é a pessoa, que quer partilhar tudo, outra o escritor, que tem a obrigação de resguardar o seu trabalho até estar em condições de ser lido. De quando em quando acabo por ceder, como hoje. Hoje estou mesmo satisfeita: a revisão do Chama correu-me bem, matei muitos "darlings", mas é a última antes de ser visto pela editora. O Ano da Dançarina vem mais cedo do que esperava. Estou ansiosa pela capa. E posso dedicar-me ao projecto que deixei a meio. E voltar a ler! Suspendi todas as leituras para rever, mas agora estou a começar A História de Quem Vai e de Quem Fica. Iuuuupppiiii!!! 

Prometo que a proxima publicação do monster será de outro tipo. 


domingo, 22 de janeiro de 2017

Kill your darlings

Ausentei-me do blogue por algum tempo - foram mais de dez dias sem uma mensagem - por uma boa razão: estive em processo de revisão do meu próximo livro, O Ano da Dançarina, que, embora não tenha ainda data de lançamento, há de sair este ano pela Marcador. 

Foi uma revisão dura, com muitos cortes, uns quantos ajustamentos, algumas correções, para fortalecer o texto no seu conjunto. Não é fácil, nunca é fácil, reconhecer que "matar os teus queridos" (tradução tão literal, Deus meu!) pode ser o melhor para o produto final. Não é fácil admitir que o rascunho não é perfeito, que há muito a melhorar. Que às vezes até é preciso reescrever. Não é fácil, mas é essencial, como é essencial que um editor, com olhos frescos, experiênca e uma perspectiva diferente, quase de leitor, passe o texto a pente fino. Há detalhes que o autor, de tão bem conhecer o texto, já não vê. Há desperdícios que alguém de fora nota melhor e, sobretudo, tem menos pena de apontar. É preciso ouvir, decidir, concordar - e por vezes discordar. A presunção serve tão mal ao autor como a excessiva humildade.  

Fiquei muito cansada, os meus olhos queixam-se bastante, e também um pouco farta do ano de 1918 e dos Lopes Moreira, os meus protagonistas.... mentira, deles gosto mesmo muito!! 

Feito o trabalho duro, agora é esperar e ter esperança de que as revisões estejam concluídas, que a capa seja maravilhosa e que não demore demasiado a sair! 

Nada é fácil nisto de ser escritor. Nem sequer dizer a mim própria (por fim) que sou escritora.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

No Porto, por onde andou Sofia


No Sábado, dia 31, subi da Ribeira do Porto mais uma vez, sob um sol maravilhoso. Meti pelo mesmo arco que imaginei para Sofia Silva Andrade e Robert Clarke, há mais de dois anos, e, como ela, trepei as Escadas do Barredo, parei no Largo do Terreirinho e prossegui pela Rua do Barredo, até me desenredar dessas ruas que foram outrora uma "colmeia", bairro pobre de habitação precária e má construção. Há casas recuperadas, outras nem por isso, mas o lugar continua a ser estreito, íngreme e ancião.


Em O Cavalheiro Inglês, Sofia e Robert andaram ali num dia chuvoso e escuro dos finais de 1892 e Sofia, desesperada para encontrar o irmão, tinha medo e frio. Nestas ruas estreitas, imaginei um Inverno agreste, de águas lamacenta e fétidas correndo rua abaixo, enegrecidas pela porcaria, pelos dejectos e lá-vai-água. Imaginei os homens encolhidos sob as bátegas, regressando dos seus trabalhos duros e mal pagos ou das tabernas, as escandarias esconsas por trás das pequenas portas, as casas velhas, sem esgotos, apinhadas, avós, pais, netos partilhando duas divisões esquálidas.  Imaginei as brigas do álcool, da pobreza, da ira, as tareias de marido a mulher e vice-versa. Imaginei o frio e a fome, as doenças disseminando-se como fogo em palha,

Imagino ainda, noutros dias de mais sol, como esse em que as subi, as vizinhas trocando coscuvilhices pela janela, onde a roupa estendida quase se tocaria. Imagino-as, velhas e novas, envelhecidas precocemente pela dureza da vida, pelos muitos filhos paridos em poucos anos, sentadas à porta, separando feijão. Imagino namoros à janela, outros nas esquinas escuras. Imagino os bandos de miúdos descendo a correr, para mergulhar no rio, trepando depois, a um chamado da mãe, molhados e felizes. 

