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domingo, 7 de julho de 2013

Regressar ao início


Quando comecei a escrever, fazia-o por prazer apenas. Para mim, para as personagens, pelo divertimento que as histórias me proporcionavam. Perguntava-me se seriam boas ou não, claro, mas essa pergunta não me torturava. Depois comecei a dar o meu trabalho a ler a amigos, e fiquei levemente ansiosa, mas feliz por poder estender esse prazer a outras pessoas. 

Depois dei um passo em frente e publiquei um livro. Com uma boa editora, o que, como estão as coisas, não é nada mau. E nunca mais tive descanso. Nunca mais consegui abandonar uma certa ansiedade acerca do livro: se agrada, se não, se ainda há quem o leia, se morreu, se afinal de contas sei escrever ou atirei cá para fora, para os olhos do mundo, um bichinho disforme que devia ter ficado escondido. E uma certa ansiedade acerca de livros futuros: se voltarei a publicar ou não, em que condições, e se esse livro, a existir, virá comprovar que sei, ou que não sei, escrever. E ainda uma outra: que fazer com os originais que a minha editora não quiser. 

No meio disto tudo, vou escrevendo e vou revendo. Continuo a tirar disso prazer, mas já não é puro, não adulterado como no início. E sinto-me um pouco cansada - provavelmente cansaço de marinheiro de primeira viagem, quando a costa almejada teima em aparecer. Este livro já não se lê. O próximo é horizonte longínquo, e a mim apetecia-me regressar ao início. Era bom esquecer que há editoras e leitores desconhecidos que hão de avaliar o que escrevo, ou pior, que talvez nunca venham a ler o que escrevo. Apetece-me escrever apenas, pensando no meu prazer e no dos meus amigos, em vez de querer soltar por aí outra história que a poucos interessa - tanto livro que há por esse mundo!

Duvido que seja possível, há portas que se fecham nas nossas costas, como há as que se fecham na nossa cara, e esta é bem capaz de ser uma delas. Senti o sabor desta ansiedade. Não sei como tirá-lo da boca.

6 comentários:

Cláudia disse...

Estás muito cansada Carla, e a precisar de férias. Beijinhos :)

Morrighan disse...

Carla, não desanimes. Compreendo perfeitamente o sentimento que descreves, mas também acredito que não vais ficar por aqui.

Apesar de todas as dificuldades que tens sentido, acredita que já conquistaste imensos leitores de coração.

Estaremos sempre aqui para te apoiar.

Beijinho enorme

Cristina Torrão disse...

Li, uma vez, algo como isto:
"Escreve e ainda não conseguiu editar? Alegre-se! Os problemas a sério começarão depois de assinar o primeiro contrato de edição".

Carla Ribeiro disse...

Cheguei aqui agora, li o teu texto e encontrei-me nele. Tanto... Há 5 meses que não escrevo uma única linha e a razão tem muito a ver com o que falas aqui. Já não são só as histórias e as personagens: há os "não", os "e se", os silêncios e as longas esperas. Às vezes parecia que o coração se partia um bocadinho em cada dia... e os mundos e as pessoas daqueles lugares só meus ficavam sempre um bocadinho mais longe.

Patrícia disse...

Carla, não vou dizer-te que compreendo esse sentimento porque não sou escritora, não tenho sequer o desejo de o ser (nem o talento) mas sou leitora. E lerei um livro teu quando quiseres. Gostei do "Alma" e adorei o "A grande mão" e com prazer lerei qualquer outro que escrevas.
E mais, o Alma Rebelde ainda se lê. O meu exemplar está neste momento na mão de duas leitoras que, sei bem, vão gostar de o ler. Depois te darei feedback, que nenhuma tem blog nem anda nestas andanças da net.

E os livros nunca morrem. Há uns anos eu e a minha mãe encontrámos na estante dela um livro que ainda nenhuma de nós tinha lido. Não sei bem porquê mas ficou esquecido, talvez pela capa cor de tijolo sem uma letra (acho que a capa em si tinha desaparecido há muito). Ela leu-o, depois passou-mo e um livro que estava há 20 anos (ou mais) fechado ganhou uma nova vida e tem passado de mão em mão.
Portugal é pequeno e poderás não vender imenso, mas ser lida? és certamente.
beijinhos

Olinda P. Gil © disse...

Ainda há pouco emprestei o teu "Alma". Com muita dor, tenho medo que não mo devolvam. Entretanto tenho prometido o empréstimo a uma outra pessoa. Portanto, continua a circular.