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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

A (in)justiça

Ouvi agora mesmo. Uma menina de doze ou treze anos morreu num incêncio num prédio, a tentar tirar os oito irmãos, o mais novo com meses, de dentro de casa. Os pais não estavam, era madrugada.

Podia levantar aqui muitas questões. Sobre a ausência dos pais, sobre a condição do prédio, sobre a inação dos vizinhos, mas podia ser injusta. Por isso, falo só do que me traz lágrimas aos olhos: a coragem e o desespero desta menina-mulher. Não sei que menina é esta, se era bonita, feia, alta, baixa, muito ou pouco amada, quem eram os seus amigos ou que gesto traduzia nos dias, se tinha ambições ou se cimentava os passos nalguma revolta interior. 

Não importa, ainda tinha por cumprir uma adolescência qualquer e o futuro que afinal não lhe coube, porque lhe coube ser mãe dos irmãos, socorrer quando devia ser socorrida. Na sua necessidade de agir jaz a maior injustiça. Na sua morte, que se junta à de tantos outros meninos por esse mundo fora, por tantas outras razões, nenhuma justa, a prova de que a distribuição da recompensa e castigo é aleatória. 


Nota: uma leitora corrigiu o que ouvi nas notícias, eram 5 irmãos ao todo, não 8 (obrigada!). A injustiça, no entanto, é a mesma.  

5 comentários:

Ângela disse...

Também me meteu impressão a notícia... :/ Nem sei o que pensar sobre isso...

Mas só uma coisa: não eram 8 irmãos. Eram 4. Ao todo eram 5 filhos.

Carla M. Soares disse...

Eram 5? 8 foi o que ouvi nas notícias. Enfim, não altera em nada a tristeza da situação...

Olinda P. Gil © disse...

No entanto esta menina tinha uma coragem, que muitas vezes só as raparigas têm, e que nos envergonha, porque não temos a coragem dela e não a fomos capaz de salvar.

Carla M. Soares disse...

Não sei bem como poderiamos nós "salvar" esta menina e outras. O mundo está nisso (e noutras coisas) muito torto e nós também, tortos e perdidos.

Mas esta coragem específica, a coragem muito bela e desesperada, muito imediata, de colocar a vida em risco para salvar os que amamos, espero nunca ter que experimentá-la. É realmente daquelas que é preferível não saber se temos...

Marisa Luna disse...

Verdade o que dizes... a morte assim parece mesmo tão injutsa. E fica-nos a sensação de impotência e incredulidade.
Beijinhos