Imagino uma vida sem espeaço para questionar a felicidade ou a tragédia de vivê-la assim, com tão pouco. E nisto tudo posso estar errada, porque, mesmo com pesquisa, há margem para erro. 


Um desejo para este ano (o meu quarto, quinto, ou sexto, sei lá, na ingestão das passas): que o próximo livro, O ANO DA  DANÇARINA, este um livro das ruas de Lisboa, algumas como estas, não atrase. E que agrade.



quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Em jeito de ano velho, ano novo

Resultado de imagem para balanceEm jeito de balanço do ano já velho de 2016, apetece-me dizer: caraças.

Não, não foi o pior ano de sempre.  

Não houve epidemia, não houve ainda uma Guerra Mundial, não houve outra Grande Depressão (não sei se caminhamos para lá ou se o mundo mudou demasiado). Ainda vamos tendo ar para respirar, água para beber. Temos país. Ainda estou viva e tenho família, trabalho, casa e tempo livre. 

Nada veio em modo tsunami este ano, antes em vagas pequenas e médias, uma mortezita mediática aqui, depois outra e mais uma, e vamos ver quem é o senhor que se segue, porque o ano ainda tem três dia, um terramoto ali, uma destruiçãozinha acolá, um ataque terrorista ou outro, uma guerrinha, outra guerrinha, mais uma guerrinha, uma surpresa eleitoral estrangeira preocupante... dammmmmm.... a entrar-nos pela casa adentro através da comunicação social e internet, só com uns momentos pelo meio para respirar. Sabemos demais, talvez, o mundo parecia-nos menos agreste quando não tinhamos acesso a ele, o tempo mais lato quando não eramos bombardeados por tudo o que se passa em toda a parte. Ficamos cansados, fartos deste ano (deste mundo?), ansiosos pelo próximo (e por outro mundo?), temerosos de que seja só o início de algum apocalipse às mijinhas.

Por cá, em terras lusas, até temos a sensação de estar um pouco mais folgados, voltaram os feriados, Potugal esteve na moda e parece que nem a Europa nos caiu em cima com a mesma sanha. Mas também nos morreu gente, dessa que todos conhecemos e parece que pertence a cada casa. Dessa que, ao partir, parece que deixa o país e o mundo mais pobre. 

Mais perto, assim bem apertadinho em meu redor, permanece a sensação de banho-maria. Cozinhou-se qualquer coisa, é verdade, terminou-se um livro que há-de sair para o ano, recuperei direitos em papel de outro livro, mas fui pouco lida, estive discretamente nas Feiras do Livro, consegui mais espaço para respirar, sob a forma de um horário melhor no trabalho, ninguém adoeceu em casa, que eu saiba, não perdi ninguém, também não ganhei nada, a não ser mais um ano, novas rugas e uns quantos cabelos brancos.  Li pouco, mas bons livros, e o blogue... bom, desse sabeis vós. Banho-maria. 

Venha 2017. Só não sei se prefiro que venha em pezinhos de lã, a ver se não se dá por ele, ou com fanfarra e fogo de artifício, a espantar os fantasmas do ano velho e a despertar coisas novas. Mas venha, que deste ano já tivemos que chegasse.

Nota: tenho muitos desejos para cada ano, para mim e para outros, a esgotar as 12 passas. Tenho medo de enunciá-los, sei lá que ano será 2017!

Nota2: sendo provavelmente... de certeza a última publicação do ano, desejo a todos FELIZ ANO NOVO!   

sábado, 24 de dezembro de 2016

Esta noite não!

Este foi para os meus filhos, quando eram pequeninos, com direito a um livrinho, com desenhos (que não este) mais giros que o conto. 

