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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A Trança de Inês - Rosa Lobato de Faria

Este é o terceiro livro que leio de Rosa Lobato de Faria. De início, por culpa exclusivamente minha, tive que pousá-lo. Andava cansada e distraída e o progresso aos soluços não fazia justiça à sua escrita.  Nunca consigo 'entrar' num livro se não conseguir estar nele bastante tempo seguido.

Depois de outra leitura mais condicente com a minha estrutura mental do momento, eis que ontem o livro voltou a chamar-me - é isso mesmo que devo dizer, por este livro é um encantamento - peguei nele, e li as 100 páginas que me faltavam de uma assentada. Só me faltou fazê-lo enquanto jantava, porque não parei mais.

 Rosa Lobato de Faria não se poupa aos temas difíceis, sejam eles amorosos, familiares ou humanos, sejam eles o incesto, como em A Flor do Sal ou, como aqui, a infidelidade, loucura, a necrofilia, o abandono, a tirania. Fá-lo, apenas, com tanto deleite nas palavras, com tamanha paixão nas frases, que a repulsa se torna fascínio. Tão pouco poupa as suas personagens.
 
Faz-se, neste livro, uma viagem à loucura que é, ao mesmo tempo, uma viagem a um mito, um dos mais fascinantes da nossa história, e uma viagem ao futuro, a uma distopia imaginada que, confesso, foi a úncia parte de que gostei menos. Três Pedros, três Inês, três histórias de paixão condenada em três épocas, estranhamente confusos, interligados, e ao mesmo tempo uma incursão quase mágica por sonhos e pesadelos, arte, vida e morte.
 
Não é a história, porém, que me encanta - uma já conhecia, a do mito, e as outras duas pouco me dizem. É a forma como a autora entretece as palavras, e com elas exalta as paixões e mascára os horrores. É muitas vezes um poema, a forma como Rosa escreve. Escrevia. Que pena, já não escreverá mais.
 
Não sei ser imparcial, nem pretendo sê-lo. Ficam palavras do livro.
 
E eu, Pedro, rei, filho de rei, pai e avô de reis, aqui te espero jacente na minha enxerga de louco, até ao dia em que, na hora da ração, lance a minha demência sobre os carrascos do nosso amor, e os sufoque e os morda e os mate e lhes arranque com os dentes o coração do peito e me abatam como a aum cão doente de raiva, de esgana, de tinha, de vermes, à porta imprudentemente aberta da minha cela almofadadae alimentem com os meus restos processados a árvore mais enfezada do planeta-floresta e espalhem o meu sangue nas lajes perenes e silenciosas da abadia e me sepultem no mausoléu da minha impaciência donde voltarei e voltarei e voltarei pelos séculos dos séculos para seguir de rastos a tua trança entretecida de luz.  

pág. 216

3 comentários:

Patrícia disse...

Gostei imenso desse livro. Não é o meu favorito da escritora (prefiro os Pássaros de seda) mas gostei. E gostei da forma como a história foi 3 vezes contada sem chatear.
Boas leituras

Arttemizza Lia disse...

Nunca li nada da escritora mas confesso que também não tenho assim muita curiosidade!

Carla M. Soares disse...

Mas é muito bonito, Arttemizza. Vale a pena experimentar. ;)