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quarta-feira, 21 de junho de 2017

Florença segunda, a manhã

Durmo bem, tomo um pequeno almoço simpático no hotel e preparo-me para o calor, vestido de alças e chapéu, antes de sairmos para começar um dia que prevejo esgotante e fantástico. 

Santa Maria del Fiori

Vamos diretos a Santa Maria del Fiori, devagar, gozando a cidade. São dez da manhã e a praça do Duomo já se enche de turistas. Junto à Catedral, forma-se uma enorme fila, que a contorna e desaparece numa curva. Anuncia-se mais de uma hora de espera. A aquisição de bilhete é um pouco confusa, feita no número 7 dessa rua. Pagamos, se não me engano, 15 euros, que nos dão direito à entrada em vários espaços.

O Battistero 

Por ter muito menos gente, visitamos primeiro o Battistero di San Giovanni, estrutura circular com uma alta cúpula, que parece, ainda assim, uma anã junto do Duomo. O espaço é despido de artefactos, com excepção de uma grande estrutura circular ao centro, como uma mesa, mesmo debaixo da clarabóia. Tem-se a noção exacta do que pretendia a construção sacra: é preciso olhar para cima e, ao fazê-lo, o espanto, no melhor sentido da palavra, é inevitável. Painéis dourados com cenas bíblicas trepam a cúpula, e é-nos possível "ler" alguns, identificando as histórias que se contam da esquerda para a direita, horizontalmente. Sob as primeiras imagens, arcos e nichos profusamente trabalhados acolhem uma multiplicidade de janelas. A luz é coada, pensada decerto para acentuar a impressão de paz e imensidão. É fácil imaginar o espaço preenchido silenciosamente por nobres em vestidos e capas, nos baptismos dos seus pequenos princípes e princesas, ou ficcionar conspirações sussurradas na penumbra...

Duomo 

Quando nos dispomos a entrar no Duomo, descobrimos que a enorme fila é para todos, porque, para o edifício principal, a entrada é gratuita. Uma americana simpática guarda-nos lugar enquanto vamos confirmá-lo com um segurança muito antipático, porque foi ela quem o sugeriu, e, quando voltamos ao nosso lugar lá muito atrás, acabamos por conversar um pouco. Acho divertido como começa por falar devagar, marcando muito bem as palavras, não vamos nós ser incapazes de entendê-la, mas acelera o discurso, assim que vê que o nosso domínio do inglês é excelente. A fila anda, afinal, muito mais depressa do que esperavamos e estamos dentro do edifício relativamente depressa. Aprendi em Barcelona que o melhor é trazer sempre um grande lenço na mala, para cobrir os ombros à entrada das Catedrais. Em S.Lorenzo esqueci-me e emprestaram-me uma espécie de pano à entrada (uma gentileza para com os turistas), mas desta vez trago um comigo e, a custo porque o calor aperta, lá cubro os ombros.  

Depois da promessa do seu exterior opulento, o Duomo desaponta um pouco. Claro que exibe a sobredimensão costumeira nas catedrais, e a sua riqueza, os tectos altíssimos, as colunas, os arcos e as ogivas, as capelinhas trabalhadas, algumas obras maravilhosas, mas, depois de me ter emocionado com maravilhas do lado de lá de portas insignificantes em Roma, parece-me pouco. Ocorre-me que talvez a diferença esteja aí, Roma foi o meu primeiro amor italiano, e por isso talvez Florença fique áquem. É cedo, claro, para afirmações destas: o Duomo poderá não ter sido pensado para estarrecer por dentro, mas apenas por fora, é provável que outros espaços me seduzam mais. Sei que o Pedro partilha do mesmo sentimento de ligeira desilusão, mas admiramo-lo, ainda assim, e descemos às catacumbas para ver os vestígios da construção em épocas anteriores, recuando ao romanos. 

Saímos por fim do lado oposto, onde se forma uma longa fila para trepar a torre lateral. Para esta é preciso bilhete, que temos, mas hesitamos e decidimos tomar um café, enquanto observamos o avançar da linha. Sentamo-nos, sem notar, no que deve ser o café mais caro de Florença, o Café d'el Opera (creio que li isso nalgum lugar) e saímos dali 8 euros mais pobres. Eu já o esperava, mas o Pedro fica chocado, nem os bolinhos secos, nem o mini-copo de água justificam 4 euros por um expresso. Entretanto, desistimos de subir, a fila não avança nada enquanto esperamos. Imaginamos o tempo que todas aquelas pessoas, à espera à torra de um sol abrasador, levarão a subir e descer. Optamos, pois, por visitar o Museu d'el Opera, onde vemos uma reprodução da fachada gótica do Duomo, anterior à actual, e as três portas assombrosas do Battistero, para além de uma profusão de arte sacra e de arte antiga. Começo a sentir que talvez o bilhete tenha sido bem comprado. Para subir à cúpula é preciso marcação, e nós só temos vez daí a dois dias, às 11.30 da manhã. Marcamos. Vão ser 463 degraus. 463 degraus. Serei capaz?