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Todos os meninos sabem que, na véspera de Natal, sem falhar, desde que há Natal no mundo, São Nicolau põe todos os brinquedos no seu trenó, junta as renas à sua frente e, juntos, correm os céus para entregar brinquedos nas chaminés - e janelas! - das casas que celebram esta data. São muitas renas e muito especiais, porque são rápidas como o vento e tão espertas que até sabem falar.
Certo Natal muito frio, estavam as renas reunidas-se no seu redil no Pólo Norte, a conversar sobre a noite seguinte, quando uma rena muito grande e sempre mal disposta resmungou:
- Pois eu não sei porque é que temos que andar por aí numa noite tão fria. Os outros animais ficam nas suas tocas!
Continuou a protestar, a protestar, contagiando cada rena com a sua irritação. Umas diziam uma coisa, outras diziam outra e às tantas diziam todas o mesmo, mas não se entendiam Fizeram tanto barulho que as luzes na casa de Nicolau se acenderam e ele saiu, de camisa de dormir e grandes pantufas encarnadas. A barba branca e as bochechas brilhavam ao luar.
- Mas o que é que se passa aqui? Preciso de dormir, amanhã é a grande noite!
- Tio Nicolau, - disse uma rena de hastes tão grandes que chegavam aos ramos mais baixos do abeto - nós este ano não queremos andar por aí na véspera de Natal. Não vamos contigo entregar os brinquedos. Temos frio!
O Pai Natal ficou muito admirado e muito aflito.
- Mas, queridas renas, vocês dormem sempre na rua! E...
Um coro de protestos interrompeu-o. Que não era o mesmo, que lá em cima nos céus estava mais frio, que estavam fartas.
- Mas então como é que eu levo os presentes aos meninos? Eles vão ficar tristes este Natal?
As renas pensaram e pensaram.
- Vai de carro. – sugeriu uma lá do fundo – Os carros são rápidos e não têm frio como nós!
- Os carros não voam, renas! Como é que eu vou  atravessar os oceanos para levar os brinquedos até ao fim do mundo?
Uma respondeu, numa vozinha atrevida:
- Então vai de avião. Os aviões voam.
O Pai Natal abriu muito os olhos. As renas estavam a gozar com ele? Que ideia tão estranha! O Pai Natal, de avião? Nunca se tinha visto tal coisa. A perder a paciência, lembrou:
- Os aviões passam lá muito em cima! Com um avião, eu não consigo chegar às chaminés e muito menos às janelas. Como é que eu entregava os brinquedos? Se os atirar, partem-se, e ainda posso enganar-me na casa... E se a Marianinha fica com o carro vermelho e o Luís com a boneca dela?
As renas ficaram muito aborrecidas. Já não tinham mais nenhuma ideia, mas eram muito teimosas, e por isso baterão o pé... ou o casco, que é o que as renas têm no fim das pernas!
- Pois, nós não sabemos como vais fazer, tio Nicolau, mas queremos ficar em casa. Temos muito frio e queremos ficar por aqui.
Nicolau ficou a olhar para elas, muito triste e zangado e sem saber o que fazer. Era um problema, aquilo. Uma das renas, que já era um bocado velhota e estava com ele há muitos anos, furou pelo meio das outras até à cerca e sorriu para ele, daquela maneira especial que as renas falantes têm de sorrir.
- Eu estou velha e com pouca força, Nicolau, mas não quero que os meninos do mundo fiquem sem Natal. Vou contigo. Nós os dois vamos conseguir levar os presentes aos mais pequeninos.
Nicolau, tão preocupado que nem notara que começava a formar-se gelo na sua barba e sobre os seus cabelos brancos, respondeu:
- Obrigada, minha querida, mas sabes... só nós... não vamos conseguir entregar todos os presentes. É impossível. Há tantos meninos no mundo, e só os dois, com o trenó tão pesado, vamos muito devagar de certeza.
Olhou para as renas, que baixaram a cabeça, um pouco envergonhadas mas cheias de teimosia, e voltou-lhes as costas. Já não dormiu mais nessa noite, mas não conseguiu descobrir nenhuma solução. 
A noite seguinte estava uma bela noite, com uma lua muito gorda e brilhante reflectida na neve muito branquinha. Mas para o Pai Natal, a noite não estava nada bonita. Ficou muito tempo a olhar para a montanha de presentes no trenó. Sacudiu a cabeça, desanimado, ajeitou o gorro e atrelou a sua única rena fiel. Estalou a língua e sairam os dois, a rena bufando e suando para arrastar todo aquele peso. Iam levar aos meninos tantos brinquedos quantos pudessem. Enquanto se afastava pelo céu escuro, Nicolau pensava que aquela ia ser a noite de Natal mais triste de sempre.
Da janela, as renas viram-nos afastar muito devagar, a muito custo, e ficar cada vez mais pequeninos, mais pequeninos, até desaparecerem no horizonte. Tinham entrado em casa de Nicolau, como faziam sempre depois de entregar os presentes, para se sentarem à frente da lareira bem acesa e quentinha, mas o calor não lhes chegava ao coração, que lhes pesava como uma grande pedra de gelo. Já não tinham muita certeza de terem razão. Levar os presentes aos meninos era um trabalho muito importante. E, afinal, lá em cima no céu estava sempre frio... era assim mesmo, desde sempre, e elas nunca se tinham importado. Gostavam de voar nos outros dias e tinham orgulho do seu trabalho. De onde lhes viera a ideia de ficar para trás?
- O que é aquilo ali? – perguntou uma rena mais pequenina e curiosa, ainda à janela.
Sairam lá para fora e viram, debaixo do grande abeto decorado lá fora, muitos pequenos presentes. “RENA”, era o que estava escrito em cada um. Muito admiradas, porque sabiam que não se tinham portado bem, rasgaram o papel com a boca e descobriram... belos cachecóis quentinhos, gorros de lã especiais para renas e lindas pantufas, quatro para cada, para aquecer as suas patas preguiçosas.
- Ai,ai,ai,ai, ai... – queixou-se uma rena e, num instante, todas se queixavam.
Estavam muito, mas mesmo muito envergonhadas. Tinham sido tão teimosas e o Pai Natal, mesmo assim, não se esquecera delas e daquilo que elas mais desejavam: estar quentinhas nesse Natal. A rena grande e resmungona ficou calada e as outras conversaram durante um bocadinho.
- Vamos?
- Vamos!
Puseram nas patas as pantufas, nas cabeças teimosas os gorros, enrolaram os cachecóis nos pescoços e saíram atrás de Nicolau, pelo caminho que sabiam de cor. Encontraram-no logo a seguir. Tinha andado pouco, com aquele trenó tão carregado e só uma rena, ainda por cima a mais velha e cansada de todas as renas, e estava parado mais adiante para deixá-la descansar. Nem um presente fora entregue ainda e Nicolau suspirava de desânimo. Pousaram ao seu lado.
- Desculpa-nos, Nicolau, desculpa-nos. Nós fomos casmurras, mas estamos arrependidas e queremos ajudar-te a levar os presentes. Podemos? Vamos a tempo?
Ele soltou uma gargalhada, as grandes bochechas brilhando de felicidade.
- Estou um pouco desapontado convosco, minhas amigas, mas nesse momento isso não importa: o que importa era o Natal dos meninos! Vamos embora! Depressa!

