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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

um café

Acabo de chegar e nem sei se estou. Porque o lugar é assim mesmo, um bocado coisa nenhuma. Cadeiras e mesas de plástico que já foi branco e um balcão de metal sem alma, com menos alma ainda que as paredes de azulejo estalado, cor de rato. Não sei porque esperava outra coisa. Ou sei. Devia ter alma porque o bairro é ancião, cada casa um postal de dias antigos, a cair aos pedaços, mas há sadinheiras e cravos nas sacadas, ou achei eu, para quem as plantas são um mistério, que podiam ser cravos e sardinheiras. Porque há roupa pendurada nos estendais, roupa de gente que vive a casa, lençóis e calças de ganga e as cuecas da avó, deitadas sobre ruas tão estreitas que a vizinha da frente podia apanhá-la. Talvez se troquem bons dias e insultos e olhares rivais pelas janelas. Devia ter alma porque trepei escadarias esconsas e atravessei pátios com torneiras de água salobra em paredes de pedra, incendiadas pelo sol, quese passeou entre mim e os prédios em jogos de luz e sombra, enquanto caminhava. 

foto em http://jumento.blogspot.pt/2009/08/
umas-no-cravo-e-outras-na-ferradura_30.html
Tive sede e desejo de um café, a porta escura chamou-me a atenção. Esperava pipas e cheiro a vinho, azulejos pintados de azul e se calhar uma guitarra portuguesa e um xaile preto pregados numa parede. Mas não. Entra pouca luz pela vidraça suja. Há um chão indiferente e sujo, um balcão de metal baço e riscado com uma torneira de imperiais, três rissóis ressequidos por trás do vidro, garrafas de coisas indistintas, refrigerantes e sumos e coisas. Ao fundo uma casa de banho onde, apesar de precisar, não vou entrar. Tenho medo. Rio-me de mim enquanto me sento à mesa junto à porta, onde o sol quase chega, e peço um café. O tipo franzino de idade indefinida e grande nariz traz-mo sem uma palavra, as mangas da camisa enroladas até aos cotovelos a mostrar-me mais cabelo nos braços do que na cabeça. Desta vez não desaponta, o café vem aguado e amargo. Bebo-o depressa, escondendo uma careta porque o velho, decidi que era elho, me observa, não há mais ninguém. Também me mete medo. 

Levo uma garrafa de água comigo quando saio de novo para o dia quente. Daqui a pouco vou vencer a tentação de verificar o prazo de validade, será que a água também tem prazo de validade? Vou resistir a procurá-lo na etiqueta que já viu melhores dias, quando me der a sede. Desço mais duas escadinhas, atravesso uma rua estreita. Daqui a nada acaba-se-me a vontade de correr sozinha as ruas e dá-me a saudade. Ou, se me calha desesperar por outro café, um café a sério, desisto de me fazer turista no bairrinho da minha cidade e vou ter com o João à Avenida.  

1 comentário:

Olinda P. Gil © disse...

Fizeste-me lembrar um café onde cheguei a ir, na av. Almirante Reis (Anjos), quando dei aulas a adultos por ali. Cheirava mal o café, costumava sair dali enjoada.