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sábado, 23 de novembro de 2013

A Jangada de Pedra - José Saramago

Foi demorada, a leitura deste livro de Saramago há muito tempo guardada, em época de muito trabalho e maior cansaço. Demorei, não só porque a escrita exige atenção, para destrinçar frases e intenções, e detectar as pequenas subtilezas e ironias, mas porque a história em si o solicita. Resultou num ritmo estranho, nada compulsivo entre leituras, prazeiroso em cada uma, mas a obrigar-me a parar para digerir e descansar.

Encontra-se uma certa ironia nesta separação da peninsula face à Europa, neste momento particular da nossa História, em que parecemos procurar desesperadamente uma forma de nos mantermos nela, quando nos distanciamos cada vez mais economica e socialmente. Ter lido este livro agora fez-me sorrir, embora com certa amargura, porque me parece reconhecer o esbracejar aflito dos governos e populações. Triste é que este livro seja de 1986 (ano em que entramos na União Europeia) e, quase vinte anos depois, a ironia se aplique com tanta exactidão. 

Trata-se aqui de um duplo deambular, o da Península Ibérica pelo oceano fora, e o de um grupo de improváveis companheiros pela Península. Poder-se-ia dizer que entre um e o outro há uma multiplicidade de movimentos, o de outros viajantes e curiosos, os vários exodos  que conduzem as populações de um lado para o outro, os das idas e regressos, o dos dias e noites, o de cada um dentro de si. Todos eles são originados e conduzidos por algo de incompreensível, pequenos gestos que, na linha do realismo mágico que me lembra o pouco que conheço da literatura sul americana, parecem ter relação com o rompimento da Europa. É uma base fantástica, que quase se esquece, na plausibilidade corpórea das personagens e das suas reações. A escrita característica de Saramago, mais rica em virgulas do que em pontos finais, sem marcação de diálogo, não nos impede de criar empatia com elas, mesmo nas suas decisões mais curiosas. Há várias buscas internas em simultâneo, várias solidões que se vão encontrando, complementando, anulando, histórias de amizades e amor, gestos que se compreendem apenas na raridade da situação. 

Não é um livro que se leia com uniformidade do início ao fim. Alguns momentos houve, pelo meio, em que me obriguei a não passar nenhuma descrição detalhada do quotidiano dos cinco companheiros e uma espécie de cão mágico, nenhum pormenorizar das acções de governos e populações, nenhuma narração de momento histórico ou de alteração geográfica, por receio de perder uma frase genial, e não me refiro às pequenas filosofias sobre vida e morte e o que pelo meio fica, mas ao sarcasmo elegante, por vezes até surpreendentemente afável, do autor. 

No seu conjunto, é um livro excelente, muito ajustado ao nosso momento enquanto nação, que li com prazer e divertimento, aqui e ali com alguma comoção.Ter-me-ia dado muito mais prazer se o tivesse lido sem cansaço. 

2 comentários:

helena frontini disse...

Eu, que adoro o "Memorial do Convento", não consegui ler este! Foi a minha primeira experiência com Saramago e correu mal...

Carla M. Soares disse...

Tendo gostado, admito na minha opinião que não é um livro fácil nem de que tenha gostado a todos os instantes. Huve momentos em que r sozinha de alguma observação, outros em que tive mesmo que obrigar-me a não saltar para o fim de uma página... No seu conjunto, porém, a metáfora é mesmo muito interessante(sobretudo agora) e gostei bastante. MAS também gostei mais do Memorial. ;)