As renas alinharam-se na sua posição habitual, com a velha rena entre elas, sorrindo o seu sorriso de rena, Nicolau atrelou-as, a rena de nariz brilhante à frente, a apontar o caminho, com a cabeça bem erguida, e partiram e direcção às estrelas, para que todos os meninos tivessem Natal.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Bem Vindo, Setembro?

Setembro é o mês de todas as coisas. Mais ou menos.

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Não, os meus alunos não me oferecem maçãs. Nem apples.
Dia um, hoje mesmo, foi dia de regresso à escola. 

Entre esta data e o início das aulas, o trabalho costuma ser confuso - muitas reuniões, muitas preparações de grupo e individuais - e a expectativa grande: não tenho escola nova, pelo menos este ano, mas que turmas terei? Quantas? Como será o meu horário? Serei directora de turma mais uma vez? Gosto de preparar-me devagar para receber os alunos, ir elaborando o meu livro do professor (porque não costuma haver nenhum à venda com tantas turmas como as que tenho quase sempre), com as listas de alunos, etc, para ir mergulhando aos poucos no espírito da coisa e na esperança de, ao menos este ano, me manter organizada. Já era assim em miúda, grande entusiasmo com os cadernos e livros antes de começar, três semanas depois já tinha rabiscos por todo o lado e organização nada. Tenho a cabeça organizada, já não é mau, mas se, com o cansaço, me falha... Bom, seja como for, nada disto será possível. Horários, é provável que se distribuam só dois dias antes de começar. Saber que turmas (novas) tenho... veremos. Mas, ao contrário de tantos com quase tanto tempo de serviço como eu, sou ao menos QZP e, porque sou velha nisto, tenho a mesma escola há vários anos/concursos, pelo que a sinto como a minha escola e sabe bem ver que está renovada, chão, janelas, pintura, em breve cadeiras e mesas novas também. E é muito bom reencontrar as colegas que já são amigas e pôr a conversa em dia!

