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terça-feira, 17 de abril de 2012

Porque me apetece #2


juan gris, man at cafe, 1914
Estou sentado com uma bica e um cigarro apagado. Aqui pode-se fumar, coisa rara, mas não tenho coragem de lhe chegar a chama e acendê-lo. 

Agarro o jornal gratuíto da mesa ao lado, começo a desfolhá-lo do fim para o princípio, passo os olhos pelas notícias. Uma chama-me a atenção, um cantor de que eu gosto contraiu um virus  e arrisca-se a perder a voz. Que pena, é boa, a música. Fico a matutar no que faria se me visse assim impedido de fazer o meu trabalho. Peso alternativas e, quando dou por mim, estou a sorrir - pudera, já me instalei numa cabana num paraíso tropical qualquer, e, qual Tom Cruise, faço a vida a preparar cocktails  a agradar às mulheres! Visto fato de banho e chinelos e, miraculosamente, não tenho barriga. A minha vida é perfeita. Ou quase.Aperta-se-me o coração de impaciência.

E é então que ela chega, a razão porque eu não partiria daqui para lado nenhum. 

O meu mundo ilumina-se, é sempre assim, e flutua-me o coração de pura alegria. Mal posso acreditar que é minha, assim alta e esguia, inteligente e teimosa, com um brilho nos olhos tão familiar que quase traz água aos meus. 

Sorri-me à distância. Retribuo o sorriso, e fico a vê-la avançar, os cabelos lisos sobre os ombros, sorridente, segura do meu amor. 

É única aos meus olhos, e sabe disso. Disso e de muitas coisas. Sabe que o meu amor é incondicional, que lhe pertence desde o primeiro instante em que a vi, talvez antes, mesmo que  não seja capaz de enuciar o quanto lhe quero bem. Estranha timidez que se enraíza e nos rouba a voz. Mas não importa, ela sabe.  Sabe que está acima de todas as outras pessoas da minha vida um pouco à toa, que lhe dá sentido. Que fica um pouco de mim com ela, sempre que não está comigo. Está tão pouco comigo. A vida é assim, dizem-me. Sabe que iria ao fim do mundo para regatá-la ou, simplesmente, se me pedisse. Sei que faria o mesmo por mim, mesmo que, cerrada no seu orgulho, não mo diga jamais. Está feliz, e isso basta-me. 

Ela aproxima-se, larga o saco no chão, e deixa-se cair na cadeira com brusquidão , um remoinho de energia que me deixa sempre exausto. Beija-me, e o meu dia ilumina-se por fim. 
- Olá, pai! Já almoçaste?


2 comentários:

Olinda P. Gil © disse...

A diferença de amor, de atitude :D

Cristina Torrão disse...

Lindíssimo!

"Amor incondicional" - nem toda a gente é capaz dele, mesmo com os filhos...