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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Pois ali estão eles todos, vinte e muitos

Como nos últimos dias só faço é trabalhar - falo da minha profissão, a que me sustenta e, neste momento, me sufoca - é de trabalho que falo.
 
Pois ali estão eles todos, vinte e muitos, sentados às secretárias, depois de terem entrado com muita confusão e de terem tentado sentar-se onde mais lhes convinha, na esperança de deitar um olhinho ao que o colega do lado há de fazer. Sim, porque hoje é dia de teste, e muitos não estudaram, depois de terem prestado só a atenção à matéria que eu consegui obrigá-los a prestar.
 
Têm azar, sou rata velha. Fiz versão A e B, e uma versão C adaptada para os jovens com dificuldades. Nesta turma em particular,  o versão C tem é dificuldades em estar nas aulas como se está num local de trabalho - o que ele quer é festa.
 
Pois tiro dúvidas, poucas porque a turma não se presta e não perco tempo a mandar sossegar em dia de teste. Faço os meus avisos, não quero conversa, quem acabar faz silêncio, blá, blá, blá. Distribuo a 'coisa', virada para baixo, A,B,A,B... Vejo com eles o que devem fazer, acabo de acalmá-los, e lá começam.
 
Esta turma não é como as outras - felizmente as outras são 'melhores', mais concentradas, mais conscientes, se calhar, do lugar onde estão. Por isso, aos três minutos, um faz uma pergunta, três querem comentar com idiotices. Mando calar. 'Desculpe, stora', calam-se. Pouco depois um chama, faz uma pergunta, a coisa dá-se. Aviso que deixo de tirar dúvidas, nem a mais pequena, a quem quer que seja. Mais um minuto ou dois, um diz uma coisa para o ar, um nada, e pronto. Mando calar. Ameaço. 'Desculpe, stora', calam-se. A coisa repete-se, e depois, por artes de não sei quê, lá se concentram e aguentam uma meia hora. Depois um espirra, o riso é fogo de palha. XIUUUUU. 'E um espirro é motivo para esse circo todo?' 'Desculpe, stora'.
 
Ao fundo da sala há um que olha para o teste e bufa para o ar, diga-se de passagem que nos outros dias pouco ouviu e muito aborreceu. Uma folha do teste vai ao chão, e não foi sem querer. Finjo que não vejo. Bufa mais uma bocado, estica-se, está furioso porque tirei da frente dele a colega boa aluna que podia 'ajudá-lo'. A folha cai de novo, e à terceira já não posso fingir que não vejo. 'Se essa folha vai ao chão outra vez, vais passear. Não me interessa se acabaste o teste ou não.'

Um pergunta como se diz não sei o quê. Antes que pudesse responder-lhe, os colegas avançam tolices. 'Se querem ser vocês a responder, então digam-lhe lá as asneiras, que eu depois marco errado'. Encolhem-se, um ri-se, calam-se.
 
Cá à frente há um que deixa cair a caneta. Mesmo no meio do corredor entre carteiras. Apercebe-se de que sei que foi de propósito. 'Desculpe, stora', vai repetir outras vezes, parece um disco riscado.  Lá para o fim da aula, já farta, lembro-lhe de que não nasci ontem e não quero ouvi-lo mais. Este mesmo, que é o versão C, esteve sempre à espera de apanhar-me distraída, para ver se o do lado lhe soprava umas respostas. E soprou. Ficou de mau humor, que é o que vai tirar-me o sono, quando lhe disse que vou ter dúvidas acerca da nota dele. E que da próxima vez se senta sozinho. Claro.
 
O tempo arrasta-se, enquanto eu manuseio o chicote vocal, vontade contra (falta de) vontade, para manter o silêncio de que todos precisam para trabalhar. E consigo, interrompido pontualmente, com mais dificuldade conforme eles vão terminando. Mas os que acabaram pelo menos sussurram em vez de falarem em tom normal, como sei que acontece noutras circunstâncias. Consigo, à custa de uma corda esticada permanentemente. Irritada. Aborrecida. Sentindo-me desrespeitada na minha função. Pressentindo os maus resultados.
 
E no fim saio, sabendo que apesar de tudo garanti o sossego aos que querem trabalhar, porque estas coisas ocorreram quase todas de forma discreta e me incomodaram mais a mim do que aos alunos. Saio cilindrada, com vontade de mandar à merda os que (ainda) pensam que um professor trabalha pouco, que não tem razão para andar cansados. E venho para casa escrever este desabafo, lembrar-me que as outras OITO das nove (um eco repete até ao infinito 'nove, nove, nove... ) turmas que tenho são bem melhores. Quase todas.

E venho corrigir testes. Ao todo vão ser uns 220. Já corrigi quatro turmas. So faltam cinco...
 

3 comentários:

Ray* disse...

Carla... adorei o texto (e escrevi um grandinho tb!!)

Nunca fui desordeira e não aprovava as atitudes dos meus colegas. É uma falta de respeito para com a professora, que está ali para ensinar, para com os colegas, que estão ali para aprender, para com os pais, que estão a pagar os materiais, a alimentação e tudo o que andar na escola acarreta e, por último mas não menos importante, para com eles próprios, que um dia se vão aperceber da m*rda que fizeram. Da auto-sabotagem a que se submeteram... E vão querer voltar atrás, mas não vão conseguir!

Agora não são capazes de enxergar o mal que fazem aos outros e a si próprios. Porque é fixe dizer piadolas, porque é fixe ir contra as regras da boa educação... porque é uma seca estudar e ouvir coisas que não lhes interessam e não vão ajudar em nada no futuro... Claro, não lhes interessam porque não têm perspectivas de futuro.

Sinto-me triste quando vejo isso/isto. Enquanto futura psicóloga - e, ainda para mais, educacional - sinto-me triste. O que poderei fazer para mudar o paradigma? Para fazer com eles se apercebam por eles próprios que não é o acto de estudar que importa, mas o acto de aprender, o acto de gostar do que aprende...?

Sou de opinião que tudo depende da nossa percepção das coisas...

Mas dizes-me, Carla, o que poderei fazer? (pergunta retórica, obviamente)
Não creio que a culpa seja dos professores, mas o sistema tem de mudar. Resulta para a maioria, mas tem de resultar para todos. É uma utopia? Prefiro pensar que pode ser executável! O sistema tem de aprender com quem não está a resultar e mudar, pois são esses alunos que ajudam a melhorar.

Deve ser um trabalho conjunto - pais, professores, colegas de turma...

Quanto aos professores, só tenho a admirá-los... Um dia, deixo num post uma carta que escrevi há uns anos para todos os meus professores. A dizer o quê? A agradecer-lhes. Os professores são injuriados por pais e os alunos vão na onda. "Porque o que o meu pai diz é verdade e o meu pai não mente". Porque basta alguém acentuar o que eles pensam que enchem o ego e pensam que têm razão... Pois...

Desculpa-me o desabafo...

Patrícia disse...

Olá Carla,
220 testes é obra.
Eu não sou professora, nunca o quis ser talvez porque venho de uma família de professoras e sei bem o que custa.
Por isso deixo apenas uma palavra de compreensão. Ainda há quem reconheça o trabalho dos professores e ainda há quem vos admire. Acredito que melhores tempos virão para essa profissão.
Boa sorte :)
bjs
Patrícia

Filipa M. disse...

Força, Carla.