Resultado de imagem para 45Também é o mês do meu aniversário, mas a cada ano me parece mais e mais que devia começar a fazer anos para trás! Por vezes apetece-me celebrar, afinal chego aos 40 e... (vá, são 45, não tenho vergonha) com algumas coisas boas na bagagem. E quem sabe se chego a outro aniversário? Mas depois dá-me a preguiça e o sindroma de "bicho-do-mato" e não quero festas. Mas quero um dia fantástico sem mexer uma palha, o que não vai suceder por inteiro, porque tenho trabalho. Ao menos um jantar-surpresa nalgum lugar fantástico? *wink*wink


As outras coisas que tenho esperança de ver assentes e concretizadas este mês ficam no segredo dos não-deuses, para não agourar. São importantes para mim e, espero, terão produto nos primeiros meses do próximo ano. Sim, escrita e livros e afins. Entretanto, vou estar na Festa do Livro em Belém no Sábado, dia 3, pelas 18h, com a Marcador, claro - espero visitas! - e antes disso, já amanhã, pelas 14.05, há de passar na Sporting TV o programa Sofá Verde, onde fui falar do Cavalheiro. Tenho mesmo curiosidade em saber se pareço os 45 que ainda não fiz, mas vou fazer já, já, e se gesticulei tanto como de costume! 


Com tudo isto, não sei se hei de dizer BEM VINDO, SETEMBRO, ou de cantar, como os Green Day


quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A preguiça de Verão e a impaciência de autor

Parecem coisas contraditórias, não é? A lentidão da preguiça não se coaduna com o nervoso da impaciência, mas a verdade é que, este Verão, estou sujeita a ambos. 

Dissecando.

Estive de férias na praia uma semana - não que tenha feito praia todos os dias, isso era muito para mim. Durante essa semana, li apenas um livro, do qual já fiz opinião, e abdiquei quase completamente de rever texto. Para descansar, depois de ter revisto O Ano da Dançarina de empreitada, e também porque não me pareceu simpático isolar-me, como precisaria. Resultado: fui tomada pela preguiça e agora parece que nem leitura, nem escrita. Uff! Pego no A Chama ao Vento, que precisa de revisão, porque a versão ebook tem uma série de gralhas e, depois de dois anos sem olhar para o livro, consigo sacudi-lo e mudar coisas que precisam de ser mudadas (sem mexer na história, afinal há uma versão publicada em ebook). Não sei se / quando vou precisar dele, mas dava muito jeito seguir depressa com esta revisão. Outro livro aguarda nas sombras...

E a impaciência? Pois. Sempre tenho dois livros na editora, à espera de uma aprovação e uma data de publicação... ou não. Sim, sei que estas coisas levam tempo, levam muito tempo. Já passei por isso vezes suficientes, mas que querem? Fica-se ansioso, como antes da saída de uma nota de exame ou de um trabalhio, só que sem nenhuma previsão de data para saber. Não sei se, com o tempo e a experiência, isto se alterará, desconfio que não. Pior agora, em que o trabalho é pouco (esta semana não estou de férias) e pior ainda quando não houver nenhum. Para mais, metem-se as (muito merecidas) férias de quem trabalha na editora. Também é verdade que a relação tem sido impecável e sei que, mais cedo ou mais tarde, essa tal resposta definitiva chega. 

Entretanto, vamos lá ver se me sacudo e ponho mãos aos trabalho - se pego no A Chama ao Vento e se leio o livro que me espreita da mesinha da sala, Arquipélago. Tenho a certeza de que vou adorar. 

sábado, 9 de julho de 2016

Revisão e excerto

E terminei a primeira revisão! 

