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terça-feira, 6 de novembro de 2012

e se eu tivesse trepado uma montanha mais à esquerda

Aos 40, já não te sobram muitas perguntas. Já respondeste à maioria das que te infernizavam a juventude, quem sou, de onde venho, para onde vou. Deixemos de parte a dimensão cósmica, vamos assumir que me refiro a coisas comezinhas como personalidade, ambição, sonhos de vida, essas coisinhas.
 
Aos 40, já sabes mais ou menos até onde consegues esticar a massa de que és feito, onde ela é mais fina, onde é sólida, o que pode destruir-te, como evitá-lo. Que pancadas podes suportar e como dar-te a elas para te doerem menos, de que afagos precisas para continuar. Também sabes que caminho deixaste para trás, e, excluindo alguma surpresa das boas ou das más, que caminho seguirás.
 
O problema é que essas mesmas perguntas que te angustiavam, porque o caminho para a frente parecia montanha atrás de montanha, difíceis de trepar e a esconder sabia-se lá o quê, eram as mesmas que te deixavam um percurso intrigante, montanha atrás de montanha, com coisas a aprender na subida e a perpectiva de surpresas empolgantes na próxima encosta, mesmo que a actual fosse nua e ventosa. Tinhas medo, mas também uma grande expectativa.
 
Saber quem és deixa para trás muitas montanhas e atira-te para o meio de um lago. A direção é sempre desconhecida, mas o lago é plano e consegues ver para todos os lados - até onde a tua vista conseguir alcançar. Ai de mim que sou pitosga.  Tem os seus aspectos positivos, não voltava ao topo da montanha, já trepei e escorreguei e já me esfolei e andei com alma entre talas. Agora é tempo de navegar o meu lago.
 
O problema é que remar dá-te tempo para pensar, quando não há corrente contrária. Porque às vezes há. E às vezes há tempestade, nessas ocasiões não podes fazer mais do que segurar-te com força e fazer o teu melhor para navegar as ondas, até ao fim da borrasca. Mas, sem vento nem ondas, tens tempo para pensar. E por vezes dás por ti a perguntar-te "E se eu tivesse trepado uma montanha mais à esquerda, em vez daquela, à direita? Em que lago navegaria, que barcos traria amarrados?" Voltas-te para a frente no teu barquinho, amarrado aos outros barquinhos que foste acrescentando à tua vida. Voltas-te para a frente, às vezes, tentando ver o que há, e outras para trás, à procura da tal montanha que entretanto se perdeu na distância, e pensas nos caminhos que tomaste,  e pensas mais um pouco ao lugar onde chegaste. 
 
Na verdade, não chegas a conclusão nenhuma, porque não há nenhuma a tirar, a não ser que é tarde para pensar nisso. Que sim, podias navegar águas com margens mais interessantes, com mais correntes favoráveis. Mas que também podias estar num lago mais parado, ou ao contrário mais tempestuoso, ou em lago nenhum, ou noutro muito mais solitário. Da solidão ninguém gosta, bem nos basta quando, ao trepar a montanha, só as pedras nos fazem companhia. 
 
 
 
 

3 comentários:

Olinda P. Gil © disse...

Ai que eu tenho 30 e não me parece que daí a 10 anos tenha essas questões respondidas...

Carla M. Soares disse...

Provavelmente tens, Olinda, de uma foma ou de outra.
O problema são as outras questões: e se eu tivesse feio de outra forma? O que é que podia ou devia ter feito de outra forma? Valeria a pena, ou estou bem onde estou?

Olinda P. Gil © disse...

Ah... acho que é uma inevitável perturbação!