Palazzo Vecchio

Continuamos por ruas e vielas estreitas até ao Palazzo Vecchio. Parece-me que é disto que mais vou gostar nesta cidade, de simplesmente estar e, apenas por isso ou por estar calor, tenho uma vontade constante de sentar-me nas esplanadas. São muitas, embora a maioria um pouco cara e ao sol. Notamos que, apesar de não ser ainda hora de almoço sequer, muitos turistas bebem um cocktail cor de laranja. É decerto coisa a experimentar. O percurso é rápido, mesmo fazendo-o devagar, e a praça do Palazzo um espanto. O edifício de pedra avermelhada à minha esquerda é extraordinário, de fachada direita, rectangular, encimada por uma ameia e interrompida por janelas a espaços regulares. Ao cenro,  a alta torre do relógio. Duas estátuas que, desconfio, serão imitações de Michelangelo (mas não confirmei, posso estar inteiramente errada), guardam a enorme porta de entrada. Perco-me um pouco no enleio de observar o Palácio, que me fascina
muito mais do que o Duomo. Não me apetece mover-me dali, mas está muito sol e, à minha frente, do outro lado da praça, várias estátuas e a sombra das arcadas que as abrigam chamam-me. Gosto pelo menos tanto de escultura como de pintura, por vezes mais, e não posso deixar de admirar as proporções perfeitas destas. Procuro angulos para as (péssimas) fotografias que vou tirando, enquanto aproveito a sombra o melhor que posso. O calor é quase insuportável. 

O Arno - Ponte Vecchia


Seguimos uma espécie de avenida junto a um edifício cinzento e longo, em direção ao rio. Há uma fila enorme: são as Galerias Uffizi, que, segundo li, são dos museus mais visitados do mundo. Deixamo-las para o dia seguinte e vamos debruçar-nos no muro, procurando um espacinho entre os muitos e muitos turistas como nós, para admirar o Arno, o rio estreito - se comparado com o Tejo, que em Lisboa é quase mar - e muito verde. Para a esquerda, pontes de arcadas com ar antigo. à direita, a estranhíssima Ponte Vecchia. Quem se terá lembrado de construir edifícios sobre ela, ou, nas margens, de estendê-los sobre o rio, sustentados por vigas oblíquas? Tudo me dá a impressão de fragilidade, precaridade, mas suspende-se assim há séculos e é decerto de uma firmeza inabalável.  Atravessar a ponte é uma experiência curiosa. Não se tem a impressão de passar o rio, porque somos distraídos pelos muitos turistas, mas mais ainda pela profusão de ouro nas montras: todas as lojas são ourivesarias, e a maioria exibe, sem gosto nenhum, todo o ouro que a montra comporta. Há flores nas sacadas dos edifícios, por cima, o que me leva a pensar que vive ali gente. Como será viver sobre uma ponte?

Do lado de lá, ainda muita gente, centenas e centenas de turistas, de ténis, chinelas, sandálias, canções, vestidos curtos e compridos, mais e menos elegantes, mas também muitos habitantes locais. A confusão no trânsito é a mesma, as pessoas caminham e atravessam onde e quando calha, mas parece-me ver mais automóveis, menos bicicletas, nenhuma carruagem. Tenho a impressão de ter recuado ainda um pouco mais no tempo, mas pode ser ilusão ver as ruas mais estreitas e os edifícios mais antigos. Seja como for, agrada-me muito. Mais adiante, encontraremos o Palazzo Pizzi, mas antes disso, paramos numa pequena pizzeria de chão vermelho e branco e mesas de madeira, aberta para a rua, onde se come pizza às fatias. Eu insisto nos legumes, o Pedro nos fiambres, eu gosto muito, o Pedro nem tanto: a massa é pouco fina e a pizza tem demasiado tomate para o seu gosto. Descansamos um pouco. À tarde, espera-nos o enorme Pizzi.  

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