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terça-feira, 29 de abril de 2014

O Grande Hotel Budapeste, Wes Anderson




Uma ida ao cinema com uma amiga que adora a Sétima Arte, no velhinho e cheio de 
memórias Atlântida Cine (em Carcavelos), provavelmente ainda um dos melhores cinemas que conheço em conforto e dimensão e, descobri, nos filmes que nos vai trazendo. Ficou a promessa de criar quase uma rotina - e eu e a amiga já temos mais um ou dois filmes na calha para as próximas semanas.

Mas vamos ao Hotel. Em visita curta.

Nem todos vão apreciar o filme. Não é profundo e sério nem é a comédia à americana que tantos apreciam. Eu deliciei-me e vou ser linear a explicar os motivos.

O enredo primeiro. É simples e não é. É uma historinha de heranças e intrigas, com um quadro à mistura e o Hotel e seu concierge como motes. Não é isso que importa, porque o que a história dentro da história dentro da história fazem é prestar homenagem à arte: 
  • ao cinema, sobretudo a preto e branco (apesar do excesso de cor, ou até por isso) as comédias de Chaplin, Harold Lloyd e outros, acompanhadas ao piano no cinema, com as suas grandes perseguições e as suas personagens e acontecimentos rocambolescos... a cena da prisão... a cena da prisão! O tiroteio nas galerias do hotel. As personagens hitlerianas. O vilão. A perseguição na neve. Tudo?
  • à pintura, não só pela própria imagem, mas por ter a pintura e o valor da pintura como um dos centros da intriga.
  • à literatura. Tudo parte de um livro e de um escritor e mais não digo, para desenvolver, sempre recuando, histórias dentro das histórias. E a poesia. A poesia. Hilariante.
  • à música, pela omnipresença e relevância.
(Suscitou-nos, a mim e à amiga, uma conversa sobre a circunstância bem debatida de ser o cinema uma arte global - que incorpora ou pode incorporar todas as restantes para fazer delas uma objecto único. Mas só isso daria vários posts, pelo menos no meu mundo.)  

Com tudo isto, o filme é um hino ao prazer visual e sonoro, com uma imagem impecável e uma banda sonora à altura. Nada foi descurado nestes aspectos e nada existe sem um propósito. Os cenários são grandiosos e esmagadores nas suas alturas e dimensões, luxuosos, decadentes, labirinticos, absurdos, artificiais. Escadarias, galerias, corredores, elevadores e túneis, salões desproporcionados de um luxo decadente, cubículos sufocantes e a presença constante da natureza em fundo: a montanha, branca, fria, agreste, enorme, bela. O enquadramento em janelas e portas. O excesso de movimento, às vezes demasiado rápido, em contraste com a imagem parada. É frequente a imagem parecer pintura e os adereços têm uma aparência propositadamente artificial - dedos cortados, por exemplo. O guarda roupa é digno de Óscar e ao mesmo tempo quase de cartoon. A cor é excessiva, tanto na presença como na ausência, a luz e sombra muito bem pensadas. A forma também, até nos objectos pequenos. A banda sonora, que é fantástica, acompanha ao pormenor os acontecimentos, como se servisse para pautá-los, pontuá-los ou empurrá-los. À antiga.

Uma nota aos actores: os nomes são muitos e relevantes, e estão impecáveis. Fiennes entrega sem mácula e o estreante é delicioso.

A impressão final é curiosa. 

É uma comédia, sim, e como. Mesmo ao meu jeito, tudo ridículo mas sem exageros de expressão ou enredos idiotas à americana (Jim Careys e Will Ferrels e outros que, em comédia, me deixam com os cabelos em pé e capaz de cometer homícidio). Este é um enredo idiota quase europeu. Claro que alguém como eu a vê com um sorriso nos lábios, não só pelo absurdo, o nonsense de quase tudo, as cenas rocambolescas, os diálogos improváveis ou propositamente forçados, pela ternura que inspiram algumas personagens, mas também por reconhecer os códigos que se inscrevem no filme e remetem para os outros registos artísticos e para outras épocas do cinema. No fim, porém, a imagem que me fica é a da solidão. Como é pequeno e ridículo e insignificante e comovente e cómico o homem perante si próprio, a natureza, o tempo, a sua própria criação. Como estamos, no fim, todos sozinhos e somos tontos e doces e sem remédio. As imagens da solidão, voluntárias ou não, são muitas. Mesmo da solidão acompanhada. É assim que começa e é assim que acaba. Pelo meio, é o delírio do absurdo e do cliché tão propositado que nem é cliché




2 comentários:

Marco Magalhaes disse...

Um Filme Diferente que adorei ver... ou não fosse ele "criado" pelo GRANDE Wes Anderson.

Mariana Fonseca disse...

Análise profunda e em todos os ângulos. De alguém que vê para lá do visível. É esse o olhar do crítico de cinema. Penso que darias uma excelente crítica cinematográfica, Carla. Uma dissecação muito bem feita desta película num cinema que não podemos deixar morrer - Atlântida -Cine de Carcavelos. Obrigada Carla pela companhia e mais ainda por tudo o que aqui deixaste registado.