Para o bem ou para o mal, foi a revisão mais rápida que alguma vez fiz, e nem foi por me ter apressado - voou debaixo dos meus dedos! 

Cortei alguma coisa, pouco acrescentei. Agora só volto a pegar-lhe depois de ter tido notícias da editora!  Outras virão, talvez com valentes alterações, mas para já parto para outra revisão, a do A Chama ao Vento, com a barriga cheia... e não é só porque acabei agora mesmo de almoçar (o que também é verdade). Ehehehe. *Mum joke*

Ficam alguns parágrafos  do Dançarina, um cheirinho apenas da história...

O início do capítulo 2.


Foi uma sacudidela mais brusca, as rodas saltando nalgum buraco ou pedra dos que minavam a estrada de terra, que despertou César. Abriu os olhos com um sobressalto, sentou-se muito direito, sacudindo outra vez contra a porta, e engoliu uma exclamação de pavor.
- Está tudo bem. Aqui há mais buracos, foram as granadas… mas já foi há muitas semanas – disse-lhe o condutor, a voz rolando de trás do bigode como um pequeno trovão. – O senhor adormeceu.
A constatação embaraçou César. No início da viagem, espreitava a estrada e os campos como se, a qualquer momento, um batalhão alemão pudesse sair de debaixo do chão. Não se apercebera do momento em que a exaustão o arrastara, suprimindo o medo e a curiosidade, e o fingimento deixara de sê‑lo, nem sabia quanto tempo teria dormido, com a cabeça caída sobre o peito, sacolejando ao sabor das irregularidades do pavimento e dos protestos da viatura. Esfregou o pescoço rígido e espreguiçou-se discretamente, sentindo as dores que lhe tolhiam os movimentos. Fora chacoalhado e sovado desde Dover e o corpo queixava-se como se tivesse seguido numa velha carruagem dias a fio.  
- Estamos quase a chegar, daqui a pouco já consegue ver o Hospital. Ambleteuse é depois. – informou Jacques – Aqui pela costa, como vê, não corre perigo. Só dos buracos ou de algum coelho que o assuste.
César preferiu ignorar a provocação. Estava demasiado cansado e ansioso e imaginava que parecesse um pouco louco, com a sua urgência em vir meter-se no lugar de onde todos gostariam de escapar-se. A sorte, porém, devia estar do lado dos loucos, porque ali estava, incólume e já muito perto de Ambleteuse. Pagaria ao homem de acordo com o combinado e isso era o suficiente, os seus motivos, ainda que nada tivessem de secretos, eram só seus. Não sentia necessidade de justificar-se. Olhou em volta e para cima, para o céu onde agora o sol brilhava alto, entre nuvens que o iam cobrindo a espaços irregulares. Não via o mar, mas pressentia-o próximo, no brilho e na textura do ar. Devia passar do meio dia e eles continuavam a rolar entre campos onde, aqui e ali, se adivinhava a intenção de uma plantação, rectângulos de milho ou batata, mas que era, na sua maioria, terra inculta a perder de vista. César conseguia imaginá-la antes da guerra, verdejante no mês de Abril, prometendo fartura onde agora só haveria fome. Fome e morte. Ao fundo, do seu lado, um celeiro em ruínas e um casebre sem porta e quase sem telhado denunciavam a passagem das tropas.
Voltou-se para trás, curioso, e vislumbrou a torre semi-destruída de uma igreja, erguendo-se um pouco acima de um corpo de pedra antiga, que talvez tivesse sido bonito antes de lhe serem arrancadas duas paredes. Em seu redor, jaziam as ossadas de uma aldeia, meia dúzia de casas escuras, onde talvez já só vivessem algumas mulheres, crianças e velhos, talvez ninguém. De algumas restavam apenas escombros, uma parede, um monte de pedras, um improvável vão de porta. Quanto tempo teria a destruição, uma semana e meia como a batalha que o touxera ali, um mês, um ano? Quanto tempo seria necessário, quando por fim a guerra terminasse, como terminavam todas, para fazer renascer a terra, as aldeias… quantas delas nunca mais voltariam a ser habitadas como dantes?
         - Já cá estamos. – anunciou Jacques.